segunda-feira, 15 de junho de 2026

Demência Corporal Lewy - Quando a Mente Acende e Apaga as Luzes

 

Quando a Mente Acende e Apaga as Luzes


Por Abilio Machado – Psicoarteterapeuta


Outro dia ouvi uma familiar dizer algo que me chamou a atenção:


— Doutor, tem dias que minha mãe conversa normalmente, lembra de fatos antigos, ri das histórias da família. No dia seguinte parece outra pessoa. Fica confusa, vê coisas que ninguém vê e não consegue acompanhar uma conversa simples. É como se alguém ficasse acendendo e apagando as luzes da mente dela.


A comparação foi perfeita.


Muitas pessoas conhecem a Doença de Alzheimer, mas poucas ouviram falar da Demência por Corpos de Lewy. E talvez justamente por isso tantas famílias sofram tentando entender o que está acontecendo com quem amam.


Imagine o cérebro como uma grande cidade iluminada. As informações circulam pelas ruas, as lembranças encontram seus caminhos, os pensamentos chegam ao destino certo. Porém, na Demência por Corpos de Lewy, pequenos depósitos anormais de proteínas começam a se acumular dentro das células nervosas, atrapalhando esse funcionamento.


O resultado é uma cidade onde os semáforos falham, as luzes piscam e algumas ruas deixam de funcionar adequadamente.


Diferente do Alzheimer, onde a perda de memória costuma ser o sinal mais evidente, na Demência por Corpos de Lewy a pessoa pode apresentar oscilações impressionantes. Pela manhã parece estar completamente lúcida. À tarde, encontra-se desorientada. No dia seguinte volta a conversar normalmente.


Isso costuma gerar sofrimento para a família.


Muitos pensam:


— Será que ela está fingindo?

— Será que está fazendo drama?

— Será que é psicológico?


Não.


Essas oscilações fazem parte da própria doença.


Outro aspecto que costuma assustar são as alucinações visuais. A pessoa pode enxergar crianças brincando na sala, animais caminhando pela casa ou visitantes que simplesmente não existem.


Para quem observa de fora, aquilo parece absurdo. Para quem está vivendo a experiência, porém, é absolutamente real.


Discutir, corrigir ou confrontar geralmente aumenta a angústia. O acolhimento costuma ser mais útil do que a tentativa de provar que aquilo não existe.


Além disso, podem surgir sintomas parecidos com os da Doença de Parkinson: lentidão nos movimentos, rigidez muscular, dificuldade para caminhar e maior risco de quedas.


O sono também pode se tornar um desafio. Algumas pessoas conversam, gritam, chutam ou gesticulam durante os sonhos, como se estivessem vivendo aquilo que estão sonhando.


O que mais me impressiona nessa condição é que ela nos ensina algo profundamente humano.


A identidade não desaparece de uma vez.


Ela vai ficando escondida atrás de nuvens.


Existem momentos em que a pessoa retorna. Um sorriso conhecido aparece. Uma lembrança surge inesperadamente. Um olhar reconhece alguém amado. Por alguns minutos, a nuvem se abre e o sol reaparece.


É por isso que o cuidado não pode se limitar aos medicamentos.


Quem convive com alguém portador de Demência por Corpos de Lewy precisa aprender uma nova linguagem: a linguagem da paciência, da presença e da compreensão.


Nem sempre será possível corrigir a memória.


Mas quase sempre será possível oferecer segurança.


Nem sempre será possível restaurar as capacidades perdidas.


Mas será possível preservar a dignidade.


Porque quando a mente começa a apagar algumas luzes, o amor precisa aprender a iluminar os caminhos que permanecem.


Um exemplo da doença: 

Meses depois, a autópsia revelou quem foi realmente o responsável. Não a depressão.


"Demência corporal Lewy", explicaram os médicos. "Um dos casos mais graves que já vimos. " »


Ninguém sabia quando ele ainda estava vivo.


Durante décadas, Robin Williams parecia imparável.


De *Mork & Mindy* em 1978 para *The Lost Poets Circle* em 1989, depois *Madame Doubtfire* em 1993, ele havia construído uma carreira única.


A mente dele estava a correr a uma velocidade extraordinária.


Cineastas, parceiros e espectadores viram todos a mesma coisa: um artista cuja imaginação parecia ilimitada.


Espere um minuto, ele estava seguindo o guião.


No momento seguinte ele estava inventando algo ainda melhor.


Mas por trás das risadas, algo estava errado.


Durante os últimos anos de sua vida, Robin começou a sofrer de ansiedade, confusão, problemas de memória e distúrbios graves do sono. Foi difícil entender o que estava acontecendo com ele.


