EDUCAR NÃO É AGRADAR
“Educar não é entreter.” era a crônica de uma colega a pouco...
Concordo.
Mas talvez essa frase precise de uma segunda parte:
educar também não é desagradar só para provar que estamos educando.
Porque existe uma confusão perigosa acontecendo.
Temos medo de que, ao tornar a aula interessante, acolhedora e prazerosa, estejamos transformando educação em entretenimento.
Não necessariamente.
O problema não é o aluno gostar de aprender.
O problema começa quando a obrigação de fazê-lo gostar passa a decidir o que ele vai aprender.
E aqui tocamos numa ferida que nem sempre é confortável.
Na escola particular, existe uma equação que não podemos fingir que não existe: o aluno estuda, mas quem paga é a família.
E quando a satisfação do cliente entra pela porta da escola, existe o risco de a autonomia pedagógica sair pela janela.
Porque se o aluno não gostou do professor, reclama-se.
Se achou a matéria difícil, reclama-se.
Se recebeu uma nota baixa, reclama-se.
Se ouviu um “não”, reclama-se.
E, dependendo da situação, quem acaba precisando se explicar não é quem precisa aprender, mas quem deveria estar ensinando.
Quando o aluno vira cliente, o professor pode deixar de ser educador para se tornar fornecedor de satisfação.
E isso é muito mais sério do que parece.
Porque educar é justamente oferecer aquilo que nem sempre queremos receber.
É ensinar limites.
É contrariar certezas.
É exigir esforço.
É permitir que alguém experimente a frustração de não saber — para depois descobrir o prazer de conseguir.
Uma criança que nunca pode ser contrariada não está sendo necessariamente acolhida.
Pode estar apenas sendo acostumada a acreditar que o mundo deve se adaptar a ela.
E a escola não deveria reproduzir essa ilusão.
Mas também não precisamos voltar à educação baseada no medo, na humilhação e naquele professor que acreditava que quanto mais sofrido fosse aprender, melhor seria o aprendizado.
É possível exigir sem humilhar.
É possível acolher sem mimar.
É possível ensinar com autoridade sem autoritarismo.
E é perfeitamente possível aprender com prazer sem transformar a escola em parque de diversões.
Talvez o verdadeiro desafio da educação não seja fazer o aluno gostar de tudo.
Talvez seja ajudá-lo a compreender que nem tudo precisa agradá-lo para fazer bem a ele.
Porque existe uma diferença enorme entre educar uma pessoa para o mundo...
e educar o mundo para agradar essa pessoa.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes feridas da educação contemporânea.
E fica uma pergunta para nós: estamos educando crianças para enfrentarem um mundo que nem sempre vai dizer “sim” a elas, ou estamos tentando construir uma escola onde elas nunca precisem ouvir “não”?
Porque educar não é fazer o mundo agradar nossos filhos.
É prepará-los para viver no mundo sem perder a capacidade de transformá-lo.
— Abilio Machado
Psicanalista e Psicoterapeuta
"Especialista no Ensino de Artes e na Docência de Teologia e Filosofia"
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