terça-feira, 9 de setembro de 2025

Dicas para homens e mulheres ...


Dicas para homens e mulheres ...

1. Você NÃO deve terminar todas as tarefas da casa em um dia. Os que fazem isso ficam estressados e alguns já estão enterrados. As tarefas são DA CASA, não sua e todos devem ajudar, inclusive crianças a partir de 2 anos. Ensine...
2. TIRE TEMPO PARA DESCANSAR, não é imoral sentar-se, colocar as pernas em cima da mesa e comer algo que você gosta, mexer no celular, fofocar, sim conversar alivia as intemperanças.
3. DURMA quando puder, ou se necessário, vai perceber que a dor de cabeça desaparece, as ideias se renovam. Aqueles que se recusam a tirar férias, ir embora, tirar tempo livre ou tempo de descanso, suas famílias vão sentir saudades porque se vão prematuramente para aquela tal viagem sem retorno.
4. TENTE PARAR de tomar sedativos para dormir, você está destruindo seu cérebro e seus órgãos. Evite a medicação agressiva. Esse excesso de remédios para dormir fará que em algum momento comece a esquecer as coisas. Relaxe o cérebro, se preocupe menos, saia pra caminhar, ria, sorria mais, tudo passará com o tempo. Faça seu tempo...
5. SINTA- SE em algumas ocasiões, fora de sua casa em silêncio, sozinho; não diga nada, respire ar fresco com calma, agradeça por tudo, não se apresse. Medite, respire, abrace a si mesmo...
6. FIQUE em frente ao seu espelho, sorria para si, veja sua beleza interior e exterior, seu conhecimento e sabedoria, isso acende uma aura positiva ao seu redor, para que você possa brilhar com luz própria. Valorize-se...
7. VÁ , saia, vá ao parque, ao cinema, dar uma volta na rua, fazer um lanche, vá cortar ou pintar os cabelos...Faça algo para é por você...
8. OBTENHA se possível os eletrodomésticos necessários para facilitar o seu trabalho e evitar o estresse, pois ele é o maior assassino silencioso que existe.
9. DIGA quando não estiver se sentindo bem, faça algo sobre isso, vá para o centro de saúde, hospital ou chame algum médico próximo, não se sente na poltrona a esperar que alguém compre medicamentos para você, eles podem voltar tarde e sua vida importa, lute por si, deixe de seguir lemas absurdos de pessoas mal amadas.
10. CONTROLE SUA PRESSÃO E NÍVEL DE AÇÚCAR OCASIONALMENTE, quer você esteja doente ou não. Fazer isso salvou muitas vidas no passado.
Confie nestas boas dicas que eu lhe dou e dê o valor que você merece, ame-se e cuide-se, você é uma grande pessoa e não esqueça que você é... Instrumento precioso para DEUS. E por último e, não menos importante
11. AFASTE- SE de relacionamentos tóxicos (leia-se amores e amizades) e também de pessoas que só te criticam, não reconhecem suas conquistas, só te procuram para falar de problemas ou quando precisam de algo. Nestes casos, não tenha medo de dizer NÃO.


Quanto de você está naquilo que odeia no outro?




Quanto de você está naquilo que odeia no outro? 

Psicoarteterapeuta e Psicanalista Abilio Machado

Há situações raras, mas que ocorrem com frequência, como estar entre os nossos e por algum motivo, um atrito resulta em inúmeras acusações. Somos confrontados e pressionados, não gostamos de tal situação e este incômodo nos conduz às trevas, que se manifestam pela raiva, mágoa, tristeza e frustração. A pergunta que não fazemos: O que existe de verdade nisso? Todas as vezes que deixamos de viver a nossa verdade em razão de conceitos alheios significa que o preconceito é nosso e não dos outros. O preconceito nada mais é do que o medo de encarar a verdade diante de si e do mundo. O medo será sempre uma fonte de sofrimento. A coragem é parte essencial da cura; cabendo o restante à verdade. Saber exatamente quem somos, sem subterfúgios, é o passo inicial para a jornada rumo à libertação e a paz.
É preciso sensibilidade, sutileza e amor para quando abordamos a verdade do outro, pois nem sempre ele estará pronto para o confronto. Pode não ser o melhor momento ou talvez não sejamos os melhores mensageiros. Que nunca falte paciência e compaixão. No entanto, quando se trata da verdade sobre a nossa própria vida, ela é simples, sim. Apenas precisa de amor e coragem para ser tratada, o que nem sempre é fácil. É impressionante como abdicamos do poder que temos.
Ser forte é uma escolha que fazemos todos os dias. A coragem, como todas as demais virtudes, está ao lado, está à frente, está à disposição de todos. Ela está dentro de cada um, adormecida, à espera de um leve chamado para despertar e se tornar companheira. A todo momento temos a escolha de enfrentar ou fugir das dificuldades. Não há como fugir das dificuldades, uma vez que elas são as lições que nos cabem. Na realidade, apenas adiamos a batalha até o dia em que ela nos alcança. Podemos sim adiar a luta até o último instante. O problema é que nesse caso prolongamos o sofrimento. Coragem, não se perca de si mesmo e tenha fé no seu caminho. Todos os dias busque saber quem ainda você não é...

