domingo, 29 de março de 2026

Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites



Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites

Por Abílio Machado 

Introdução

Vivemos sob a pressão silenciosa de sermos sempre agradáveis, disponíveis e emocionalmente estáveis. A ideia de “ser uma boa pessoa” foi socialmente moldada como sinônimo de ausência de conflito, erro ou limite. No entanto, essa construção tem produzido sujeitos exaustos, ansiosos e desconectados de si.

Como afirma Carl Rogers, “o curioso paradoxo é que quando me aceito como sou, então posso mudar”. A aceitação da própria imperfeição não é fracasso moral — é o início de um processo autêntico de crescimento.

Desenvolvimento

A psicologia contemporânea aponta que muitas pessoas desenvolvem padrões de comportamento baseados em aprovação externa. Segundo Aaron T. Beck, crenças centrais como “preciso agradar para ser amado” estruturam pensamentos automáticos disfuncionais, levando a comportamentos de submissão e evitação de conflitos.

O  desconstruir esse modelo ao validar atitudes essenciais para a saúde psíquica:

Dizer não

Estabelecer limites

Não dar conta de tudo

Discordar de alguém

Errar

Defender o que sente

Mudar de ideia

Ficar de mau humor

Essas atitudes se alinham ao conceito de assertividade, amplamente estudado por Manuel J. Smith, que afirma que o indivíduo tem o direito de dizer não sem culpa e de mudar de opinião sem precisar se justificar constantemente.

Já Donald Winnicott contribui com a ideia do “falso self”, um mecanismo psíquico no qual a pessoa se adapta excessivamente às expectativas externas, perdendo o contato com seu self verdadeiro. Nesse sentido, a tentativa de ser “bom demais” pode, na verdade, ser um afastamento da autenticidade.

Discussão

A dimensão psicoteológica amplia essa reflexão. A figura de Jesus Cristo frequentemente é interpretada como modelo de perfeição moral, mas os textos revelam alguém que expressava limites claros, indignação e posicionamento.

Ele disse “não”, confrontou estruturas e não buscou agradar a todos — o que reforça a ideia de que a verdadeira integridade não está na aceitação universal, mas na coerência interna.

Além disso, Brené Brown destaca que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas “o berço da coragem, da conexão e da autenticidade”. Negar emoções como tristeza, frustração ou irritação é, portanto, negar partes essenciais da experiência humana.

O sofrimento psíquico surge quando o indivíduo tenta sustentar uma identidade idealizada. Essa dissonância entre o que se sente e o que se mostra gera ansiedade, culpa e esgotamento emocional.

Motivação

Talvez você tenha aprendido que ser bom era não incomodar.

Que amar era ceder sempre.

Que maturidade era suportar em silêncio.

Mas isso não é maturidade — é sobrecarga emocional.

Como aponta Albert Ellis, grande parte do sofrimento humano vem de crenças rígidas como “eu devo ser aprovado por todos o tempo todo”. Questionar essas exigências é um ato de libertação.

Você pode ser gentil sem ser permissivo.

Pode amar sem se anular.

Pode falhar sem se condenar.

Existe dignidade em ser humano — não em ser perfeito.

Conclusão

Ser uma boa pessoa não significa ausência de falhas, mas presença de consciência. Trata-se de viver com responsabilidade emocional sem abrir mão da própria identidade.

A integração entre limites, vulnerabilidade e autenticidade fortalece o indivíduo e melhora suas relações. A bondade saudável não exige autoabandono — ela inclui o próprio sujeito.

Como sintetiza Carl Rogers, tornar-se pessoa é um processo contínuo de aceitação, mudança e autenticidade.

Ser bom, portanto, é também saber onde você termina — e onde o outro começa.

Referências Bibliográficas

BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva e os Transtornos Emocionais. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

BROWN, Brené. A Coragem de Ser Imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.

ELLIS, Albert. A Guide to Rational Living. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1961.

ROGERS, Carl. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

SMITH, Manuel J. Quando Digo Não, Me Sinto Culpado. São Paulo: Saraiva, 2000.

WINNICOTT, Donald W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

BÍBLIA SAGRADA. Diversas edições.

Se quiser citar este artigo:

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.


Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana

 


Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana

Por Abilio Machado 

Introdução

A Distimia, atualmente denominada Transtorno Depressivo Persistente nos manuais diagnósticos contemporâneos, é uma condição psicológica caracterizada por um humor deprimido crônico, de intensidade geralmente leve a moderada, porém duradouro. Diferente dos episódios intensos da depressão maior, a distimia se infiltra na vida do indivíduo de forma contínua, muitas vezes sendo confundida com traços de personalidade ou “jeito de ser”.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), essa condição exige a presença de sintomas por pelo menos dois anos em adultos (American Psychiatric Association, 2013). A relevância clínica da distimia reside não apenas na sua persistência, mas no impacto silencioso que exerce sobre a qualidade de vida, relações interpessoais e funcionamento global do sujeito.

Desenvolvimento

A distimia manifesta-se por meio de sintomas como baixa autoestima, fadiga constante, dificuldade de concentração, desesperança e alterações no sono e apetite. Por ser menos intensa do que a depressão maior, muitas pessoas seguem suas rotinas, porém com sofrimento interno contínuo.

Do ponto de vista etiológico, a distimia é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Estudos indicam a influência de predisposições genéticas, alterações neuroquímicas (especialmente envolvendo serotonina e dopamina), além de experiências de vida marcadas por perdas, negligência emocional ou ambientes invalidantes (Klein et al., 2018).

Na perspectiva cognitivo-comportamental, indivíduos com distimia tendem a desenvolver padrões de pensamento negativos e automáticos, frequentemente internalizados ao longo do tempo. Já sob um olhar psicodinâmico, pode-se compreender a distimia como uma expressão de conflitos psíquicos não elaborados, frequentemente ligados a experiências precoces de rejeição ou desamparo.

Aaron Beck, um dos principais teóricos da terapia cognitiva, afirma que:

“Os indivíduos deprimidos apresentam uma tríade cognitiva negativa: visão negativa de si mesmos, do mundo e do futuro” (Beck, 1979).

Essa tríade, quando persistente e menos intensa, pode sustentar o quadro distímico ao longo dos anos.

Discussão

Um dos maiores desafios no diagnóstico da distimia é sua invisibilidade relativa. Por não incapacitar completamente o indivíduo, muitas vezes ela é negligenciada tanto pelo próprio sujeito quanto pelo meio social. Isso gera um fenômeno importante: a naturalização do sofrimento.

Além disso, a distimia pode coexistir com episódios de depressão maior, caracterizando o chamado “duplo transtorno depressivo”, o que agrava significativamente o prognóstico (McCullough, 2003).

Do ponto de vista psicoterapêutico, abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a Terapia Interpessoal e intervenções integrativas têm demonstrado eficácia. Em muitos casos, o uso de medicação antidepressiva também é indicado.

Sob uma ótica psicoteológica — especialmente relevante para práticas clínicas integrativas — a distimia pode ser compreendida como um estado de esvaziamento existencial. Não necessariamente uma ausência de fé, mas, por vezes, uma dificuldade de acessar sentido, esperança e conexão interna. Viktor Frankl já apontava que:

“Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos” (Frankl, 1984).

Essa reflexão abre espaço para intervenções que resgatem significado, propósito e reconstrução subjetiva.

Conclusão

A distimia é uma condição que exige atenção clínica sensível e contínua. Seu caráter crônico e silencioso a torna particularmente perigosa, pois pode limitar o potencial de vida do indivíduo sem que haja um colapso evidente.

Compreender a distimia é reconhecer que nem todo sofrimento grita — alguns apenas persistem. E é justamente nessa persistência que se encontra a necessidade de escuta qualificada, intervenção terapêutica e reconstrução de sentido.

A ampliação do olhar — integrando aspectos biológicos, psicológicos e existenciais — permite não apenas tratar sintomas, mas acolher a complexidade do ser humano em sua totalidade.

Referências

American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Washington, DC.

Beck, A. T. (1979). Cognitive Therapy and the Emotional Disorders. New York: Penguin.

Frankl, V. E. (1984). Man’s Search for Meaning. Boston: Beacon Press.

Klein, D. N., Shankman, S. A., & Rose, S. (2018). Dysthymia and chronic depression: Course and treatment. Annual Review of Clinical Psychology.

