terça-feira, 31 de março de 2026

O Dia em que Esqueci de Mim

 

O Dia em que Esqueci de Mim

Há uma educação silenciosa que nos atravessa desde cedo.

Ela não vem escrita em livros, nem é ensinada com clareza nas salas de aula.

É aprendida nos olhares de aprovação, nos sorrisos que recebemos quando agradamos… e, principalmente, nas ausências que sentimos quando ousamos ser quem somos.

Fomos ensinados a não incomodar.

A não decepcionar.

A sermos bons filhos, bons amigos, bons profissionais.

E, no meio dessa lista interminável de “bons”, esquecemos de aprender a ser inteiros.

Há algo profundamente doloroso em viver para corresponder.

Porque, aos poucos, vamos nos moldando às expectativas alheias como quem veste roupas que nunca serviram de fato.

Apertam aqui, incomodam ali… mas seguimos usando, porque fomos convencidos de que o desconforto é o preço do amor.

E assim adoecemos.

Não de forma brusca, não de uma vez só.

Mas em pequenas renúncias diárias.

Na palavra que engolimos.

No “sim” que dizemos querendo dizer “não”.

Na culpa que sentimos ao tentar nos priorizar.

No cansaço que não é físico, mas existencial.

Adoecemos porque nos abandonamos.

Há um momento — e ele chega, inevitavelmente — em que o corpo começa a falar aquilo que a alma já grita há muito tempo.

Ansiedade, angústia, irritação, vazio…

Não são fraquezas.

São mensagens.

São partes de nós batendo à porta, pedindo para voltar para casa.

Talvez o maior desafio da vida não seja aprender a amar o outro,

mas reaprender a amar a si mesmo sem culpa.

E isso exige coragem.

Coragem para decepcionar expectativas.

Para quebrar padrões antigos.

Para sustentar o desconforto de não ser mais aquilo que esperavam de nós.

Porque, no fundo, a verdade é simples e dura:

quem vive para agradar a todos, inevitavelmente trai a si mesmo.

E não há saúde emocional possível onde existe autoabandono.

Cuidar de si não é egoísmo.

É responsabilidade afetiva consigo mesmo.

É reconhecer que você também merece o cuidado que sempre ofereceu aos outros.

Talvez hoje seja um bom dia para começar diferente.

Não precisa ser um grande gesto.

Às vezes, tudo começa com um pequeno movimento de retorno.

Um limite colocado.

Um silêncio respeitado.

Uma escolha feita por você.

Porque, no fim, não se trata de deixar de amar o outro…

mas de, finalmente, incluir a si mesmo nesse amor.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Quando Somos Nosso Próprio Obstáculo: A Psicologia da Autossabotagem


 Quando Somos Nosso Próprio Obstáculo: A Psicologia da Autossabotagem

Por Abilio Machado 

Introdução

Há um paradoxo silencioso que atravessa a experiência humana: desejamos crescer, avançar, conquistar — mas, não raras vezes, somos nós mesmos que interrompemos esse movimento. A autossabotagem não é um acidente, tampouco um simples erro de percurso. Trata-se de um fenômeno psicológico complexo, que envolve conflitos internos, crenças limitantes e mecanismos inconscientes de proteção.

Como já apontava Carl Gustav Jung, “até que você torne o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida e você o chamará de destino”. Nesse sentido, compreender a autossabotagem é, antes de tudo, um convite ao autoconhecimento.

Desenvolvimento

A autossabotagem pode ser entendida como um conjunto de comportamentos, pensamentos ou emoções que interferem negativamente na realização de objetivos pessoais. Ela surge, muitas vezes, como uma tentativa inconsciente de evitar dor emocional, rejeição ou fracasso.

Do ponto de vista da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse processo está profundamente ligado às crenças centrais disfuncionais. Aaron Beck (1997) descreve que indivíduos podem desenvolver ideias rígidas como “não sou capaz”, “vou fracassar” ou “não mereço sucesso”, que acabam influenciando suas ações de forma automática.

