sexta-feira, 15 de maio de 2026

Quando o Corpo Começa a Se Despedir: os sinais silenciosos entre a carne, a alma e o tempo...

 


Quando o Corpo Começa a Se Despedir: os sinais silenciosos entre a carne, a alma e o tempo...

Por Abilio Machado 

Há algo profundamente humano — e quase sagrado — no instante em que o corpo começa a compreender aquilo que a mente ainda tenta negar: a proximidade da morte.

A medicina descreve esse processo através da fisiologia, da falência orgânica e das alterações neurológicas. A espiritualidade, por sua vez, tenta traduzir esse fenômeno como travessia, despedida ou retorno. Entre uma linguagem e outra, existe o ser humano: frágil, consciente e misterioso.

O corpo fala antes da palavra.

E, muitas vezes, ele começa pelo invisível.

O cheiro muda. A respiração muda. O olhar muda.

Há uma espécie de silêncio biológico que antecede a ausência definitiva.

Em contextos paliativos, profissionais experientes relatam perceber alterações sutis no odor corporal quando o organismo entra em processo de falência progressiva. Não se trata de “misticismo”, mas de mudanças químicas produzidas pelo colapso metabólico dos órgãos. O nariz humano — tão ligado à memória e ao instinto — frequentemente percebe aquilo que os exames ainda tentam confirmar.

Talvez por isso tantos familiares digam frases como:

“Eu senti que algo havia mudado.”

Porque sentir também é uma forma de saber.

O corpo reduz o mundo para preservar o essencial

Quando a morte se aproxima, o organismo entra em economia extrema de energia.

Ele desliga lentamente aquilo que não considera mais prioridade.

A fome desaparece.

O sono aumenta.

Os movimentos se tornam lentos.

A consciência oscila entre presença e distância.

Não é abandono.

É despedida biológica.

A circulação sanguínea diminui nas extremidades, tornando mãos e pés frios, pálidos ou azulados. A respiração pode alternar pausas longas e ritmos irregulares — fenômeno conhecido na medicina como respiração de Cheyne-Stokes. O cérebro também reduz sua atividade, produzindo confusão mental, silêncios prolongados e estados de sonolência profunda.

O corpo não “desiste”.

Ele apenas começa a fechar portas internas.

A morte não chega apenas no fim — ela chega aos poucos

Existe um equívoco em imaginar a morte apenas como um instante.

Na verdade, ela costuma ser um processo.



Uma travessia lenta entre presença e ausência.

Em muitos casos, familiares percebem mudanças antes mesmo dos profissionais de saúde: um olhar mais distante, uma quietude incomum, uma espécie de cansaço existencial que não cabe apenas no diagnóstico. A ciência compreende isso como alterações neurofisiológicas e metabólicas; já diversas culturas interpretam como um movimento espiritual do ser.

Talvez ambas estejam certas.

Porque o ser humano nunca foi apenas biologia.

Mas também nunca deixou de ser corpo.

O nariz, a memória e o adeus

O olfato é um dos sentidos mais primitivos da existência humana. Antes mesmo das palavras, o cheiro já nos ensinava perigo, afeto, doença, alimento e proteção. Médicos antigos diagnosticavam enfermidades através do odor corporal muito antes dos exames laboratoriais modernos.

Curiosamente, é justamente esse sentido ancestral que muitas vezes percebe os primeiros sinais do fim.

Como se o corpo, silenciosamente, começasse a anunciar sua despedida através daquilo que não pode mais sustentar.

Humanizar o fim também é cuidar da vida

Reconhecer esses sinais não deve servir para alimentar medo, mas compaixão.

Entender o processo da morte permite oferecer presença, dignidade e cuidado.

Os cuidados paliativos nasceram exatamente dessa compreensão: quando não é mais possível curar, ainda é possível aliviar, acolher, escutar e amar.

Porque ninguém deveria partir sentindo-se apenas um corpo adoecido.

