quarta-feira, 28 de outubro de 2026

LULA GANHOU. E AGORA PSICANALISTA ?!




A pergunta que dr Saulo Verissimo trouxe é muito pertinente para a clínica, porque toca numa das fronteiras mais delicadas da psicanálise: como acolher o sofrimento político sem transformar o consultório em espaço de confirmação ideológica?



Independentemente de o paciente ter apostado todas as fichas na mudança ou na continuidade, a vitória de um candidato pode representar muito mais do que um resultado eleitoral. Pode simbolizar esperança, segurança, pertencimento, reconhecimento, medo ou até a sensação de que o futuro lhe foi retirado, principalmente nos atos ocorridos durante e depois.



E é aí que entra o psicanalista.


 _Lula ganhou. E agora, psicanalista?_


Uma reflexão sobre clínica, política e autorregulação emocional.

_ Por Abilio Machado 


O que fazer com o paciente que chega ao consultório e sente que o país finalmente tomou o rumo certo? E com aquele que chega tomado pela angústia, pela indignação ou pelo sentimento de que perdeu algo muito maior do que uma eleição?



Não precisamos escolher um lado para reconhecer o sofrimento de quem está do outro.


O paciente que depositou suas esperanças na mudança pode experimentar euforia, alívio e a expectativa de que sua vida finalmente melhore. Já aquele que apostou na continuidade de outro projeto pode sentir frustração, insegurança, raiva ou impotência.



Mas há uma questão clínica fundamental: não devemos presumir que todos os eleitores de um mesmo candidato sintam a mesma coisa, nem interpretar automaticamente suas emoções a partir de suas escolhas políticas.


A política é o acontecimento externo. O significado que ela assume na vida psíquica de cada pessoa é singular.



### 1\. O psicanalista não é juiz, militante nem salvador


Nosso papel não é convencer o paciente de que ele escolheu certo ou errado. Tampouco é confirmar suas certezas, alimentar suas indignações ou oferecer argumentos para que vença discussões fora do consultório.


É escutar o que aquela escolha representa em sua história.


Quando alguém afirma: “Agora tudo vai melhorar”, podemos investigar: O que, exatamente, você espera que melhore? O que essa mudança representa para você?


Quando outro diz: “Não há mais esperança para este país”, podemos perguntar: O que essa derrota significa na sua vida? O que você sente que perdeu? Essa sensação de impotência aparece em outras situações?


Perceba a diferença: não discutimos necessariamente a legitimidade da esperança ou da indignação. Investigamos como elas se constituem, o que mobilizam e de que maneira afetam a vida do sujeito.



### 2\. Ser o advogado do diabo sem se tornar adversário


O recurso clínico não consiste em contrariar o paciente por esporte, mas em introduzir perguntas que permitam examinar suas certezas.


Ao paciente eufórico, podemos perguntar se ele consegue reconhecer os limites de qualquer governo, tolerar a possibilidade de frustrações e preservar sua capacidade crítica.


Ao paciente revoltado, podemos ajudá-lo a distinguir fatos, interpretações, expectativas e antecipações catastróficas, sem desqualificar suas preocupações políticas.


Em ambos os casos, a pergunta central é semelhante:


“Você consegue sustentar suas convicções sem se tornar prisioneiro delas?”


Isso não significa estabelecer uma falsa equivalência entre todas as afirmações políticas. Fatos verificáveis devem ser diferenciados de rumores, interpretações e opiniões. Neutralidade clínica não é indiferença à realidade; é não impor ao paciente a visão de mundo do terapeuta.



### 3\. Autorregulação não é resignação


Aqui existe um cuidado importante: autorregular-se não significa aceitar passivamente tudo o que acontece, silenciar a indignação ou abandonar o exercício da cidadania.


Significa desenvolver condições psíquicas para não ficar inteiramente à mercê dos acontecimentos externos.


Podemos trabalhar com o paciente para que ele consiga:


* Reconhecer suas emoções sem agir impulsivamente a partir delas.


* Diferenciar aquilo que pode controlar daquilo sobre o qual tem influência limitada.


* Tolerar incertezas sem precisar preencher todas as lacunas com certezas absolutas.


* Preservar vínculos afetivos apesar das divergências políticas.


* Transformar a preocupação em ações concretas, proporcionais e coerentes com seus valores.


* Manter projetos pessoais, trabalho, lazer e relações significativas, mesmo diante de um cenário político frustrante.


O objetivo não é produzir um cidadão apático, mas uma pessoa capaz de participar da vida pública sem entregar a ela o controle absoluto de sua vida psíquica.




### 4\. E quando o próprio psicanalista tem lado?


Temos histórias, valores, convicções e preferências. Não somos seres desprovidos de ideologia. O desafio ético é reconhecer nossos próprios atravessamentos para que eles não se convertam em interpretações enviesadas, julgamentos morais ou tentativas de conversão.


Se a fala do paciente nos irrita, precisamos investigar nossa própria reação antes de transformá-la em intervenção clínica.


Se concordamos intensamente com ele, também precisamos ter cuidado: a concordância pode nos levar a abandonar a escuta e substituir a elaboração por cumplicidade ideológica.


O paciente não está ali para confirmar nossas convicções, assim como nós não estamos ali para validar todas as dele.


A clínica exige que suportemos a diferença sem precisar eliminá-la.



### 5\. A pergunta que pode orientar a sessão


Diante do paciente que chega tomado pelo resultado eleitoral, talvez uma intervenção inicial seja:


“Independentemente do que aconteceu na política, quero compreender o que isso está provocando em você. O que essa vitória ou essa derrota significa na sua história, nas suas expectativas e na maneira como você enxerga o futuro?”


A partir daí, a escuta pode avançar para a relação entre expectativa e realidade, idealização e desilusão, pertencimento e identidade, controle e impotência.


Sem presumir que toda reação seja patológica. Sem reduzir preocupações legítimas a conflitos inconscientes. E sem perder de vista que o sofrimento pode ter componentes tanto subjetivos quanto concretos.


