quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A esquizofrenia não "surge" do nada.

 


A esquizofrenia não "surge" do nada. Ela geralmente mostra sinais anos antes, em um período que chamamos de Fase Prodrômica.

🧠 Imagine que nossa mente organiza as informações do mundo como um quebra-cabeça em constante montagem. 

Nos sintomas prodrômicos, algumas peças começam a parecer que não se encaixam como antes, ou cores de cenários diferentes se misturam. 

Identificar essas pequenas peças é o que permite ajudar a pessoa a reorganizar sua vivência com segurança.


🚩 O "Retraimento" diferente na adolescência 

Muitos confundem com a rebeldia típica, mas observe a intensidade:

 🔸️O isolamento social: Aquele jovem que era sociável e, de repente, abandona o grupo de amigos e prefere ficar trancado no quarto por semanas, sem interesse em hobbies antigos.

🔸️Queda no rendimento escolar: Uma dificuldade súbita de concentração. Ele lê a mesma página dez vezes e não entende nada.

🔸️ Higiene relaxada: Deixar de tomar banho ou trocar de roupa por dias, demonstrando uma apatia profunda (a "falta de vontade").


🚩 A Percepção se altera na fase adulta

Aqui, o mundo começa a parecer "estranho" ou ameaçador:

🔸️ Pensamentos Mágicos: Uma mulher que passa a acreditar que as cores das roupas das pessoas na rua são mensagens secretas para ela.

🔸️ Desconfiança (Paranoia leve): O homem que começa a achar que os colegas de trabalho estão rindo dele pelas costas ou que o celular está sendo monitorado, sem uma base real.

🔸️ Alterações Sensoriais: Sentir que os sons estão altos demais ou que as cores estão brilhantes de um jeito desconfortável.


💡 Por que observar importa?

É o momento de ouro para intervenção terapêutica e medicamentosa leve, que pode evitar que o quadro evolua para um surto grave.

Se você notar que um filho, aluno ou paciente está "se distanciando" da realidade de forma persistente, não espere o quadro aparecer. 

O acolhimento e a avaliação profissional precoce salvam o futuro.

❤️❤️❤️

Abilio Machado 

Psicoarteterapeuta C & P 

Aos poucos tudo muda


 Há um dia em que a casa fica estranhamente silenciosa, e não é porque a criança foi embora. Ela ainda está ali, sentada no chão, no sofá, no quarto. O que mudou foi a língua que ela fala — e, junto com ela, o modo como nos alcança.

No começo, tudo era aproximação. A picoca não precisava virar pipoca para ser compreendida. O erro não era falha, era ponte. A linguagem infantil não nomeia o mundo: ela o cria. Cada palavra torta é um ensaio de sentido, uma tentativa de pertencimento. O adulto entende não porque a palavra está correta, mas porque o vínculo está inteiro.

Com o tempo, algo acontece. A estela aprende que é estrela. O tefone se ajeita em telefone. A mânica se corrige para máquina. Não é apenas alfabetização — é adaptação. A criança vai aprendendo que, para ser ouvida no mundo, precisa falar como o mundo fala. A escola chama isso de desenvolvimento linguístico. A psicopedagogia sabe que é também um movimento de separação.

Cada palavra corrigida é uma conquista cognitiva, sim. Amplia o pensamento, organiza a realidade, estrutura o raciocínio simbólico. Mas, ao mesmo tempo, fecha um pequeno portal da infância. O adulto vibra com o progresso, enquanto algo delicado se despede sem cerimônia: aquele idioma íntimo, imperfeito e cúmplice que só existia entre pais e filhos.

Até que chega o dia em que o “não sabo” vira “não sei”. E ninguém aplaude. Porque ali não houve erro a ser corrigido, apenas uma constatação. A criança já sabe que não sabe. Metacognição, diriam os livros. Consciência dos próprios limites, diriam os teóricos. Para os pais, muitas vezes, é só um aperto estranho no peito — como quem percebe que o filho começou a resolver o mundo sem pedir ajuda.