"Estou a perder a cabeça", disse ele à sua esposa, Susan Schneider Williams.


Mais tarde, ela lembrou-se do medo que leu em seus olhos.


Aqueles momentos em que ele parecia incapaz de entender o que estava acontecendo na sua própria mente.


A doença que o estava a devastar era a demência corporal de Lewy, uma condição neurológica devastadora que afeta o movimento, a memória, o humor, o sono e as habilidades de raciocínio.


Seus sintomas muitas vezes se assemelham aos de depressão, doença de Parkinson ou distúrbios de ansiedade.


É por isso que ela é frequentemente mal compreendida.


E às vezes diagnosticado tarde demais.


Em 2014, os danos tornaram-se impossíveis de ignorar.


Durante as filmagens de *A Noite no Museu: O Segredo dos Faraós*, as pessoas ao seu redor notaram mudanças.


As falas dele estavam ficando mais difíceis de lembrar.


Esta capacidade natural de improvisação que definiu toda a sua carreira estava a começar a desaparecer.


Para um homem cujo maior talento assentava na rapidez e brilho da sua inteligência, esta perda foi devastadora.


Susan mais tarde descreveu a doença como "um terrorista no seu cérebro. "


Ela atacou tudo de uma vez.


Os pensamentos dele.


As emoções dela.


A confiança dela nele.


A capacidade dele para trabalhar.


E mesmo assim, ele continuou.


Os amigos dela disseram que o calor humano dela ainda estava lá.


Sua bondade sempre esteve lá.


O desejo dela de se conectar com os outros sempre esteve lá.


Mesmo quando a doença gradualmente tirou mais dele.


Após a sua morte, os médicos finalmente identificaram a extensão total da doença.


Sua família então escolhe falar sobre isso abertamente.


Não para não chamar atenção.


Mas para ajudar os outros a reconhecer os sinais de alerta.


Esta honestidade aumentou a consciência significativa da demência corporal de Lewy e incentivou mais pesquisas sobre a doença.


O que muitos tinham inicialmente percebido como uma história triste acabou por ser algo muito mais complexo.


Era a história de uma doença neurológica séria escondida por trás de um sorriso familiar.


Robin Williams passou a vida a trazer alegria a milhões de pessoas.


Ele fez as pessoas rirem nos seus dias mais difíceis.


Através de todas as fases da sua carreira, ele ofereceu conforto, imaginação e uma humanidade profunda.


E mesmo nos seus últimos anos, enquanto ele lutava uma luta que ninguém realmente entendia, ele continuou a tentar passar aquele presente.


"Nós só te damos um pouco de loucura", disse ele uma vez. "Você nunca deve perdê-la. »


Robin não perdeu essa faísca.


Uma doença tirou-a dela.


E entender essa verdade pode ajudar a salvar outra pessoa.


Abilio Machado

Psicoarteterapeuta


📞 41 99845-1364 | 41 99635-3923


📷 Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado


Referência:


Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

terça-feira, 9 de junho de 2026

O jogo da decisão



 Há uma ilusão que aprisiona muitas pessoas: a de que é possível viver sem correr riscos. Por medo de errar, adiamos decisões, evitamos mudanças, permanecemos em relacionamentos desgastados, adiamos sonhos e permanecemos em lugares que já não nos fazem crescer.


Mas a vida não fica em espera enquanto pensamos. O tempo continua avançando. As oportunidades se transformam. As circunstâncias mudam. E aquilo que não decidimos hoje, muitas vezes será decidido amanhã pelas consequências da nossa própria omissão.


Escolher errado pode trazer perdas, frustrações e aprendizados. Faz parte da experiência humana. Porém, permanecer indefinidamente na indecisão costuma cobrar um preço ainda maior: o arrependimento de nunca ter tentado.


No tabuleiro da vida, nem sempre vencem os que fazem os movimentos perfeitos. Muitas vezes avançam aqueles que tiveram coragem de mover uma peça, mesmo sem garantias.


Porque, às vezes, o maior risco não é errar o caminho.


É entregar ao tempo o poder de escolher por você.


Abilio Machado


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Nem toda escolha traz alívio...



 Nem toda escolha certa traz alívio. Nem toda escolha errada destrói uma vida. Mas ficar parado entre possibilidades costuma custar mais do que imaginamos.


Muitas pessoas acreditam que o sofrimento está em escolher. Na verdade, frequentemente ele nasce da indecisão. Permanecer por muito tempo entre o "e se der certo?" e o "e se der errado?" pode consumir mais energia emocional do que qualquer caminho escolhido.