### Para concluir: a política passa pela clínica, mas não deve governá-la


O paciente pode entrar no consultório acreditando que a vitória de um candidato salvará o país ou que a vitória de outro o condenará. Não cabe ao psicanalista decidir, no lugar dele, o que deve pensar.


Cabe-lhe ajudá-lo a investigar o que sustenta essas expectativas, reconhecer os limites de suas previsões e recuperar a capacidade de pensar para além da urgência emocional.


Porque a maturidade psíquica não exige que abandonemos nossas convicções. Exige que possamos examiná-las, questioná-las e conviver com a incerteza sem perder a nós mesmos.


A função do psicanalista não é ensinar o paciente a pensar como ele pensa. É criar condições para que o paciente possa pensar sem precisar se submeter às próprias certezas — nem às certezas do analista.


E talvez esta seja a pergunta mais importante que podemos levar para a clínica depois de uma eleição:


Se o resultado das urnas tem o poder de determinar inteiramente a minha esperança, a minha paz e a minha capacidade de seguir vivendo, em que medida estou vivendo a minha própria vida — e em que medida estou entregando minha vida psíquica ao destino que atribuo à política?


Abilio Machado — Psicanalista | Psicoarteterapeuta

 | Arteeducador



#Psicanálise #Psicologia #AutorregulaçãoEmocional #SaúdeMental #EntenderParaTransformar




sábado, 24 de outubro de 2026

Perfeccionismo e Autoestima

 

Perfeccionismo e Autoestima 

A auto cobrança está ligada também com a síndrome da impostora, ou seja, a pessoa se cobra demais para obter um resultado e, quando consegue, não se sente merecedora dele. Essas práticas geram um ciclo vicioso de sentimentos conturbados que só cessam com terapia e acompanhamento profissional. Pensamentos como “Eu tenho que…”, “Eu deveria dar conta…”, “Deveria ter feito…”, “Todo mundo faz, então…”, “Por que sou assim?” são marcas de pessoas que têm a perfeição em suas ações como objetivo constante. 

Segundo o dicionário, “cobrança” é o ato ou efeito de cobrar dívidas, e “emocional” é o que provoca sentimentos de grande intensidade. Um dos aspectos humanos que é recorrente nas pesquisas feitas pela psicologia é a cobrança que depositamos nas coisas, nos outros e, principalmente, em nós mesmos.

Procure se focar nas soluções e não nos problemas. Seja gentil com você mesmo: é muito importante que você se valorize e questione os pensamentos negativos sobre si mesmo. Isso amenizará o sentimento de culpa e crítica...

Sinais que você se cobra demais (e nem percebe)

Sempre pensa que deveria ter feito melhor;

Sofre muito quando recebe críticas;

Se julga quando erra;

Tenta agradar a todos o tempo todo;

Se culpa por descansar;

Faz de tudo para não discordarem de você;

Sente culpa quando não dá conta de algo.

Pode até parecer estranho, mas pessoas que se cobram demais, tendem a adiar suas decisões e atitudes, pois acredita que precisa de mais tempo para que a sua decisão ou atitude seja perfeita. O que é uma bola de neve pois muita das vezes a culpa vem ainda maior, quando deixam de fazer e percebem que ainda não fez.

Somos parte desta sociedade. Se somos cobrados é porque também cobramos. Seria muito mais simples se cada um soubesse o que é bom para si sem interferir no que é do outro. Com o tempo amadurecemos e passamos a tomar as decisões de acordo com as nossas convicções, sem ligar para os outros.

A maturidade não é algo que deve ser somado ao longo da vida, e então com 60 anos você pode se considerar uma pessoa madura. Pelo contrário, hoje em dia notamos que a maturidade não está ligada à idade. É muito mais ligado a equilíbrio, consenso , observação, correção e ação de si mesmo. 

Psicoterapeuta Abilio Machado

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Os Três Pilares da Felicidade: Fazer, Amar e Esperar



 Os três pilares da felicidade: fazer, amar e esperar


Uma crônica sobre aquilo que sustenta a alma quando a vida perde o sentido.


Há uma antiga lição de sabedoria árabe que diz: “A felicidade requer algo que fazer, algo que amar e algo que esperar.”


Três necessidades aparentemente simples, mas que talvez expliquem por que tantas pessoas possuem quase tudo e, ainda assim, sentem que lhes falta alguma coisa.


Afinal, não é necessariamente a ausência de bens que empobrece uma existência. Às vezes, é a ausência de propósito, de afeto e de esperança.


O primeiro pilar: ter algo que fazer.


O ser humano precisa sentir que sua existência produz algum significado. Não precisa ser um grande feito, uma carreira brilhante ou uma conquista que mereça aplausos. Às vezes, basta cuidar de um jardim, preparar o café de alguém, escrever algumas linhas, ensinar uma criança ou realizar um trabalho que faça diferença na vida de outra pessoa.


Fazer é participar da vida. É acordar pela manhã sabendo que existe alguma coisa que depende de nós, alguma tarefa que nos convoca, algum talento que ainda pode ser desenvolvido.


O perigo começa quando confundimos produtividade com valor pessoal. Não precisamos estar ocupados o tempo inteiro para merecer respeito. Descansar também é necessário. O que a alma procura não é uma agenda lotada, mas uma razão para continuar participando do mundo.


Há pessoas aposentadas que continuam jovens porque descobriram novos projetos. E há jovens que, embora cheios de energia, parecem envelhecidos por dentro porque já não encontram motivos para se movimentar.


Não é a quantidade de coisas que fazemos que determina a riqueza da vida, mas o significado que conseguimos atribuir a elas.


O segundo pilar: ter algo que amar.


Não existe felicidade verdadeiramente humana sem alguma forma de afeto.


Amar alguém, cuidar de um animal, cultivar uma amizade, abraçar os filhos, respeitar a própria história ou encontrar beleza nas pequenas coisas. O amor é aquilo que nos lembra que não somos apenas indivíduos atravessando o tempo: somos seres que se encontram, se transformam e deixam marcas uns nos outros.


