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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A Linha da Vida como recurso terapêutico para adolescentes em vulnerabilidade — e além

 


A Linha da Vida como recurso terapêutico para adolescentes em vulnerabilidade — e além

A violência contra adolescentes em situação de vulnerabilidade é um grave problema de saúde pública. Suas consequências vão muito além do momento da agressão: deixam marcas físicas, emocionais e psicológicas que afetam o desenvolvimento e o bem-estar desses jovens.

Na psicoterapia, compreender esse impacto exige sensibilidade. Cada adolescente traz uma história singular, na qual os traumas se entrelaçam com outros desafios da vida. É por isso que o trabalho terapêutico precisa respeitar não apenas os fatos vividos, mas também o significado que cada jovem atribui às suas experiências.

O desafio do TEPT na adolescência

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma resposta comum a situações de violência. Entre os sintomas, estão lembranças intrusivas, pesadelos, hipervigilância e evitação de situações que remetam ao trauma. Em adolescentes, isso pode prejudicar o desempenho escolar, a convivência familiar e até a construção da identidade.

Estudos mostram que, quando há múltiplos episódios traumáticos, os tratamentos tradicionais para TEPT muitas vezes não são suficientes. É nesse cenário que a psicologia busca recursos inovadores para favorecer o processo de cura.

A técnica da Linha da Vida

A Linha da Vida é uma dessas ferramentas. Nela, o adolescente é convidado a construir uma representação de sua trajetória, marcando eventos significativos, sobretudo os dolorosos. Essa linha narrativa não é apenas uma recordação dos fatos: é uma oportunidade de reorganizar memórias, perceber padrões e compreender como a violência se repetiu em diferentes momentos da vida.

O processo cria um distanciamento saudável, permitindo que o jovem observe sua história de forma mais clara e encontre novos significados para experiências que antes eram apenas fonte de sofrimento.

Resultados promissores

Pesquisas mostram que a Linha da Vida pode ajudar adolescentes em vulnerabilidade a:

  • Identificar diferentes formas de violência sofridas ao longo da vida;

  • Reconhecer padrões de risco, prevenindo situações de revitimização;

  • Ressignificar memórias dolorosas, transformando a relação com o passado;

  • Fortalecer a regulação emocional, diante de lembranças traumáticas ou situações adversas.

Integrada a protocolos de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), em conjunto com exercícios de regulação emocional, a técnica tem se mostrado eficaz em contextos de traumas recorrentes.

Aplicações para outros transtornos e fobias

Embora tenha sido estudada principalmente em situações de violência, a Linha da Vida pode ser útil também em outros contextos. Entre eles:

  • Fobias específicas: ao organizar a história, o paciente pode reconhecer quando e como o medo se consolidou, facilitando o trabalho de exposição gradual.

  • Transtorno de ansiedade generalizada (TAG): ajuda a identificar momentos em que a ansiedade foi mais intensa, permitindo observar gatilhos e padrões de pensamento.

  • Transtorno depressivo: ao revisitar a linha do tempo, o adolescente pode compreender ciclos de tristeza e desesperança, abrindo espaço para construir narrativas de superação.

  • Transtornos relacionados à perda e ao luto: a técnica contribui para integrar lembranças dolorosas em uma narrativa mais ampla de vida, suavizando o peso da ausência.

Em todos esses casos, a Linha da Vida atua como um mapa: uma ferramenta que ajuda o paciente a visualizar sua história de forma organizada, encontrar conexões e, principalmente, abrir espaço para novas perspectivas.

Reflexão final

Trabalhar com adolescentes em vulnerabilidade é lidar com vidas que carregam dores, mas também possibilidades de transformação. A Linha da Vida se mostra uma técnica capaz de oferecer não apenas clareza, mas também esperança.

Ao dar voz e forma às memórias, o jovem deixa de ser apenas espectador de sua dor e passa a ser autor de uma narrativa que pode ser ressignificada. E esse é um passo essencial não só para o tratamento do TEPT, mas também para o enfrentamento de outros transtornos que limitam a vida e o crescimento saudável.

O exercício: 

Linha da Vida envolve traçar uma linha horizontal num papel, marcar datas de nascimento e outros eventos significativos da sua vida, como o nascimento de filhos ou mudanças de casa, usando cores para diferentes tipos de acontecimentos (eventos, pontos de inflexão). O objetivo é refletir sobre esses momentos, analisando os impactos positivos e negativos, e compreender como eles moldaram quem você é hoje para planejar o futuro. 

Passos para criar a sua Linha da Vida:

  1. 1. Prepare o material:

    Pegue uma folha de papel (ou coloque papéis no chão para uma versão dinâmica) e um conjunto de cores. 

