A pergunta que dr Saulo Verissimo trouxe é muito pertinente para a clínica, porque toca numa das fronteiras mais delicadas da psicanálise: como acolher o sofrimento político sem transformar o consultório em espaço de confirmação ideológica?
Independentemente de o paciente ter apostado todas as fichas na mudança ou na continuidade, a vitória de um candidato pode representar muito mais do que um resultado eleitoral. Pode simbolizar esperança, segurança, pertencimento, reconhecimento, medo ou até a sensação de que o futuro lhe foi retirado, principalmente nos atos ocorridos durante e depois.
E é aí que entra o psicanalista.
_Lula ganhou. E agora, psicanalista?_
Uma reflexão sobre clínica, política e autorregulação emocional.
_ Por Abilio Machado
O que fazer com o paciente que chega ao consultório e sente que o país finalmente tomou o rumo certo? E com aquele que chega tomado pela angústia, pela indignação ou pelo sentimento de que perdeu algo muito maior do que uma eleição?
Não precisamos escolher um lado para reconhecer o sofrimento de quem está do outro.
O paciente que depositou suas esperanças na mudança pode experimentar euforia, alívio e a expectativa de que sua vida finalmente melhore. Já aquele que apostou na continuidade de outro projeto pode sentir frustração, insegurança, raiva ou impotência.
Mas há uma questão clínica fundamental: não devemos presumir que todos os eleitores de um mesmo candidato sintam a mesma coisa, nem interpretar automaticamente suas emoções a partir de suas escolhas políticas.
A política é o acontecimento externo. O significado que ela assume na vida psíquica de cada pessoa é singular.
### 1\. O psicanalista não é juiz, militante nem salvador
Nosso papel não é convencer o paciente de que ele escolheu certo ou errado. Tampouco é confirmar suas certezas, alimentar suas indignações ou oferecer argumentos para que vença discussões fora do consultório.
É escutar o que aquela escolha representa em sua história.
Quando alguém afirma: “Agora tudo vai melhorar”, podemos investigar: O que, exatamente, você espera que melhore? O que essa mudança representa para você?
Quando outro diz: “Não há mais esperança para este país”, podemos perguntar: O que essa derrota significa na sua vida? O que você sente que perdeu? Essa sensação de impotência aparece em outras situações?
Perceba a diferença: não discutimos necessariamente a legitimidade da esperança ou da indignação. Investigamos como elas se constituem, o que mobilizam e de que maneira afetam a vida do sujeito.
### 2\. Ser o advogado do diabo sem se tornar adversário
O recurso clínico não consiste em contrariar o paciente por esporte, mas em introduzir perguntas que permitam examinar suas certezas.
Ao paciente eufórico, podemos perguntar se ele consegue reconhecer os limites de qualquer governo, tolerar a possibilidade de frustrações e preservar sua capacidade crítica.
Ao paciente revoltado, podemos ajudá-lo a distinguir fatos, interpretações, expectativas e antecipações catastróficas, sem desqualificar suas preocupações políticas.
Em ambos os casos, a pergunta central é semelhante:
“Você consegue sustentar suas convicções sem se tornar prisioneiro delas?”
Isso não significa estabelecer uma falsa equivalência entre todas as afirmações políticas. Fatos verificáveis devem ser diferenciados de rumores, interpretações e opiniões. Neutralidade clínica não é indiferença à realidade; é não impor ao paciente a visão de mundo do terapeuta.
### 3\. Autorregulação não é resignação
Aqui existe um cuidado importante: autorregular-se não significa aceitar passivamente tudo o que acontece, silenciar a indignação ou abandonar o exercício da cidadania.
Significa desenvolver condições psíquicas para não ficar inteiramente à mercê dos acontecimentos externos.
Podemos trabalhar com o paciente para que ele consiga:
* Reconhecer suas emoções sem agir impulsivamente a partir delas.
* Diferenciar aquilo que pode controlar daquilo sobre o qual tem influência limitada.
* Tolerar incertezas sem precisar preencher todas as lacunas com certezas absolutas.
* Preservar vínculos afetivos apesar das divergências políticas.
* Transformar a preocupação em ações concretas, proporcionais e coerentes com seus valores.
* Manter projetos pessoais, trabalho, lazer e relações significativas, mesmo diante de um cenário político frustrante.
O objetivo não é produzir um cidadão apático, mas uma pessoa capaz de participar da vida pública sem entregar a ela o controle absoluto de sua vida psíquica.
### 4\. E quando o próprio psicanalista tem lado?
Temos histórias, valores, convicções e preferências. Não somos seres desprovidos de ideologia. O desafio ético é reconhecer nossos próprios atravessamentos para que eles não se convertam em interpretações enviesadas, julgamentos morais ou tentativas de conversão.
Se a fala do paciente nos irrita, precisamos investigar nossa própria reação antes de transformá-la em intervenção clínica.
Se concordamos intensamente com ele, também precisamos ter cuidado: a concordância pode nos levar a abandonar a escuta e substituir a elaboração por cumplicidade ideológica.
O paciente não está ali para confirmar nossas convicções, assim como nós não estamos ali para validar todas as dele.
A clínica exige que suportemos a diferença sem precisar eliminá-la.
### 5\. A pergunta que pode orientar a sessão
Diante do paciente que chega tomado pelo resultado eleitoral, talvez uma intervenção inicial seja:
“Independentemente do que aconteceu na política, quero compreender o que isso está provocando em você. O que essa vitória ou essa derrota significa na sua história, nas suas expectativas e na maneira como você enxerga o futuro?”
A partir daí, a escuta pode avançar para a relação entre expectativa e realidade, idealização e desilusão, pertencimento e identidade, controle e impotência.
Sem presumir que toda reação seja patológica. Sem reduzir preocupações legítimas a conflitos inconscientes. E sem perder de vista que o sofrimento pode ter componentes tanto subjetivos quanto concretos.
### Para concluir: a política passa pela clínica, mas não deve governá-la
O paciente pode entrar no consultório acreditando que a vitória de um candidato salvará o país ou que a vitória de outro o condenará. Não cabe ao psicanalista decidir, no lugar dele, o que deve pensar.
Cabe-lhe ajudá-lo a investigar o que sustenta essas expectativas, reconhecer os limites de suas previsões e recuperar a capacidade de pensar para além da urgência emocional.
Porque a maturidade psíquica não exige que abandonemos nossas convicções. Exige que possamos examiná-las, questioná-las e conviver com a incerteza sem perder a nós mesmos.
A função do psicanalista não é ensinar o paciente a pensar como ele pensa. É criar condições para que o paciente possa pensar sem precisar se submeter às próprias certezas — nem às certezas do analista.
E talvez esta seja a pergunta mais importante que podemos levar para a clínica depois de uma eleição:
Se o resultado das urnas tem o poder de determinar inteiramente a minha esperança, a minha paz e a minha capacidade de seguir vivendo, em que medida estou vivendo a minha própria vida — e em que medida estou entregando minha vida psíquica ao destino que atribuo à política?
Abilio Machado — Psicanalista | Psicoarteterapeuta
| Arteeducador
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