Do ponto de vista psicopedagógico, esse afastamento é saudável. É sinal de maturação, de autonomia intelectual, de construção do eu. A criança precisa sair do colo simbólico para pensar com as próprias palavras. Mas do ponto de vista afetivo, é um luto miúdo, cotidiano, quase invisível. Não se chora por ele, mas ele se acumula.

Os pais não se afastam porque querem. Afastam-se porque a criança avança. E avançar exige espaço. O que antes era dito em voz alta passa a ser pensado. O que era perguntado vira silêncio. O que era compartilhado se torna interno. Não é rejeição — é desenvolvimento.

Talvez o desafio do adulto não seja impedir essa distância, mas aprender outra forma de proximidade. Menos correção, mais escuta. Menos tradução do mundo, mais curiosidade pelo que a criança pensa dele. Porque, mesmo quando a linguagem amadurece, o desejo de ser compreendido permanece infantil por muito tempo.

Aos poucos, os filhos aprendem a falar certo. E os pais precisam aprender a ouvir diferente.


Abilio Machado 

Psicanalista 

Psicoarteterapeuta C & P 

Neuropsicopedagogo ICH 

Arteeducador

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O dilema do Bonde.

 

O Dilema do Bonde

Quadro 1: Um bonde desgovernado avança rapidamente por uma linha férrea. Cinco pessoas estão amarradas nos trilhos à frente.


Quadro 2: Um homem está ao lado de uma alavanca. Ele tem a opção de puxá-la, desviando o bonde para uma segunda linha férrea.


Quadro 3: Nessa segunda linha, uma única pessoa está amarrada.


Quadro 4: O homem está suando, com uma expressão de desespero no rosto, olhando para a alavanca e para as duas opções. Ele sabe que qualquer decisão resultará em morte.


Quadro 5: Close-up do rosto do homem, uma lágrima escorre. Ele precisa decidir.


Quadro 6: O bonde está se aproximando das cinco pessoas, a sombra do bonde já as cobre. O homem ainda não decidiu.


Pergunta: Se você estivesse no lugar do homem da alavanca, o que você faria e por quê?

sábado, 17 de janeiro de 2026

A bebida, o silêncio e o altar invisível


 A bebida, o silêncio e o altar invisível

Ninguém começa usando drogas querendo perder a vida.

Começa querendo perder a dor.

É curioso como a sociedade gosta de falar das drogas apontando o dedo para a substância, como se ela tivesse pernas, braços e intenção própria. Como se o álcool pulasse sozinho para dentro do copo, como se a garrafa chamasse pelo nome, como se o vício fosse um acidente moral e não um processo humano.

Mas quem escuta de verdade sabe:

ninguém bebe apenas bebida.

Bebe história.

Bebe ausência.

Bebe cansaço.

Bebe silêncios acumulados.

As drogas não entram na vida de alguém por acaso. Elas entram onde algo já estava faltando.

O álcool, por exemplo, é social, educado, aceito. Ele chega sorrindo, abraça, diz “relaxa”, “só hoje”, “você merece”. Ele participa das festas, das confraternizações, das despedidas, dos encontros e até dos velórios. É a droga que a cultura ensinou a amar.

E talvez por isso seja uma das mais traiçoeiras.

No começo, ele solta a língua, desamarra o corpo, anestesia a vergonha. O tímido fala. O triste ri. O cansado esquece. O ferido dorme.

E então alguém diz:

— “Quando bebo, fico mais eu.”

Mas não fica.

Fica menos consciente da dor de não ser quem gostaria de ser.

Do ponto de vista psicológico, o abuso de álcool não é busca de prazer. É tentativa de regulação emocional. É um remendo improvisado para emoções que nunca aprenderam a ser sentidas, nomeadas e atravessadas.

Quem bebe demais, muitas vezes, não sabe o que sente. Só sabe que dói.

E quando dói, o corpo aprende rápido: existe um líquido que cala o barulho interno.

O cérebro registra.

O alívio vira hábito.

O hábito vira necessidade.

A necessidade vira prisão.

E, em silêncio, o prazer vai embora. Fica apenas o medo da falta.

Mas há algo ainda mais profundo acontecendo — algo que a psicologia sozinha toca, mas não esgota.