Paz profunda
Abilio Machado

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A Linha da Vida como recurso terapêutico para adolescentes em vulnerabilidade — e além

 


A Linha da Vida como recurso terapêutico para adolescentes em vulnerabilidade — e além

A violência contra adolescentes em situação de vulnerabilidade é um grave problema de saúde pública. Suas consequências vão muito além do momento da agressão: deixam marcas físicas, emocionais e psicológicas que afetam o desenvolvimento e o bem-estar desses jovens.

Na psicoterapia, compreender esse impacto exige sensibilidade. Cada adolescente traz uma história singular, na qual os traumas se entrelaçam com outros desafios da vida. É por isso que o trabalho terapêutico precisa respeitar não apenas os fatos vividos, mas também o significado que cada jovem atribui às suas experiências.

O desafio do TEPT na adolescência

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma resposta comum a situações de violência. Entre os sintomas, estão lembranças intrusivas, pesadelos, hipervigilância e evitação de situações que remetam ao trauma. Em adolescentes, isso pode prejudicar o desempenho escolar, a convivência familiar e até a construção da identidade.

Estudos mostram que, quando há múltiplos episódios traumáticos, os tratamentos tradicionais para TEPT muitas vezes não são suficientes. É nesse cenário que a psicologia busca recursos inovadores para favorecer o processo de cura.

A técnica da Linha da Vida

A Linha da Vida é uma dessas ferramentas. Nela, o adolescente é convidado a construir uma representação de sua trajetória, marcando eventos significativos, sobretudo os dolorosos. Essa linha narrativa não é apenas uma recordação dos fatos: é uma oportunidade de reorganizar memórias, perceber padrões e compreender como a violência se repetiu em diferentes momentos da vida.

O processo cria um distanciamento saudável, permitindo que o jovem observe sua história de forma mais clara e encontre novos significados para experiências que antes eram apenas fonte de sofrimento.

Resultados promissores

Pesquisas mostram que a Linha da Vida pode ajudar adolescentes em vulnerabilidade a:

  • Identificar diferentes formas de violência sofridas ao longo da vida;

  • Reconhecer padrões de risco, prevenindo situações de revitimização;

  • Ressignificar memórias dolorosas, transformando a relação com o passado;

  • Fortalecer a regulação emocional, diante de lembranças traumáticas ou situações adversas.

Integrada a protocolos de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), em conjunto com exercícios de regulação emocional, a técnica tem se mostrado eficaz em contextos de traumas recorrentes.

Aplicações para outros transtornos e fobias

Embora tenha sido estudada principalmente em situações de violência, a Linha da Vida pode ser útil também em outros contextos. Entre eles:

  • Fobias específicas: ao organizar a história, o paciente pode reconhecer quando e como o medo se consolidou, facilitando o trabalho de exposição gradual.

  • Transtorno de ansiedade generalizada (TAG): ajuda a identificar momentos em que a ansiedade foi mais intensa, permitindo observar gatilhos e padrões de pensamento.

  • Transtorno depressivo: ao revisitar a linha do tempo, o adolescente pode compreender ciclos de tristeza e desesperança, abrindo espaço para construir narrativas de superação.

  • Transtornos relacionados à perda e ao luto: a técnica contribui para integrar lembranças dolorosas em uma narrativa mais ampla de vida, suavizando o peso da ausência.

Em todos esses casos, a Linha da Vida atua como um mapa: uma ferramenta que ajuda o paciente a visualizar sua história de forma organizada, encontrar conexões e, principalmente, abrir espaço para novas perspectivas.

Reflexão final

Trabalhar com adolescentes em vulnerabilidade é lidar com vidas que carregam dores, mas também possibilidades de transformação. A Linha da Vida se mostra uma técnica capaz de oferecer não apenas clareza, mas também esperança.

