sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A vida não vem com manual...

 

A VIDA NÃO VEM COM MANUAL


A vida é uma coisa engraçada.


Quando somos jovens, achamos que temos todas as respostas. Depois descobrimos que algumas perguntas mudam, outras ficam sem resposta e algumas… simplesmente deixam de fazer sentido.


A gente passa boa parte da vida tentando controlar tudo: o futuro, as pessoas, os acontecimentos, os sentimentos. Até perceber que a vida não assinou nenhum contrato conosco prometendo que tudo sairia como planejamos.


E aí começa uma espécie de sabedoria.


Não aquela sabedoria de quem sabe tudo, mas a de quem aprendeu a dizer:


“Isso eu não posso mudar. Mas posso escolher como vou atravessar.”


Talvez amadurecer seja exatamente isso.


Entender que nem toda perda é fracasso.

Que nem toda demora é abandono.

Que nem todo silêncio é rejeição.

Que algumas pessoas vão embora, outras ficam e algumas simplesmente deixam uma marca.


E que nós também mudamos.


Já fui muita coisa que hoje não sou mais. Já pensei de um jeito que hoje questiono. Já defendi certezas que a vida tratou de colocar em dúvida.


E tudo bem.


A vida não exige que sejamos perfeitos. Exige que sejamos verdadeiros com aquilo que estamos aprendendo a ser.


No fim das contas, talvez viver seja menos sobre encontrar todas as respostas e mais sobre aprender a fazer boas perguntas.


Quem estou me tornando?

O que realmente importa para mim?

Estou vivendo ou apenas cumprindo uma rotina?

Estou sendo bom comigo enquanto tento ser bom com os outros?


Porque existe uma diferença enorme entre simplesmente existir e realmente viver.


E talvez seja justamente aí que a filosofia encontra a psicologia, a espiritualidade encontra a experiência e a vida encontra sentido:


não precisamos entender tudo para continuar caminhando.


Às vezes, basta dar o próximo passo.


E, se possível, levar um pouco de fé, um pouco de coragem, algum bom humor…


E aceitar que, apesar de tudo, a vida ainda vale muito a pena.


— Abilio Machado

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O que você 🫵 aprendeu na terapia ???

 


Esse pequeno diálogo é muito rico psicoterapeuticamente porque trabalha, com humor, uma questão central da psicologia: o que realmente aprendemos em terapia e como interpretamos aquilo que aprendemos.


A fala da filha — “a gente tem que traumatizar as pessoas de volta” — pode ser compreendida como uma espécie de reação defensiva. Ela parece transformar a experiência de ter sido ferida em uma autorização para ferir. É como se dissesse: “se fizeram isso comigo, agora eu também posso fazer.”


Mas há uma diferença fundamental entre compreender o próprio trauma e reproduzi-lo.


Em psicoterapia, reconhecer que alguém nos machucou não significa receber uma licença para machucar outras pessoas. Pelo contrário: o processo terapêutico busca justamente interromper a repetição. Aquilo que foi recebido como dor pode ser elaborado para que não precise ser transmitido adiante.


A resposta da mãe — “foi a terapeuta que ensinou isso?” — revela outro aspecto interessante: imediatamente ela procura uma autoridade externa responsável pela interpretação da filha. E a resposta da menina é brilhante:


> “A terapeuta não ensinou. Você perguntou o que eu aprendi...”


Aqui aparece uma diferença entre aquilo que foi dito e aquilo que foi compreendido.


O terapeuta pode oferecer ferramentas, perguntas e possibilidades de reflexão, mas o paciente constrói significados a partir da própria história. Duas pessoas podem ouvir a mesma intervenção e produzir compreensões completamente diferentes.


Há ainda uma leitura psicanalítica possível: a filha pode estar expressando, de maneira irônica, um movimento de repetição. Quando não conseguimos elaborar uma experiência dolorosa, existe o risco de reproduzirmos, nos outros, aquilo que um dia fizeram conosco.


Por isso, talvez a verdadeira pergunta terapêutica não seja:


“Quem me traumatizou?”


Mas:


“O que farei com aquilo que fizeram comigo?”


Porque amadurecer psicologicamente não significa nunca mais ser ferido. Significa, pouco a pouco, deixar de transformar a própria ferida em arma.


E talvez essa seja a grande diferença entre vingança e elaboração:

a vingança diz “vou fazer você sentir o que eu senti”;

a elaboração diz “eu senti isso, entendi o que isso fez comigo e não preciso fazer você sentir o mesmo.”