Existe um vazio espiritual que nenhuma substância preenche.

Não falo de religião. Falo de sentido.

De pertencimento.

De reconciliação com a própria história.

Quando o humano não encontra onde repousar a alma, ele cria altares improvisados. Alguns rezam para o sucesso, outros para o corpo perfeito, outros para o reconhecimento. E muitos, sem perceber, fazem do álcool um consolador químico.

O copo vira oração.

A garrafa, refúgio.

O gole, uma promessa falsa de paz.

É uma espiritualidade distorcida, mas real: algo que promete alívio imediato, cobra caro e nunca salva.

O alcoolismo não começa no fígado. Começa na alma.

O fígado adoece depois, como testemunha silenciosa de uma dor que ninguém quis ouvir a tempo.

E enquanto o corpo tenta eliminar a substância — em horas ou dias — a mente continua intoxicada por memórias, culpas, vergonhas e histórias mal contadas.

O álcool pode sair do sangue em doze horas.

Da urina em dois dias.

Mas da identidade… às vezes leva anos.

Porque o problema nunca foi só a bebida.

Foi o que ela substituiu.

As outras drogas seguem caminhos semelhantes, cada uma com sua promessa específica:

umas oferecem coragem, outras desligamento, outras euforia, outras anestesia total. Mas todas têm algo em comum: não ensinam a viver, apenas a escapar.

E ninguém consegue fugir de si para sempre.

Em algum momento, o corpo cobra.

As relações adoecem.

O trabalho falha.

A espiritualidade seca.

O espelho se torna incômodo.

E então surge a pergunta que muitos evitam:

“Quem sou eu sem isso?”

Essa é a pergunta mais assustadora para quem se perdeu no caminho. E também a mais necessária.

Uma abordagem psicoteológica não aponta o dedo. Ela estende a mão.

Ela entende que tratar o abuso de drogas não é apenas retirar a substância, mas devolver à pessoa a capacidade de sentir, escolher e sustentar a própria existência.

Não se trata de condenar o dependente.

Trata-se de chamá-lo de volta à consciência.

À responsabilidade possível.

À dignidade esquecida.

Cura não é abstinência apenas.

Cura é reconstrução de sentido.

Talvez, no fundo, toda dependência seja uma pergunta mal formulada:

“Como viver com essa dor?”

E o trabalho terapêutico — psicológico e espiritual — seja ajudar a reformular a pergunta:

“O que essa dor quer me ensinar sobre mim?”

Enquanto essa pergunta não encontra espaço, a garrafa continua sendo resposta.

Uma resposta frágil.

Temporária.

Cara demais.

Mas ainda assim, compreensível.

Porque ninguém se perde porque quer.

Se perde porque não encontrou outro caminho.

E toda crônica sobre drogas, se for honesta, não termina com julgamento — termina com convite.

Convite à escuta.

À responsabilidade.

À reconstrução.

E, principalmente, à coragem de parar de beber silêncio e começar, enfim, a habitar a própria vida.


#fuga #drogas #psicologia #tetapia #sintomas #tratamento 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Entre a mão, a tela e o silêncio

 


Entre a mão, a tela e o silêncio

Há um silêncio estranho que costuma aparecer depois.

Não o silêncio bom — aquele que acalma.

Mas o silêncio vazio, quase constrangedor, que deixa o sujeito sozinho com aquilo que acabou de fazer.

É desse silêncio que quero falar quando o tema é pornografia e masturbação.

Porque, ao contrário do que se diz nas frases prontas das redes, o problema raramente está no ato em si. Está no lugar que ele ocupa. Está na função que assumiu. Está no momento em que o corpo passa a ser usado não como linguagem, mas como anestesia.

No consultório, quase ninguém chega dizendo:

“Tenho prazer demais.”

O que escuto é outra coisa:

“Minha cabeça não para.”

“Fico vazio depois.”

“Prometo que não vou repetir… e repito.”

“Não sei mais se escolho ou se sou levado.”

