quarta-feira, 25 de março de 2026

No fim, morremos sozinhos



 No fim, morremos sozinhos

Há uma frase que chega sem pedir licença e se senta no meio da alma: no fim, morremos sozinhos. Ela não grita, não acusa — apenas fica. E, de algum modo estranho, verdadeiro.

Sozinhos.

Não porque faltou amor.

Não porque ninguém ficou.

Mas porque existe um território da existência onde ninguém atravessa conosco.

A vida inteira é construída em companhia. Nascemos sendo acolhidos por braços, crescemos sustentados por vozes, seguimos amparados por vínculos. Aprendemos a chamar nomes quando dói, a buscar olhos quando nos perdemos, a dividir o pão e também os silêncios. Somos, por natureza, seres de encontro.

Mas há um instante — esse último — que não se compartilha.

E isso, à primeira vista, assusta.

Porque desmonta a ilusão mais confortável que carregamos: a de que nunca estaremos verdadeiramente sós.

Do ponto de vista psicológico, essa solidão final confronta o núcleo mais primitivo do ser: o medo do abandono. Aquela sensação infantil de que, se o outro some, eu deixo de existir. Por isso evitamos pensar nisso. Disfarçamos. Ocupamos o tempo. Fazemos barulho dentro de nós mesmos para não ouvir o eco desse pensamento.

Mas há uma outra forma de olhar.

E talvez seja aí que a teologia sussurra algo diferente daquilo que o medo insiste em repetir.

Porque, se é verdade que ninguém pode atravessar a morte por nós, também é verdade que não a atravessamos no vazio.

A solidão do fim não é ausência — é interioridade.

É o momento em que tudo o que foi externo se recolhe, e resta apenas aquilo que fomos, em essência. Sem máscaras, sem papéis, sem aplausos, sem defesas. Apenas o ser diante do Ser.

É o encontro mais íntimo que existe.

Não com o outro humano, mas com aquilo que nos sustentou desde sempre, mesmo quando não percebíamos.

A tradição espiritual, em suas muitas formas, aponta para um paradoxo bonito: o momento mais solitário é também o mais acompanhado.

Porque, se ninguém pode morrer conosco, há Alguém que nos espera do outro lado da travessia — ou, talvez mais profundo ainda, que nunca deixou de caminhar por dentro dela.

Então a frase muda de cor.

“No fim, morremos sozinhos” deixa de ser uma sentença de abandono e passa a ser um convite à verdade.

Quem sou eu quando tudo o mais se vai?

O que permanece quando não há mais plateia?

Que tipo de presença habita em mim quando o mundo silencia?

Talvez o grande drama não seja morrer sozinho.

Talvez seja viver inteiro rodeado de gente… e nunca ter aprendido a estar consigo mesmo.

Porque quem não suporta a própria companhia, teme a solidão do fim.

Mas quem fez as pazes com o próprio interior, começa a perceber que nunca esteve realmente só.

No fundo, a morte apenas revela aquilo que a vida inteira tentou ensinar:

Que o outro é abrigo — mas não é fundamento.

Que o amor nos cerca — mas não nos substitui.

E que existe uma presença mais profunda do que qualquer presença visível.

Por isso, talvez a pergunta não deva ser se morreremos sozinhos.

Mas sim:

com quem aprendemos a estar… quando ninguém mais pode ficar?

terça-feira, 24 de março de 2026

Não se deixe abater



 Não se deixe abater.

Se até por pouca coisa você se abate, certamente arcará com os danos, de vez que a vida, do nascimento à morte, é cheia de lances e surpresas agradáveis e desagradáveis.

O contentamento e a paz dependem superiormente de boa conduta, bom pensamento, fé no poder superior e convicção de poder enfrentar qualquer problema.

Essa fé, esse ânimo, essa convicção de ser forte, competente e amoroso são as raízes da sua felicidade. Nunca deixe cair o ânimo.

A força que você tem é a soma dos seus esforços.


ABILIO MACHADO 

- PSICÓLOGO 

- ARTETERAPEUTA 

- MASSOTERAPEUTA

domingo, 22 de março de 2026

Contratransferência: quando o analista também é afetado...


 





Contratransferência: quando o analista também é afetado 

Durante muito tempo, acreditou-se que o analista deveria ser completamente neutro. Como se estivesse fora da relação analítica. 

Mas a clínica mostrou outra coisa. O analista também é atravessado pelo encontro com o paciente. 

Sentimentos, reações, incômodos, simpatias. Tudo isso pode surgir na escuta. Esse fenômeno recebeu o nome de contratransferência. 

Freud inicialmente viu a contratransferência como um obstáculo. Algo que o analista precisava controlar. Com o desenvolvimento da clínica, ela passou a ser compreendida também como instrumento. 

Um indicador do que está acontecendo na relação analítica. O importante não é eliminar essas reações. 

É poder analisá-las, compreendê-las e não agir a partir delas. 

Se você quer aprofundar a compreensão da prática clínica psicanalítica, me siga...

Encerrar uma análise...


