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terça-feira, 12 de agosto de 2025

Psicologia ou militância? O impacto do “psicologue clínique” e a erosão da neutralidade profissional


 Psicologia ou militância? O impacto do “psicologue clínique” e a erosão da neutralidade profissional

por Abilio Machado

A psicologia brasileira atravessa um momento de inflexão. Ao lado de avanços no reconhecimento de minorias e no combate a preconceitos, cresce uma tendência que preocupa: a incorporação explícita de pautas ideológicas na própria identidade profissional, como no caso dos chamados “psicologues clíniques”. A mudança não é meramente estética ou linguística; ela sinaliza uma redefinição de prioridades que pode colocar em risco o compromisso da profissão com a objetividade, o pluralismo e a base científica que a sustenta.

Pesquisas internacionais mostram que essa tensão não é exclusiva do Brasil. Em 2021, um levantamento da American Psychological Association (APA) identificou um aumento significativo na pressão para que psicólogos adotem terminologias e posturas políticas específicas, sob pena de serem vistos como antiéticos ou preconceituosos (APA Task Force on Addressing Systemic Racism, 2021). Embora o combate ao preconceito seja um pilar ético, o relatório alerta para o risco de “reduzir a prática psicológica a um instrumento de educação política, enfraquecendo seu papel como ciência baseada em evidências”.

O caso do 12º Congresso Nacional de Psicologia exemplifica esse deslocamento. O evento, tradicionalmente dedicado à atualização técnica e ao debate científico, incluiu a apresentação de um rap com forte carga ideológica, transformando um espaço profissional em palco de militância. Episódios assim reforçam a percepção de que há uma tentativa de uniformizar o pensamento dentro da categoria — algo que contraria a própria Resolução CFP nº 010/2005, a qual estabelece que a atuação do psicólogo deve respeitar a diversidade e a liberdade de expressão, sem impor convicções pessoais.



No campo internacional, exemplos semelhantes já geraram consequências concretas. No Reino Unido, o relatório Cass Review (2022), sobre serviços de saúde para jovens trans, apontou que pressões ideológicas estavam influenciando diagnósticos e condutas terapêuticas, em detrimento de avaliações clínicas cuidadosas. A principal autora, Dra. Hilary Cass, advertiu que “a polarização ideológica compromete a segurança e a qualidade do atendimento, além de afastar profissionais que discordam da narrativa dominante”.

O impacto dessa tendência vai além dos muros da profissão. Quando a psicologia é percebida como militância disfarçada de ciência, sua credibilidade pública sofre erosão. Dados do Pew Research Center (2022) mostram que, nos Estados Unidos, a confiança na psicologia como ciência caiu de 59% para 48% em uma década, com parte significativa dos entrevistados apontando “politização” como causa dessa desconfiança.

No entanto, a adoção do termo ainda encontra resistências — tanto dentro quanto fora da categoria profissional. Críticas vão desde a dificuldade de adaptação à linguagem neutra até o questionamento sobre a real efetividade dessa mudança no enfrentamento de preconceitos estruturais. Parte da comunidade argumenta que a transformação social vai muito além da nomenclatura, exigindo políticas públicas, formação acadêmica e práticas clínicas comprometidas com equidade, mas o que seria esta equidade senão a abertura de diálogo e aceitação das diferenças, mas quando o próprio discurso feito vem impregnado de ofensas e ameaças na destruição dos principais fundamentos sociais, religiosos, familiares em que afetam diretamente a dinâmica das relações, qual seria o melhor caminho?

É claro que inclusão e acolhimento são valores essenciais. Mas quando a identidade pessoal do profissional — seja de gênero, política ou cultural, não esquecendo a religiosa — passa a determinar linguagem, diagnóstico e conduta clínica, corremos o risco de substituir a escuta plural por um catecismo ideológico. O verdadeiro desafio é manter um equilíbrio em que a diversidade seja respeitada, mas sem que a ciência se torne refém de modas e pressões políticas.


A psicologia, enquanto ciência e profissão regulamentada, não pode se dar ao luxo de ser conduzida pelo pêndulo das modas ideológicas. A empatia e o acolhimento são pilares inegociáveis, mas não devem se confundir com a abdicação da objetividade e da autonomia crítica. Quando a identidade pessoal do psicólogo(a/e) passa a ditar a forma como ele conduz a teoria, a técnica e até a linguagem, abre-se um precedente perigoso: o de transformar a clínica num espaço de militância e catequese ideológica, em vez de um ambiente de investigação e cuidado fundamentado.

O desafio não está em proibir palavras ou identidades, mas em resgatar o eixo da psicologia como campo científico que dialoga com a sociedade sem se tornar refém de agendas particulares. A profissão só se fortalece quando consegue integrar diversidade sem abrir mão da liberdade de pensamento — algo que, no cenário atual, parece cada vez mais ameaçado.

Se a psicologia abdicar desse equilíbrio, não será apenas um termo como psicologue que estará em jogo. Será a própria capacidade da profissão de exercer sua função primordial: compreender e cuidar da mente humana com objetividade, ética e liberdade de pensamento.

Referências:

  • American Psychological Association. Task Force on Addressing Systemic Racism. APA, 2021.

  • Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 010/2005. Brasília, 2005.

  • Cass, H. Independent Review of Gender Identity Services for Children and Young People (Cass Review). NHS England, 2022.

  • Pew Research Center. Public Trust in Scientists Has Dropped Since the Pandemic. Washington, 2022.

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