Mostrando postagens com marcador Psicanálise. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Psicanálise. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A Linha da Vida como recurso terapêutico para adolescentes em vulnerabilidade — e além

 


A Linha da Vida como recurso terapêutico para adolescentes em vulnerabilidade — e além

A violência contra adolescentes em situação de vulnerabilidade é um grave problema de saúde pública. Suas consequências vão muito além do momento da agressão: deixam marcas físicas, emocionais e psicológicas que afetam o desenvolvimento e o bem-estar desses jovens.

Na psicoterapia, compreender esse impacto exige sensibilidade. Cada adolescente traz uma história singular, na qual os traumas se entrelaçam com outros desafios da vida. É por isso que o trabalho terapêutico precisa respeitar não apenas os fatos vividos, mas também o significado que cada jovem atribui às suas experiências.

O desafio do TEPT na adolescência

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma resposta comum a situações de violência. Entre os sintomas, estão lembranças intrusivas, pesadelos, hipervigilância e evitação de situações que remetam ao trauma. Em adolescentes, isso pode prejudicar o desempenho escolar, a convivência familiar e até a construção da identidade.

Estudos mostram que, quando há múltiplos episódios traumáticos, os tratamentos tradicionais para TEPT muitas vezes não são suficientes. É nesse cenário que a psicologia busca recursos inovadores para favorecer o processo de cura.

A técnica da Linha da Vida

A Linha da Vida é uma dessas ferramentas. Nela, o adolescente é convidado a construir uma representação de sua trajetória, marcando eventos significativos, sobretudo os dolorosos. Essa linha narrativa não é apenas uma recordação dos fatos: é uma oportunidade de reorganizar memórias, perceber padrões e compreender como a violência se repetiu em diferentes momentos da vida.

O processo cria um distanciamento saudável, permitindo que o jovem observe sua história de forma mais clara e encontre novos significados para experiências que antes eram apenas fonte de sofrimento.

Resultados promissores

Pesquisas mostram que a Linha da Vida pode ajudar adolescentes em vulnerabilidade a:

  • Identificar diferentes formas de violência sofridas ao longo da vida;

  • Reconhecer padrões de risco, prevenindo situações de revitimização;

  • Ressignificar memórias dolorosas, transformando a relação com o passado;

  • Fortalecer a regulação emocional, diante de lembranças traumáticas ou situações adversas.

Integrada a protocolos de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), em conjunto com exercícios de regulação emocional, a técnica tem se mostrado eficaz em contextos de traumas recorrentes.

Aplicações para outros transtornos e fobias

Embora tenha sido estudada principalmente em situações de violência, a Linha da Vida pode ser útil também em outros contextos. Entre eles:

  • Fobias específicas: ao organizar a história, o paciente pode reconhecer quando e como o medo se consolidou, facilitando o trabalho de exposição gradual.

  • Transtorno de ansiedade generalizada (TAG): ajuda a identificar momentos em que a ansiedade foi mais intensa, permitindo observar gatilhos e padrões de pensamento.

  • Transtorno depressivo: ao revisitar a linha do tempo, o adolescente pode compreender ciclos de tristeza e desesperança, abrindo espaço para construir narrativas de superação.

  • Transtornos relacionados à perda e ao luto: a técnica contribui para integrar lembranças dolorosas em uma narrativa mais ampla de vida, suavizando o peso da ausência.

Em todos esses casos, a Linha da Vida atua como um mapa: uma ferramenta que ajuda o paciente a visualizar sua história de forma organizada, encontrar conexões e, principalmente, abrir espaço para novas perspectivas.

Reflexão final

Trabalhar com adolescentes em vulnerabilidade é lidar com vidas que carregam dores, mas também possibilidades de transformação. A Linha da Vida se mostra uma técnica capaz de oferecer não apenas clareza, mas também esperança.

Ao dar voz e forma às memórias, o jovem deixa de ser apenas espectador de sua dor e passa a ser autor de uma narrativa que pode ser ressignificada. E esse é um passo essencial não só para o tratamento do TEPT, mas também para o enfrentamento de outros transtornos que limitam a vida e o crescimento saudável.

O exercício: 

Linha da Vida envolve traçar uma linha horizontal num papel, marcar datas de nascimento e outros eventos significativos da sua vida, como o nascimento de filhos ou mudanças de casa, usando cores para diferentes tipos de acontecimentos (eventos, pontos de inflexão). O objetivo é refletir sobre esses momentos, analisando os impactos positivos e negativos, e compreender como eles moldaram quem você é hoje para planejar o futuro. 

Passos para criar a sua Linha da Vida:

  1. 1. Prepare o material:

    Pegue uma folha de papel (ou coloque papéis no chão para uma versão dinâmica) e um conjunto de cores. 

  2. 2. Marque o seu nascimento:

    No lado esquerdo do papel, escreva a sua data de nascimento. 

  3. 3. Desenhe os anos:

    Continue a linha para a direita, marcando todos os anos que se passaram desde o seu nascimento até o momento atual. 

  4. 4. Identifique os acontecimentos:

    Ao longo da linha, identifique e anote os eventos mais importantes da sua vida. Use a sua criatividade para marcar: 

    • Eventos gerais: Anote acontecimentos como o nascimento de irmãos ou filhos, casamento, início ou fim de estudos, mortes de pessoas queridas, mudanças de casa, etc. 