Todo ser humano continua sendo história, memória, vínculo e afeto até o último suspiro.

E talvez a grande maturidade espiritual não esteja em negar a morte, mas em aprender a olhar para ela sem abandonar a ternura pela vida.

— Abilio Machado

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

sábado, 9 de maio de 2026

O Menino Que Não Cabia na Carteira da Sala

 


O Menino Que Não Cabia na Carteira da Sala

A professora respirou fundo antes de chamar a mãe para conversar.

Do outro lado da mesa, uma mulher cansada apertava a bolsa contra o peito como quem tenta impedir o coração de escapar.

— “Seu filho não para.”

— “Seu filho se distrai.”

— “Seu filho interrompe.”

— “Seu filho precisa aprender limites.”

A mãe ouviu tudo em silêncio.

Quem vive a maternidade de uma criança com TDAH aprende cedo a traduzir acusações em boletins emocionais.

O que quase ninguém percebe é que, muitas vezes, aquela criança já passou o dia inteiro lutando contra si mesma.

Enquanto os outros conseguem organizar o pensamento como quem arruma livros numa estante, ela tenta segurar páginas voando dentro da cabeça.

O mundo cobra foco de alguém que vive cercado de tempestades internas.

E o mais cruel: ela geralmente sabe que “deveria conseguir”.

É comum imaginarem o TDAH como simples agitação.

Mas existe um sofrimento silencioso por trás do comportamento que incomoda a sala.

Há crianças que começam a acreditar que são “erradas”.

Adolescentes que aprendem a rir de si mesmos antes que os outros riam.

Adultos que carregam até hoje cicatrizes de frases ouvidas na infância:

— “Você é inteligente, mas não se esforça.”

— “Você só faz o que quer.”

— “Você é preguiçoso.”

— “Você não termina nada.”

Pouca gente entende o peso psicológico de crescer sendo corrigido o tempo todo.

A escola, quando despreparada, transforma diferença em defeito.

Mas quando acolhe, pode se tornar o primeiro lugar onde a criança descobre que não é um problema ambulante.

Adaptar não é favorecer.

É permitir acesso.

Dar mais tempo numa avaliação não cria privilégio.

Cria possibilidade.

Permitir estratégias diferentes não diminui a aprendizagem.

Diminui o sofrimento desnecessário.

Porque inclusão de verdade não acontece quando colocam a criança dentro da sala.

Acontece quando ela finalmente sente que pertence ali.

Existe uma violência muito sutil em exigir que todas as mentes funcionem da mesma maneira.

Nem toda criança aprende sentada em silêncio absoluto.

Nem toda inteligência cabe no modelo tradicional.

Nem toda inquietação é desrespeito.

Às vezes, é apenas um cérebro pedindo socorro enquanto o mundo insiste em chamar aquilo de má educação.

E talvez o maior desafio não seja ensinar matemática, português ou ciências.

Talvez seja ensinar humanidade.

Porque um aluno que cresce sendo compreendido pode desenvolver autonomia, autoestima e potência.

Mas um aluno que cresce sendo humilhado pode passar a vida inteira tentando provar que não é incapaz.

No fundo, muitas crianças com TDAH não precisam de rótulos heroicos.

Precisam apenas de adultos menos cruéis com aquilo que não compreendem.

E isso muda tudo.

— Psicoarteterapeuta Abilio Machado

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Espulso de algum paraiso

 


A frase de Melanie Klein toca em um ponto delicado da existência: conhecer transforma — e toda transformação cobra um preço.

Há um tipo de “paraíso” que só existe enquanto não sabemos. É o lugar da ilusão confortável, das certezas herdadas, das narrativas que nos protegem da dor de enxergar. Quando começamos a pensar por nós mesmos, quando elaboramos afetos, conflitos e verdades internas, algo se rompe. E não há retorno possível.

O conhecimento, especialmente o emocional, não é apenas aquisição de informação — é perda de inocência. É sair de relações idealizadas, rever vínculos, questionar estruturas internas e externas. É deixar para trás versões de si que já não sustentam quem nos tornamos.