Pornografia e masturbação, quando se encontram nesse ponto, formam um pacto silencioso. Um acordo rápido entre a angústia e o alívio. A mão obedece, a tela oferece, o corpo descarrega. Tudo parece resolvido por alguns minutos.

Depois, volta o silêncio.

A pornografia promete prazer, mas entrega isolamento.

Ela dispensa o outro real — com seus limites, seus tempos, suas falhas. No lugar do encontro, oferece desempenho. No lugar do afeto, oferece estímulo. No lugar do desejo, oferece repetição.

A masturbação, por sua vez, quando atravessada por esse circuito, deixa de ser expressão corporal e passa a ser resposta automática. Já não nasce do sentir, mas do impulso treinado. Não escuta o corpo — usa-o.

E aqui preciso dizer algo que incomoda:

nem tudo que é íntimo é saudável.

nem tudo que é privado é neutro.

nem tudo que dá prazer produz integração.

Existe uma diferença grande entre um corpo que se expressa e um corpo que se cala através do ato.

O vício não começa quando se faz “demais”.

Começa quando se faz para não sentir.

Muitos defendem dizendo:

“Isso é normal.”

“Todo mundo faz.”

“É coisa da época.”

“Reprimir é pior.”

Talvez.

Mas normalidade estatística não é sinônimo de saúde psíquica.

E frequência coletiva não absolve o vazio individual.

Quando a masturbação associada à pornografia se torna hábito fixo, o que se perde não é a moral — é a capacidade de esperar. O desejo deixa de amadurecer. O corpo não aprende a lidar com tensão. Tudo precisa ser resolvido agora.

A frustração vira inimiga.

O tédio vira ameaça.

O silêncio vira gatilho.

E então o sujeito começa a depender da tela para se acalmar. Não é prazer — é regulação emocional improvisada.

Do ponto de vista psíquico, isso empobrece.

Do ponto de vista relacional, distancia.

Do ponto de vista espiritual, fragmenta.

Não porque “Deus castiga”, mas porque a alma não funciona bem quando é dividida em compartimentos secretos.

O corpo pede sentido.

Quando não encontra, aceita estímulo.

E aqui surge a pergunta que quase nunca é feita com honestidade:

o que eu evito sentir quando recorro a esse circuito?

Solidão?

Raiva?

Medo?

Inadequação?

Cansaço de sustentar uma imagem?

A pornografia não cria esses afetos — ela apenas os encobre por alguns minutos.

Depois, tudo retorna. Um pouco mais forte.

O caminho terapêutico não é demonizar o corpo, nem glorificar o impulso. É restituir a palavra onde o ato tomou o lugar. É ajudar o sujeito a suportar sentir, desejar, esperar, frustrar-se, dialogar.

Quando o desejo pode ser pensado, ele não precisa ser descarregado o tempo todo.

Quando o afeto pode ser nomeado, o corpo descansa.

Quando o silêncio deixa de assustar, a tela perde poder.

Talvez a verdadeira pergunta não seja:

“Posso ou não posso?”

Mas outra, bem mais difícil:

“O que estou tentando calar em mim?”

Enquanto essa pergunta não encontra espaço, a mão continuará obedecendo, a tela continuará oferecendo, e o silêncio continuará voltando.

E o silêncio, cedo ou tarde, sempre fala.


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#masturbação #cincocontraum #CorpoEDesejo #PsicologiaEssencial #DependenciaEmocional #VidaInterior #ReflexoesPsicologicas

Pornografia, a fruta proibida e o velho “você é careta”

 


Pornografia, a fruta proibida e o velho “você é careta”

Por Abilio Machado 

Falo como psicanalista.

E também como psicoarteterapeuta.

Mas, antes de tudo, falo como alguém que escuta homens — muitos homens — adultos e adolescentes em silêncio, no consultório online, longe das bravatas das redes sociais.

E é curioso como, quando o assunto é pornografia, o discurso público costuma ser raso, defensivo, agressivo. Sempre surge alguém dizendo:

“Você critica porque não gosta da fruta.”

Ou a velha gíria da minha juventude:

“Ah, isso é coisa de careta!”

Confesso: eu não ouvia essa palavra há décadas. Mas ela voltou.

