Mostrando postagens com marcador psicanalista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador psicanalista. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de julho de 2025

O Sexo como Mistério e Linguagem do Sagrado

 


O Sexo como Mistério e Linguagem do Sagrado

Uma leitura psicanalítica de “A Mística do Sexo”, de Pierre Weil

Por Abilio Machado – Psicólogo e Psicanalista

Introdução: entre o desejo e o divino

Ao buscarmos um livro sobre sexualidade, esperamos encontrar definições fisiológicas, técnicas relacionais ou ao menos um vocabulário mais próximo da biologia ou da sexologia clínica. No entanto, A Mística do Sexo, de Pierre Weil, é justamente o oposto: não um manual do corpo, mas uma convocação à alma. Uma obra que exige do leitor mais do que compreensão racional — pede entrega simbólica. Ao final da leitura, somos confrontados não com uma explicação do sexo, mas com uma experiência de estranhamento. E é justamente nesse estranhamento que mora sua força.

Como psicólogo recém-formado, ainda organizando minhas próprias zonas de sombra diante do saber psicanalítico, encontrei nesse livro um ponto de atrito e também de iluminação. Porque ele não fala do sexo como acontecimento apenas biológico, mas como manifestação de algo que escapa — e, talvez por isso mesmo, se torna sagrado.


O choque inicial: quando o corpo cede lugar à alma

A expectativa de encontrar informações práticas sobre a sexualidade humana — como ocorre em textos de Freud, Reich ou mesmo nas abordagens comportamentais contemporâneas — se desfaz logo nas primeiras páginas. Weil está mais próximo de Gibran, de Jung e dos místicos orientais do que de qualquer manual clínico. Ele propõe que o sexo, para além de sua função reprodutiva e recreativa, seja um ato de expansão da consciência, um portal de transcendência.

Para muitos leitores, inclusive para mim, essa inversão pode gerar frustração. Mas logo compreendemos: o autor não nega o corpo — ele o consagra. Pierre Weil nos convida a olhar o ato sexual como um caminho iniciático, onde o gozo não é fim, mas rito. E isso muda tudo.


Entre Freud e Weil: quando o id encontra o sagrado

Uma das frases mais célebres de Freud afirma: “Onde o id estava, o ego deve advir.” Esse imperativo é o coração do processo psicanalítico: transformar pulsões inconscientes em experiências conscientes, permitir que o sujeito deixe de ser passivamente levado por suas forças internas para tornar-se autor de sua própria narrativa.

Weil, ao seu modo, propõe algo semelhante, porém ampliado: ele sugere que, “onde o desejo fala, talvez o sagrado queira ser escutado.” É uma ampliação do campo psíquico para o campo místico. O que Freud via como material bruto a ser elaborado pela consciência, Weil parece enxergar como uma fagulha do divino que precisa ser honrada. O desejo, para ele, não é apenas impulso: é idioma da alma.

Essa é uma proposta ousada. Mas também é profundamente psicanalítica, se pensarmos no inconsciente como um campo simbólico, onde tudo que é recalcado — inclusive o anseio por transcendência — retorna em forma de sintoma, fantasia ou sonho.


Sexo, sintoma e sentido: uma travessia analítica

Nos consultórios, vemos todos os dias como o sexo se torna lugar de sofrimento: disfunções, compulsões, bloqueios, repetições. A sexualidade, longe de ser uma experiência livre, carrega marcas de traumas, repressões e narrativas herdadas. Freud nos ensinou que o recalque sexual é fonte central de neurose. Weil vai além: sugere que a dor nasce também da perda de sentido. Não basta liberar a libido — é preciso que ela encontre direção.

Ao espiritualizar o sexo, Weil não moraliza, mas ressignifica. Ele não nos impõe um padrão sagrado — ele nos convida a redescobrir o sentido do ato como um encontro, e não apenas uma descarga. Nisso, se aproxima de Jung, que via no erotismo uma via arquetípica de comunhão com o Self. O orgasmo, para Weil, é um vislumbre da totalidade — o momento em que ego e alteridade se dissolvem na experiência do Uno.


Uma leitura para quem ousa escutar o corpo como oração

Concluo esta análise reconhecendo que A Mística do Sexo não é leitura leve — é provocação. Ele exige a suspensão dos conceitos, e a disposição para o silêncio simbólico. Ele nos desarma das ferramentas clínicas convencionais e nos coloca diante de uma sexualidade que ora, que clama, que celebra.

É uma leitura difícil, sim — sobretudo para nós, psicólogos formados em teorias que se baseiam em estrutura, diagnóstico e intervenção. Mas talvez seja exatamente por isso que ela seja tão urgente.

Afinal, quantos de nossos pacientes — e quantas vezes nós mesmos — vivemos o sexo como anestesia, como ruído, como fuga? Pierre Weil não responde perguntas. Ele as devolve à nossa carne, à nossa história, ao nosso desejo. E nos convida a escutá-las em silêncio.

Porque talvez, no fim das contas, o sexo não seja apenas um ato — mas uma pergunta. E toda pergunta que nasce do desejo carrega algo de sagrado.