    • Pontos de inflexão (cor vermelha): Destaque os momentos que te tornaram mais forte, que foram cruciais para a sua fase de vida ou que representaram uma crise superada. 

    • Cortes ou traumas (outra cor): Marque as situações difíceis, traumatizantes ou que representaram um "antes e depois" definitivo na sua vida. 

  5. 5. Reflita sobre as conexões:

    Preste atenção às ligações entre os eventos e anote como eles afetaram você, suas emoções e a pessoa que você se tornou. 

  6. 6. Analise a sua linha:

    No final, observe a sua linha da vida para entender os padrões, os desafios e as conquistas. Essa reflexão ajuda a compreender o seu passado e a planejar o futuro. 


imagem: Gerd Altmann-Pixabay

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O Sequestro da Cultura: Poder, Hegemonia e Sociedade


O Sequestro da Cultura: Poder, Hegemonia e Sociedade

por Abilio Machado - Psicanálise - Psicoterapia - Neuropsicopedagogia

Introdução

O termo “sequestro da cultura” refere-se ao processo pelo qual correntes ideológicas buscam dominar os símbolos, os valores e os significados que estruturam a vida coletiva. Mais do que a disputa pelo poder político ou econômico, trata-se da conquista do imaginário social — o modo como as pessoas percebem o mundo, interpretam a realidade e definem o que é legítimo, belo, verdadeiro e justo.

Esse conceito ganha força a partir das reflexões de Antonio Gramsci, que, em seus Cadernos do Cárcere, destacou que a hegemonia cultural é pré-condição para a manutenção ou conquista do poder político. A cultura não é neutra: ela pode ser capturada, instrumentalizada e moldada.


1. Perspectiva Filosófica: Hegemonia e o Imaginário Social

Gramsci argumentava que não basta conquistar o Estado; é preciso conquistar o consenso. Esse consenso nasce do controle da cultura — escola, literatura, cinema, música, religião e até a linguagem cotidiana.

Pierre Bourdieu, em A Distinção (1979), acrescenta que o poder simbólico pode ser mais eficaz do que a violência física, pois se infiltra nos hábitos e gostos, naturalizando determinadas visões de mundo. Esse processo transforma ideologias em “bom senso”, tornando quase invisível a disputa de fundo.

Exemplo: movimentos políticos contemporâneos priorizam mudanças linguísticas (como novos termos de gênero, redefinição de papéis sociais ou ressignificação de símbolos nacionais) porque entendem que transformar a cultura é transformar a percepção da realidade.


2. Perspectiva Psicanalítica: O Inconsciente Coletivo e a Produção de Desejo

A psicanálise oferece um olhar sobre como a cultura sequestrada atua no nível inconsciente.

Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta que a cultura exige renúncia pulsional para manter a vida em sociedade. Quando uma ideologia toma a cultura, ela redefine o que deve ser reprimido e o que pode ser liberado.

Lacan aprofunda isso ao mostrar que o sujeito é estruturado pela linguagem. Se a cultura é capturada, o próprio campo simbólico é reorganizado. O inconsciente coletivo passa a girar em torno de novos significantes, que orientam desejos e identificações.

Exemplo: a indústria cultural (cinema, séries, música pop) não apenas entretém, mas produz identificações inconscientes que moldam ideais de corpo, de amor, de política e até de espiritualidade.


3. Perspectiva Teológica: Discernimento e Resistência

Na teologia, a noção de “sequestro da cultura” pode ser lida como uma forma de idolatria: substituir o transcendente por construções ideológicas que pretendem ocupar o lugar do absoluto.

O apóstolo Paulo já alertava em Romanos 12:2:

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.”

O cristianismo primitivo se entendia como contracultura diante do Império Romano, resistindo à captura de sua fé pelas narrativas oficiais.

Hoje, muitas tradições religiosas percebem que símbolos e rituais podem ser apropriados por ideologias políticas — seja para legitimar projetos de poder, seja para esvaziar o sentido espiritual e reduzir a fé a mero folclore cultural.

Exemplo: festas religiosas transformadas em eventos turísticos ou slogans políticos revestidos de linguagem bíblica.


4. Exemplos Contemporâneos

  • Educação: currículos escolares tornam-se campo de disputa ideológica, definindo quais narrativas históricas e valores morais são transmitidos.

  • Mídia e Entretenimento: séries, músicas e filmes introduzem novas normatividades, alterando percepções coletivas de família, ética e sexualidade.

  • Política: partidos e movimentos sociais investem na “batalha cultural”, buscando influenciar universidades, redes sociais e até humoristas.

  • Religião: igrejas, templos e símbolos sagrados podem ser instrumentalizados para reforçar agendas políticas.

4.1 Educação

A escola e a universidade são, talvez, os espaços mais estratégicos para a disputa cultural. Quem controla a narrativa educacional controla a memória coletiva e a formação das novas gerações.

  • Seleção histórica: A escolha de quais fatos da história devem ser ensinados (ou omitidos) molda a visão que os alunos terão sobre seu país e seu povo. Narrativas nacionais podem ser exaltadas ou desconstruídas, dependendo da orientação ideológica.

  • Valores morais: A discussão sobre gênero, sexualidade, família e religião dentro das salas de aula mostra como a educação não é neutra, mas sempre portadora de valores.

  • Linguagem: Mudanças no vocabulário escolar — inclusão de novos pronomes, alteração de termos históricos — são formas de disputar o simbólico.