Já na perspectiva psicodinâmica, a autossabotagem pode ser vista como um conflito entre desejos conscientes e conteúdos inconscientes. Freud (1923) sugeria que forças internas, como o superego rígido, podem punir o indivíduo quando ele tenta se afastar de padrões internalizados, gerando comportamentos autodestrutivos.

Além disso, fatores como experiências na infância, críticas constantes, traumas emocionais e padrões familiares disfuncionais contribuem para a formação desse padrão.

Sintomas da Autossabotagem

A autossabotagem nem sempre é evidente. Muitas vezes, ela se manifesta de forma sutil e repetitiva. Entre os principais sinais, destacam-se:

Procrastinação constante, especialmente em tarefas importantes

Medo excessivo de falhar ou de ter sucesso

Perfeccionismo paralisante

Autocrítica intensa e desproporcional

Dificuldade em manter consistência em projetos ou relacionamentos

Comportamentos impulsivos que prejudicam conquistas

Desistência recorrente diante de desafios

Esses sintomas frequentemente geram um ciclo de frustração, reforçando crenças negativas e alimentando ainda mais o comportamento autossabotador.

Tratamentos e Caminhos de Superação

Superar a autossabotagem não significa eliminá-la completamente, mas aprender a reconhecê-la e transformá-la. Alguns caminhos terapêuticos incluem:

1. Psicoterapia

A TCC ajuda a identificar e reestruturar pensamentos disfuncionais, enquanto abordagens psicodinâmicas exploram os conflitos inconscientes que sustentam esses padrões.

2. Consciência emocional

Reconhecer emoções como medo, vergonha e insegurança é essencial. Como aponta Daniel Goleman (1995), a inteligência emocional começa pela capacidade de perceber e nomear o que se sente.

3. Reestruturação de crenças

Questionar pensamentos automáticos e substituí-los por interpretações mais realistas e funcionais.

4. Desenvolvimento da autocompaixão

Kristin Neff (2011) destaca que tratar-se com gentileza, em vez de crítica, favorece mudanças mais sustentáveis.

5. Pequenas ações consistentes

A mudança não ocorre por grandes rupturas, mas por pequenas decisões repetidas que reconstroem a confiança interna.

Discussão

A autossabotagem revela uma verdade desconfortável: muitas vezes, não é o mundo externo que nos limita, mas os significados que construímos sobre nós mesmos. No entanto, é importante compreender que esses padrões não surgem por fraqueza, mas como estratégias de sobrevivência emocional.

O que hoje impede o crescimento pode ter sido, em outro momento, uma forma de proteção. Essa compreensão é fundamental para evitar julgamentos e promover um processo terapêutico mais acolhedor.

Além disso, em uma sociedade que valoriza desempenho constante, a autossabotagem também pode ser uma resposta ao excesso de pressão, funcionando como uma forma inconsciente de resistência.

Conclusão

A autossabotagem não é um inimigo a ser combatido com dureza, mas um sinal a ser escutado com atenção. Ela aponta para feridas, crenças e histórias que ainda precisam ser elaboradas.

Ao desenvolver consciência, acolhimento e novas formas de pensar e agir, é possível transformar esse padrão em um caminho de crescimento. Afinal, o maior avanço não está em nunca falhar, mas em compreender por que falhamos — e, a partir disso, escolher diferente.

Referências Bibliográficas

BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva e Transtornos Emocionais. Porto Alegre: Artmed, 1997.

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. Rio de Janeiro: Imago, 1923.

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

NEFF, Kristin. Self-Compassion: The Proven Power of Being Kind to Yourself. New York: William Morrow, 2011.

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1928.

Se quiser citar meu artigo;

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

domingo, 29 de março de 2026

Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites



Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites

Por Abílio Machado 

Introdução

Vivemos sob a pressão silenciosa de sermos sempre agradáveis, disponíveis e emocionalmente estáveis. A ideia de “ser uma boa pessoa” foi socialmente moldada como sinônimo de ausência de conflito, erro ou limite. No entanto, essa construção tem produzido sujeitos exaustos, ansiosos e desconectados de si.

Como afirma Carl Rogers, “o curioso paradoxo é que quando me aceito como sou, então posso mudar”. A aceitação da própria imperfeição não é fracasso moral — é o início de um processo autêntico de crescimento.

