Cirurgia bariátrica por dentro: técnicas, escolhas e o cuidado psicológico que sustenta resultados
Por Abilio Machado - Psicanalista e Psicoarteterapeuta
A seguir, um guia direto e completo sobre os tipos de cirurgia bariátrica e os cuidados psicológicos que fazem toda a diferença antes e depois do procedimento — com referências recentes e confiáveis ao final.
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1) As principais técnicas — como funcionam, para quem são e pontos de atenção
a) Gastrectomia vertical (“sleeve”)
O que é: remoção de ~70–80% do estômago, formando um “tubo” que reduz fome e capacidade.
Vantagens: técnica única (sem desvios intestinais), ampla experiência, boa perda de peso e controle metabólico.
Cuidados: pode piorar/induzir refluxo em parte dos pacientes; requer suplementação e seguimento.
Evidência: é uma das duas técnicas com recomendação mais forte nas diretrizes internacionais (ASMBS/IFSO 2022) e também entre as mais indicadas no Brasil pelo CFM em 2025.
b) Bypass gástrico em Y de Roux (RYGB)
O que é: cria-se um pequeno “bolso” gástrico e desvia-se parte do intestino, combinando restrição e leve má-absorção.
Vantagens: excelente para diabetes tipo 2 e para refluxo refratário à sleeve.
Cuidados: maior risco de deficiências nutricionais e maior risco de problemas com álcool no longo prazo em comparação à sleeve.
c) Duodenal switch clássico (BPD-DS) e SADI-S
O que são: combinam sleeve com desvio intestinal mais longo, aumentando o efeito metabólico.
Vantagens: maior perda de peso e efeito sobre DM2 em casos muito graves, inclusive revisões após falha de outras técnicas.
Cuidados: alto risco de deficiência de vitaminas e proteínas; exigem equipe experiente e adesão rígida à suplementação. Evidência recente aponta eficácia do SADI-S, inclusive em estudos de 2024–2025.
d) Bypass gástrico de uma anastomose (OAGB/MGB)
O que é: variação com uma única anastomose, efetiva e usada também como revisional.
Cuidados: risco de refluxo biliar em alguns pacientes; seleção criteriosa é essencial.
e) Banda gástrica ajustável
O que é: anel de silicone regulável ao redor do estômago.
Situação atual: caiu muito em popularidade por menor eficácia e maior taxa de reoperações; hoje é rara como primária. (As diretrizes ASMBS/IFSO e a atualização do CFM refletem essa tendência ao priorizar sleeve e bypass.)
Quem pode operar?
As indicações clássicas foram ampliadas em 2022 (ASMBS/IFSO) e, no Brasil, o CFM atualizou em 20/maio/2025 os critérios para adultos e adolescentes a partir de 16 anos, com ampliação da elegibilidade em casos de IMC 30–34,9 com doença metabólica associada sob critérios específicos. Procure sempre checar a resolução CFM nº 2.429/2025 para detalhes.
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2) Resultados e riscos que devem entrar na decisão
Perda de peso e diabetes: sleeve e RYGB têm forte evidência de perda ponderal sustentada e remissão/controle de DM2; técnicas malabsortivas (BPD-DS/SADI-S) tendem a maior potência — ao custo de mais deficiências nutricionais.
Álcool e saúde mental: após o RYGB o risco de transtorno por uso de álcool e internações relacionadas ao álcool é maior do que após sleeve; o risco de tentativas de suicídio é discretamente mais alto em operados do que em controles com obesidade — exigindo rastreamento e seguimento psicológico estruturados.
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3) O cuidado psicológico — o que não pode faltar (antes e depois)
a) Avaliação pré-operatória estruturada
As diretrizes recomendam uma avaliação psicossocial padronizada antes da cirurgia (história psiquiátrica, uso de substâncias, padrões alimentares, compreensão do procedimento, rede de apoio, expectativas). Ferramentas comuns: PHQ-9 (depressão), GAD-7 (ansiedade), AUDIT-C (álcool), EDE-Q/BES (transtornos alimentares). Sinais que não contraindicam automaticamente, mas pedem plano de manejo: TDAH, ansiedade/depressão estáveis, TEPT, histórico de trauma; já psicose não controlada, uso ativo de substâncias ou transtornos alimentares graves sem tratamento costumam adiar a cirurgia até estabilização.
Objetivos dessa etapa
Alinhar expectativas (cirurgia = ferramenta, não “cura mágica”).