Exemplo: debates sobre o “Escola sem Partido” no Brasil ou sobre a teoria crítica da raça (critical race theory) nos EUA demonstram como a educação é vista como campo de batalha cultural.


4.2 Mídia e Entretenimento

Cinema, séries, música e redes sociais se tornaram veículos centrais para a produção de significados. O entretenimento não apenas reflete a sociedade: ele antecipa e molda comportamentos.

  • Representatividade: a inclusão ou exclusão de determinados grupos em narrativas midiáticas cria novos padrões de normalidade.

  • Roteiros e enredos: histórias carregadas de mensagens sociais ou políticas podem influenciar a percepção coletiva de justiça, liberdade e identidade.

  • Indústria musical: letras e estilos artísticos, muitas vezes, se tornam slogans de movimentos sociais, funcionando como trilha sonora da mudança cultural.

Exemplo: a força de plataformas como Netflix e Disney em pautar debates sobre diversidade, ou ainda o papel de artistas pop em transformar suas carreiras em movimentos políticos.


4.3 Política

Se antes a política buscava apenas conquistar votos, hoje muitos partidos e lideranças entendem que a disputa é cultural antes de ser eleitoral. Essa é a lição gramsciana aplicada no século XXI.

  • Batalha de narrativas: slogans políticos tornam-se memes, hashtags e símbolos que moldam percepções emocionais muito além de propostas concretas.

  • Tomada de espaços culturais: universidades, centros de pesquisa, ONGs e até conselhos de artes e cultura são vistos como arenas para influência ideológica.

  • Polarização simbólica: bandeiras, hinos e até pratos típicos podem ser apropriados como símbolos de determinada ideologia.

Exemplo: a disputa em torno da bandeira nacional em manifestações políticas — ora sendo símbolo de unidade, ora de facção ideológica.


4.4 Religião

A religião, como depositária de valores transcendentes e identidade coletiva, é um dos territórios mais visados para a captura cultural.

  • Instrumentalização política: líderes políticos buscam legitimar seus projetos com linguagem e símbolos religiosos.

  • Folclorização da fé: ritos e festas religiosas se transformam em atrações turísticas, esvaziadas de sua dimensão espiritual.

  • Redefinição teológica: algumas correntes religiosas reinterpretam suas tradições para alinhar-se a agendas políticas ou sociais.

Exemplo: discursos de candidatos citando versículos bíblicos em campanhas, ou celebrações religiosas transformadas em espetáculos midiáticos que servem mais ao turismo do que à devoção.

Nos quatro campos — educação, mídia, política e religião — o sequestro da cultura se dá pelo controle de símbolos, narrativas e valores. O objetivo não é apenas convencer racionalmente, mas reprogramar o inconsciente coletivo para que uma visão de mundo se torne natural, quase invisível.


Conclusão

O “sequestro da cultura” é mais do que metáfora: é uma estratégia real de poder. A cultura, como espaço simbólico e inconsciente, não é neutra. Controlá-la significa moldar consciências, orientar desejos e redefinir valores sociais.

Diante disso, a resistência não pode ser apenas política ou econômica: é também cultural, simbólica e espiritual. Reconhecer as formas de captura é o primeiro passo para restaurar uma cultura plural, crítica e capaz de sustentar sociedades livres.


Referências

  • Gramsci, A. (1929-1935). Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

  • Bourdieu, P. (1979). A Distinção. São Paulo: Edusp.

  • Freud, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Bíblia Sagrada. Romanos 12:2.


 

“Há homens que nascem póstumos”: Um olhar psicanalítico, filosófico e teológico

 


“Há homens que nascem póstumos”: Um olhar psicanalítico, filosófico e teológico

por Abilio Machado - Psicanálise/ Psicoterapia e Neuropsicopedagogia

Introdução

A frase de Raul Seixas, inspirada em Friedrich Nietzsche (em O Anticristo, §1), provoca uma reflexão que ultrapassa o campo da música. Dizer que “há homens que nascem póstumos” é afirmar que certas existências só encontram sentido, reconhecimento ou realização depois da morte. O verso tenciona os limites entre vida e legado, presença e ausência, tempo e eternidade. Neste artigo, exploraremos essa ideia sob três perspectivas: a psicanalítica, a filosófica e a teológica.


1. Perspectiva Psicanalítica

Na psicanálise freudiana, a vida psíquica é atravessada pelo conflito entre Eros (instinto de vida) e Thanatos (instinto de morte). O sujeito busca afirmar-se, mas é também atraído por sua própria dissolução. Nesse sentido, o “homem póstumo” pode ser compreendido como aquele cujo desejo não se cumpre em vida, mas se projeta para além dela.

Freud, em Além do Princípio do Prazer (1920), aponta para a repetição como marca da pulsão. O “nascimento póstumo” seria uma espécie de repetição diferida: um eco de significados que só se inscreve no simbólico após o desaparecimento do sujeito.

Um exemplo é Van Gogh, cuja obra foi praticamente ignorada em vida. Seu desejo inconsciente encontrou realização apenas no campo do Outro — no olhar da posteridade. Assim, ele “nasceu” artisticamente apenas depois da morte.

Do ponto de vista lacaniano, o “nascimento póstumo” se relaciona ao registro simbólico: a obra, a palavra ou o gesto que ultrapassa o corpo biológico e se inscreve no discurso da cultura. O sujeito se torna “sujeito do desejo do Outro” apenas quando sua mensagem é decifrada por aqueles que vêm depois.