Desenvolvimento

A psicologia contemporânea aponta que muitas pessoas desenvolvem padrões de comportamento baseados em aprovação externa. Segundo Aaron T. Beck, crenças centrais como “preciso agradar para ser amado” estruturam pensamentos automáticos disfuncionais, levando a comportamentos de submissão e evitação de conflitos.

O  desconstruir esse modelo ao validar atitudes essenciais para a saúde psíquica:

Dizer não

Estabelecer limites

Não dar conta de tudo

Discordar de alguém

Errar

Defender o que sente

Mudar de ideia

Ficar de mau humor

Essas atitudes se alinham ao conceito de assertividade, amplamente estudado por Manuel J. Smith, que afirma que o indivíduo tem o direito de dizer não sem culpa e de mudar de opinião sem precisar se justificar constantemente.

Já Donald Winnicott contribui com a ideia do “falso self”, um mecanismo psíquico no qual a pessoa se adapta excessivamente às expectativas externas, perdendo o contato com seu self verdadeiro. Nesse sentido, a tentativa de ser “bom demais” pode, na verdade, ser um afastamento da autenticidade.

Discussão

A dimensão psicoteológica amplia essa reflexão. A figura de Jesus Cristo frequentemente é interpretada como modelo de perfeição moral, mas os textos revelam alguém que expressava limites claros, indignação e posicionamento.

Ele disse “não”, confrontou estruturas e não buscou agradar a todos — o que reforça a ideia de que a verdadeira integridade não está na aceitação universal, mas na coerência interna.

Além disso, Brené Brown destaca que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas “o berço da coragem, da conexão e da autenticidade”. Negar emoções como tristeza, frustração ou irritação é, portanto, negar partes essenciais da experiência humana.

O sofrimento psíquico surge quando o indivíduo tenta sustentar uma identidade idealizada. Essa dissonância entre o que se sente e o que se mostra gera ansiedade, culpa e esgotamento emocional.

Motivação

Talvez você tenha aprendido que ser bom era não incomodar.

Que amar era ceder sempre.

Que maturidade era suportar em silêncio.

Mas isso não é maturidade — é sobrecarga emocional.

Como aponta Albert Ellis, grande parte do sofrimento humano vem de crenças rígidas como “eu devo ser aprovado por todos o tempo todo”. Questionar essas exigências é um ato de libertação.

Você pode ser gentil sem ser permissivo.

Pode amar sem se anular.

Pode falhar sem se condenar.

Existe dignidade em ser humano — não em ser perfeito.

Conclusão

Ser uma boa pessoa não significa ausência de falhas, mas presença de consciência. Trata-se de viver com responsabilidade emocional sem abrir mão da própria identidade.

A integração entre limites, vulnerabilidade e autenticidade fortalece o indivíduo e melhora suas relações. A bondade saudável não exige autoabandono — ela inclui o próprio sujeito.

Como sintetiza Carl Rogers, tornar-se pessoa é um processo contínuo de aceitação, mudança e autenticidade.

Ser bom, portanto, é também saber onde você termina — e onde o outro começa.

Referências Bibliográficas

BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva e os Transtornos Emocionais. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

BROWN, Brené. A Coragem de Ser Imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.

ELLIS, Albert. A Guide to Rational Living. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1961.

ROGERS, Carl. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

SMITH, Manuel J. Quando Digo Não, Me Sinto Culpado. São Paulo: Saraiva, 2000.

WINNICOTT, Donald W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

BÍBLIA SAGRADA. Diversas edições.

Se quiser citar este artigo:

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.


Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana

 


Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana

Por Abilio Machado 

Introdução

A Distimia, atualmente denominada Transtorno Depressivo Persistente nos manuais diagnósticos contemporâneos, é uma condição psicológica caracterizada por um humor deprimido crônico, de intensidade geralmente leve a moderada, porém duradouro. Diferente dos episódios intensos da depressão maior, a distimia se infiltra na vida do indivíduo de forma contínua, muitas vezes sendo confundida com traços de personalidade ou “jeito de ser”.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), essa condição exige a presença de sintomas por pelo menos dois anos em adultos (American Psychiatric Association, 2013). A relevância clínica da distimia reside não apenas na sua persistência, mas no impacto silencioso que exerce sobre a qualidade de vida, relações interpessoais e funcionamento global do sujeito.

