A Árvore que Pensava Estar Morrendo
A Árvore que Pensava Estar Morrendo
Quem viveu os primórdios da internet certamente se lembra de um dos memes mais curiosos e carinhosamente engraçados da cultura brasileira: "As árveres somos nozes...". A frase, escrita de forma propositalmente errada, arrancava risadas justamente por sua simplicidade. Mas, curiosamente, por trás do humor quase infantil, escondia-se uma verdade profunda.
As árvores somos nós.
Cada um de nós.
Com nossos períodos de sombra e de luz, de crescimento e de aparente estagnação, de flores e de galhos nus.
Há fases da vida em que olhamos para nós mesmos como quem contempla uma árvore no inverno. Os galhos parecem secos, as folhas desapareceram, os frutos já não estão ali e a impressão é de que tudo terminou. Muitas pessoas carregam essa sensação silenciosa: acreditam que perderam algo essencial de si mesmas, que envelheceram emocionalmente, que fracassaram ou que não possuem mais forças para florescer.
Mas a natureza nos ensina uma verdade que frequentemente esquecemos: a mesma árvore que parece morta em uma estação é aquela que, algum tempo depois, volta a cobrir-se de verde.
Na clínica, observo quantas pessoas confundem uma fase difícil com sua identidade permanente. Uma perda afetiva, um desemprego, uma doença, uma decepção familiar ou uma crise existencial acabam sendo interpretados como uma definição da própria vida. O sofrimento passa a ser visto não como uma estação, mas como um destino.
A psicanálise nos mostra que o ser humano possui uma tendência curiosa: transformar momentos em eternidades. Quando estamos felizes, acreditamos que a alegria durará para sempre. Quando estamos sofrendo, temos a mesma ilusão, imaginando que a dor jamais terminará. Porém, a existência é movimento. Nada permanece exatamente igual.
Sob um olhar social, vivemos numa cultura que valoriza apenas as "primaveras". As redes sociais exibem conquistas, sorrisos, viagens, corpos impecáveis e sucessos profissionais. Poucos mostram seus invernos. Poucos compartilham seus períodos de silêncio, de luto, de reconstrução ou de dúvidas.
Isso gera uma falsa impressão coletiva de que somente nós estamos atravessando tempos difíceis. Como consequência, muitos sentem vergonha de suas próprias secas emocionais.
Entretanto, até mesmo a terra precisa descansar para voltar a produzir.
Sob a perspectiva teológica, existe uma mensagem profunda nessa imagem da árvore. Deus não trabalha apenas nas épocas de florescimento. Muitas vezes Sua ação mais importante acontece quando nada parece estar acontecendo. As raízes crescem longe dos olhos. A transformação ocorre no oculto. O amadurecimento espiritual raramente acontece durante os aplausos; geralmente nasce nos desertos.
As Escrituras estão repletas de personagens que atravessaram seus invernos particulares. Houve momentos de espera, solidão, fracassos e incertezas. Contudo, aquilo que parecia o fim tornou-se preparação para uma nova etapa.
Talvez a maior sabedoria seja compreender que não precisamos florescer o tempo todo.
Existem períodos para produzir e períodos para recolher-se.
Há momentos para cantar e outros para escutar.
Há dias de abundância e dias de aprendizado.
A árvore não se desespera quando perde suas folhas. Ela sabe, pela linguagem silenciosa da natureza, que a vida continua circulando em seu interior.
Quem sabe sua alma esteja vivendo exatamente isso agora.
Talvez você esteja olhando para os galhos e esquecendo das raízes.
Talvez esteja observando aquilo que perdeu e não percebendo aquilo que está sendo fortalecido.
Talvez esteja chamando de fim aquilo que Deus chama de preparação.
E talvez o velho meme estivesse mais certo do que imaginávamos:
"As árveres somos nozes."
Porque, no fundo, todos nós passamos pelas mesmas estações.
E a boa notícia é que o inverno nunca tem a última palavra.
Abilio Machado
Psicoarteterapeuta
📸 Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado
Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.