2. Perspectiva Filosófica

Em Nietzsche, a ideia aparece no início de O Anticristo:

“Alguns nascem póstumos.” (Es gibt Leute, die erst posthum geboren werden.)

Aqui, Nietzsche sugere que certos homens — como ele mesmo se via — não pertencem ao seu tempo. Seu pensamento é radical demais para ser compreendido no presente e só pode frutificar no futuro. O “nascimento póstumo” é, portanto, o destino dos que rompem com os valores vigentes.

Filosoficamente, trata-se de uma reflexão sobre temporalidade e história da recepção. Hegel já dizia que o “filósofo é o filho do seu tempo”, mas Nietzsche rompe com essa máxima: alguns não são filhos do seu tempo, mas do porvir.

Exemplos abundam:

  • Søren Kierkegaard, ignorado em vida, tornou-se pilar do existencialismo no século XX.

  • Antonio Gramsci, cujos Cadernos do Cárcere só foram publicados anos após sua morte, influenciando decisivamente a teoria crítica.

O nascimento póstumo, então, é a marca do pensador intempestivo, que planta sementes que só germinarão em outras estações.


3. Perspectiva Teológica

Na teologia cristã, a ideia de “nascer póstumo” dialoga com a promessa da vida eterna e da ressurreição. O Evangelho de João (12:24) diz:

“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto.”

Aqui, a morte não é o fim, mas condição para a fecundidade. O homem póstumo é aquele cujo verdadeiro nascimento acontece no mistério pascal: morrer para dar vida.

Os mártires cristãos são exemplo claro. São Óscar Romero, assassinado em 1980, tornou-se símbolo de resistência e fé apenas após sua morte, reconhecido oficialmente décadas depois como santo. Sua palavra ganhou vida no silêncio de sua ausência.

Na teologia paulina, especialmente em 1 Coríntios 15, o corpo terreno deve morrer para que o corpo espiritual surja. Isso confere ao verso de Raul Seixas uma dimensão escatológica: certos homens só nascem verdadeiramente ao morrer, pois sua obra transcende o tempo.


Conclusão

A frase de Raul Seixas, ecoando Nietzsche, mostra-se fértil para múltiplas leituras.

  • Para a psicanálise, ela revela o desejo que se realiza apenas no Outro, após a morte do sujeito.

  • Para a filosofia, indica o destino dos intempestivos, incompreendidos em seu tempo.

  • Para a teologia, aponta para a lógica pascal: é preciso morrer para gerar vida.

Dizer que “há homens que nascem póstumos” é reconhecer que a vida humana não cabe inteiramente no presente. Algumas existências pertencem ao futuro, e sua presença só se revela plenamente na ausência.


Referências

  • Freud, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1953-1977). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Nietzsche, F. (1895). O Anticristo. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Kierkegaard, S. (1849). Doença para a Morte. Petrópolis: Vozes.

  • Bíblia Sagrada. João 12:24; 1 Coríntios 15.

  • Romero, Ó. (1980). Homilias e Sermões. San Salvador.

  • Van Gogh, V. Cartas a Theo. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Gramsci, A. (1929-1935). Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Psicologia ou militância? O impacto do “psicologue clínique” e a erosão da neutralidade profissional


 Psicologia ou militância? O impacto do “psicologue clínique” e a erosão da neutralidade profissional

por Abilio Machado

A psicologia brasileira atravessa um momento de inflexão. Ao lado de avanços no reconhecimento de minorias e no combate a preconceitos, cresce uma tendência que preocupa: a incorporação explícita de pautas ideológicas na própria identidade profissional, como no caso dos chamados “psicologues clíniques”. A mudança não é meramente estética ou linguística; ela sinaliza uma redefinição de prioridades que pode colocar em risco o compromisso da profissão com a objetividade, o pluralismo e a base científica que a sustenta.

Pesquisas internacionais mostram que essa tensão não é exclusiva do Brasil. Em 2021, um levantamento da American Psychological Association (APA) identificou um aumento significativo na pressão para que psicólogos adotem terminologias e posturas políticas específicas, sob pena de serem vistos como antiéticos ou preconceituosos (APA Task Force on Addressing Systemic Racism, 2021). Embora o combate ao preconceito seja um pilar ético, o relatório alerta para o risco de “reduzir a prática psicológica a um instrumento de educação política, enfraquecendo seu papel como ciência baseada em evidências”.

O caso do 12º Congresso Nacional de Psicologia exemplifica esse deslocamento. O evento, tradicionalmente dedicado à atualização técnica e ao debate científico, incluiu a apresentação de um rap com forte carga ideológica, transformando um espaço profissional em palco de militância. Episódios assim reforçam a percepção de que há uma tentativa de uniformizar o pensamento dentro da categoria — algo que contraria a própria Resolução CFP nº 010/2005, a qual estabelece que a atuação do psicólogo deve respeitar a diversidade e a liberdade de expressão, sem impor convicções pessoais.



No campo internacional, exemplos semelhantes já geraram consequências concretas. No Reino Unido, o relatório Cass Review (2022), sobre serviços de saúde para jovens trans, apontou que pressões ideológicas estavam influenciando diagnósticos e condutas terapêuticas, em detrimento de avaliações clínicas cuidadosas. A principal autora, Dra. Hilary Cass, advertiu que “a polarização ideológica compromete a segurança e a qualidade do atendimento, além de afastar profissionais que discordam da narrativa dominante”.