Na clínica e na vida, vemos isso com frequência: amadurecer implica luto. Luto pelas fantasias que nos protegiam. Luto por vínculos que mudam quando passamos a enxergá-los com mais clareza. Mas também é nesse movimento que nasce a liberdade psíquica — a possibilidade de existir com mais verdade, mesmo que com menos conforto.

Talvez o “paraíso” perdido não seja um erro… mas uma etapa.

E crescer seja, justamente, aprender a habitar a realidade sem precisar fugir dela.

Aquela criança ainda existe

 


Muita gente elogia a criança quieta sem imaginar o peso escondido naquele silêncio. Nem sempre era calma. Às vezes era medo de ocupar espaço. Medo de pedir, de errar, de cansar, de virar problema. Então ela aprende cedo a resolver tudo sozinha e cresce com a impressão de que necessidade é fraqueza.


Na vida adulta, isso aparece de muitos jeitos. Gente que ajuda todo mundo, mas se envergonha quando precisa de colo. Gente competente, forte, admirada, mas cansada de nunca poder desabar. Um coração assim não precisa de cobrança. Precisa descobrir, com delicadeza, que ser amado não depende de desempenho. Presença também merece cuidado.

A técnica da cadeira vazia mais aplicação prática na arteterapia

 

A técnica da cadeira vazia é uma ferramenta clássica da Gestalt-terapia, criada por Fritz Perls. Ela parece simples — e é justamente essa simplicidade que a torna tão potente.

🪑 O que é, na prática?

Imagine duas cadeiras:

Uma é a sua.

A outra é de alguém ou algo importante (uma pessoa, um sentimento, uma parte de você mesmo).

Você vai dialogar com essa “presença”, mesmo que ela não esteja ali fisicamente.

🎭 Como aplicar (passo a passo simples)

1. Defina quem (ou o quê) estará na cadeira

Pode ser:

Uma pessoa (viva ou não)

Um sentimento (raiva, medo, culpa)

Uma versão sua (criança, futuro, “eu crítico”)

2. Fale com a cadeira

Sente-se na sua cadeira e diga tudo o que está guardado:

Sem filtros

Sem julgamentos

Como se a pessoa estivesse ali

Exemplo:

“Eu fiquei magoado quando você disse aquilo…”

3. Troque de lugar

Agora sente-se na cadeira vazia e responda como se fosse o outro.

Aqui entra algo profundo:

você acessa percepções, memórias e até empatia que estavam escondidas.

4. Volte para sua cadeira

Responda novamente.

Esse “vai e vem” cria um diálogo interno que antes estava travado.

🧠 Para que serve?

A técnica ajuda a:

Resolver conflitos internos

Elaborar sentimentos não expressos

Trabalhar luto e despedidas

Reduzir ansiedade emocional

Desenvolver autocompreensão

⚠️ Um cuidado importante

Apesar de parecer um exercício simples, ele pode ativar emoções intensas.

Por isso, quando possível, é ideal fazer com acompanhamento terapêutico — especialmente em temas mais delicados.

🌱 Um jeito de entender com profundidade

A cadeira vazia não é sobre “imaginar alguém”.

É sobre dar voz ao que ficou interrompido dentro de você.

Muitas vezes, não sofremos apenas pelo que aconteceu…

mas pelo que não conseguimos dizer.

A aplicação na arteterapia - versão pessoal.

A aplicação da cadeira vazia na arteterapia é um encontro muito bonito entre a expressão verbal e a simbólica. Aqui, não se trata apenas de falar — mas de dar forma, cor e imagem ao que não encontrou linguagem direta.

Essa integração dialoga tanto com a Gestalt-terapia quanto com a Arteterapia, ampliando o campo de acesso ao mundo interno.



🎨🪑 O que muda na arteterapia?

Na prática tradicional, a pessoa fala com a cadeira.