McCullough, J. P. (2003). Treatment for Chronic Depression: Cognitive Behavioral Analysis System of Psychotherapy (CBASP). Guilford Press.

Se quiser citar este artigo:

Machado de Lima Filho, Abilio. Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana . Campo Largo: Produção independente, 2026.

sexta-feira, 27 de março de 2026

EVOLUIR É...


 Uma metáfora simples, uma pergunta complexa e profundamente reveladora sobre o processo de crescimento humano — psicológico e espiritual.

De um lado, o recipiente transbordando acompanhado da frase “Eu sei tudo!” revela um estado psíquico marcado pela ilusão de completude. Aqui podemos associar ao conhecido fenômeno da Efeito Dunning-Kruger, no qual quanto menos alguém sabe, mais acredita dominar o conhecimento. Psicologicamente, isso aponta para um ego inflado que não tolera o “não saber”. Esse excesso, paradoxalmente, impede a entrada de algo novo — o sujeito está cheio demais de si.

Teologicamente, esse estado se aproxima daquilo que as Escrituras frequentemente tratam como orgulho ou endurecimento do coração. Um coração cheio de certezas não se abre para a revelação. É como um vaso que já está cheio: não há espaço para Deus agir, ensinar ou transformar. A arrogância espiritual cria uma barreira invisível entre o indivíduo e a graça.

Do outro lado, o recipiente sendo preenchido com a pergunta: “O que mais eu posso aprender?” revela uma postura completamente diferente — a humildade epistêmica. Psicologicamente, trata-se de uma mente aberta, curiosa, que reconhece suas limitações e, por isso mesmo, continua crescendo. Aqui o ego não precisa provar nada; ele pode aprender.

Na dimensão teológica, essa postura ecoa o princípio bíblico da mansidão e da humildade de coração. É o espírito ensinável, aquele que se coloca como aprendiz diante da vida e de Deus. Há uma espécie de “esvaziamento do eu” que lembra o conceito de kenosis (esvaziamento), abrindo espaço para ser preenchido por algo maior.

A imagem, portanto, propõe um contraste essencial:

O cheio de si → transborda, mas não cresce

O vazio consciente → se enche e se transforma

Psicoteologicamente, o crescimento verdadeiro exige um movimento duplo:

Desaprender certezas rígidas (quebrar defesas do ego)

Acolher o novo com humildade (abrir-se à transformação)

No fundo, o card nos confronta com uma pergunta silenciosa, mas decisiva:

Você quer estar cheio… ou quer ser preenchido?

E talvez a resposta mais madura seja perceber que evoluir não é acumular conteúdo, mas manter-se disponível ao processo. Porque quem acredita que já chegou, parou. Mas quem pergunta, continua caminhando.

Abílio Machado 🎅 Paz Profunda 

Os 13 problemas da Psicologia Atual

 

A obra “A Verdade saindo do poço armada com seu chicote” (Jean-Léon Gérôme, 1896) ilustra nosso cenário. A psicologia enfrenta uma crise metodológica silenciosa. A solução? Encarar o poço e adotar uma postura clínica e científica implacável. Primeiro, estabeleça limites estritos para o objeto de estudo. Especifique redes nomológicas testáveis, prove invariância conceitual entre contextos e evite criar falsas entidades teóricas. Quantifique a variância de erro, triangule medidas com vieses diferentes e justifique empiricamente a sensibilidade e especificidade de cada ponto de corte. Na prática terapêutica, o mero ajuste estatístico não confirma causalidade. Defina antecipadamente resultados empíricos que refutariam a teoria. Alinhe a análise ao nível de agregação adequado, modelando heterogeneidade para evitar a falácia ecológica. Explicite qual padrão normativo define o prejuízo, impedindo patologização sem critério e evitando a reificação. Como processos violam condições de ergodicidade, a precisão clínica requer modelos de séries temporais e avaliações ecológicas momentâneas, capturando a trajetória intrapessoal genuína. A inferência causal demanda grafos acíclicos explícitos e distinção rigorosa entre relações constitutivas, mediadoras e moderadoras. Por fim, a integridade científica cobra transparência absoluta: pré-registro de protocolos e análises de sensibilidade para combater viés de publicação. Para que intervenções funcionem na vida real, a transportabilidade exige modelar variáveis moderadoras de contexto antecipadamente, delineando ajustes exatos para novas populações. Salve este guia e envie para colegas que levam a ciência a sério.