O impacto dessa tendência vai além dos muros da profissão. Quando a psicologia é percebida como militância disfarçada de ciência, sua credibilidade pública sofre erosão. Dados do Pew Research Center (2022) mostram que, nos Estados Unidos, a confiança na psicologia como ciência caiu de 59% para 48% em uma década, com parte significativa dos entrevistados apontando “politização” como causa dessa desconfiança.

No entanto, a adoção do termo ainda encontra resistências — tanto dentro quanto fora da categoria profissional. Críticas vão desde a dificuldade de adaptação à linguagem neutra até o questionamento sobre a real efetividade dessa mudança no enfrentamento de preconceitos estruturais. Parte da comunidade argumenta que a transformação social vai muito além da nomenclatura, exigindo políticas públicas, formação acadêmica e práticas clínicas comprometidas com equidade, mas o que seria esta equidade senão a abertura de diálogo e aceitação das diferenças, mas quando o próprio discurso feito vem impregnado de ofensas e ameaças na destruição dos principais fundamentos sociais, religiosos, familiares em que afetam diretamente a dinâmica das relações, qual seria o melhor caminho?

É claro que inclusão e acolhimento são valores essenciais. Mas quando a identidade pessoal do profissional — seja de gênero, política ou cultural, não esquecendo a religiosa — passa a determinar linguagem, diagnóstico e conduta clínica, corremos o risco de substituir a escuta plural por um catecismo ideológico. O verdadeiro desafio é manter um equilíbrio em que a diversidade seja respeitada, mas sem que a ciência se torne refém de modas e pressões políticas.


A psicologia, enquanto ciência e profissão regulamentada, não pode se dar ao luxo de ser conduzida pelo pêndulo das modas ideológicas. A empatia e o acolhimento são pilares inegociáveis, mas não devem se confundir com a abdicação da objetividade e da autonomia crítica. Quando a identidade pessoal do psicólogo(a/e) passa a ditar a forma como ele conduz a teoria, a técnica e até a linguagem, abre-se um precedente perigoso: o de transformar a clínica num espaço de militância e catequese ideológica, em vez de um ambiente de investigação e cuidado fundamentado.

O desafio não está em proibir palavras ou identidades, mas em resgatar o eixo da psicologia como campo científico que dialoga com a sociedade sem se tornar refém de agendas particulares. A profissão só se fortalece quando consegue integrar diversidade sem abrir mão da liberdade de pensamento — algo que, no cenário atual, parece cada vez mais ameaçado.

Se a psicologia abdicar desse equilíbrio, não será apenas um termo como psicologue que estará em jogo. Será a própria capacidade da profissão de exercer sua função primordial: compreender e cuidar da mente humana com objetividade, ética e liberdade de pensamento.

Referências:

  • American Psychological Association. Task Force on Addressing Systemic Racism. APA, 2021.

  • Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 010/2005. Brasília, 2005.

  • Cass, H. Independent Review of Gender Identity Services for Children and Young People (Cass Review). NHS England, 2022.

  • Pew Research Center. Public Trust in Scientists Has Dropped Since the Pandemic. Washington, 2022.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

análise precipitada



A professora chama os pais com urgência para a escola.Os pais Perguntaram ao filho o que havia acontecido , o filho responde que a professora não gostou do desenho que ele fez.
Quando chegaram na escola, a professora, muito atenciosa e curiosa, lhe mostrou esse desenho,dizendo que havia pedido às crianças ,que fizessem desenhos de sua família enquanto faziam algo juntas.
O pai disse a professora ,que de fato foi isso mesmo que aconteceu!
Durante as férias de verão, foram todos mergulhar juntos.

Reflexão:
Não tire conclusões precipitadas.
Antes de condenar, ouça as duas partes

sexta-feira, 16 de maio de 2025

As fases fálica e genital — elas são fundamentais nesse estudo.

 As fases fálica e genital — elas são fundamentais nesse estudo.

🔑 1. Fase Fálica (3–6 anos) — o núcleo da identidade de gênero para Freud

Aqui, Freud propõe que a criança começa a reconhecer e se identificar com os genitais como zona erógena central. É nessa fase que surge o famoso:

  • Complexo de Édipo (nos meninos): desejo pela mãe e rivalidade com o pai.

  • Complexo de Electra (nas meninas, segundo Freud): desejo pelo pai e inveja do pênis (controversa e hoje muito criticada).

🔍 Por que é importante?
Segundo Freud, é nessa fase que se estrutura o "núcleo" da identidade de gênero: o menino se identifica com o pai para "sobreviver" ao medo da castração, e a menina se identifica com a mãe após a "renúncia" ao pênis.

✔️ Se falarmos de autodeterminação de gênero, a fase fálica é essencial para debater como se forma a identificação com papéis de gênero na infância.


💞 2. Fase Genital (adolescência em diante)

Essa fase marca a maturação sexual, o direcionamento do prazer para relações afetivo-sexuais fora do núcleo familiar, e a integração das zonas erógenas em uma sexualidade adulta.

🔍 Por que é importante?
Segundo Freud, é o ponto final de um “desenvolvimento bem-sucedido”. Mas se há fixações anteriores (como na oral, anal ou fálica), a sexualidade adulta pode carregar resquícios dessas fases — o que pode influenciar comportamentos, preferências e expressões identitárias.