Sobre o autor

Abilio Machado é psicólogo clínico- institucional e hospitalar, com especialização em Psicanálise e abordagem integrativa. Apaixonado por simbolismo, espiritualidade e os enigmas do comportamento e do desejo, desenvolve pesquisas e ensaios sobre sexualidade, religiosidade e subjetividade contemporânea filosóficas e teológicas.



quarta-feira, 14 de maio de 2025

Mediação Familiar: Um Caminho para o Reencontro com o Diálogo

 


Mediação Familiar: Um Caminho para o Reencontro com o Diálogo


Por Abilio Machado, psicoterapeuta

Conflitos familiares são parte da vida, mas quando a comunicação se torna disfuncional e as emoções tomam proporções que impedem o entendimento, é preciso buscar alternativas saudáveis para restabelecer o equilíbrio. A mediação familiar tem se destacado como um recurso eficaz na resolução de impasses, promovendo escuta ativa, empatia e construção conjunta de acordos.

O que é Mediação Familiar?

A mediação familiar é um processo voluntário, confidencial e conduzido por um profissional imparcial — o mediador — que atua como facilitador do diálogo entre os envolvidos. O objetivo não é definir culpados ou impor soluções, mas abrir caminhos para que as próprias partes encontrem, juntas, alternativas viáveis e respeitosas para suas demandas.

Segundo Goldschmidt (2018), "a mediação familiar propõe um olhar para além do litígio, priorizando o restabelecimento da comunicação e o reconhecimento das emoções como parte legítima do conflito."

Quando Utilizar a Mediação?

A aplicação da mediação familiar é ampla. Pode ser usada em:

  • Separações e divórcios

  • Definição de guarda, visitas e pensão alimentícia

  • Conflitos entre pais e filhos

  • Questões entre irmãos, avós e demais membros da família

  • Disputas relacionadas a heranças e cuidado de idosos

Esses contextos frequentemente envolvem dores profundas, muitas vezes acumuladas ao longo dos anos, que tornam difícil a tomada de decisões racionais. Nesses momentos, a mediação atua como um canal de reconexão.

Como Funciona o Processo?

O processo é estruturado em etapas:

  1. Pré-mediação: Realiza-se uma avaliação preliminar com cada parte, para compreender a situação e verificar se há disposição e segurança emocional para iniciar o processo.

  2. Sessões de mediação: Podem ser individuais ou em conjunto. O mediador conduz os encontros com escuta ativa e imparcialidade, facilitando a expressão de sentimentos, necessidades e interesses.

  3. Construção de acordos: As partes, com o apoio do mediador, constroem soluções próprias e consensuais.

  4. Formalização (quando necessário): Os acordos podem ser registrados e, em alguns casos, levados à homologação judicial.

Importante destacar que o papel do mediador é ético, neutro e respeitoso. Ele não dá conselhos nem impõe decisões, apenas orienta o processo para que ele ocorra de forma segura e produtiva.

Um Caso Real (com nome fictício)

“Fernanda” e “Carlos” buscavam uma separação litigiosa após anos de desgaste no relacionamento. Tinham dois filhos pequenos e divergências sobre guarda e divisão de bens. A tensão era constante, e os filhos começavam a manifestar sinais de sofrimento emocional. A mediação familiar permitiu que, em poucas sessões, ambos pudessem expressar suas mágoas, reconhecer erros e chegar a acordos que priorizassem o bem-estar das crianças. Ao final, além dos acordos práticos, houve um reconhecimento mútuo da importância de preservar a parentalidade, mesmo com o fim do casamento. (Nomes alterados para preservar a identidade das pessoas envolvidas.)

Benefícios da Mediação Familiar

De acordo com Marina Melillo (2021), especialista em resolução de conflitos, “a mediação oferece um espaço de escuta que não existe no sistema judicial tradicional. É mais humana, menos burocrática e mais efetiva.”

Outros benefícios incluem:

  • Preservação dos vínculos afetivos, especialmente em famílias com filhos

  • Acordos mais duradouros, pois são construídos em comum acordo

  • Custo menor e maior agilidade em relação aos processos judiciais

  • Resgate da autonomia das partes envolvidas

  • Redução dos impactos emocionais gerados por longas disputas

Conclusão

Em um mundo onde tantas famílias se veem imersas em conflitos silenciosos ou barulhentos, a mediação surge como um espaço de reconstrução possível. Não se trata de apagar dores, mas de criar um ambiente onde elas possam ser compreendidas, ressignificadas e transformadas em aprendizados e acordos reais.

Se você está enfrentando dificuldades em sua família e sente que o diálogo se perdeu, considere a mediação como uma alternativa segura, ética e respeitosa. Em muitos casos, ela pode ser o ponto de virada necessário para restabelecer relações ou encerrar ciclos com dignidade.


Gostou do artigo?
Deixe seu comentário, compartilhe com quem possa se beneficiar e me siga nas redes sociais para acompanhar conteúdos sobre saúde emocional, relacionamentos e resolução de conflitos.

Se você ou alguém da sua família precisa de orientação, estou à disposição para conversarmos com cuidado, respeito e sigilo. Entre em contato.




Referências:

  • Goldschmidt, R. (2018). Mediação Familiar: Um caminho possível. São Paulo: Saraiva.

  • Melillo, M. (2021). Conflito e Comunicação: mediação como ferramenta de escuta. Revista Brasileira de Mediação e Conciliação, 5(2), 45-59.


Aos poucos tudo muda

 Há um dia em que a casa fica estranhamente silenciosa, e não é porque a criança foi embora. Ela ainda está ali, sentada no chão, no sofá, n...