Na arteterapia, ela cria antes de dialogar.

A cadeira deixa de ser apenas um lugar imaginário e passa a ser ocupada por uma representação simbólica:

um desenho

uma pintura

uma colagem

um objeto construído

Ou seja: o invisível ganha corpo.

🖌️ Como aplicar (passo a passo terapêutico)

1. Criação da “presença”

Convide o paciente a representar quem ou o que ocupará a cadeira:

“Desenhe essa pessoa”

“Dê forma à sua ansiedade”

“Como seria a sua criança interior?”

Não importa técnica — importa autenticidade simbólica.

2. Posicionamento no espaço

Coloque a produção artística na cadeira vazia.

Isso gera um efeito poderoso: externaliza o conflito.

O que estava dentro agora pode ser visto, encarado, nomeado.

3. Diálogo com a obra

O paciente fala com a criação:

“O que você quer de mim?”

“Por que você aparece assim?”

A obra funciona como mediadora — muitas vezes facilitando falas que não sairiam diretamente.

4. Inversão de papéis

Agora o paciente muda de lugar e responde como se fosse a própria imagem criada.

Esse momento costuma trazer:

insights inesperados

emoções mais profundas

contato com conteúdos inconscientes

5. Integração simbólica

Ao final, é possível:

modificar a obra

acrescentar elementos

rasgar, reconstruir ou transformar

Aqui acontece algo essencial:

não apenas falar sobre a dor — mas transformá-la simbolicamente.

🌱 Potências clínicas dessa abordagem

Acessa conteúdos difíceis de verbalizar

Diminui resistências (especialmente em adolescentes)

Favorece projeção e elaboração emocional

Trabalha traumas de forma mais segura e indireta

Integra corpo, emoção e cognição

👁️ Um olhar mais profundo

Na arteterapia, a cadeira vazia deixa de ser apenas técnica…

e se torna quase um pequeno ritual de encontro consigo mesmo.

A imagem criada não é só um desenho.

Ela é uma porta.

E, muitas vezes, o paciente não precisa encontrar respostas prontas —

basta, pela primeira vez, sentar-se diante daquilo que sempre evitou olhar.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Quando as marcas deixam de ser feridas e se tornam linguagem da alma


 Quando as marcas deixam de ser feridas e se tornam linguagem da alma

Há uma pergunta que atravessa silenciosamente a existência humana: o que você fez com aquilo que te aconteceu? Não se trata apenas dos fatos, mas daquilo que eles produziram dentro de você. A dor, por si só, não nos define — mas o sentido que damos a ela, sim.

A imagem do pequeno inseto que transforma suas pintas em corações é, na sua simplicidade, uma metáfora profundamente clínica e espiritual. Ela fala de um processo que, na psicologia, chamamos de ressignificação, e que, na teologia, pode ser compreendido como redenção da experiência vivida.

A dor que marca e a alma que interpreta

Na prática clínica, especialmente com adolescentes e adultos que carregam histórias de crítica, rejeição ou abandono, vemos que o sofrimento não está apenas no evento original, mas na narrativa construída a partir dele. Uma criança que ouviu repetidamente que “não é capaz” pode crescer acreditando que há algo essencialmente errado consigo.

Essas marcas tornam-se, muitas vezes, “verdades internas”. Elas não são apenas lembranças — são lentes. E é através dessas lentes que a pessoa passa a enxergar a si mesma, o outro e o mundo.

Mas aqui está o ponto crucial: a marca não precisa ser apagada para deixar de doer. Ela precisa ser reinterpretada.

Ressignificar não é negar, é transformar

Existe um equívoco comum ao se falar de ressignificação: o de que ela seria uma forma de minimizar ou negar a dor. Não é. Ressignificar é um ato de coragem psíquica e espiritual. É olhar para a ferida e dizer: isso me feriu, mas não me define.