🧩 0rganizando o raciocínio:

Fase PsicosexualZona ErógenaImplicações na Identidade / Sexualidade
OralBocaDependência, prazer passivo
AnalÂnusControle, ordem ou desorganização
FálicaGenitaisFormação da identidade de gênero, Complexo de Édipo
LatênciaNenhumaSublimação do desejo
GenitalGenitaisSexualidade adulta integrada, expressão relacional

🧠 Resposta direta à pergunta:

“Deveria eu ter mencionado a fálica e a genital?”

✅ Sim, especialmente a fase fálica, pois é ali que Freud localiza os primeiros traços do que hoje chamamos de identidade de gênero.
✅ E a fase genital também é importante, pois marca como o sujeito vive sua sexualidade na vida adulta, podendo refletir ou compensar fixações anteriores.



Quais são as críticas centrais à visão tradicional de Lacan?

 As críticas contemporâneas à visão tradicional de Lacan sobre gênero e sexuação são fundamentais para o debate psicanalítico atual — especialmente no diálogo com a teoria queer, os estudos trans e as epistemologias feministas. Abaixo, apresento as principais críticas centrais, organizadas de forma clara e embasada:

🧠 1. Crítica ao Binarismo de Gênero (homem x mulher)

📌 Lacan:

Define a sexuação com base em dois lados: “lado homem” e “lado mulher”, usando fórmulas lógicas (∃x, ∀x, Φx) para representar modos de gozo e relação com a castração simbólica.

❌ Crítica:

Essa estrutura reproduz um binarismo rígido e excludente que não contempla experiências não-binárias, queer ou trans. A lógica do “todo” (homem) versus “não-todo” (mulher) ignora a pluralidade das vivências de gênero.

🔎 Ambra e Irigaray apontam que a fórmula “não-toda” transforma o feminino em uma ausência ou falha do universal, o que é politicamente problemático.


🔍 2. Exclusão da experiência vivida das mulheres e pessoas trans

📌 Lacan:

Fala de “A Mulher” como um significante que não existe no simbólico — ou seja, como uma figura mítica fora da linguagem.

❌ Crítica:

Isso foi interpretado por autoras como Luce Irigaray e Judith Butler como uma negação do lugar político e discursivo das mulheres reais. Além disso, não há espaço para sujeitos trans se inscreverem nas fórmulas.

📣 Irigaray: "A mulher não existe" é uma manobra que impede a representação discursiva e política das mulheres como sujeito coletivo.


🧬 3. Redução da identidade de gênero ao gozo e à lógica fálica

📌 Lacan:

Associa as posições de sexuação ao tipo de gozo e relação com o falo (por exemplo, o homem está todo submetido à função fálica; a mulher não-toda).

❌ Crítica:

Essa lógica não capta os aspectos sociais, históricos, afetivos e culturais que constituem gênero. A experiência de ser mulher, homem, trans ou não-binárie não pode ser reduzida à posição de gozo fálico.

🔁 Pedro Ambra defende uma psicanálise que reconhece que gênero é também uma questão de “nomeação” e “autorização subjetiva”, não apenas de estrutura lógica.


🗣️ 4. Desconsideração do processo de nomeação como constitutivo

📌 Lacan:

Foca na entrada do sujeito na linguagem via o Nome-do-Pai (inscrição fálica, lei simbólica).

❌ Crítica:

A psicanálise tradicional ignora que o sujeito também se constrói através de processos coletivos de nomeação e reconhecimento. Isso é essencial, por exemplo, no caso da transição de gênero.

🧩 Ambra: o sujeito “autoriza” seu lugar de gênero ao nomear-se e ser nomeado — isso exige uma escuta psicanalítica atualizada e politicamente sensível.


🔐 5. Universalização da experiência masculina

📌 Lacan:

Apesar de criticar o falocentrismo, ainda estrutura seu sistema simbólico com base em uma lógica “masculina” do todo e da exceção (como o Pai primevo de Totem e Tabu).

❌ Crítica:

O feminino aparece como um ponto-limite da estrutura masculina, e não como uma posição própria, múltipla e positiva. Isso repete a centralidade do masculino como medida universal da subjetividade.


🔄 6. Inadequação clínica diante das experiências trans e queer

A psicanálise lacaniana tradicional pode patologizar vivências trans ao considerá-las “desvios” da estrutura simbólica padrão (Nome-do-Pai, falo, castração etc.).

❌ Crítica:

Diversos psicanalistas contemporâneos (ex: Ambra, Stiegler, Dunker) argumentam que a clínica deve abandonar a ideia de norma como ideal e adotar uma escuta aberta à pluralidade dos modos de ser sexuado, reconhecendo que:

A transição pode ser uma forma legítima de tratamento do sofrimento, e não um sintoma a ser corrigido.”


Síntese das Críticas em Tabela

Crítica PrincipalResumoAutorias
Binarismo rígidoIgnora identidades não-bináriasIrigaray, Ambra
Invisibilidade transFórmulas não contemplam vivências transButler, Ambra
Redução ao falo/gozoIgnora cultura, afetividade, linguagemButler, Preciado
Falta de nomeaçãoDesconsidera o valor simbólico de ser nomeadoAmbra, Dunker
Masculino como normaO feminino como limite do masculinoIrigaray, Cossi
Clínica normatizantePode patologizar experiências transAmbra, Preciado, Dunker

Explicando o impacto clínico dessas críticas...