 





Encerrar uma análise não é abandonar. 

É sustentar uma saída. Muitas pessoas imaginam que o fim de uma análise acontece quando “tudo está resolvido”. 

Mas a Psicanálise não promete uma vida sem conflito. O inconsciente continua existindo. Os desejos continuam produzindo impasses. 

A vida psíquica nunca se encerra. O que muda ao longo de uma análise é a posição do sujeito diante do que vive. Aquilo que antes aparecia como repetição cega pode se tornar algo reconhecido. 

Encerrar uma análise não significa ausência de sofrimento. Significa que o sujeito pode sustentar sua história sem precisar repeti-la da mesma maneira. 

Algo foi simbolizado. Algo foi elaborado. O sintoma já não ocupa o mesmo lugar. Por isso o final de uma análise não é ruptura. 

É passagem. O sujeito sai não porque tudo terminou, mas porque pode continuar sem depender do espaço analítico. 

Se você se interessa pela clínica psicanalítica para além dos estereótipos, me siga...

quinta-feira, 19 de março de 2026

Quando a dor não sangra, o mundo se cala...



 Quando a dor não sangra, o mundo se cala

Por Abilio Machado psicanalista, psicoarteterapeuta e neuropsicopedagogo 

Há dores que recebem flores.

Outras recebem silêncio.

No lado esquerdo da vida, quando o corpo adoece, o mundo se mobiliza. Chegam mensagens, visitas, sopas quentes, orações ditas em voz alta. Há uma coreografia social bem ensaiada: “Fique bem logo”, “Sentimos sua falta”, “Leve o tempo que precisar”. A doença física, visível, quase sempre convoca a empatia como um reflexo.

Mas há um outro lado — mais silencioso, mais difícil de nomear. Um território onde a dor não sangra, não incha, não aparece em exames simples. Ali, quando alguém diz “eu tive depressão”, o que muitas vezes encontra é um eco vazio. Ou pior: um constrangimento coletivo. Como se aquela dor fosse incômoda demais para ser acolhida, complexa demais para ser compreendida, invisível demais para ser legitimada.

E então o que se oferece não são flores, mas ausência.

A depressão não paralisa apenas quem a vive — ela também desorganiza quem está ao redor. Porque ela não cabe nas frases prontas. Ela desafia o senso comum que acredita que “basta reagir”, “ter fé”, “pensar positivo”. A dor psíquica não se resolve com pressa. E isso assusta uma sociedade que venera soluções rápidas.

Talvez, no fundo, o silêncio não seja falta de cuidado, mas falta de linguagem.

Não aprendemos a estar com quem sofre por dentro.

Não nos ensinaram a sentar ao lado de alguém que não consegue explicar o que sente. A sustentar um encontro onde não há respostas, apenas presença. A oferecer companhia sem a necessidade de consertar.

E assim, sem perceber, abandonamos exatamente quem mais precisa de vínculo.

A depressão é uma experiência de esvaziamento — de sentido, de energia, de identidade. E o silêncio externo pode aprofundar esse vazio, transformando sofrimento em solidão. Não é apenas a dor que pesa, mas a sensação de ser invisível dentro dela.

Por isso, talvez o convite deste tempo seja outro.

Aprender a cuidar do invisível.

Oferecer ao sofrimento psíquico o mesmo gesto que oferecemos ao corpo: atenção, tempo, presença e validação. Trocar o silêncio desconfortável por uma escuta disponível. Substituir o julgamento apressado por curiosidade genuína. Permitir-se não saber o que dizer — mas ainda assim, ficar.

Porque às vezes, o que salva não é a frase certa.

É alguém que não vai embora.

E se há algo profundamente humano — e também profundamente espiritual — é isso: permanecer ao lado do outro quando ele já não consegue permanecer em si mesmo.

Talvez não possamos curar todas as dores.

Mas podemos, ao menos, não ampliá-las com a nossa ausência.

Um pensamento que nasce…

…sentado no banco da igreja, olhando para pessoas que recebem abraços visíveis e outras que carregam lágrimas invisíveis. E me pergunto: quantos de nós estão sorrindo por fora, enquanto por dentro imploram apenas por alguém que fique?


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terça-feira, 17 de março de 2026

Crônica XIII - Matias - O Arquétipo da Continuidade Matias – O Discípulo que Reconstruiu o Círculo

Os Discípulos que Habitam a Alma

Crônica XIII - O Arquétipo da Continuidade

Matias – O Discípulo que Reconstruiu o Círculo

Sentado no banco da igreja, enquanto a luz atravessava os vitrais silenciosos, pensei em um nome que quase não aparece nas pregações.

Matias.

Ele não realizou milagres famosos.

Não escreveu cartas.

Não protagonizou episódios marcantes.

Ainda assim, sua presença foi fundamental.

Depois da morte de Judas, o grupo dos discípulos ficou incompleto. Algo parecia fora de lugar. O círculo dos doze, que simbolizava a nova comunidade, havia sido quebrado.

Então os discípulos oraram.