A busca pela decisão perfeita costuma ser uma armadilha. A vida raramente oferece garantias. Crescer exige aceitar que toda escolha envolve ganhos e perdas, portas que se abrem e outras que se fecham.


Quem espera ter absoluta certeza para agir acaba transformando o medo em moradia permanente. Enquanto isso, o tempo segue seu curso, as oportunidades mudam de forma e a ansiedade encontra terreno fértil para crescer.


Decidir não é eliminar todos os riscos. É assumir a responsabilidade pela própria trajetória. Mesmo quando erramos, aprendemos, ajustamos a rota e seguimos adiante. Já a paralisia nos mantém presos ao mesmo lugar, imaginando vidas que nunca chegamos a viver.


Às vezes, o peso não está na decisão. Está em nunca decidir.


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domingo, 7 de junho de 2026

Homem masculino vs Homem feminino

 


HOMEM MASCULINO VS HOMEM FEMININO

A provocação destes cards não fala de sexo biológico. Fala de algo muito mais profundo: das energias, características e formas de existir que habitam cada ser humano.



O chamado "homem masculino" costuma ser associado à ação, objetividade, liderança, decisão, conquista e enfrentamento dos desafios. É aquele que olha para um problema e busca imediatamente uma solução. Sua força está na capacidade de agir, construir caminhos e seguir adiante mesmo diante das dificuldades.



Já o "homem feminino" representa a sensibilidade, a empatia, a intuição, a escuta, a reflexão e o acolhimento. É aquele que não busca apenas resolver uma situação, mas compreendê-la. Sua força está na capacidade de sentir, conectar-se consigo mesmo e perceber aquilo que muitas vezes passa despercebido aos olhos.



 O problema surge quando acreditamos que precisamos ser apenas uma dessas versões.

O excesso de masculinidade pode transformar determinação em rigidez, coragem em agressividade e independência em isolamento emocional.



O excesso de feminilidade pode transformar sensibilidade em insegurança, empatia em dependência emocional e reflexão em paralisia diante das escolhas.

A maturidade psicológica acontece quando aprendemos a integrar os dois aspectos.



Precisamos da firmeza para tomar decisões difíceis e da sensibilidade para compreender suas consequências.

Precisamos da coragem para enfrentar o mundo e da delicadeza para cuidar das pessoas.

Precisamos da razão para construir caminhos e da emoção para dar sentido à caminhada.

Talvez a verdadeira força não esteja em escolher entre ser masculino ou feminino. Talvez esteja na capacidade de equilibrar ambos dentro de nós.


Porque o ser humano mais completo não é aquele que vive apenas pela força ou apenas pela sensibilidade. É aquele que aprendeu a transformar ambas em sabedoria.

E você? Em sua vida, qual dessas energias costuma falar mais alto: a que age ou a que sente?

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Não se Acende Vela para Defunto Ruim

 


Não se Acende Vela para Defunto Ruim


Há ditados populares que atravessam gerações porque carregam mais do que palavras; carregam julgamentos, crenças e, muitas vezes, feridas. Um deles diz: "Não se acende vela para defunto ruim."


A frase parece simples. Em sua essência, sugere que algumas pessoas não merecem homenagem, oração, saudade ou lembrança após a morte. Como se a vida pudesse ser resumida a um veredito final: bom ou ruim.


Mas será que a existência humana cabe em classificações tão definitivas?


A Psicologia do Julgamento


A mente humana gosta de simplificar. É mais fácil colocar alguém na gaveta dos heróis ou dos vilões do que lidar com a complexidade das contradições humanas.


Quando dizemos que alguém foi "ruim", raramente estamos descrevendo toda a pessoa. Estamos descrevendo a dor que ela nos causou, os erros que cometeu ou as marcas que deixou.


A psicologia nos ensina que ninguém nasce pronto. Somos resultado de histórias, traumas, escolhas, influências e circunstâncias. Isso não elimina a responsabilidade pelos atos, mas amplia nossa compreensão sobre eles.


Há pessoas que ferem porque foram feridas. Há quem destrua porque nunca aprendeu a construir. Há quem ame de forma torta porque jamais conheceu outra forma de amor.


Compreender não significa justificar. Significa enxergar além da superfície.


A Perspectiva Teológica


Curiosamente, a Bíblia está cheia de personagens que poderiam ser considerados "defuntos ruins".


Moisés matou um homem.


Davi adulterou e conspirou para a morte de um inocente.


Pedro negou Cristo.


Paulo perseguiu cristãos.