Mapear riscos psicossociais (isolamento, baixa adesão, “transferência de dependência”).
Construir um plano de suporte (família/grupo de pares + equipe multiprofissional).
b) Intervenções psicológicas baseadas em evidências
TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental): foco em reestruturação de pensamentos, planejamento de refeições, manejo de gatilhos e prevenção de recaídas.
ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) e Entrevista Motivacional: ajudam na aderência e no desconforto com mudanças de estilo de vida.
Tratamento dos transtornos alimentares (compulsão, “loss-of-control eating”, picadas contínuas): combinação de TCC + nutrição comportamental; avaliar medicações quando indicado. A literatura aponta que transtornos alimentares podem persistir ou emergir no pós-operatório se não tratados ativamente.
c) Monitoramento de longo prazo (min. 2–5 anos, idealmente contínuo)
Álcool e outras substâncias: educar que o álcool “bate” mais rápido (especialmente após RYGB) e o risco aumenta após 2 anos; rastrear com AUDIT-C em todas as consultas.
Humor, ansiedade e suicidabilidade: reavaliar com escalas padronizadas; fortalecer rede de apoio e acesso rápido à psicoterapia.
Comportamento alimentar: reforçar habilidades de TCC/ACT, grupos de suporte e acompanhamento nutricional para evitar “graze eating” e reganho.
d) Educação prática que reduz recaída
Regra das “4 colunas”: (1) consultas regulares; (2) suplementos e exames; (3) plano alimentar com proteína prioritária e metas de hidratação; (4) higiene do sono/estresse + movimento diário.
Contrato de segurança para álcool (especialmente após RYGB): metas de abstinência ou limite baixo, plano escrito para festas/feriados, quem acionar se houver deslize.
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4) Como escolher a técnica com sua equipe
1. Quadro clínico (DM2, refluxo, hérnia hiatal, doença hepática, osteoarticulares).
2. Perfil psicológico e de adesão (disponibilidade para suplementação vitalícia, risco de álcool, suporte familiar).
3. Evidência e normas vigentes (ASMBS/IFSO 2022; CFM 2.429/2025 no Brasil, incluindo regras para adolescentes ≥16 anos).
4. Experiência do centro cirúrgico com a técnica proposta.
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Referências (seleção comentada)
1. ASMBS/IFSO 2022 — Indicações para cirurgia metabólica e bariátrica. Atualizou critérios e consolidou evidências de eficácia/segurança; base para decisões globais.
2. CFM nº 2.429/2025 (Brasil). Amplia elegibilidade (inclui IMC 30–34,9 com critérios) e autoriza a partir dos 16 anos sob protocolo.
3. JAMA Surgery 2023 — álcool após bariátrica. RYGB associado a mais hospitalizações relacionadas ao álcool do que sleeve/banda.
4. Umbrella review 2023 — saúde mental. Sinaliza maior risco relativo de suicídio em operados vs. cuidado usual, exigindo vigilância.
5. Diretriz de avaliação psicossocial (Sogg et al., 2016) + materiais educacionais ASMBS. Estruturam o que avaliar e como acompanhar no pré/pós.
6. SADI-S/BPD-DS — evidência recente. Apontam alta eficácia com maior necessidade de suplementação e seguimento intensivo.
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Bibliografia
EISENBERG, D. et al. 2022 American Society for Metabolic and Bariatric Surgery (ASMBS) and IFSO Indications for Metabolic and Bariatric Surgery. Surg Obes Relat Dis., 2022. Disponível em: ASMBS/IFSO.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.429/2025. Brasília, 2025. Disponível em: Portal CFM.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. CFM atualiza regras para realização de cirurgia bariátrica e metabólica. Nota oficial, 20 mai. 2025.
MAHMUD, N. et al. Association Between Bariatric Surgery and Alcohol Use–Related Hospitalizations. JAMA Surgery, 2023.
LAW, S. et al. Bariatric surgery and mental health outcomes: an umbrella review. Transl Psychiatry, 2023.
SOGG, S.; LAURETTI, J.; WEST-SMITH, L. Recommendations for the presurgical psychosocial evaluation of bariatric surgery patients. Surg Obes Relat Dis., 2016. (Documento público de sociedades; material complementar ASMBS).
HAIDER, M. I. et al. Outcomes of Single Anastomosis Duodeno-Ileal Bypass with Sleeve Gastrectomy (SADI-S). Cureus, 2024.
ROBERT, M. et al. Efficacy and safety of SADI-S. The Lancet, 2025 (on-line first).