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quarta-feira, 25 de março de 2026

No fim, morremos sozinhos



 No fim, morremos sozinhos

Há uma frase que chega sem pedir licença e se senta no meio da alma: no fim, morremos sozinhos. Ela não grita, não acusa — apenas fica. E, de algum modo estranho, verdadeiro.

Sozinhos.

Não porque faltou amor.

Não porque ninguém ficou.

Mas porque existe um território da existência onde ninguém atravessa conosco.

A vida inteira é construída em companhia. Nascemos sendo acolhidos por braços, crescemos sustentados por vozes, seguimos amparados por vínculos. Aprendemos a chamar nomes quando dói, a buscar olhos quando nos perdemos, a dividir o pão e também os silêncios. Somos, por natureza, seres de encontro.

Mas há um instante — esse último — que não se compartilha.

E isso, à primeira vista, assusta.

Porque desmonta a ilusão mais confortável que carregamos: a de que nunca estaremos verdadeiramente sós.

Do ponto de vista psicológico, essa solidão final confronta o núcleo mais primitivo do ser: o medo do abandono. Aquela sensação infantil de que, se o outro some, eu deixo de existir. Por isso evitamos pensar nisso. Disfarçamos. Ocupamos o tempo. Fazemos barulho dentro de nós mesmos para não ouvir o eco desse pensamento.

Mas há uma outra forma de olhar.

E talvez seja aí que a teologia sussurra algo diferente daquilo que o medo insiste em repetir.

Porque, se é verdade que ninguém pode atravessar a morte por nós, também é verdade que não a atravessamos no vazio.

A solidão do fim não é ausência — é interioridade.

É o momento em que tudo o que foi externo se recolhe, e resta apenas aquilo que fomos, em essência. Sem máscaras, sem papéis, sem aplausos, sem defesas. Apenas o ser diante do Ser.

É o encontro mais íntimo que existe.

Não com o outro humano, mas com aquilo que nos sustentou desde sempre, mesmo quando não percebíamos.

A tradição espiritual, em suas muitas formas, aponta para um paradoxo bonito: o momento mais solitário é também o mais acompanhado.

Porque, se ninguém pode morrer conosco, há Alguém que nos espera do outro lado da travessia — ou, talvez mais profundo ainda, que nunca deixou de caminhar por dentro dela.

Então a frase muda de cor.

“No fim, morremos sozinhos” deixa de ser uma sentença de abandono e passa a ser um convite à verdade.

Quem sou eu quando tudo o mais se vai?

O que permanece quando não há mais plateia?

Que tipo de presença habita em mim quando o mundo silencia?

Talvez o grande drama não seja morrer sozinho.

Talvez seja viver inteiro rodeado de gente… e nunca ter aprendido a estar consigo mesmo.

Porque quem não suporta a própria companhia, teme a solidão do fim.

Mas quem fez as pazes com o próprio interior, começa a perceber que nunca esteve realmente só.

No fundo, a morte apenas revela aquilo que a vida inteira tentou ensinar:

Que o outro é abrigo — mas não é fundamento.

Que o amor nos cerca — mas não nos substitui.

E que existe uma presença mais profunda do que qualquer presença visível.

Por isso, talvez a pergunta não deva ser se morreremos sozinhos.

Mas sim:

com quem aprendemos a estar… quando ninguém mais pode ficar?

terça-feira, 24 de março de 2026

Não se deixe abater



 Não se deixe abater.

Se até por pouca coisa você se abate, certamente arcará com os danos, de vez que a vida, do nascimento à morte, é cheia de lances e surpresas agradáveis e desagradáveis.

O contentamento e a paz dependem superiormente de boa conduta, bom pensamento, fé no poder superior e convicção de poder enfrentar qualquer problema.

Essa fé, esse ânimo, essa convicção de ser forte, competente e amoroso são as raízes da sua felicidade. Nunca deixe cair o ânimo.

A força que você tem é a soma dos seus esforços.


ABILIO MACHADO 

- PSICÓLOGO 

- ARTETERAPEUTA 

- MASSOTERAPEUTA

Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites

Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites Por Abílio Machado  Introdução Vivemos sob a pressão silenciosa de sermos sempr...