Mas existe uma armadilha: acreditar que amar significa possuir, controlar ou exigir que o outro corresponda exatamente às nossas expectativas.


Não significa.


O amor maduro não transforma o outro em propriedade, nem faz da reciprocidade uma negociação permanente. Amar também é respeitar diferenças, reconhecer limites e compreender que ninguém existe exclusivamente para preencher nossos vazios.


E há uma forma de amor frequentemente esquecida: o amor por si mesmo.


Não aquele que alimenta o ego, mas aquele que nos permite olhar para nossas imperfeições sem nos condenar à vergonha. Porque quem não aprende a reconhecer o próprio valor pode passar a vida mendigando nos outros a confirmação de que merece existir.


Amar é criar vínculos sem construir prisões. É oferecer presença sem abandonar a própria identidade. É compreender que o coração precisa de companhia, mas não deve precisar desaparecer para ser aceito.


O terceiro pilar: ter algo que esperar.


Talvez este seja o mais delicado dos três.


Porque fazer nos movimenta, amar nos conecta, mas esperar nos ajuda a atravessar os dias em que nem o movimento nem o afeto parecem suficientes.


Esperar não significa ficar sentado, de braços cruzados, aguardando que o destino resolva nossos problemas. Significa conservar a possibilidade de que a história ainda não terminou.


É acreditar que podemos aprender depois de errar, reconstruir depois de perder, recomeçar depois de uma decepção e descobrir novas formas de viver mesmo quando os planos antigos já não fazem sentido.


A esperança não é uma garantia de que tudo dará certo. É a capacidade de continuar vivendo sem exigir que todas as respostas estejam disponíveis agora.


Há quem espere uma oportunidade profissional. Outros esperam a recuperação de alguém querido, a reconciliação com um familiar, a realização de um sonho ou simplesmente um dia em que a dor pese menos.


E existem pessoas cuja esperança é mais discreta: conseguir levantar da cama, voltar a sorrir, sentir novamente prazer nas pequenas coisas ou descobrir que ainda há beleza no mundo.


Não devemos desprezar essas pequenas esperanças. Às vezes, é delas que nasce a força necessária para grandes transformações.


### E quando um dos pilares desmorona?


A vida, porém, não é uma construção perfeita.


Há momentos em que perdemos o trabalho, nos despedimos de quem amamos ou deixamos de acreditar no futuro. Em determinadas fases, os três pilares parecem estremecer ao mesmo tempo.


É justamente aí que precisamos compreender que essa lição não deve ser usada como uma cobrança contra quem sofre.


Uma pessoa em luto não precisa ser pressionada a encontrar rapidamente um novo propósito. Alguém que enfrenta a depressão não precisa ouvir que basta amar ou ter esperança. Há dores que exigem acolhimento, tempo e, por vezes, ajuda profissional.


Os três pilares não são uma fórmula mágica para a felicidade. São referências para a reconstrução da vida.


Quando não conseguimos fazer grandes coisas, podemos começar pelas pequenas. Quando amar parece difícil, podemos aceitar o cuidado de alguém. Quando a esperança desaparece, talvez precisemos apenas atravessar o dia de hoje, sem a obrigação de resolver o amanhã.


E, pouco a pouco, a vida pode voltar a encontrar seus pontos de sustentação.


### Afinal, o que é ser feliz?


Talvez tenhamos cometido um equívoco ao imaginar a felicidade como um lugar ao qual chegaremos depois de resolver todos os problemas.


Esperamos ter dinheiro, estabilidade, saúde perfeita, reconhecimento e relacionamentos sem conflitos para, finalmente, nos autorizarmos a ser felizes.


Mas a vida não costuma esperar que todas as condições sejam favoráveis.


Ela acontece enquanto trabalhamos, enquanto amamos, enquanto perdemos, enquanto aprendemos e enquanto esperamos.


A felicidade não é a ausência de dificuldades, mas a possibilidade de encontrar sentido na vida mesmo quando ela não acontece como planejamos.


Ter algo que fazer nos dá direção.


Ter algo que amar nos dá conexão.


Ter algo que esperar nos dá horizonte.


E talvez a sabedoria dessa antiga lição esteja justamente em nos lembrar de que precisamos dessas três dimensões, sem transformar nenhuma delas em exigência de perfeição.


Porque haverá dias em que faremos muito e amaremos pouco. Outros em que seremos profundamente amados, mas não saberemos para onde ir. E haverá aqueles em que tudo o que conseguiremos fazer será esperar que a tempestade passe.


Em todos eles, continuaremos sendo humanos.


E isso importa.


No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja se somos felizes o tempo inteiro, mas se ainda conseguimos encontrar alguma razão para participar da vida, algum coração com o qual compartilhar a caminhada e alguma possibilidade que nos convide a seguir adiante.


Faça algo que dê sentido aos seus dias. Ame algo que torne sua existência mais humana. E preserve algo que faça você desejar o amanhã.


Porque a vida não precisa ser extraordinária para ter valor.


Às vezes, a felicidade está em ter uma tarefa para amanhã, alguém para 

abraçar hoje e a esperança silenciosa de que, apesar de tudo, ainda vale a pena continuar.


Abilio Machado

O POVO ESTÁ DOENTE... O CASO MEIRIVONE

 


O POVO TÁ DOENTE… O caso MEIRIVONE.


Uma relação inusitada e cheia de crises: quando o amor se transforma em espetáculo


Meirivone Rocha Moraes tornou-se conhecida por sua relação simbólica com Marcelo, um boneco de pano em tamanho real criado por sua mãe. A história ganhou novos capítulos: casamento, filhos fictícios, ciúmes, suspeitas de traição, perdão e conflitos conjugais. Em outubro de 2026, a comemoração de seis anos dessa união voltou a chamar a atenção da imprensa.