Ainda assim, Deus não os definiu apenas pelos seus piores momentos.


O Evangelho apresenta uma lógica desconcertante: a da graça. Não porque o erro deixe de existir, mas porque a misericórdia se recusa a permitir que o erro seja a última palavra.


Quando Cristo estava na cruz, não morreu pelos perfeitos. Morreu justamente pelos imperfeitos.


Isso deveria nos tornar mais cuidadosos ao decretarmos quem merece ou não uma vela.


A Vela que Ilumina os Vivos


Talvez o verdadeiro propósito da vela nunca tenha sido iluminar os mortos.


Os mortos já encerraram sua caminhada.


Quem precisa de luz somos nós.


Acender uma vela pode simbolizar memória, perdão, reflexão ou oração. Não necessariamente aprovação.


Quando alguém morre, permanece entre os vivos um emaranhado de sentimentos: mágoa, saudade, revolta, gratidão, arrependimento.


A vela, nesse sentido, ilumina os cantos escuros da alma de quem ficou.


Uma Reflexão Necessária


Existe uma diferença entre reconhecer os erros de alguém e apagar completamente sua humanidade.


A justiça exige verdade.


O amor exige misericórdia.


A maturidade exige ambas.


Talvez algumas pessoas tenham vivido de modo tão destrutivo que deixaram pouca coisa para celebrar. Ainda assim, isso não nos transforma em juízes definitivos de seu destino.


Afinal, se Deus decidisse acender velas apenas para os perfeitos, o mundo inteiro permaneceria na escuridão.



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Lembro-me de um antigo cemitério do interior. Em uma noite de finados, caminhei entre túmulos iluminados por centenas de pequenas chamas. Havia ali santos e pecadores, trabalhadores honestos e pessoas que certamente cometeram erros graves. A luz não perguntava quem merecia brilhar. Apenas iluminava.


Talvez seja essa a maior lição.


Nem toda vela é para quem partiu.


Algumas são para impedir que a escuridão tome conta de quem ficou.


Abilio Machado


Me siga no Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado



terça-feira, 2 de junho de 2026

A Árvore que Pensava Estar Morrendo

 


A Árvore que Pensava Estar Morrendo

A Árvore que Pensava Estar Morrendo


Quem viveu os primórdios da internet certamente se lembra de um dos memes mais curiosos e carinhosamente engraçados da cultura brasileira: "As árveres somos nozes...". A frase, escrita de forma propositalmente errada, arrancava risadas justamente por sua simplicidade. Mas, curiosamente, por trás do humor quase infantil, escondia-se uma verdade profunda.


As árvores somos nós.


Cada um de nós.


Com nossos períodos de sombra e de luz, de crescimento e de aparente estagnação, de flores e de galhos nus.


Há fases da vida em que olhamos para nós mesmos como quem contempla uma árvore no inverno. Os galhos parecem secos, as folhas desapareceram, os frutos já não estão ali e a impressão é de que tudo terminou. Muitas pessoas carregam essa sensação silenciosa: acreditam que perderam algo essencial de si mesmas, que envelheceram emocionalmente, que fracassaram ou que não possuem mais forças para florescer.


Mas a natureza nos ensina uma verdade que frequentemente esquecemos: a mesma árvore que parece morta em uma estação é aquela que, algum tempo depois, volta a cobrir-se de verde.


Na clínica, observo quantas pessoas confundem uma fase difícil com sua identidade permanente. Uma perda afetiva, um desemprego, uma doença, uma decepção familiar ou uma crise existencial acabam sendo interpretados como uma definição da própria vida. O sofrimento passa a ser visto não como uma estação, mas como um destino.


A psicanálise nos mostra que o ser humano possui uma tendência curiosa: transformar momentos em eternidades. Quando estamos felizes, acreditamos que a alegria durará para sempre. Quando estamos sofrendo, temos a mesma ilusão, imaginando que a dor jamais terminará. Porém, a existência é movimento. Nada permanece exatamente igual.


Sob um olhar social, vivemos numa cultura que valoriza apenas as "primaveras". As redes sociais exibem conquistas, sorrisos, viagens, corpos impecáveis e sucessos profissionais. Poucos mostram seus invernos. Poucos compartilham seus períodos de silêncio, de luto, de reconstrução ou de dúvidas.


Isso gera uma falsa impressão coletiva de que somente nós estamos atravessando tempos difíceis. Como consequência, muitos sentem vergonha de suas próprias secas emocionais.


Entretanto, até mesmo a terra precisa descansar para voltar a produzir.


