Pornografia, a fruta proibida e o velho “você é careta”
Por Abilio Machado
Falo como psicanalista.
E também como psicoarteterapeuta.
Mas, antes de tudo, falo como alguém que escuta homens — muitos homens — adultos e adolescentes em silêncio, no consultório online, longe das bravatas das redes sociais.
E é curioso como, quando o assunto é pornografia, o discurso público costuma ser raso, defensivo, agressivo. Sempre surge alguém dizendo:
“Você critica porque não gosta da fruta.”
Ou a velha gíria da minha juventude:
“Ah, isso é coisa de careta!”
Confesso: eu não ouvia essa palavra há décadas. Mas ela voltou.
E voltou com força.
Não como sinal de liberdade, mas como grito de defesa.
Porque toda vez que alguém precisa chamar o outro de careta, o que está em jogo não é o gosto — é o desconforto.
Pornografia não é sobre sexo.
Repito isso sem medo: não é sobre sexo.
É sobre solidão, mesmo na cama do casal.
É sobre vazio, a necessidade de preencher o desejo com rapidez.
É sobre uma dificuldade profunda de sustentar frustração, intimidade e presença real. De descontentamento na posição que se encontra.
O homem que se vicia em pornografia não está “com muito desejo”.
Ele está com pouco encontro, de si e com o outro.
No cérebro, a pornografia treina o prazer rápido, previsível, obediente. Nada ali exige diálogo, espera, frustração ou alteridade. Não há outro sujeito — há apenas imagens que se submetem. O desejo deixa de ser relação e vira consumo.
E quando esse homem é casado, muitos se apressam em explicar de forma simplista:
“Ah, o casamento esfriou.”
Nem sempre. Muitas vezes, o casamento apenas amadureceu, e ele(a) não.
A relação real convoca o sujeito a crescer.
A pornografia permite regredir, aquele busca do prazer da pré adolescência.
Ela oferece controle absoluto, ausência de risco emocional, nenhuma possibilidade de falha simbólica. Não há rejeição, não há silêncio constrangedor, não há cobrança. Só descarga. Quando associada à masturbação.
Depois, vem culpa.
Depois, vem remorso.
Depois, vem repetição.
Depois, vem o vazio...
Não há mais gratificação.
E então chegamos a um ponto que me chama ainda mais atenção:
por que alguns não apenas consomem pornografia, mas precisam exibi-la, compartilhá-la, postá-la?
Aqui não estamos mais falando apenas de vício, a dissolução do jorro inevitável pela masturbação, mas de busca de validação.
Postar pornografia ou erotizar o espaço público não é sinal de liberdade.
É, muitas vezes, um pedido implícito:
“Alguém aí é como eu?
Alguém aí me confirma que isso é normal?”
Quando o desejo está integrado, ele não precisa de plateia.
Quando precisa ser exibido, algo nele está pedindo autorização.
É nesse ponto que surgem as frases prontas, quase sempre agressivas:
“Isso é coisa da sua cabeça.”
“Todo mundo vê.”
“Pior é quem reprime.”
“Você não gosta da fruta.”
“Você é careta.”
Essas frases não dialogam.
Elas blindam. Busca de proteção ao seu ato.
Servem para desqualificar o limite do outro e, assim, evitar o confronto com o próprio hábito. Porque o limite alheio incomoda — ele funciona como espelho. E nem todo mundo tem coragem em olhar o abismo no seu próprio reflexo.
Ninguém gosta de espelhos quando ainda não suporta a própria imagem, fato.
A metáfora da fruta é interessante… e profundamente equivocada.
Nem toda fruta nutre.
Algumas intoxicam.
Outras viciam.
Outras parecem doces, mas corroem lentamente.
Há quem não coma não por nunca ter provado, mas por discernimento.
Há quem se afaste não por repressão, mas por maturidade.
Chamar isso de caretice é um erro antigo.
Na minha juventude, “careta” era o rótulo jogado sobre quem não se dobrava à pressão do grupo. Era a forma elegante de dizer:
“Entre no fluxo ou seja ridicularizado.”
O tempo passou.
E o tempo costuma ser um péssimo aliado das ilusões.
Muitos dos chamados caretas cresceram, integraram desejo e responsabilidade, construíram vínculos possíveis.
Muitos dos “descolados” ficaram presos à repetição, à dependência, à eterna necessidade de estímulo.
A psicoteologia ajuda a entender esse ponto com mais profundidade.
O problema nunca foi o corpo.
Nem o prazer.
Foi a redução do outro a objeto.
Quando o eros deixa de ser ponte e vira produto, algo da alma se fragmenta. O desejo se separa do sentido, a excitação se separa do amor, o corpo se separa da presença.
E então o sujeito passa a viver compartimentado:
um eu público, performático, provocador;
e um eu secreto, envergonhado, cansado.
No consultório, quase nunca vejo homens orgulhosos do próprio vício. Vejo homens exaustos. Vejo culpa. Vejo dificuldade de rezar, de olhar nos olhos, de sustentar silêncio. Vejo uma espiritualidade rachada.
O caminho terapêutico não é humilhação, nem cruzada moral.
É integração.
Não se trata apenas de “parar de ver”.
Trata-se de perguntar com honestidade:
o que este hábito está tentando anestesiar em mim?
Porque quando o vazio encontra sentido, a compulsão perde força.
Quando o desejo encontra alteridade, a imagem perde poder.
Quando a fé deixa de ser repressão e vira caminho, o corpo se aquieta.
Talvez, no fim das contas, seja hora de ressignificar a palavra antiga.
Careta não é quem escolhe limites.
Careta é quem ainda precisa da aprovação do grupo para desejar.
Careta é quem chama de liberdade aquilo que já virou prisão.
Careta é quem confunde estímulo com vida.
E isso — eu digo com toda a dureza necessária —
não tem nada de moderno.
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