Na psicologia essencial — essa integração entre pensamento, emoção, história e simbolismo — compreendemos que o ser humano não é prisioneiro do que viveu, mas coautor do que fará com isso.

E aqui a teologia nos oferece uma ponte poderosa.

A lógica do Reino: transformar cicatrizes em testemunho

Na tradição cristã, a dor nunca é o ponto final. A cruz, símbolo máximo do sofrimento, torna-se também símbolo de redenção. Não porque a dor foi ignorada, mas porque foi atravessada com sentido.

A ressurreição não apaga as marcas — Cristo ressuscitado ainda carrega as cicatrizes. Mas agora elas não são mais sinais de derrota, e sim de vitória.

Essa é uma chave psicoteológica fundamental: Deus não trabalha na negação da história, mas na sua transfiguração.

Entre a crítica e a reconstrução

Muitos de nós carregamos “pintas” deixadas por experiências difíceis: palavras duras, rejeições, falhas, perdas. No início, elas parecem apenas manchas — lembranças incômodas que gostaríamos de apagar.

Mas o processo terapêutico e espiritual nos convida a algo diferente: pegar o “pincel” da consciência e começar a redesenhar essas marcas.

Não se trata de fantasia, mas de elaboração. É quando a pessoa consegue dizer:

“Aquilo que me disseram não define quem eu sou.”

“Aquilo que vivi não limita quem eu posso me tornar.”

“Minha história não termina onde fui ferido.”

O risco de não ressignificar

Quando esse processo não acontece, as marcas continuam sendo vividas como feridas abertas. E isso pode gerar:

-baixa autoestima persistente

-dificuldade de vínculo

-necessidade constante de validação externa

-reprodução inconsciente de padrões dolorosos

Além disso, há um fenômeno importante: pessoas feridas que não elaboram suas dores tendem, muitas vezes, a ferir outros — não por maldade deliberada, mas por repetição psíquica.

Por isso, ressignificar não é apenas um ato de autocuidado — é também um ato ético.

A espiritualidade como espaço de reconstrução

A fé, quando bem compreendida, não exige que você seja perfeito — ela te convida a ser inteiro. E ser inteiro inclui reconhecer as próprias marcas.

Na espiritualidade madura, não há negação da dor, mas há esperança de transformação. Há um Deus que não apenas vê a ferida, mas caminha com você no processo de dar a ela um novo significado.

Ressignificar, nesse contexto, é também um ato de fé: acreditar que aquilo que parecia apenas dor pode se tornar fonte de sentido, empatia e até cuidado com o outro.

Um convite silencioso

Talvez hoje a pergunta não seja “o que fizeram com você”, mas sim:

o que você está fazendo com isso agora?

Você pode continuar vendo apenas manchas…

ou pode, com tempo, consciência e cuidado, transformá-las em algo que fale de amor, de superação, de vida.

Nem toda marca desaparece.

Mas toda marca pode ganhar um novo significado.

📞 Telefone: 41 99845-1364 | 41 99635-3923

📷 Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado

Referência:

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Autismo em Mulheres Adultas: o silêncio de quem aprendeu a caber no mundo

 


Autismo em Mulheres Adultas: o silêncio de quem aprendeu a caber no mundoI

Por Abilio Machado 

Introdução

Há mulheres que passaram a vida inteira tentando entender por que se sentiam diferentes — não exatamente deslocadas, mas como se habitassem o mundo por dentro de um vidro invisível. Participam, sorriem, respondem… mas algo nunca repousa.

Durante muito tempo, o Transtorno do Espectro Autista foi desenhado a partir de olhares masculinos. E, nesse desenho, muitas mulheres ficaram fora da moldura. Não por ausência de traços, mas por excesso de adaptação.

O autismo feminino existe — mas, frequentemente, ele não grita. Ele sussurra.

Desenvolvimento

O corpo que aprende a atuar

Desde cedo, muitas mulheres aprendem a observar antes de agir. Estudam gestos, decoram expressões, treinam respostas. Não é falsidade — é sobrevivência emocional.