Segundo relatos publicados pela imprensa, Meirivone chegou a afirmar que perdoou a suposta infidelidade para preservar a família e descreveu Marcelo como manipulador. A história, por mais inusitada que pareça, abre uma janela para questões psicológicas, sociais e espirituais muito mais profundas.


Mas afinal, o que está doente: o indivíduo, as relações ou a sociedade que transforma tudo em espetáculo?


A perspectiva psicológica: a necessidade de amar e pertencer


O ser humano precisa de vínculos, reconhecimento, afeto e pertencimento. Quando essas necessidades não encontram respostas satisfatórias, algumas pessoas podem construir formas alternativas de conexão, atribuindo significados emocionais intensos a objetos, personagens ou narrativas.


Isso, isoladamente, não constitui um diagnóstico psicológico. Seria irresponsável transformar uma história divulgada na internet em prova de doença mental.


A questão que merece reflexão é outra: por que algumas pessoas permanecem em relações que lhes provocam sofrimento? O medo da solidão, a idealização do parceiro e a esperança de que o outro mude podem dificultar o rompimento de vínculos dolorosos.


Há também uma contradição conhecida nas relações humanas: às vezes, a pessoa não se apega apenas ao que o outro é, mas àquilo que sonha que ele venha a ser.


A perspectiva psicanalítica: amar o outro ou a própria fantasia?


O amor nunca se relaciona exclusivamente com a realidade objetiva. Também envolve desejos, projeções, expectativas e fantasias.


Podemos nos apaixonar pela imagem que construímos de alguém e, depois, sofrer quando essa imagem entra em conflito com a realidade. Em certas situações, a fantasia torna-se tão necessária que reconhecer sua fragilidade significa enfrentar um vazio difícil de suportar.


No caso de Meirivone, não temos elementos suficientes para interpretar sua estrutura psíquica ou estabelecer qualquer diagnóstico. Entretanto, a narrativa permite uma pergunta provocadora: quantas vezes, nas relações humanas, insistimos em salvar uma história porque não sabemos como lidar com o seu fim?


Afinal, não são poucos os relacionamentos nos quais pessoas reais perdoam repetidamente, justificam humilhações e confundem sofrimento com prova de amor.


A perspectiva teológica: o amor não exige o sacrifício da dignidade


Sob uma perspectiva cristã, o amor está associado ao cuidado, à verdade, à responsabilidade e à dignidade humana.


Em 1 Coríntios 13:6, lemos que o amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.


Essa passagem nos convida a rever uma ideia perigosa: a de que preservar uma relação a qualquer custo seria sempre uma virtude.


Perdoar não significa negar a realidade. Ter compaixão não significa aceitar a destruição da própria dignidade. E manter uma família unida não deveria exigir que alguém desaparecesse emocionalmente para sustentar uma aparência de harmonia.


O perdão pode ser um caminho de libertação, mas não deve ser usado para legitimar a repetição do sofrimento.


E o povo, está doente?


Talvez a pergunta mais inquietante não esteja no casamento simbólico, mas na maneira como consumimos essa história.


Transformamos a intimidade em entretenimento, o conflito em audiência e a dor em conteúdo compartilhável. Rimos, julgamos, comentamos e seguimos para o próximo espetáculo.


Enquanto isso, relações humanas marcadas por dependência emocional, manipulação, abandono e violência psicológica continuam acontecendo longe das câmeras.


É mais fácil apontar para o que parece absurdo do que reconhecer as contradições que habitam a nossa própria realidade.


O boneco pode ser de pano. Mas as questões que essa história desperta são profundamente humanas.


O problema não está simplesmente em alguém construir uma relação incomum. Está em uma sociedade que, tantas vezes, confunde visibilidade com felicidade, insistência com amor e sofrimento com fidelidade.


Talvez o título mais adequado para esta reflexão não seja apenas “O povo tá doente”, mas: estamos adoecendo quando perdemos a capacidade de distinguir amor de dependência, perdão de submissão e espetáculo de realidade.


A psicologia nos convida à compreensão. A psicanálise, à investigação dos nossos desejos. A teologia, ao exame da consciência.


E as três nos devolvem uma pergunta essencial:


Estamos realmente amando ou apenas tentando preencher, a qualquer custo, o vazio que temos medo de enfrentar?


— Abilio Machado | Psicanalista e psicoterapeuta


#Psicoteologia #Psicanálise #SaúdeEmocional #AmorEDignidade #EntenderParaTransformar


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Fontes jornalísticas


- LADbible — 20 de outubro de 2026: Woman who married a rag doll celebrates six years of marriage with anniversary post. "Leia a reportagem" (https://www.ladbible.com/news/uk-news/woman-married-rag-doll-anniversary-409391-20261020)


- O Liberal — 2 de maio de 2025: Mulher afirma ter sido 'traída' após casamento com boneco de pano. "Leia a reportagem" (https://www.oliberal.com/variedades/amp/mulher-afirma-ter-sido-traida-apos-casamento-com-boneco-de-pano-1.955897)


- CNN Brasil — 13 de abril de 2023: Mulher que ficou famosa por se casar com boneco de pano diz que espera "2º filho". "Leia a reportagem" (https://www.cnnbrasil.com.br/pop/mulher-que-ficou-famosa-por-se-casar-com-boneco-de-pano-diz-que-espera-2o-filho/)

A PSICOLOGIA NÃO CABE NUM CRACHÁ

 Depois das manifestações de psicólogos de direita que estavam se vendo encurralados por anos pelo sequestro da psicologia pelas ideologias da esquerda eis que o conselho se manifestou nas redes sociais falando sobre o código de ética do profissional:



O Código de Ética Profissional delineia as responsabilidades e os deveres da categoria, oferece diretrizes para a sua formação e baliza o julgamento de suas ações, fortalecendo e ampliando o significado social da profissão.



Em período eleitoral, vale lembrar: o Código veda a indução de convicções políticas no exercício da profissão. A pessoa atendida tem total autonomia para pensar, decidir e votar. 



