A Cirurgia no Texto Sagrado
Hoje vi uma cena curiosa.
Uma sala cirúrgica. Luzes acesas. Instrumentos esterilizados.
E sobre a mesa… não estava um corpo. Estava um livro.
Uma Bíblia.
Os “cirurgiões” não usavam bisturi para salvar — mas para remover.
“Vamos tirar essa parte sobre pecado. Muito ofensivo.”
“Esse texto sobre inferno… fora também.”
“O casamento está desatualizado.”
"A família tem que ser removida com certeza."
E ali, sob o foco da luz, não se operava uma doença.
Operava-se o desconforto.
A geração que não suporta incômodo decidiu anestesiar o texto.
Mas talvez o problema nunca tenha sido o texto —
e sim o espelho que ele se tornou. Como pensamentos intrusivos que dizem, se não deu certo para mim este relacionamento não vai dar para todos, se minha família é disfuncional quero que todas sejam, se me dá prazer não pode ser pecado. "Quem nunca, né?!"
Na clínica aprendi algo semelhante:
quando algo dói demais, a tendência não é tratar a ferida,
é eliminar o diagnóstico.
Se a palavra confronta, corta-se a palavra.
Se o princípio desafia, remove-se o princípio.
Se a verdade incomoda, chama-se de preconceito. Críticas viram fobias. A própria dúvida sobre a identidade cria um aparato de defesa.
Mas toda cirurgia tem consequência.
Ao retirar partes essenciais, o que sobra não é cura — é mutilação.
O curioso é que ninguém ali parecia odiar o livro.
Pelo contrário, queriam torná-lo “aceitável”, “inclusivo”, “atual”.
Queriam adaptá-lo ao tempo.
Só esqueceram que a função de um texto sagrado nunca foi se adaptar ao homem —
mas confrontá-lo.
Na terapia vejo movimento parecido:
o paciente quer aliviar a culpa sem rever a conduta. Não quer rever seus comportamentos, mesmo que o coloquem em risco.
Quer paz sem responsabilidade.
Quer consolo sem transformação.
O problema não é discutir interpretação.
O problema é quando o critério deixa de ser hermenêutico
e passa a ser emocional.
“Isso me ofende” virou argumento final.
Mas maturidade espiritual — assim como maturidade psíquica — exige tolerância à frustração.
Nem tudo que fere é violência.
Às vezes é revelação.
Não se trata de fanatismo.
Nem de intolerância.
Trata-se de honestidade.
Quando começamos a editar aquilo que nos confronta,
corremos o risco de transformar fé em opinião
e espiritualidade em reflexo cultural. Já vemos isso acontecer: igrejas usando metodologia de boates com cores, obstrução do contato com o exterior, som e luzes para dirigir as emoções durante o culto. E tudo começou na simplicidade de uma mesa com venda de bolo e salgadinho. Depois uma bateria mais forte, um solo de guitarra, gritos e agora temos uma absorção do "se funciona lá para manter as pessoas, por que não aqui ?!"
E, ironicamente, a cirurgia feita para salvar pode terminar esvaziando. Não o vazio de pessoas, mas sim do Espírito Santo de Deus. Esvaziando o conceito moral e o sociopolítico.
Talvez o livro sobre a mesa não precise de bisturi.
Talvez quem esteja na mesa, invisível, sejamos nós, com todas as nossas falhas.
E talvez a pergunta não seja:
“Que parte devemos remover?”
Mas sim:
“Por que essa parte me dói tanto?”
—
Abilio Machado
Psicanalista e Arte-educador
Campo Largo – Paraná
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