Desenvolvimento

A distimia manifesta-se por meio de sintomas como baixa autoestima, fadiga constante, dificuldade de concentração, desesperança e alterações no sono e apetite. Por ser menos intensa do que a depressão maior, muitas pessoas seguem suas rotinas, porém com sofrimento interno contínuo.

Do ponto de vista etiológico, a distimia é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Estudos indicam a influência de predisposições genéticas, alterações neuroquímicas (especialmente envolvendo serotonina e dopamina), além de experiências de vida marcadas por perdas, negligência emocional ou ambientes invalidantes (Klein et al., 2018).

Na perspectiva cognitivo-comportamental, indivíduos com distimia tendem a desenvolver padrões de pensamento negativos e automáticos, frequentemente internalizados ao longo do tempo. Já sob um olhar psicodinâmico, pode-se compreender a distimia como uma expressão de conflitos psíquicos não elaborados, frequentemente ligados a experiências precoces de rejeição ou desamparo.

Aaron Beck, um dos principais teóricos da terapia cognitiva, afirma que:

“Os indivíduos deprimidos apresentam uma tríade cognitiva negativa: visão negativa de si mesmos, do mundo e do futuro” (Beck, 1979).

Essa tríade, quando persistente e menos intensa, pode sustentar o quadro distímico ao longo dos anos.

Discussão

Um dos maiores desafios no diagnóstico da distimia é sua invisibilidade relativa. Por não incapacitar completamente o indivíduo, muitas vezes ela é negligenciada tanto pelo próprio sujeito quanto pelo meio social. Isso gera um fenômeno importante: a naturalização do sofrimento.

Além disso, a distimia pode coexistir com episódios de depressão maior, caracterizando o chamado “duplo transtorno depressivo”, o que agrava significativamente o prognóstico (McCullough, 2003).

Do ponto de vista psicoterapêutico, abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a Terapia Interpessoal e intervenções integrativas têm demonstrado eficácia. Em muitos casos, o uso de medicação antidepressiva também é indicado.

Sob uma ótica psicoteológica — especialmente relevante para práticas clínicas integrativas — a distimia pode ser compreendida como um estado de esvaziamento existencial. Não necessariamente uma ausência de fé, mas, por vezes, uma dificuldade de acessar sentido, esperança e conexão interna. Viktor Frankl já apontava que:

“Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos” (Frankl, 1984).

Essa reflexão abre espaço para intervenções que resgatem significado, propósito e reconstrução subjetiva.

Conclusão

A distimia é uma condição que exige atenção clínica sensível e contínua. Seu caráter crônico e silencioso a torna particularmente perigosa, pois pode limitar o potencial de vida do indivíduo sem que haja um colapso evidente.

Compreender a distimia é reconhecer que nem todo sofrimento grita — alguns apenas persistem. E é justamente nessa persistência que se encontra a necessidade de escuta qualificada, intervenção terapêutica e reconstrução de sentido.

A ampliação do olhar — integrando aspectos biológicos, psicológicos e existenciais — permite não apenas tratar sintomas, mas acolher a complexidade do ser humano em sua totalidade.

Referências

American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Washington, DC.

Beck, A. T. (1979). Cognitive Therapy and the Emotional Disorders. New York: Penguin.

Frankl, V. E. (1984). Man’s Search for Meaning. Boston: Beacon Press.

Klein, D. N., Shankman, S. A., & Rose, S. (2018). Dysthymia and chronic depression: Course and treatment. Annual Review of Clinical Psychology.

McCullough, J. P. (2003). Treatment for Chronic Depression: Cognitive Behavioral Analysis System of Psychotherapy (CBASP). Guilford Press.

Se quiser citar este artigo:

Machado de Lima Filho, Abilio. Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana . Campo Largo: Produção independente, 2026.

sexta-feira, 27 de março de 2026

EVOLUIR É...


 Uma metáfora simples, uma pergunta complexa e profundamente reveladora sobre o processo de crescimento humano — psicológico e espiritual.