Não procuraram o mais famoso.

Nem o mais eloquente.

Procuraram alguém fiel.

Assim foi escolhido Matias.

Ele entrou não para brilhar, mas para restaurar o equilíbrio.

Há pessoas na história que ocupam o centro da narrativa.

E há outras que sustentam a estrutura da história sem serem notadas.

Matias pertence a essa segunda categoria.

Ele representa aqueles que servem sem aplausos.

Aqueles que não disputam visibilidade, mas mantêm viva a missão.

Talvez a fé precise mais dessas pessoas do que imaginamos.

Porque enquanto alguns anunciam em voz alta, outros sustentam silenciosamente o que foi anunciado.

Matias nos lembra que nem toda vocação precisa de palco.

Algumas vocações existem apenas para manter o círculo completo.

Arquétipo espiritual

Matias representa:

a fidelidade silenciosa

a continuidade da obra

o serviço sem busca de reconhecimento

Ele nos lembra que nem todos são chamados para o centro da cena.

Alguns são chamados para manter a história de pé.

Crônica XIV - Paulo - O Arquétipo da Conversão Paulo – Quando o Inimigo se Torna Mensageiro

 

Todos diferentes.

Todos necessários.

Porque o Cristo não constrói um grupo de perfeitos.

Ele constrói uma comunidade de transformação.

Os Discípulos que Habitam a Alma

O Apóstolo que Chegou Depois

Crônica XIV - O Arquétipo da Conversão

Paulo – Quando o Inimigo se Torna Mensageiro

Sentado no banco da igreja, olhando para o altar vazio, pensei em um dos personagens mais surpreendentes da história da fé.

Não foi pescador.

Não caminhou com Jesus pelas estradas da Galileia.

Não presenciou milagres nem ouviu as parábolas ao entardecer.

Ao contrário.

Ele perseguiu aqueles que seguiam o Nazareno.

Seu nome era Saulo. Homem culto, disciplinado, convicto de que defendia a verdade. Em sua mente não havia maldade. Havia certeza.

E talvez seja justamente isso que torna sua história tão inquietante.

Porque às vezes o erro mais profundo nasce da convicção absoluta de estar certo.

Saulo acreditava proteger Deus quando, na verdade, combatia aquilo que Deus estava fazendo.

Mas no caminho para Damasco algo aconteceu.

Não foi apenas uma visão.

Foi uma ruptura interior.

Aquele que perseguia encontrou Aquele que perseguia.

E naquele encontro nasceu Paulo.

A mesma força que antes empurrava sua vida contra os discípulos agora o impulsionava a anunciar aquilo que antes negava.

Ele não esteve entre os doze primeiros.

Não foi discípulo original.

Mesmo assim tornou-se um dos maiores anunciadores da mensagem de Cristo.

Paulo nos lembra de algo profundamente humano:

Deus não chama apenas os perfeitos.

Deus transforma os improváveis.

Porque às vezes o maior missionário nasce justamente do antigo opositor.

Talvez por isso sua história nos console tanto.

Se até um perseguidor pôde se tornar apóstolo, então ninguém está definitivamente perdido.

Sempre pode existir um caminho para Damasco dentro da alma.

Paulo, foi transformado, sinônimo de pura conversão que o fez ser além do momento, sua energia, sua inteligência e sua paixão foram redirecionadas para anunciar aquilo que antes combatia.

Tornou-se apóstolo entre os gentios.

O homem que caminhava contra a fé passou a carregá-la para terras onde nenhum dos doze havia ido.

Talvez por isso eu fiquei pensando naquele décimo terceiro assento.

Ele nunca existiu na mesa original.

Mas espiritualmente… talvez sempre tenha estado reservado.

Porque o Reino de Deus não termina com os primeiros chamados.

Ele continua chamando.

Paulo não substituiu ninguém.

Ele ampliou a mesa.

Se os doze representam as raízes da fé, Paulo representa seus ramos.

Ele é o arquétipo daquele que chega depois… mas chega com fogo.

Aquele que não estava no começo da história, mas se torna essencial para que a história continue.

E ali, sentado no banco da igreja, percebi algo curioso.

Talvez o décimo terceiro assento ainda não esteja ocupado.

Talvez ele represente todos aqueles que vieram depois.

Gente que não viu os milagres.

Que não caminhou com Jesus pela Galileia.

Mas que, de alguma forma misteriosa, foi chamada mesmo assim.

Talvez cada geração receba esse convite silencioso.

Sentar-se à mesa da missão.

Porque o Cristo que chamou pescadores, cobradores de impostos e até perseguidores…

Ainda continua chamando.

Arquétipo espiritual

Paulo representa:

a queda das certezas rígidas

a conversão profunda

a transformação do inimigo em mensageiro

Ele nos lembra que ninguém está longe demais para recomeçar.

No fim, morremos sozinhos

 No fim, morremos sozinhos Há uma frase que chega sem pedir licença e se senta no meio da alma: no fim, morremos sozinhos. Ela não grita, nã...