E voltou com força.

Não como sinal de liberdade, mas como grito de defesa.

Porque toda vez que alguém precisa chamar o outro de careta, o que está em jogo não é o gosto — é o desconforto.

Pornografia não é sobre sexo.

Repito isso sem medo: não é sobre sexo.

É sobre solidão, mesmo na cama do casal.

É sobre vazio, a necessidade de preencher o desejo com rapidez.

É sobre uma dificuldade profunda de sustentar frustração, intimidade e presença real. De descontentamento na posição que se encontra.

O homem que se vicia em pornografia não está “com muito desejo”.

Ele está com pouco encontro, de si e com o outro.

No cérebro, a pornografia treina o prazer rápido, previsível, obediente. Nada ali exige diálogo, espera, frustração ou alteridade. Não há outro sujeito — há apenas imagens que se submetem. O desejo deixa de ser relação e vira consumo.

E quando esse homem é casado, muitos se apressam em explicar de forma simplista:

“Ah, o casamento esfriou.”

Nem sempre. Muitas vezes, o casamento apenas amadureceu, e ele(a) não.

A relação real convoca o sujeito a crescer.

A pornografia permite regredir, aquele busca do prazer da pré adolescência.

Ela oferece controle absoluto, ausência de risco emocional, nenhuma possibilidade de falha simbólica. Não há rejeição, não há silêncio constrangedor, não há cobrança. Só descarga. Quando associada à masturbação.

Depois, vem culpa.

Depois, vem remorso.

Depois, vem repetição.

Depois, vem o vazio...

Não há mais gratificação.

E então chegamos a um ponto que me chama ainda mais atenção:

por que alguns não apenas consomem pornografia, mas precisam exibi-la, compartilhá-la, postá-la?

Aqui não estamos mais falando apenas de vício, a dissolução do jorro inevitável pela masturbação, mas de busca de validação.

Postar pornografia ou erotizar o espaço público não é sinal de liberdade.

É, muitas vezes, um pedido implícito:

“Alguém aí é como eu?

Alguém aí me confirma que isso é normal?”

Quando o desejo está integrado, ele não precisa de plateia.

Quando precisa ser exibido, algo nele está pedindo autorização.

É nesse ponto que surgem as frases prontas, quase sempre agressivas:

“Isso é coisa da sua cabeça.”

“Todo mundo vê.”

“Pior é quem reprime.”

“Você não gosta da fruta.”

“Você é careta.”

Essas frases não dialogam.

Elas blindam. Busca de proteção ao seu ato.

Servem para desqualificar o limite do outro e, assim, evitar o confronto com o próprio hábito. Porque o limite alheio incomoda — ele funciona como espelho. E nem todo mundo tem coragem em olhar o abismo no seu próprio reflexo.

Ninguém gosta de espelhos quando ainda não suporta a própria imagem, fato.

A metáfora da fruta é interessante… e profundamente equivocada.

Nem toda fruta nutre.

Algumas intoxicam.

Outras viciam.

Outras parecem doces, mas corroem lentamente.

Há quem não coma não por nunca ter provado, mas por discernimento.

Há quem se afaste não por repressão, mas por maturidade.

Chamar isso de caretice é um erro antigo.

Na minha juventude, “careta” era o rótulo jogado sobre quem não se dobrava à pressão do grupo. Era a forma elegante de dizer:

“Entre no fluxo ou seja ridicularizado.”

O tempo passou.

E o tempo costuma ser um péssimo aliado das ilusões.

Muitos dos chamados caretas cresceram, integraram desejo e responsabilidade, construíram vínculos possíveis.

Muitos dos “descolados” ficaram presos à repetição, à dependência, à eterna necessidade de estímulo.

A psicoteologia ajuda a entender esse ponto com mais profundidade.

O problema nunca foi o corpo.

Nem o prazer.

Foi a redução do outro a objeto.

Quando o eros deixa de ser ponte e vira produto, algo da alma se fragmenta. O desejo se separa do sentido, a excitação se separa do amor, o corpo se separa da presença.