Ao dar voz e forma às memórias, o jovem deixa de ser apenas espectador de sua dor e passa a ser autor de uma narrativa que pode ser ressignificada. E esse é um passo essencial não só para o tratamento do TEPT, mas também para o enfrentamento de outros transtornos que limitam a vida e o crescimento saudável.

O exercício: 

Linha da Vida envolve traçar uma linha horizontal num papel, marcar datas de nascimento e outros eventos significativos da sua vida, como o nascimento de filhos ou mudanças de casa, usando cores para diferentes tipos de acontecimentos (eventos, pontos de inflexão). O objetivo é refletir sobre esses momentos, analisando os impactos positivos e negativos, e compreender como eles moldaram quem você é hoje para planejar o futuro. 

Passos para criar a sua Linha da Vida:

  1. 1. Prepare o material:

    Pegue uma folha de papel (ou coloque papéis no chão para uma versão dinâmica) e um conjunto de cores. 

  2. 2. Marque o seu nascimento:

    No lado esquerdo do papel, escreva a sua data de nascimento. 

  3. 3. Desenhe os anos:

    Continue a linha para a direita, marcando todos os anos que se passaram desde o seu nascimento até o momento atual. 

  4. 4. Identifique os acontecimentos:

    Ao longo da linha, identifique e anote os eventos mais importantes da sua vida. Use a sua criatividade para marcar: 

    • Eventos gerais: Anote acontecimentos como o nascimento de irmãos ou filhos, casamento, início ou fim de estudos, mortes de pessoas queridas, mudanças de casa, etc. 

    • Pontos de inflexão (cor vermelha): Destaque os momentos que te tornaram mais forte, que foram cruciais para a sua fase de vida ou que representaram uma crise superada. 

    • Cortes ou traumas (outra cor): Marque as situações difíceis, traumatizantes ou que representaram um "antes e depois" definitivo na sua vida. 

  5. 5. Reflita sobre as conexões:

    Preste atenção às ligações entre os eventos e anote como eles afetaram você, suas emoções e a pessoa que você se tornou. 

  6. 6. Analise a sua linha:

    No final, observe a sua linha da vida para entender os padrões, os desafios e as conquistas. Essa reflexão ajuda a compreender o seu passado e a planejar o futuro. 


imagem: Gerd Altmann-Pixabay

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Cirurgia bariátrica por dentro: técnicas, escolhas e o cuidado psicológico que sustenta resultados - Parte II.



 Cirurgia bariátrica por dentro: técnicas, escolhas e o cuidado psicológico que sustenta resultados

Por Abilio Machado  - Psicanalista e Psicoarteterapeuta 

A seguir, um guia direto e completo sobre os tipos de cirurgia bariátrica e os cuidados psicológicos que fazem toda a diferença antes e depois do procedimento — com referências recentes e confiáveis ao final.


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1) As principais técnicas — como funcionam, para quem são e pontos de atenção


a) Gastrectomia vertical (“sleeve”)


O que é: remoção de ~70–80% do estômago, formando um “tubo” que reduz fome e capacidade.


Vantagens: técnica única (sem desvios intestinais), ampla experiência, boa perda de peso e controle metabólico.


Cuidados: pode piorar/induzir refluxo em parte dos pacientes; requer suplementação e seguimento.


Evidência: é uma das duas técnicas com recomendação mais forte nas diretrizes internacionais (ASMBS/IFSO 2022) e também entre as mais indicadas no Brasil pelo CFM em 2025. 



b) Bypass gástrico em Y de Roux (RYGB)


O que é: cria-se um pequeno “bolso” gástrico e desvia-se parte do intestino, combinando restrição e leve má-absorção.


Vantagens: excelente para diabetes tipo 2 e para refluxo refratário à sleeve.


Cuidados: maior risco de deficiências nutricionais e maior risco de problemas com álcool no longo prazo em comparação à sleeve. 



c) Duodenal switch clássico (BPD-DS) e SADI-S


O que são: combinam sleeve com desvio intestinal mais longo, aumentando o efeito metabólico.


Vantagens: maior perda de peso e efeito sobre DM2 em casos muito graves, inclusive revisões após falha de outras técnicas.


Cuidados: alto risco de deficiência de vitaminas e proteínas; exigem equipe experiente e adesão rígida à suplementação. Evidência recente aponta eficácia do SADI-S, inclusive em estudos de 2024–2025. 



d) Bypass gástrico de uma anastomose (OAGB/MGB)


O que é: variação com uma única anastomose, efetiva e usada também como revisional.