Romper ciclos também é uma forma de cura.

— Abilio Machado



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sábado, 22 de agosto de 2026

Viver também é aprender a desaparecer

 


Viver também é aprender a desaparecer


Há uma espécie de morte que não acontece quando o coração para.


Ela acontece devagar.


É quando algumas coisas que éramos vão ficando pelo caminho. Um sonho que já não cabe mais na vida. Uma amizade que um dia foi casa e hoje é apenas lembrança. Um amor que terminou antes mesmo de alguém ter coragem de dizer que terminou. Uma versão nossa que envelheceu, cansou ou simplesmente não encontrou mais lugar onde permanecer.


Talvez seja isso que o texto do card nos provoca a pensar: viver também é morrer aos poucos.


Não necessariamente de uma forma triste. Às vezes, é apenas o tempo fazendo seu trabalho silencioso.


A gente perde pequenas partes de si todos os dias.


Perde a ingenuidade depois de algumas decepções. Perde a pressa depois de compreender que nem tudo precisa acontecer agora. Perde pessoas. Perde lugares. Perde certezas. Perde até algumas ilusões que, durante muito tempo, foram necessárias para continuar caminhando.


E existe uma coisa curiosa nisso tudo: enquanto algumas partes nossas morrem, outras nascem.


É como uma casa antiga que vai sendo reformada sem nunca deixar de ser a mesma casa.


Talvez amadurecer seja exatamente isso: aprender a conviver com os cômodos vazios sem esquecer que ainda existem janelas abertas.


Porque viver não é conservar intacto aquilo que fomos.


É ter coragem de continuar sendo alguém depois que tanta coisa deixou de existir.


Há dias em que acordamos e percebemos que já não somos aquela pessoa de dez, vinte ou trinta anos atrás. E talvez exista uma pequena tristeza nisso. Afinal, algumas versões nossas mereciam ter ficado.


Mas também há liberdade.


Porque aquilo que morreu em nós abriu espaço para aquilo que ainda pode nascer.


A vida, às vezes, não nos pede grandes recomeços.


Pede apenas que levantemos da cama, tomemos um café, respiremos fundo e façamos aquilo que precisa ser feito.


Sem heroísmo.


Sem discursos.


Apenas continuando.


E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de resistência humana: continuar sendo alguém mesmo depois de ter perdido quase tudo aquilo que um dia nos definia.


No fundo, viver é uma sucessão de despedidas.


Mas também é uma sucessão de encontros.


E enquanto houver alguma coisa dentro de nós dizendo “ainda não terminei”, talvez seja porque a vida, apesar de todas as perdas, ainda encontrou um jeito de permanecer.


“Nem tudo o que termina é o fim. Algumas perdas são apenas o espaço que a vida abre para aquilo que ainda precisa nascer.”

__Abilio Machado

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Entre o medo de falar e o medo de se perder

 

Entre o medo de falar e o medo de se perder


Obrigado, Clarice Lispector, por colocar em palavras uma das maiores angústias das relações humanas:


“Por te falar, eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar, eu me perderei. E por me perder, eu te perderia.”


Existe uma verdade dolorosa nessa reflexão: às vezes, ficamos diante de uma escolha aparentemente impossível.


Falar pode nos fazer perder alguém.

Silenciar pode nos fazer perder a nós mesmos.


E talvez esse seja um dos conflitos mais profundos do afeto: até onde devo me calar para não perder quem amo?


Aprendemos, muitas vezes, que amar é preservar o outro, evitar conflitos, escolher as palavras certas, engolir algumas verdades e suportar alguns desconfortos.


Mas existe um limite entre cuidar de uma relação e abandonar a si mesmo dentro dela.


Quando precisamos esconder continuamente aquilo que sentimos, negar aquilo que pensamos ou diminuir aquilo que somos para que alguém permaneça ao nosso lado, talvez a relação já esteja cobrando de nós um preço alto demais.


Porque o silêncio também fala.


Ele fala através da ansiedade, da tristeza, da irritação, do distanciamento e, muitas vezes, daquela sensação difícil de explicar: “Eu estou aqui, mas já não sei mais quem sou.”


Falar não é necessariamente confrontar.

Ser sincero não significa ferir.

Expressar sentimentos não é fazer uma acusação.