E então o sujeito passa a viver compartimentado:

um eu público, performático, provocador;

e um eu secreto, envergonhado, cansado.

No consultório, quase nunca vejo homens orgulhosos do próprio vício. Vejo homens exaustos. Vejo culpa. Vejo dificuldade de rezar, de olhar nos olhos, de sustentar silêncio. Vejo uma espiritualidade rachada.

O caminho terapêutico não é humilhação, nem cruzada moral.

É integração.

Não se trata apenas de “parar de ver”.

Trata-se de perguntar com honestidade:

o que este hábito está tentando anestesiar em mim?

Porque quando o vazio encontra sentido, a compulsão perde força.

Quando o desejo encontra alteridade, a imagem perde poder.

Quando a fé deixa de ser repressão e vira caminho, o corpo se aquieta.

Talvez, no fim das contas, seja hora de ressignificar a palavra antiga.

Careta não é quem escolhe limites.

Careta é quem ainda precisa da aprovação do grupo para desejar.

Careta é quem chama de liberdade aquilo que já virou prisão.

Careta é quem confunde estímulo com vida.

E isso — eu digo com toda a dureza necessária —

não tem nada de moderno.



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🌿 A CORAGEM DE ENCERRAR CICLOS 🌿


🌿 A CORAGEM DE ENCERRAR CICLOS 🌿

Na psicologia, compreendemos que o ego resiste aos fins porque se alimenta da repetição.

Ele se sustenta naquilo que é familiar, mesmo quando já se tornou fonte de dor. Para o ego, mudar é ameaçador, pois mudar significa admitir que aquilo que o definia já não é suficiente.

Na teologia, o apego excessivo ao passado revela uma dificuldade em confiar no tempo de Deus.

Há um medo silencioso de que, ao encerrar um ciclo, o novo não venha — como se a provisão divina dependesse da manutenção do que já morreu por dentro.

A mente condicionada teme os encerramentos porque, no inconsciente, sabe que todo fim revela a impermanência.

E a impermanência desmonta a fantasia de controle, de identidade fixa, de poder absoluto sobre a própria história.

É por isso que tantas pessoas permanecem em:

relacionamentos esvaziados,

trabalhos que adoecem,

crenças que já não sustentam a alma,

papéis familiares que aprisionam.

Não por amor, mas por medo.

Quando resistimos aos fins, resistimos ao fluxo natural da vida, descrito tanto pela psicologia quanto pela espiritualidade.

Essa resistência gera estagnação: a energia psíquica não circula, o movimento interno se interrompe e o corpo passa a carregar tensões emocionais silenciosas — ansiedade crônica, irritabilidade constante, cansaço que não passa.

Na linguagem simbólica, o apego aprisiona o sopro da vida.

Na linguagem clínica, aprisiona o afeto, bloqueia a elaboração do luto e perpetua o sofrimento.

Encerrar ciclos não é perder.

É um ato de fé e também de saúde mental.

É confiar que, assim como ensina a teologia, há tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado.

E, como mostra a psicologia, só há amadurecimento quando aceitamos que algumas versões de nós precisam morrer para que outras possam nascer.

Quando um ciclo se encerra conscientemente:

a mente se aquieta,

o corpo relaxa,

o espírito encontra alinhamento.

O ego enfraquece quando deixamos de nos identificar com aquilo que já cumpriu sua função.

E a alma se fortalece quando escolhemos permanecer presentes, mesmo diante do vazio que antecede o novo.

✨ Todo fim é um convite à presença.

✨ Todo desapego é um retorno ao equilíbrio.

✨ Toda travessia exige coragem, mas gera liberdade.

Exemplos práticos:

Finalizar um relacionamento que virou apenas medo de ficar só.

Sair de um trabalho que já adoeceu o corpo e a fé.

Abrir mão de uma identidade antiga: “eu sempre fui assim”.

Aceitar que nem tudo que começou com amor precisa terminar da mesma forma.

--- Abilio Machado 

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A esquizofrenia não "surge" do nada.

  A esquizofrenia não "surge" do nada. Ela geralmente mostra sinais anos antes, em um período que chamamos de Fase Prodrômica. 🧠 ...