Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites
Por Abílio Machado
Introdução
Vivemos sob a pressão silenciosa de sermos sempre agradáveis, disponíveis e emocionalmente estáveis. A ideia de “ser uma boa pessoa” foi socialmente moldada como sinônimo de ausência de conflito, erro ou limite. No entanto, essa construção tem produzido sujeitos exaustos, ansiosos e desconectados de si.
Como afirma Carl Rogers, “o curioso paradoxo é que quando me aceito como sou, então posso mudar”. A aceitação da própria imperfeição não é fracasso moral — é o início de um processo autêntico de crescimento.
Desenvolvimento
A psicologia contemporânea aponta que muitas pessoas desenvolvem padrões de comportamento baseados em aprovação externa. Segundo Aaron T. Beck, crenças centrais como “preciso agradar para ser amado” estruturam pensamentos automáticos disfuncionais, levando a comportamentos de submissão e evitação de conflitos.
O desconstruir esse modelo ao validar atitudes essenciais para a saúde psíquica:
Dizer não
Estabelecer limites
Não dar conta de tudo
Discordar de alguém
Errar
Defender o que sente
Mudar de ideia
Ficar de mau humor
Essas atitudes se alinham ao conceito de assertividade, amplamente estudado por Manuel J. Smith, que afirma que o indivíduo tem o direito de dizer não sem culpa e de mudar de opinião sem precisar se justificar constantemente.
Já Donald Winnicott contribui com a ideia do “falso self”, um mecanismo psíquico no qual a pessoa se adapta excessivamente às expectativas externas, perdendo o contato com seu self verdadeiro. Nesse sentido, a tentativa de ser “bom demais” pode, na verdade, ser um afastamento da autenticidade.
Discussão
A dimensão psicoteológica amplia essa reflexão. A figura de Jesus Cristo frequentemente é interpretada como modelo de perfeição moral, mas os textos revelam alguém que expressava limites claros, indignação e posicionamento.
Ele disse “não”, confrontou estruturas e não buscou agradar a todos — o que reforça a ideia de que a verdadeira integridade não está na aceitação universal, mas na coerência interna.
Além disso, Brené Brown destaca que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas “o berço da coragem, da conexão e da autenticidade”. Negar emoções como tristeza, frustração ou irritação é, portanto, negar partes essenciais da experiência humana.
O sofrimento psíquico surge quando o indivíduo tenta sustentar uma identidade idealizada. Essa dissonância entre o que se sente e o que se mostra gera ansiedade, culpa e esgotamento emocional.
Motivação
Talvez você tenha aprendido que ser bom era não incomodar.
Que amar era ceder sempre.
Que maturidade era suportar em silêncio.
Mas isso não é maturidade — é sobrecarga emocional.
Como aponta Albert Ellis, grande parte do sofrimento humano vem de crenças rígidas como “eu devo ser aprovado por todos o tempo todo”. Questionar essas exigências é um ato de libertação.
Você pode ser gentil sem ser permissivo.
Pode amar sem se anular.
Pode falhar sem se condenar.
Existe dignidade em ser humano — não em ser perfeito.
Conclusão
Ser uma boa pessoa não significa ausência de falhas, mas presença de consciência. Trata-se de viver com responsabilidade emocional sem abrir mão da própria identidade.
A integração entre limites, vulnerabilidade e autenticidade fortalece o indivíduo e melhora suas relações. A bondade saudável não exige autoabandono — ela inclui o próprio sujeito.
Como sintetiza Carl Rogers, tornar-se pessoa é um processo contínuo de aceitação, mudança e autenticidade.
Ser bom, portanto, é também saber onde você termina — e onde o outro começa.
Referências Bibliográficas
BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva e os Transtornos Emocionais. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
BROWN, Brené. A Coragem de Ser Imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.
ELLIS, Albert. A Guide to Rational Living. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1961.
ROGERS, Carl. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
SMITH, Manuel J. Quando Digo Não, Me Sinto Culpado. São Paulo: Saraiva, 2000.
WINNICOTT, Donald W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
BÍBLIA SAGRADA. Diversas edições.
Se quiser citar este artigo:
Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.





