Nosso compromisso fundamental é com a eliminação de qualquer forma de negligência, discriminação, violência ou opressão, pautando a atuação na análise crítica da realidade e das relações de poder.




Porém minha resposta a isso é:



A Psicologia não cabe num crachá

Por muito tempo, dizem alguns psicólogos, a Psicologia teria sido tomada por uma pauta política, ideologica e partidária. Agora, profissionais se apresentam publicamente como de direita — como quem tira do bolso um crachá que sempre esteve ali, mas que talvez tivesse medo de mostrar. E, nesse novo capítulo, entra em cena o conselho para falar de ética.


O recado do CFP é direto: o Código de Ética orienta deveres, responsabilidades e julgamentos profissionais; em período eleitoral, veda induzir convicções políticas. Quem procura atendimento continua dono do próprio pensamento, das próprias decisões e do próprio voto. Parece simples. Mas, como quase tudo que importa na vida pública, a frase não encerra a discussão: abre uma pergunta sobre o que significa, afinal, não induzir, principalmente se buscar pelo histórico da entidade.


Um psicólogo não precisa esconder suas ideias, fingir que não tem opinião ou deixar a cidadania na porta do consultório. Pode pensar à direita, à esquerda, no centro ou fora das prateleiras partidárias. Pode criticar conselhos, políticas públicas e consensos profissionais. O que não pode é usar a assimetria da relação terapêutica para transformar a escuta em palanque — nem fazer da confiança do paciente uma oportunidade de conversão. A regra vale para todos, inclusive para quem se considera imune à ideologia ou submerso bela de corpo e mente, a ponto de saírem na marcha da maconha com liberação do próprio conselho que puniu uma psicóloga por dizer que era psicóloga cristã.

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GPT-6 Luna


Depois de sofrerem por anos vendo a psicologia ser sequestrada por pautas ideológicas da esquerda, psicólogos se manifestam e se assumem de direita, eis que então agora entra o CPF para falar de Etica, desenvolva uma crônica crítica usando o que o conselho diz e as mensagens dos psicólogos: O Código de Ética Profissional delineia as responsabilidades e os deveres da categoria, oferece diretrizes para a sua formação e baliza o julgamento de suas ações, fortalecendo e ampliando o significado social da profissão.


Em período eleitoral, vale lembrar: o Código veda a indução de convicções políticas no exercício da profissão. A pessoa atendida tem total autonomia para pensar, decidir e votar. 


Nosso compromisso fundamental é com a eliminação de qualquer forma de negligência, discriminação, violência ou opressão, pautando a atuação na análise crítica da realidade e das relações de poder.


#DescriçãodaInagem : carrossel com 8 cards que explicam a importância do Código de Ética Profissional da Psicóloga e do Psicólogo, destacando princípios éticos, cuidado, escuta segura, direitos fundamentais e compromisso da Psicologia com a sociedade.


#ÉticaÉCuidado #ÉticaProfissional #CódigoDeÉtica

🧠💚💛 A PSICOLOGIA É NOSSA!


A Psicologia não tem partido, não tem proprietário e não pode ser aprisionada por nenhuma corrente ideológica. Ela pertence à ciência, ao conhecimento, à ética e, sobretudo, às pessoas.


Psicólogos, psicanalistas, estudantes e profissionais da saúde mental têm o direito de pensar criticamente, divergir e dialogar sem serem reduzidos a rótulos políticos. A pluralidade de ideias não ameaça a Psicologia; o que a ameaça é transformar o conhecimento em instrumento de doutrinação.


A saúde mental não escolhe lado político. O sofrimento humano não pede título ideológico para ser acolhido. E a escuta profissional não pode ser condicionada à concordância com quem fala.


Defender a Psicologia é defender a liberdade de pensar, a responsabilidade científica e o respeito à dignidade humana.


Porque cuidar da mente exige compreender o ser humano em sua complexidade, não enquadrá-lo em nossas próprias convicções.


E você, acredita que a Psicologia deve acolher a diversidade de pensamentos ou se submeter a uma única visão de mundo?


A Psicologia não cabe num crachá

A palavra sequestro sobre está ocupação que veio ocorrendo se refere a tomar para si pautas e distorcer a conduta do psicólogo, um bom exemplo: cabe ao psicólogo cuidar da saúde mental, acolher, ajudar na recuperação e transformação de jovens viciados em drogas e álcool, qual foi a distorção pela ideologia? Psicólogos participarem ativamente da marcha da maconha mostrando uma inversão total da psicologia essencial. E quando estão  inseridos nos direitos humanos não defenderem o direito da vítima mas dão todo o apoio irrestrito ao acusado pelos crimes. Quando envolvidos na ação social esquecem que a miséria não tem cor, origem ou religião, mas assumidamente tem suas preferência. Outro exemplo uma vila conhecida por ser invasão e extremamente pobre, uma casa (barraco) ao lado da outra, uma ganha benefícios e a outra não, por quê? Porque uma é protegida e a outra não mesmo que passe por igual e as vezes pior condições, mas as psicologia tem que pagar o pedágio as o serviço social.

A crítica ao “sequestro” da Psicologia não precisa significar que psicólogos devam se calar sobre temas públicos. A questão é outra: quando a militância passa a ocupar o lugar do cuidado, vale perguntar se a prática continua orientada pelas necessidades de quem sofre. Se jovens com dependência precisam de acolhimento e apoio para a recuperação, a participação de profissionais em uma marcha política pode suscitar um debate legítimo sobre prioridades e coerência — embora, isoladamente, não prove desvio ético. Do mesmo modo, a defesa dos direitos humanos não pode se converter em atenção exclusiva ao acusado, como se a vítima desaparecesse da cena. Os direitos de quem sofreu violência também exigem proteção, escuta e respeito. O desafio é não transformar a ética em bandeira seletiva: ela deve valer para vítimas, acusados e pessoas atendidas, sem que a convicção política do profissional determine quem merece cuidado.