  2. 2. Marque o seu nascimento:

    No lado esquerdo do papel, escreva a sua data de nascimento. 

  3. 3. Desenhe os anos:

    Continue a linha para a direita, marcando todos os anos que se passaram desde o seu nascimento até o momento atual. 

  4. 4. Identifique os acontecimentos:

    Ao longo da linha, identifique e anote os eventos mais importantes da sua vida. Use a sua criatividade para marcar: 

    • Eventos gerais: Anote acontecimentos como o nascimento de irmãos ou filhos, casamento, início ou fim de estudos, mortes de pessoas queridas, mudanças de casa, etc. 

    • Pontos de inflexão (cor vermelha): Destaque os momentos que te tornaram mais forte, que foram cruciais para a sua fase de vida ou que representaram uma crise superada. 

    • Cortes ou traumas (outra cor): Marque as situações difíceis, traumatizantes ou que representaram um "antes e depois" definitivo na sua vida. 

  5. 5. Reflita sobre as conexões:

    Preste atenção às ligações entre os eventos e anote como eles afetaram você, suas emoções e a pessoa que você se tornou. 

  6. 6. Analise a sua linha:

    No final, observe a sua linha da vida para entender os padrões, os desafios e as conquistas. Essa reflexão ajuda a compreender o seu passado e a planejar o futuro. 


imagem: Gerd Altmann-Pixabay

quinta-feira, 17 de julho de 2025

O Sexo como Mistério e Linguagem do Sagrado

 


O Sexo como Mistério e Linguagem do Sagrado

Uma leitura psicanalítica de “A Mística do Sexo”, de Pierre Weil

Por Abilio Machado – Psicólogo e Psicanalista

Introdução: entre o desejo e o divino

Ao buscarmos um livro sobre sexualidade, esperamos encontrar definições fisiológicas, técnicas relacionais ou ao menos um vocabulário mais próximo da biologia ou da sexologia clínica. No entanto, A Mística do Sexo, de Pierre Weil, é justamente o oposto: não um manual do corpo, mas uma convocação à alma. Uma obra que exige do leitor mais do que compreensão racional — pede entrega simbólica. Ao final da leitura, somos confrontados não com uma explicação do sexo, mas com uma experiência de estranhamento. E é justamente nesse estranhamento que mora sua força.

Como psicólogo recém-formado, ainda organizando minhas próprias zonas de sombra diante do saber psicanalítico, encontrei nesse livro um ponto de atrito e também de iluminação. Porque ele não fala do sexo como acontecimento apenas biológico, mas como manifestação de algo que escapa — e, talvez por isso mesmo, se torna sagrado.


O choque inicial: quando o corpo cede lugar à alma

A expectativa de encontrar informações práticas sobre a sexualidade humana — como ocorre em textos de Freud, Reich ou mesmo nas abordagens comportamentais contemporâneas — se desfaz logo nas primeiras páginas. Weil está mais próximo de Gibran, de Jung e dos místicos orientais do que de qualquer manual clínico. Ele propõe que o sexo, para além de sua função reprodutiva e recreativa, seja um ato de expansão da consciência, um portal de transcendência.

Para muitos leitores, inclusive para mim, essa inversão pode gerar frustração. Mas logo compreendemos: o autor não nega o corpo — ele o consagra. Pierre Weil nos convida a olhar o ato sexual como um caminho iniciático, onde o gozo não é fim, mas rito. E isso muda tudo.


Entre Freud e Weil: quando o id encontra o sagrado

Uma das frases mais célebres de Freud afirma: “Onde o id estava, o ego deve advir.” Esse imperativo é o coração do processo psicanalítico: transformar pulsões inconscientes em experiências conscientes, permitir que o sujeito deixe de ser passivamente levado por suas forças internas para tornar-se autor de sua própria narrativa.

Weil, ao seu modo, propõe algo semelhante, porém ampliado: ele sugere que, “onde o desejo fala, talvez o sagrado queira ser escutado.” É uma ampliação do campo psíquico para o campo místico. O que Freud via como material bruto a ser elaborado pela consciência, Weil parece enxergar como uma fagulha do divino que precisa ser honrada. O desejo, para ele, não é apenas impulso: é idioma da alma.

Essa é uma proposta ousada. Mas também é profundamente psicanalítica, se pensarmos no inconsciente como um campo simbólico, onde tudo que é recalcado — inclusive o anseio por transcendência — retorna em forma de sintoma, fantasia ou sonho.


Sexo, sintoma e sentido: uma travessia analítica

Nos consultórios, vemos todos os dias como o sexo se torna lugar de sofrimento: disfunções, compulsões, bloqueios, repetições. A sexualidade, longe de ser uma experiência livre, carrega marcas de traumas, repressões e narrativas herdadas. Freud nos ensinou que o recalque sexual é fonte central de neurose. Weil vai além: sugere que a dor nasce também da perda de sentido. Não basta liberar a libido — é preciso que ela encontre direção.