Às vezes, falar é simplesmente dizer:


“Isso me machuca.”

“Eu sinto falta de você.”

“Eu não consigo mais continuar assim.”

“Eu preciso que você saiba o que está acontecendo dentro de mim.”


E talvez o verdadeiro amadurecimento emocional esteja justamente em aprender a falar sem destruir e a ouvir sem fugir.


Porque uma relação saudável deveria oferecer espaço para duas verdades existirem: a verdade do outro e a nossa própria verdade.


Se para permanecer com alguém você precisa desaparecer, talvez o medo de perdê-lo esteja fazendo você perder algo ainda mais precioso: a si mesmo.


E há perdas que doem muito.


Mas existe uma perda ainda mais silenciosa: aquela em que continuamos ao lado de alguém, enquanto, pouco a pouco, deixamos de existir dentro de nós mesmos.


Falar pode colocar uma relação em risco.

Mas silenciar para sempre pode colocar a própria identidade em risco.


Às vezes, dizer a verdade não é escolher perder alguém.


É escolher não se perder mais.


Abílio Machado _ Psi

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A pessoa que nasce dentro de nós...

 



A pessoa que nasce dentro de nós


Um dos processos mais bonitos — e também mais assustadores — da vida é perceber que, em algum momento, já não somos exatamente quem éramos.


Mudamos. Não necessariamente porque deixamos de ser nós mesmos, mas porque algumas experiências nos obrigam a olhar para dentro e reconhecer que a pessoa que fomos precisou morrer em alguns aspectos para que outra pudesse nascer.


Na perspectiva psicológica, esse processo pode representar amadurecimento, ressignificação e reconstrução da identidade. Há momentos em que antigas crenças, padrões, medos e formas de se relacionar deixam de fazer sentido. E quando aquilo que sustentava nossa antiga maneira de viver perde força, podemos experimentar uma espécie de luto por nós mesmos.


É assustador perceber:

“Eu não penso mais como antes. Não aceito mais as mesmas coisas. Não desejo mais a mesma vida.”


Mas talvez isso não seja uma perda. Talvez seja crescimento.


A psicoteologia nos oferece uma leitura ainda mais profunda desse processo. A Bíblia fala sobre transformação, renovação e nascimento de uma nova criatura. Paulo escreve: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). E, em outro momento, afirma que, em Cristo, aquele que está nele é uma “nova criatura” (2 Coríntios 5:17).


Isso não significa apagar a nossa história.


Deus não precisa destruir quem fomos para construir quem podemos ser. Ele pode transformar nossas feridas em consciência, nossos erros em aprendizado, nossas perdas em maturidade e até nossas quedas em lugares de onde aprendemos a levantar.


Talvez a verdadeira mudança não aconteça quando conseguimos esquecer o passado, mas quando conseguimos olhar para ele sem permitir que ele continue governando o presente.


Existe uma hora em que precisamos compreender que permanecer fiel à nossa história não significa permanecer preso a ela.


Você pode honrar quem foi sem continuar vivendo como aquela pessoa.


Pode agradecer pelo caminho sem precisar voltar para ele.


Pode reconhecer suas cicatrizes sem transformá-las em sua identidade.


E talvez seja justamente aí que aconteça uma das experiências mais profundas da existência: continuar sendo você, mas de uma maneira que o seu antigo eu jamais imaginou.


A transformação assusta porque toda mudança verdadeira exige uma despedida.


Mas algumas despedidas não são o fim.


São o começo de uma nova vida dentro da mesma vida.


Abílio Machado _ Psi

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Será que estamos sozinhos no universo?

 


Será que estamos sozinhos no universo?


Há perguntas que parecem nascer da ciência, mas, quando olhamos demoradamente para elas, percebemos que também nasceram dentro de nós.


“Existe vida inteligente em outros planetas?”


É uma pergunta fascinante. Olhamos para o céu, para a imensidão das estrelas, para os bilhões de mundos que talvez existam além daquilo que nossos olhos conseguem alcançar, e imaginamos outras civilizações, outras formas de inteligência, outras criaturas olhando para o mesmo universo e fazendo exatamente a mesma pergunta:


“Será que existe alguém lá fora?”


Mas existe uma ironia nessa história.


Enquanto procuramos desesperadamente sinais de inteligência a milhões de anos-luz, talvez ainda tenhamos dificuldades para reconhecer a inteligência que está aqui, tão perto.


Basta observar a humanidade.