É justo perguntar onde, por quem e de que maneira.  Chamar de ideologia toda análise das relações de poder não torna a análise falsa; do mesmo modo, invocar a ética não torna ninguém automaticamente justo.


O próprio conselho afirma que o compromisso da categoria inclui combater negligência, discriminação, violência e opressão, com análise crítica da realidade e das relações de poder. Isso não precisa ser senha de partido. É uma orientação sobre o que a profissão não deve normalizar. A crítica começa quando se tenta identificar, sem argumentos, uma obrigação ética com uma preferência eleitoral — ou quando se usa a obrigação ética para calar toda divergência.


“A Psicologia não tem dono”, dizem os profissionais nas mensagens. O plural é bonito, desde que não vire escritura de propriedade. A Psicologia não pertence ao conselho, a uma militância, a um grupo de direita nem a uma corrente teórica. Pertence a uma história de conhecimento, de debate e de responsabilidade pública. E, na prática clínica, a pessoa atendida não é território a ser conquistado por nenhum desses grupos.


A ciência não exige que psicólogos tenham todos a mesma opinião política. A ética exige algo menos confortável: que reconheçam o poder que exercem na relação profissional e não o usem para impor suas convicções. Acolher a diversidade de pensamento não é concordar com tudo; é não fazer do desacordo uma condição para oferecer cuidado.


No fim, talvez a pergunta não seja quem tem direito de dizer “a Psicologia é nossa”. É se, diante de alguém vulnerável, o profissional consegue lembrar que a conversa não é sobre vencer uma disputa política. A escuta não tem voto a conquistar. Tem uma pessoa diante dela. E essa pessoa, como lembra o Código, conserva o direito de pensar, decidir e votar por conta própria.


#DescriçãodaInagem : carrossel com 9 cards - 8 cards que explicam a importância do Código de Ética Profissional da Psicóloga e do Psicólogo, destacando princípios éticos, cuidado, escuta segura, direitos fundamentais e compromisso da Psicologia com a sociedade. 1 card que demonstra claramente o posicionamento contra a ocupação dos conselhos por pautas ideológicas e partidária.


#ÉticaÉCuidado #ÉticaProfissional #CódigoDeÉtica #APsicologiaÉNossa #LiberdadeDePensamento #SaúdeMental #ÉticaProfissional #EntenderParaTransformar

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

SUA ORIGEM NÃO DEFINE SEU DESTINO



Sua origem não define seu destino

Abilio Machado Psicanalista e Psicoarteterapeuta


Introdução

Há uma frase que ouvimos desde a infância, em tom de sentença: "de onde você veio, você não sai". Ela aparece em conversas de família, em comentários de vizinhos, às vezes até dentro da nossa própria cabeça, quando julgamos que nossas oportunidades já estavam decididas antes mesmo de chegarmos à idade adulta. No meu caso ouvia muito de duas pessoas que pela posição e representatividade não deveriam usá-la, nem sempre na mesma composição gramática porém com a mesma interpretação é significado. Uma era freira e diretora do colégio que estudei, o outro era professor de língua portuguesa. A freira costumava dizer 'uma vez filho de operário será sempre operário' e ele dizia 'só vai servir prá chão de fábrica'. Entre outras frases daqueles que deveriam proteger e direcionar as crianças só futuro, pois outra frase muito usada ' a criança é o futuro do país.' 


Este artigo parte de uma convicção simples e libertadora: sua origem não define seu destino. Ela influencia, sim, quem você é e como aprendeu a enxergar o mundo, mas não tem o poder de decidir por você aquilo que ainda pode se tornar. Você não escolheu o ponto de partida, mas pode escolher, a cada dia, a direção do caminho.


Desenvolvimento

A origem como ponto de partida, não como sentença

Sigmund Freud (1914/1996), em Recordar, repetir e elaborar, mostrou que o passado tende a se repetir enquanto não é compreendido. O ponto central de sua obra, porém, não é a fatalidade, e sim a possibilidade de elaboração: ao trazer à consciência aquilo que nos determina, abrimos espaço para escolhas que antes não enxergávamos. A origem, nessa perspectiva, é matéria-prima para a transformação.


Donald Winnicott (1971/2019), em Tudo começa em casa, lembra que o ambiente inicial importa muito, mas que a vida psíquica não se resume a ele. Para o autor, o que chamamos de "suficientemente bom" é o cuidado capaz de sustentar o desenvolvimento, e não a perfeição. Ou seja, mesmo quando faltou acolhimento, a pessoa pode construir, ao longo da vida, novas formas de se sustentar.


Resiliência: a capacidade de seguir em frente

Boris Cyrulnik (1999), neuropsiquiatra e pesquisador da resiliência, sobreviveu à infância marcada pela guerra e pela perda da família. Em suas obras, ele defende que o trauma não é destino: a resiliência é um processo que envolve vínculos, sentido e a possibilidade de reescrever a própria história. Para Cyrulnik, o ser humano é um "tecelão" de significados, capaz de transformar feridas em narrativas de força.


Edith Eva Eger (2017), psicóloga sobrevivente de Auschwitz, relata em A escolha que, mesmo diante da violência extrema, ainda havia um espaço interno que ninguém podia tomar. Sua trajetória mostra que a liberdade interior pode persistir mesmo quando as condições externas são devastadoras, e que a forma como interpretamos o que nos aconteceu pode abrir ou fechar futuros.


O sentido como motor da vida

Viktor Frankl (1946/2008), psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, escreveu em Em busca de sentido: "Ao homem pode ser tirada tudo, menos a última das liberdades humanas: a escolha da atitude pessoal em qualquer circunstância." Essa frase resume uma das ideias mais poderosas da psicologia: entre o que nos acontece e a resposta que damos existe um espaço de liberdade.


Frankl também observou que quem encontra um sentido para a própria vida suporta melhor as adversidades. Assim, o destino não é apenas aquilo que o passado determinou, mas aquilo que construímos ao dar significado às nossas experiências.