Cuidados: risco de refluxo biliar em alguns pacientes; seleção criteriosa é essencial. 



e) Banda gástrica ajustável


O que é: anel de silicone regulável ao redor do estômago.


Situação atual: caiu muito em popularidade por menor eficácia e maior taxa de reoperações; hoje é rara como primária. (As diretrizes ASMBS/IFSO e a atualização do CFM refletem essa tendência ao priorizar sleeve e bypass.) 



Quem pode operar?


As indicações clássicas foram ampliadas em 2022 (ASMBS/IFSO) e, no Brasil, o CFM atualizou em 20/maio/2025 os critérios para adultos e adolescentes a partir de 16 anos, com ampliação da elegibilidade em casos de IMC 30–34,9 com doença metabólica associada sob critérios específicos. Procure sempre checar a resolução CFM nº 2.429/2025 para detalhes. 


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2) Resultados e riscos que devem entrar na decisão


Perda de peso e diabetes: sleeve e RYGB têm forte evidência de perda ponderal sustentada e remissão/controle de DM2; técnicas malabsortivas (BPD-DS/SADI-S) tendem a maior potência — ao custo de mais deficiências nutricionais. 


Álcool e saúde mental: após o RYGB o risco de transtorno por uso de álcool e internações relacionadas ao álcool é maior do que após sleeve; o risco de tentativas de suicídio é discretamente mais alto em operados do que em controles com obesidade — exigindo rastreamento e seguimento psicológico estruturados. 



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3) O cuidado psicológico — o que não pode faltar (antes e depois)


a) Avaliação pré-operatória estruturada


As diretrizes recomendam uma avaliação psicossocial padronizada antes da cirurgia (história psiquiátrica, uso de substâncias, padrões alimentares, compreensão do procedimento, rede de apoio, expectativas). Ferramentas comuns: PHQ-9 (depressão), GAD-7 (ansiedade), AUDIT-C (álcool), EDE-Q/BES (transtornos alimentares). Sinais que não contraindicam automaticamente, mas pedem plano de manejo: TDAH, ansiedade/depressão estáveis, TEPT, histórico de trauma; já psicose não controlada, uso ativo de substâncias ou transtornos alimentares graves sem tratamento costumam adiar a cirurgia até estabilização. 


Objetivos dessa etapa


Alinhar expectativas (cirurgia = ferramenta, não “cura mágica”).


Mapear riscos psicossociais (isolamento, baixa adesão, “transferência de dependência”).


Construir um plano de suporte (família/grupo de pares + equipe multiprofissional). 



b) Intervenções psicológicas baseadas em evidências


TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental): foco em reestruturação de pensamentos, planejamento de refeições, manejo de gatilhos e prevenção de recaídas.


ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) e Entrevista Motivacional: ajudam na aderência e no desconforto com mudanças de estilo de vida.


Tratamento dos transtornos alimentares (compulsão, “loss-of-control eating”, picadas contínuas): combinação de TCC + nutrição comportamental; avaliar medicações quando indicado. A literatura aponta que transtornos alimentares podem persistir ou emergir no pós-operatório se não tratados ativamente. 



c) Monitoramento de longo prazo (min. 2–5 anos, idealmente contínuo)


Álcool e outras substâncias: educar que o álcool “bate” mais rápido (especialmente após RYGB) e o risco aumenta após 2 anos; rastrear com AUDIT-C em todas as consultas. 


Humor, ansiedade e suicidabilidade: reavaliar com escalas padronizadas; fortalecer rede de apoio e acesso rápido à psicoterapia. 


Comportamento alimentar: reforçar habilidades de TCC/ACT, grupos de suporte e acompanhamento nutricional para evitar “graze eating” e reganho. 



d) Educação prática que reduz recaída


Regra das “4 colunas”: (1) consultas regulares; (2) suplementos e exames; (3) plano alimentar com proteína prioritária e metas de hidratação; (4) higiene do sono/estresse + movimento diário.


Contrato de segurança para álcool (especialmente após RYGB): metas de abstinência ou limite baixo, plano escrito para festas/feriados, quem acionar se houver deslize. 