O impacto clínico das críticas à visão tradicional de Lacan transforma a forma como a psicanálise lida com questões de gênero, desejo e sofrimento na clínica atual, especialmente diante de sujeitos queer, trans e não-binários. Abaixo explico de forma detalhada e rigorosa os principais efeitos clínicos dessas críticas:


🧠 1. Abandono da norma como referência clínica

Antes:

  • A psicanálise clássica, especialmente a lacaniana ortodoxa, operava com base em uma estrutura normativa de sexuação (o binômio fálico homem/mulher).

  • Gênero divergente era muitas vezes visto como desvio, recusa ou sintoma.

Agora:

  • Com as críticas contemporâneas, há um afastamento da noção de “cura como normatização”.

  • O foco clínico passa a ser:
    👉 “O que é esse corpo para esse sujeito?”
    👉 “Como esse sujeito autoriza sua existência?”

🧭 A clínica deixa de "corrigir" e passa a sustentar a diferença.


🧬 2. Reconhecimento da identidade de gênero como construção subjetiva válida

Antes:

  • A identidade de gênero divergente (ex: pessoas trans, não-binárias) era frequentemente enquadrada como negação da castração, resistência simbólica ou defesa psicótica.

Agora:

  • Com autores como Pedro Ambra, Christian Dunker e Laura Dalla Vecchia, entende-se que:

    • A transição pode ser uma forma de tratar o sofrimento.

    • O sujeito trans não está recusando o simbólico, mas reconstruindo uma posição simbólica singular.

💡 Isso permite legitimar a vivência de gênero como uma inscrição subjetiva estruturante, e não como "falha" edipiana.


📣 3. Escuta da nomeação e da “autorização subjetiva”

Um dos maiores impactos clínicos das críticas contemporâneas é a valorização da nomeação como gesto fundante da subjetividade:

“Eu sou trans”, “Eu sou mulher”, “Eu não sou homem”:
essas afirmações são entendidas não como sintomas, mas como atos de nomeação, que organizam o desejo, o gozo e a existência.

Na clínica:

  • O analista precisa escutar o processo de subjetivação pelo nome, e não impor uma estrutura pronta.

  • A identidade de gênero torna-se um campo de invenção subjetiva, muitas vezes fora da norma simbólica fálica.


🏥 4. Evita intervenções patologizantes ou repressivas

Antes:

  • A psicanálise, especialmente em sua vertente mais estruturalista, era acusada de contribuir para práticas transfóbicas, como:

    • recusar atestados para transição;

    • classificar como “negação da realidade sexual”;

    • ver o transgênero como acting out psicótico.

Agora:

  • Críticas contemporâneas reivindicam uma clínica não repressiva, acolhedora da diferença, e consciente de sua função ética e política.

Exemplo:

Em vez de tentar "curar" a identidade trans, o analista pode perguntar:
🗣️ “Qual é o sentido dessa nomeação na sua vida?”
🧠 “Como isso organiza seu desejo e alivia seu sofrimento?”


🔄 5. Redefinição do tratamento: da cura à invenção singular

  • O processo analítico passa a ser visto como um caminho para a invenção de soluções subjetivas — como a transição, a travessia de gênero, ou a recusa de categorias fixas.

  • O foco muda de "restabelecer a norma" para viabilizar um lugar possível para o sujeito no laço social.

📌 Pedro Ambra chama isso de:

“Uma psicanálise politicamente implicada, onde o analista autoriza a diferença sem exigir retorno ao padrão fálico.”


📊 Impacto clínico resumido em tabela

Elemento clínico tradicionalCrítica contemporâneaImpacto clínico atual
Norma fálica bináriaDesconsidera experiências trans e queerEscuta da multiplicidade de posições de gozo e gênero
Diagnóstico estrutural rígidoRotula o diferente como sintomaReconhece a singularidade de cada subjetivação
Nome-do-pai como centralDesconsidera a nomeação subjetivaValoriza a autorização simbólica própria do sujeito
Clínica “reparadora”Reprime invenções singularesClínica como espaço de criação e validação
Silenciamento da políticaNeutralidade como opressãoEscuta clínica politicamente sensível

Conclusão: uma clínica da invenção, não da correção

O impacto clínico dessas críticas é libertador:
Ele permite que a psicanálise não apenas acolha, mas legitime novas formas de existência, reconhecendo que o sofrimento não vem do “erro de estrutura”, mas da falta de lugar simbólico para existir.

O Ser Sexual e Seus Outros – Gênero, Autorização e Nomeação em Lacan - resumo

 

O Ser Sexual e Seus Outros – Gênero, Autorização e Nomeação em Lacan

Autor: Pedro Ambra
Editora Blucher, 2022 – 512 páginas


🧠 Tese Central do Livro

Pedro Ambra propõe uma leitura inovadora da teoria da sexuação de Jacques Lacan, desafiando a visão tradicional da psicanálise sobre gênero e sexualidade. O autor articula conceitos lacanianos clássicos (como Nome-do-Pai, gozo, sinthoma, sexuação) com aportes da teoria queer, epistemologias críticas, e as experiências trans e não binárias contemporâneas.


🔍 Principais Conceitos e Contribuições

1. Sexuação como processo psíquico e político

  • Ambra critica as “fórmulas da sexuação” de Lacan, mostrando que elas não podem mais ser interpretadas como estruturas rígidas de “homem” e “mulher”.

  • Defende que a identidade de gênero é construída a partir da autorização subjetiva e da nomeação, não apenas da função fálica.