Construímos máquinas capazes de atravessar oceanos, enviamos equipamentos para outros planetas, deciframos o código genético, criamos inteligência artificial, fotografamos galáxias distantes.


E, ao mesmo tempo, ainda não aprendemos completamente a conversar sem transformar diferenças em guerras.


Temos tecnologia para chegar às estrelas, mas muitas vezes não conseguimos atravessar a distância entre duas pessoas que vivem na mesma casa.


Sabemos medir a velocidade da luz, mas ainda tropeçamos na delicada arte de perceber a dor do outro.


Criamos redes que conectam bilhões de pessoas, mas nunca tivemos tanta gente experimentando a solidão.


Talvez a pergunta mais desconcertante não seja se existe vida inteligente em outros planetas.


Talvez seja:


o que uma civilização verdadeiramente inteligente faria com o planeta que recebeu?


Porque inteligência não deveria ser apenas capacidade de calcular, construir, dominar ou conquistar.


Inteligência também deveria ser capacidade de cuidar.


De compreender.


De esperar.


De reconhecer limites.


De perceber que o outro existe para além das nossas necessidades.


Na psicoterapia, aprendemos algo muito simples e, ao mesmo tempo, profundamente difícil: não basta saber o que sentimos. Precisamos aprender a compreender o que fazemos com aquilo que sentimos.


Uma pessoa pode ser intelectualmente brilhante e emocionalmente analfabeta.


Pode conhecer o funcionamento do universo e desconhecer completamente o próprio coração.


Pode discutir filosofia, política, religião e ciência durante horas e ainda assim não conseguir pedir desculpas.


Pode defender grandes causas e ser cruel dentro da própria casa.


Pode falar sobre amor e não saber amar.


Talvez seja essa uma das grandes contradições da nossa espécie.


Temos inteligência suficiente para procurar vida nas estrelas, mas ainda precisamos aprender a reconhecer vida dentro de nós.


E talvez seja por isso que a possibilidade de existir vida inteligente em outros planetas seja tão fascinante.


Porque, no fundo, não estamos apenas procurando extraterrestres.


Estamos procurando um espelho.


Queremos saber se existe alguém lá fora que tenha conseguido aquilo que nós ainda estamos tentando aprender aqui dentro.


Uma civilização que tenha descoberto que crescer não significa apenas acumular conhecimento, mas desenvolver consciência.


Que tenha entendido que poder sem responsabilidade é apenas uma forma sofisticada de destruição.


Que tenha descoberto que sobreviver é pouco quando não aprendemos a conviver.


Então, quando alguém perguntar se existe vida inteligente em outros planetas, talvez possamos responder:


“Eu não sei.”


Mas existe uma pergunta anterior, muito mais próxima e muito mais incômoda:


Será que nós, aqui na Terra, já aprendemos a ser inteligentes o suficiente para merecer o nome de humanidade?


Talvez o universo esteja cheio de vida.


Talvez esteja vazio.


Talvez um dia encontremos sinais de outra civilização olhando para nós.


E talvez, nesse dia, a maior descoberta não seja encontrarmos alguém lá fora.


Talvez seja percebermos finalmente quem somos nós aqui dentro.


— Abílio Machado

Psicoterapeuta

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Caráter não se negocia

 


Caráter não se negocia


Vivemos em um tempo em que, muitas vezes, somos convidados a abrir pequenas exceções aos nossos próprios valores. “É só dessa vez.” “Todo mundo faz.” “Ninguém vai saber.” E é justamente nessas pequenas concessões que o caráter começa a ser colocado à prova.


Caráter é aquilo que permanece quando ninguém está olhando.

Princípios são os limites que escolhemos não ultrapassar, mesmo quando ultrapassá-los parece mais fácil. Respeito é reconhecer o valor do outro sem precisar diminuí-lo. E confiança é algo que leva tempo para ser construída, mas pode ser destruída em um instante.


Não se trata de ser perfeito. Trata-se de ser coerente.


Porque, no final das contas, você pode negociar muitas coisas na vida: opiniões, caminhos, estratégias, planos e até algumas certezas.


Mas existem coisas que, quando negociadas, deixam de ser aquilo que deveriam ser.


Seu caráter, seus princípios, seu respeito e sua confiança não deveriam ter preço.


E você? Qual princípio jamais negociaria, mesmo que isso lhe custasse alguma coisa?


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A vida não vem com manual...

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