Sob a perspectiva teológica, existe uma mensagem profunda nessa imagem da árvore. Deus não trabalha apenas nas épocas de florescimento. Muitas vezes Sua ação mais importante acontece quando nada parece estar acontecendo. As raízes crescem longe dos olhos. A transformação ocorre no oculto. O amadurecimento espiritual raramente acontece durante os aplausos; geralmente nasce nos desertos.


As Escrituras estão repletas de personagens que atravessaram seus invernos particulares. Houve momentos de espera, solidão, fracassos e incertezas. Contudo, aquilo que parecia o fim tornou-se preparação para uma nova etapa.


Talvez a maior sabedoria seja compreender que não precisamos florescer o tempo todo.


Existem períodos para produzir e períodos para recolher-se.


Há momentos para cantar e outros para escutar.


Há dias de abundância e dias de aprendizado.


A árvore não se desespera quando perde suas folhas. Ela sabe, pela linguagem silenciosa da natureza, que a vida continua circulando em seu interior.


Quem sabe sua alma esteja vivendo exatamente isso agora.


Talvez você esteja olhando para os galhos e esquecendo das raízes.


Talvez esteja observando aquilo que perdeu e não percebendo aquilo que está sendo fortalecido.


Talvez esteja chamando de fim aquilo que Deus chama de preparação.


E talvez o velho meme estivesse mais certo do que imaginávamos:


"As árveres somos nozes."


Porque, no fundo, todos nós passamos pelas mesmas estações.

E a boa notícia é que o inverno nunca tem a última palavra.


Abilio Machado

Psicoarteterapeuta

📸 Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado


Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

O Que Fica em Nós

 


O Que Fica em Nós

Há pessoas que passam por nossa vida como rios passageiros. Levam consigo palavras, gestos, abraços, tempo, cuidado e até partes inteiras de nossa história. Quando partem, quase sempre deixamos algo delas em nós. E, inevitavelmente, deixamos algo de nós nelas.

Mas existe uma dor silenciosa que acompanha o ato de oferecer: a esperança.

Esperamos que o carinho retorne. Que a dedicação seja reconhecida. Que a presença seja lembrada. Que o amor encontre eco no coração de quem o recebeu. Afinal, somos humanos. Não amamos como pedras lançadas ao acaso. Amamos porque desejamos encontro. Desejamos reciprocidade. Desejamos que aquilo que floresceu em nosso peito encontre solo fértil no outro.

E quando isso não acontece, quando a gratidão não vem, quando o afeto retorna deformado ou simplesmente não retorna, surge uma pergunta amarga:

"Será que tudo foi em vão?"

A alma ferida costuma responder que sim.

Mas a vida, com sua sabedoria paciente, responde diferente.

Aquilo que você ofereceu nunca pertenceu verdadeiramente ao outro. Pertenceu primeiro a você. A generosidade revelou sua essência. A compaixão mostrou sua humanidade. O cuidado expôs a beleza que habita seu coração. Cada gesto de amor foi um retrato silencioso de quem você é.

O retorno, ou a ausência dele, fala sobre a história do outro.

A entrega fala sobre a sua.

Talvez um dos maiores aprendizados da maturidade seja compreender que o amor não perde valor quando não é correspondido. A bondade não se torna inútil porque não foi reconhecida. A luz não deixa de iluminar porque alguém escolheu fechar os olhos.

Existe uma riqueza que ninguém pode tomar de nós: a capacidade de amar.

Ela não depende de aplausos, recompensas ou agradecimentos. É um patrimônio construído nas profundezas da alma, onde a dignidade encontra morada e o afeto encontra sentido.

Por isso, quando a vida parecer injusta e o coração insistir em contabilizar o que deu e o que recebeu, lembre-se:

Nenhum amor verdadeiro foi desperdiçado.

Tudo aquilo que nasceu de sua melhor parte continua sendo seu.

E isso, talvez, seja a mais preciosa herança que uma pessoa pode carregar pela existência.

"Há viagens que fazemos pelos trilhos do mundo. Outras percorremos dentro de nós. E, olhando pela janela do tempo, descobrimos que nem tudo o que ficou para trás foi perdido. Algumas coisas transformaram-se em paisagem, outras em saudade, e algumas em sabedoria. O que oferecemos ao longo do caminho continua viajando conosco."

Abilio Machado

Psicoarteterapeuta

Demência Corporal Lewy - Quando a Mente Acende e Apaga as Luzes

  Quando a Mente Acende e Apaga as Luzes Por Abilio Machado – Psicoarteterapeuta Outro dia ouvi uma familiar dizer algo que me chamou a aten...