Psicoarteterapia: criar novas narrativas

A psicoarteterapia utiliza linguagens artísticas (desenho, escrita, música, movimento, colagem) como caminhos para acessar sentimentos que nem sempre encontram palavras. Ao criar, a pessoa se reconhece como autora da própria história, e não apenas como personagem de um roteiro escrito por outros.


Carl Rogers (1961/2009), em Tornar-se pessoa, afirma que a mudança acontece quando o indivíduo se sente aceito e compreendido, o que lhe permite abandonar defesas rígidas e explorar novas possibilidades de ser. A arte, nesse contexto, funciona como um espaço seguro para essa exploração.


Discussão

Ao longo dessas referências, percebe-se um fio condutor: a origem influencia, mas não sentencia. Ela pode oferecer recursos, como afeto, cultura, habilidades e valores, e também pode trazer desafios, como carências, traumas e crenças limitantes. Em ambos os casos, o que determina o rumo é a relação que estabelecemos com essa herança.


Isso não significa negar a dor nem minimizar as desigualdades sociais, econômicas e familiares, que existem e exigem reconhecimento. Significa, porém, reconhecer que a pessoa não é um resultado fixo de suas circunstâncias. Há sempre algum grau de movimento possível: uma nova escolha, uma relação que cura, uma atividade que desperta talento, um sentido que reorganiza a vida.


Na prática clínica e no cotidiano, a pergunta mais útil talvez não seja "por que eu sou assim?", e sim "o que eu quero construir a partir de agora?". A primeira pergunta pode nos ajudar a compreender. A segunda nos convida a agir.


Conclusão

Você não precisa ter nascido em um lugar ideal para construir uma vida com sentido. Sua história inicial é parte de quem você é, mas não é o limite de quem você pode se tornar. Cada passo consciente, cada vínculo cultivado, cada criação que expressa a sua verdade é uma afirmação de que o futuro ainda está aberto.


Por isso, deixo um convite: olhe para a sua origem com compaixão e curiosidade, mas não permita que ela seja o último capítulo. O seu destino é escrito por você, a partir de hoje.


Referências

BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.


CYRULNIK, Boris. Un merveilleux malheur. Paris: Odile Jacob, 1999.


EGER, Edith Eva. A escolha: a liberdade está dentro de você. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.


FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. (Obra original publicada em 1946.)


FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XII.


ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009. (Obra original publicada em 1961.)


WINNICOTT, Donald W. Tudo começa em casa. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2019. (Obra original publicada em 1971.)

domingo, 18 de outubro de 2026

Afinal, o que faz um professor? Na pior das hipóteses, faz toda a diferença.

 


Afinal, o que faz um professor? Na pior das hipóteses, faz toda a diferença.


Por Abilio Machado


Afinal, o que faz um professor?


Ensina a ler, escrever, calcular, interpretar textos, compreender a História, questionar a realidade e descobrir que o mundo é muito maior do que aquilo que cabe dentro de uma sala de aula.


Mas, pensando bem, isso ainda é pouco.


Porque, na pior das hipóteses, um professor faz toda a diferença.


E perceba a ironia dessa afirmação. Em uma sociedade que frequentemente questiona o valor da educação, desvaloriza o magistério e cobra resultados imediatos de processos que exigem tempo, encontramos uma profissão cujo verdadeiro impacto nem sempre pode ser medido por provas, notas ou estatísticas.


Um professor pode passar anos ensinando alguém que talvez nunca se lembre de uma fórmula, de uma data ou de uma definição. Entretanto, aquele estudante pode carregar pela vida inteira uma pergunta que o professor fez, uma palavra de incentivo que recebeu ou a descoberta de que era capaz de aprender algo que julgava impossível.


O conteúdo pode ser esquecido. A experiência de ter sido transformado, nem sempre.


O professor não ensina apenas aquilo que sabe


Existe uma diferença entre transmitir informações e participar da formação de uma pessoa.


Informações podem ser encontradas em livros, plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial. O conhecimento, porém, exige interpretação, contexto, discernimento e capacidade de estabelecer relações entre aquilo que aprendemos e aquilo que vivemos.


É nesse processo que a presença do professor continua sendo fundamental.


Ele não é apenas alguém que apresenta respostas. É também quem ensina a formular perguntas melhores, a desconfiar de certezas precipitadas, a reconhecer contradições e a compreender que pensar não significa simplesmente concordar ou discordar.


Ensinar é ajudar o outro a desenvolver autonomia intelectual.


E isso exige muito mais do que dominar uma disciplina. Exige sensibilidade para perceber que cada estudante chega à sala de aula trazendo uma história que nem sempre aparece no boletim escolar.


Há quem chegue com fome. Há quem tenha dormido pouco. Há quem esteja enfrentando conflitos familiares, insegurança, violência, ansiedade ou a dolorosa sensação de não pertencer a lugar algum.


O professor não pode resolver todos esses problemas, nem deve ser responsabilizado sozinho por isso. Mas pode ser a primeira pessoa, naquele dia, a olhar para um estudante e enxergar alguém além de suas dificuldades.


Às vezes, a diferença começa exatamente aí.


Na pior das hipóteses...


Gosto particularmente dessa expressão: “na pior das hipóteses”.


Ela parece diminuir a importância do que vem depois, mas acaba fazendo justamente o contrário.


Na pior das hipóteses, o professor ensina uma criança a ler. E essa criança passa a ter acesso a mundos que antes lhe eram inacessíveis.


Na pior das hipóteses, ajuda um adolescente a descobrir que sua dificuldade em determinada disciplina não significa incapacidade para aprender.


Na pior das hipóteses, ensina alguém a argumentar sem agredir, a discordar sem desumanizar e a reconhecer que o conhecimento exige humildade.


Na pior das hipóteses, apresenta um livro que desperta uma vocação, uma experiência artística que abre novas possibilidades de expressão ou uma pergunta filosófica que acompanha alguém por décadas.