De um lado, o recipiente transbordando acompanhado da frase “Eu sei tudo!” revela um estado psíquico marcado pela ilusão de completude. Aqui podemos associar ao conhecido fenômeno da Efeito Dunning-Kruger, no qual quanto menos alguém sabe, mais acredita dominar o conhecimento. Psicologicamente, isso aponta para um ego inflado que não tolera o “não saber”. Esse excesso, paradoxalmente, impede a entrada de algo novo — o sujeito está cheio demais de si.

Teologicamente, esse estado se aproxima daquilo que as Escrituras frequentemente tratam como orgulho ou endurecimento do coração. Um coração cheio de certezas não se abre para a revelação. É como um vaso que já está cheio: não há espaço para Deus agir, ensinar ou transformar. A arrogância espiritual cria uma barreira invisível entre o indivíduo e a graça.

Do outro lado, o recipiente sendo preenchido com a pergunta: “O que mais eu posso aprender?” revela uma postura completamente diferente — a humildade epistêmica. Psicologicamente, trata-se de uma mente aberta, curiosa, que reconhece suas limitações e, por isso mesmo, continua crescendo. Aqui o ego não precisa provar nada; ele pode aprender.

Na dimensão teológica, essa postura ecoa o princípio bíblico da mansidão e da humildade de coração. É o espírito ensinável, aquele que se coloca como aprendiz diante da vida e de Deus. Há uma espécie de “esvaziamento do eu” que lembra o conceito de kenosis (esvaziamento), abrindo espaço para ser preenchido por algo maior.

A imagem, portanto, propõe um contraste essencial:

O cheio de si → transborda, mas não cresce

O vazio consciente → se enche e se transforma

Psicoteologicamente, o crescimento verdadeiro exige um movimento duplo:

Desaprender certezas rígidas (quebrar defesas do ego)

Acolher o novo com humildade (abrir-se à transformação)

No fundo, o card nos confronta com uma pergunta silenciosa, mas decisiva:

Você quer estar cheio… ou quer ser preenchido?

E talvez a resposta mais madura seja perceber que evoluir não é acumular conteúdo, mas manter-se disponível ao processo. Porque quem acredita que já chegou, parou. Mas quem pergunta, continua caminhando.

Abílio Machado 🎅 Paz Profunda 

Os 13 problemas da Psicologia Atual

 

A obra “A Verdade saindo do poço armada com seu chicote” (Jean-Léon Gérôme, 1896) ilustra nosso cenário. A psicologia enfrenta uma crise metodológica silenciosa. A solução? Encarar o poço e adotar uma postura clínica e científica implacável. Primeiro, estabeleça limites estritos para o objeto de estudo. Especifique redes nomológicas testáveis, prove invariância conceitual entre contextos e evite criar falsas entidades teóricas. Quantifique a variância de erro, triangule medidas com vieses diferentes e justifique empiricamente a sensibilidade e especificidade de cada ponto de corte. Na prática terapêutica, o mero ajuste estatístico não confirma causalidade. Defina antecipadamente resultados empíricos que refutariam a teoria. Alinhe a análise ao nível de agregação adequado, modelando heterogeneidade para evitar a falácia ecológica. Explicite qual padrão normativo define o prejuízo, impedindo patologização sem critério e evitando a reificação. Como processos violam condições de ergodicidade, a precisão clínica requer modelos de séries temporais e avaliações ecológicas momentâneas, capturando a trajetória intrapessoal genuína. A inferência causal demanda grafos acíclicos explícitos e distinção rigorosa entre relações constitutivas, mediadoras e moderadoras. Por fim, a integridade científica cobra transparência absoluta: pré-registro de protocolos e análises de sensibilidade para combater viés de publicação. Para que intervenções funcionem na vida real, a transportabilidade exige modelar variáveis moderadoras de contexto antecipadamente, delineando ajustes exatos para novas populações. Salve este guia e envie para colegas que levam a ciência a sério.













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O Dia em que Esqueci de Mim

  O  Dia em que Esqueci de Mim Há uma educação silenciosa que nos atravessa desde cedo. Ela não vem escrita em livros, nem é ensinada com cl...