2. Nomeação e autorização

  • Introduz o conceito de "autorização sexual", um passo subjetivo onde o sujeito se reconhece e se nomeia dentro das coordenadas de gênero e gozo.

  • Isso desloca o foco da “anatomia” ou do “nome do pai” para a responsabilidade do sujeito frente à sua inscrição simbólica.

3. Crítica ao binarismo fálico

  • Lacan é reinterpretado de modo a abrir espaço para formas de gozo e de existência sexual que não se encaixam no binarismo homem-mulher.

  • A sexuação torna-se uma questão ética e política, e não apenas lógica.

4. Subjetividade queer e trans

  • Ambra dá centralidade à experiência de sujeitos trans e não binários como formas legítimas de subjetivação, mostrando que elas desafiam a concepção clássica de normatividade psicanalítica.

  • Ressalta que o sujeito se constitui frente ao desejo do Outro, mas pode renomear-se fora da norma simbólica pré-estabelecida.

5. Impasses clínicos e políticos

  • A obra não é apenas teórica: ela reflete sobre a clínica psicanalítica contemporânea, propondo escutas que contemplem o sofrimento e o desejo sem patologizar a diferença de gênero.


💬 Frase-chave do livro (de Christian Dunker):

“Chegou o momento de questionar o lugar da norma frente à autorização sexual que cada qual deve conquistar perante si e suas alteridades.”


📚 Estrutura do Livro (resumida)

CapítuloTema Central
1. Realizando a sexuaçãoLeitura crítica das fórmulas lacanianas; novos modos de pensar gênero e gozo.
2. Impasses do simbólicoRelação entre norma, cultura, desejo e constelações familiares.
3. Dos outros à nomeaçãoA importância da nomeação e do sinthoma como fundamentos da assunção de gênero.

Importância da Obra

Pedro Ambra oferece um releitura ética, política e clínica da psicanálise lacaniana, alinhando-a com as discussões contemporâneas sobre gênero. Ele propõe uma psicanálise não repressiva, plural e atualizada, capaz de acolher os sujeitos em sua diversidade e singularidade.

Artigos e textos fundamentais

 Vários artigos e textos fundamentais para explorar a questão da minha inquietação: a identificação com a mãe no modelo lacaniano, e como isso se articula com gênero, subjetividade e transexualidade na psicanálise contemporânea. 

Abaixo estão os principais destaques e seus respectivos links.

🧠 Síntese Geral: Lacan, identificação com a mãe e identidade de gênero

Na teoria lacaniana, a identidade de gênero não deriva diretamente do corpo biológico, mas da posição do sujeito no campo do desejo do Outro (geralmente a mãe) e da entrada na ordem simbólica via o "Nome-do-Pai".

Vários autores contemporâneos têm expandido esse modelo para explicar que:

  • Uma identificação precoce com a mãe — não apenas como objeto de desejo, mas como modelo afetivo ou ético — pode gerar uma estruturação de gênero que não se alinha com o binarismo tradicional.

  • Isso pode resultar, por exemplo, em vivências femininas ou transgênero em sujeitos designados homens ao nascer.

  • Em alguns casos, a recusa simbólica do pai e o desejo de "fazer o papel da mãe" (como no seu exemplo, para poupá-la do sofrimento) pode gerar formas singulares de subjetividade.


📚 Principais leituras recomendadas:

1. Paulo César Junqueira – “Identidade de Gênero e Psicanálise”

Discussão sobre a identidade de gênero como identificação primária com a mãe, incorporando Lacan e Robert Stoller.
📄 PDF – SPCRJ


2. Araújo, FM – “Racismo, psicanálise, Lacan”

Trata diretamente de identificações fora do modelo tradicional edipiano, e como elas podem gerar experiências de gênero dissidentes.
📄 PDF – ANPOF


3. Marlene Arán – “Subversões do desejo: Butler e Lacan”

Integra Lacan e Judith Butler, discutindo como a identificação com a mãe pode se tornar um gesto de subversão da norma de gênero.
🌐 HTML – SciELO


4. Jornal Caderno PAIC – “Imagem Corporal e Narcisismo na Construção da Identidade de Gênero”

Explora o papel do narcisismo e do olhar da mãe na formação da identidade de gênero.
📄 PDF – EMnuvens


5. Teixeira, MC – “Mudar de Sexo: uma prerrogativa transexualista”

Analisa a identificação precoce com a mãe como elemento central na construção de uma subjetividade trans.
📄 PDF – BVS-PePSIC


6. Gabriel, LC & Souza, M – “Subjetividade e Diferença Sexual”

Faz uma leitura crítica do falogocentrismo na psicanálise, incorporando perspectivas feministas e queer.
📄 PDF – Interamerican Journal


7. P. Ambra – “O Ser Sexual e seus Outros” (Livro)

Reinterpreta Lacan para tratar da nomeação e autorização de gênero, incluindo casos em que a feminilidade é uma identidade primeira.
📄 PDF – Amostra do livro


8. Vaz & Chaves – “Multiplicidade Feminina e Transgressão em Irigaray”

Artigo que insere Lacan numa crítica mais ampla ao binarismo sexual, centrando a mãe como foco do desejo e da identidade.
📄 PDF – Analytica


Aos poucos tudo muda

 Há um dia em que a casa fica estranhamente silenciosa, e não é porque a criança foi embora. Ela ainda está ali, sentada no chão, no sofá, n...