Na pior das hipóteses, faz um estudante perceber que não precisa repetir a história que lhe contaram sobre si mesmo.


E, na pior das hipóteses, faz toda a diferença.


Porque educar não é garantir que todos percorram o mesmo caminho. É oferecer condições para que cada pessoa descubra caminhos que talvez nem soubesse que existiam.


O professor diante das invisibilidades


Quem trabalha com educação sabe que nem toda transformação é imediatamente visível.


Há estudantes que demonstram aprendizado nas notas. Outros revelam avanços na maneira de se comunicar, na capacidade de trabalhar em grupo, na disposição para perguntar ou na coragem de tentar novamente depois de errar.


Nem todo progresso aparece em uma avaliação.


Uma criança que finalmente consegue ler uma frase sozinha experimenta algo que vai muito além da decodificação das palavras: descobre que é capaz de realizar uma tarefa que antes parecia distante.


Um adolescente que aprende a defender suas ideias sem precisar humilhar os colegas começa a desenvolver uma competência essencial para a vida em sociedade.


Um estudante que se reconhece em uma obra de arte pode encontrar uma linguagem para sentimentos que ainda não conseguia expressar.


São acontecimentos aparentemente pequenos. Mas a vida humana é construída também por essas pequenas mudanças.


O problema é que a sociedade costuma celebrar os resultados e ignorar o processo. Queremos profissionais competentes, cidadãos críticos, pessoas emocionalmente maduras e indivíduos capazes de conviver com as diferenças, mas nem sempre reconhecemos o trabalho cotidiano de quem participa dessa formação.


Cobramos da educação aquilo que, muitas vezes, não estamos dispostos a valorizar.


Quando o professor deixa marcas


Nem todo professor será lembrado pelo nome de sua disciplina. Alguns serão lembrados por uma frase. Outros, por uma atitude. Há aqueles que serão recordados porque acreditaram em alguém quando ninguém mais parecia acreditar.


Isso não transforma o professor em herói, nem significa que todos os educadores sejam extraordinários em todos os momentos.


Professores são seres humanos. Também se cansam, erram, frustram-se e precisam de apoio, formação, condições dignas de trabalho e reconhecimento profissional.


Idealizar a docência como uma missão de sacrifício permanente é outra forma de desvalorizar quem a exerce.


O professor não precisa viver exausto para provar que ama ensinar. Precisa de condições para ensinar bem.


Não basta homenageá-lo em uma data comemorativa enquanto se ignora a precarização de seu trabalho. Não basta dizer que a educação transforma vidas se não houver investimento, respeito à profissão e compromisso coletivo com a aprendizagem.


Reconhecer a importância do professor significa ir além dos aplausos.


Significa compreender que a qualidade da educação não pode depender exclusivamente da dedicação individual de quem está diante de uma turma.


Ensinar também é um ato de responsabilidade social


Uma sociedade que educa não está apenas preparando pessoas para o mercado de trabalho. Está formando indivíduos capazes de compreender seus direitos, reconhecer seus deveres, participar da vida pública e questionar as estruturas que organizam a realidade.


A educação não elimina automaticamente as desigualdades, nem garante que todo estudante terá as mesmas oportunidades. Mas pode ampliar possibilidades, oferecer instrumentos de compreensão e ajudar a romper ciclos de exclusão.


É por isso que o acesso ao conhecimento importa tanto.


Quando ensinamos alguém a pensar criticamente, não estamos determinando o que essa pessoa deverá pensar. Estamos oferecendo ferramentas para que ela possa construir suas próprias conclusões, confrontar argumentos e rever suas posições diante de novas evidências.


Um professor comprometido com a formação humana não precisa produzir estudantes que concordem com ele. Precisa contribuir para que desenvolvam a capacidade de pensar com autonomia e responsabilidade.


Talvez seja justamente essa uma das maiores contribuições da educação: permitir que o sujeito deixe de ser apenas espectador da própria história e passe a participar conscientemente de sua construção.


Afinal, o que faz um professor?


Ele ensina conteúdos, desenvolve habilidades, orienta processos de aprendizagem e participa da formação de pessoas.


Mas também pode despertar curiosidades, ampliar horizontes, questionar preconceitos, estimular a criatividade e ajudar alguém a reconhecer possibilidades que antes não conseguia enxergar.


Nem sempre saberá o alcance de seu trabalho.


Talvez nunca descubra que aquele estudante, anos depois, escolheu uma profissão porque uma aula despertou seu interesse. Talvez jamais saiba que uma conversa ajudou alguém a atravessar um momento difícil. Talvez não receba reconhecimento por uma transformação que só será percebida muito tempo depois.


Ainda assim, continua ensinando.


E é por isso que a frase permanece tão poderosa.


Afinal, que faz um professor?


Na pior das hipóteses, ensina alguém a ler o mundo.


Na melhor, ajuda esse alguém a descobrir que também pode transformá-lo.


E, entre uma hipótese e outra, existe uma infinidade de vidas tocadas pelo conhecimento, pela escuta e pela oportunidade de aprender.


Talvez não consigamos medir toda a diferença que um professor faz. Mas certamente podemos escolher se vamos reconhecê-la ou continuar fingindo que ela não existe.


Porque uma sociedade que desvaloriza seus professores pode até continuar produzindo informações.


O que precisa explicar é como pretende formar pessoas capazes de compreendê-las, questioná-las e utilizá-las para construir um mundo melhor.


Na pior das hipóteses, um professor faz toda a diferença. E talvez seja justamente por isso que precisamos levar a educação tão a sério.

“Na pior das hipóteses, ensina alguém a ler o mundo. Na melhor, ajuda esse alguém a descobrir que também pode transformá-lo.”

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Abilio Machado


Psicanalista e Psicoterapeuta | Arte-educador


Educar é mais do que transmitir conhecimento: é ampliar as possibilidades de alguém compreender a si mesmo, o outro e o mundo.

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