Ao espiritualizar o sexo, Weil não moraliza, mas ressignifica. Ele não nos impõe um padrão sagrado — ele nos convida a redescobrir o sentido do ato como um encontro, e não apenas uma descarga. Nisso, se aproxima de Jung, que via no erotismo uma via arquetípica de comunhão com o Self. O orgasmo, para Weil, é um vislumbre da totalidade — o momento em que ego e alteridade se dissolvem na experiência do Uno.


Uma leitura para quem ousa escutar o corpo como oração

Concluo esta análise reconhecendo que A Mística do Sexo não é leitura leve — é provocação. Ele exige a suspensão dos conceitos, e a disposição para o silêncio simbólico. Ele nos desarma das ferramentas clínicas convencionais e nos coloca diante de uma sexualidade que ora, que clama, que celebra.

É uma leitura difícil, sim — sobretudo para nós, psicólogos formados em teorias que se baseiam em estrutura, diagnóstico e intervenção. Mas talvez seja exatamente por isso que ela seja tão urgente.

Afinal, quantos de nossos pacientes — e quantas vezes nós mesmos — vivemos o sexo como anestesia, como ruído, como fuga? Pierre Weil não responde perguntas. Ele as devolve à nossa carne, à nossa história, ao nosso desejo. E nos convida a escutá-las em silêncio.

Porque talvez, no fim das contas, o sexo não seja apenas um ato — mas uma pergunta. E toda pergunta que nasce do desejo carrega algo de sagrado.



Sobre o autor

Abilio Machado é psicólogo clínico- institucional e hospitalar, com especialização em Psicanálise e abordagem integrativa. Apaixonado por simbolismo, espiritualidade e os enigmas do comportamento e do desejo, desenvolve pesquisas e ensaios sobre sexualidade, religiosidade e subjetividade contemporânea filosóficas e teológicas.



sábado, 7 de junho de 2025

Relato do caso Joaquim (nome fictício)

 


Relato do caso Joaquim

“Era uma vez’ um jovem chamado Joaquim que tinha acabado de entrar em nova escola e estava começando a explorar sua sexualidade. Embora ele tivesse muitas perguntas sobre o assunto, ele sentia vergonha de falar sobre isso com seus amigos ou familiares. Em casa medo dos pais que buscavam sempre reafirmar a masculinidade, as palavras como homem não chora, seja macho guri, seja como seu pai, etc… A Igreja então, tinha medo de não o deixarem subir no altar dar seu testemunho e cantar no coral, disse: “Eu amo estes momentos de cantar, é onde me sinto realmente livre”. E na escola ele tinha acabado de conhecer Pedro com seus cabelos cacheados. Isso o estava abalando com falta de concentração e noies insones.

Ele foi empurrado a procurar ajuda profissional devido seus comportamentos pela orientação da escola num chamaento aos pais. E já nos primeiros passos apresentou suas queixas, queria entender melhor as emoções que estavam povoando seus pensamentos e sentimentos relacionados à sua sexualidade, principalmente porque não sabia o que era, usou palavras como não sei se sou viado, bicha, gay ou uma das letras que nascem a cada dia.



Joaquim foi atendido por um terapeuta especializado em psicologia da sexualidade, e outras, que lhe ensinou algumas coisas fundamentais sobre os aspectos biológicos, psicológicos e sociais do desenvolvimento da identidade sexual. Ele explicou como os fatores culturais influenciam nossas percepções sobre sexo, orientação sexual, gênero e expressão de gênero diferentes. Ele argumentou que a forma como nós interpretamos, expressamos e valorizamos o sexo está enraizada em nossas experiências passadas, e que muitas vezes esses fatores podem levar às inseguranças no presente.



Ele disse também que é importante entendermos como as expectativas sociais afetam a sexualidade de cada pessoa, pois elas desempenham um papel fundamental na formação da identidade individual. Por exemplo, os padrões culturais sobre o gênero são altamente influenciados por crenças religiosas e tradições familiares - algo totalmente fora do controle dessa pessoa individualmente. Nós precisamos ser compreensivos quando lidar com questões relacionadas à sexualidade para poder nos sentirmos confortáveis ​​com quem somos realmente.



Você também passa por isso? Que tal marcar um horário para conversar?

Estou a sua disposição.

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Abilio Machado

Psicoarteterapeuta – Psicanalista

Arteterapeuta Cênico e Plástico

Neuropsicopedagogo ICH

Docente em Artes, Filosofia e Teologia

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