Esse fenômeno, conhecido como camuflagem social, cobra um preço alto: cansaço profundo, sensação de não pertencimento e, por vezes, a angústia de não saber quem se é sem o roteiro aprendido (Hull et al., 2017).

É como se viver fosse, diariamente, entrar em cena.

O mundo sentido em volume alto

Há também um corpo que sente demais.

Luzes que incomodam. Sons que atravessam. Ambientes cheios que não apenas cansam — invadem. A Neurociência nos ajuda a compreender que, no autismo, o processamento sensorial pode acontecer de forma amplificada (Robertson & Baron-Cohen, 2017).

Mas, na clínica, isso se traduz de outro jeito: em silêncios depois do excesso, em necessidade de recolhimento, em um cansaço que não se explica — apenas se sente.

Profundidade não é exagero

Muitas dessas mulheres carregam interesses intensos, afetos densos, pensamentos que mergulham fundo.

São vistas como “sensíveis”, “intensas”, “artísticas”. E são mesmo. Mas, às vezes, há mais ali: uma forma própria de organizar o mundo, de se relacionar com o sentido das coisas.

Na psicoarteterapia, esses caminhos simbólicos não são corrigidos — são acolhidos como linguagem.

Os nomes que vieram antes

Antes do nome que organiza, vieram outros que confundiram.

Ansiedade. Depressão. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Transtorno de personalidade borderline.

Diagnósticos que, muitas vezes, descrevem partes — mas não contam a história inteira.

E assim, o essencial vai sendo adiado.

Discussão

Há uma expectativa silenciosa sobre o que é “ser mulher”: saber se relacionar, cuidar, perceber o outro, se adaptar.

E quando alguém precisa aprender tudo isso de forma consciente, treinada, exaustiva — algo se rompe por dentro.

A escuta clínica, então, precisa ser mais do que técnica. Precisa ser ética e sensível. Precisa perceber o que não foi dito, o que foi escondido para caber, o que foi silenciado para ser aceito.

Nesse caminho, a psicoarteterapia oferece algo raro: um espaço onde não é preciso performar.

Como nos lembra Winnicott (1975), é no espaço do brincar — onde não há exigência de acerto — que o verdadeiro self pode emergir.

E, às vezes, é ali que uma mulher, pela primeira vez, se encontra.

Conclusão

Receber um diagnóstico na vida adulta não é o início de um problema — é o início de uma tradução.

De repente, o passado faz sentido. As dificuldades ganham contexto. E a culpa começa, lentamente, a ceder lugar à compreensão.

Reconhecer o autismo feminino é reconhecer histórias que foram vividas em silêncio.

E talvez, mais do que qualquer nome, o que essas mulheres precisam é de algo mais simples — e mais profundo:

Um lugar onde possam existir sem precisar se adaptar o tempo todo.

Referências

HULL, L. et al. “Putting on My Best Normal”: Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 2017.

LAI, M.-C. et al. Sex/Gender Differences and Autism: Setting the Scene for Future Research. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 2015.

ROBERTSON, C. E.; BARON-COHEN, S. Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, 2017.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 2014.


📲 Redação

Há mulheres que passaram a vida inteira tentando se encaixar… sem nunca entender por quê.

O autismo em mulheres adultas muitas vezes não aparece como nos livros. Ele se esconde na adaptação, no cansaço após interações, na sensibilidade intensa e na sensação persistente de ser “diferente”.

Muitas aprenderam a atuar socialmente tão bem… que desapareceram de si mesmas.

O diagnóstico não rotula — ele revela.

Ele organiza uma história que, por muito tempo, foi vivida em silêncio.

O autismo feminino existe.

E merece ser visto, compreendido e acolhido.

#AutismoFeminino #SaúdeMental #Psicologia #Neurodiversidade #Psicoarteterapia


Quando o Corpo Começa a Se Despedir: os sinais silenciosos entre a carne, a alma e o tempo...

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