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4) Como escolher a técnica com sua equipe


1. Quadro clínico (DM2, refluxo, hérnia hiatal, doença hepática, osteoarticulares).

2. Perfil psicológico e de adesão (disponibilidade para suplementação vitalícia, risco de álcool, suporte familiar).

3. Evidência e normas vigentes (ASMBS/IFSO 2022; CFM 2.429/2025 no Brasil, incluindo regras para adolescentes ≥16 anos).

4. Experiência do centro cirúrgico com a técnica proposta. 


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Referências (seleção comentada)


1. ASMBS/IFSO 2022 — Indicações para cirurgia metabólica e bariátrica. Atualizou critérios e consolidou evidências de eficácia/segurança; base para decisões globais. 


2. CFM nº 2.429/2025 (Brasil). Amplia elegibilidade (inclui IMC 30–34,9 com critérios) e autoriza a partir dos 16 anos sob protocolo. 


3. JAMA Surgery 2023 — álcool após bariátrica. RYGB associado a mais hospitalizações relacionadas ao álcool do que sleeve/banda. 


4. Umbrella review 2023 — saúde mental. Sinaliza maior risco relativo de suicídio em operados vs. cuidado usual, exigindo vigilância. 


5. Diretriz de avaliação psicossocial (Sogg et al., 2016) + materiais educacionais ASMBS. Estruturam o que avaliar e como acompanhar no pré/pós. 


6. SADI-S/BPD-DS — evidência recente. Apontam alta eficácia com maior necessidade de suplementação e seguimento intensivo. 



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Bibliografia 


EISENBERG, D. et al. 2022 American Society for Metabolic and Bariatric Surgery (ASMBS) and IFSO Indications for Metabolic and Bariatric Surgery. Surg Obes Relat Dis., 2022. Disponível em: ASMBS/IFSO. 


CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.429/2025. Brasília, 2025. Disponível em: Portal CFM. 


CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. CFM atualiza regras para realização de cirurgia bariátrica e metabólica. Nota oficial, 20 mai. 2025. 


MAHMUD, N. et al. Association Between Bariatric Surgery and Alcohol Use–Related Hospitalizations. JAMA Surgery, 2023. 


LAW, S. et al. Bariatric surgery and mental health outcomes: an umbrella review. Transl Psychiatry, 2023. 


SOGG, S.; LAURETTI, J.; WEST-SMITH, L. Recommendations for the presurgical psychosocial evaluation of bariatric surgery patients. Surg Obes Relat Dis., 2016. (Documento público de sociedades; material complementar ASMBS). 


HAIDER, M. I. et al. Outcomes of Single Anastomosis Duodeno-Ileal Bypass with Sleeve Gastrectomy (SADI-S). Cureus, 2024. 


ROBERT, M. et al. Efficacy and safety of SADI-S. The Lancet, 2025 (on-line first). 


“Cirurgia Bariátrica: Transformação de Vida com Responsabilidade — Benefícios, Riscos e Evidências Científicas - parte I”

 



“Cirurgia Bariátrica: Transformação de Vida com Responsabilidade — Benefícios, Riscos e Evidências Científicas”


Por Abilio Machado - Psicanalista e Psicoarteterapeuta ICH

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1. Introdução


A obesidade grave é reconhecida como uma epidemia global com consequências sérias para a saúde, incluindo diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, alterações hepáticas e câncer . A cirurgia bariátrica tem se destacado como o tratamento mais eficaz para a perda de peso sustentável e a melhoria de doenças associadas .

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2. Benefícios Clínicos


2.1 Perda de peso duradoura


Após a cirurgia, a maioria dos pacientes consegue perder mais de 50 % do excesso de peso . Estudos apontam que procedimentos como bypass gástrico podem reduzir de 65 a 80 % do excesso de peso, enquanto a sleeve gastrectomy reduz cerca de 58 % . Uma meta-análise com até 5 anos de seguimento mostrou perda de IMC de 12 a 17 pontos .


2.2 Remissão de comorbidades metabólicas


Diabetes tipo 2: taxas de remissão chegam a 73 % em seguimento médio de 5 anos ; outros estudos relatam entre 85–90 % de resolução .


Hipertensão e dislipidemias: melhorias em 63 % (hipertensão) e 65 % (dislipidemia) dos pacientes .


Benefícios cardiovasculares: redução de infarto, AVC e mortalidade; risco de morte cardiovascular quase pela metade e eventos cardiovasculares em até um terço a menos .


2.3 Redução de mortalidade e outros impactos


Uma meta-análise recente indica diminuição de 59 % e 30 % na mortalidade geral em obesos com e sem diabetes, respectivamente. Além disso, ganho de expectativa de vida de até 9 anos .


Risco de câncer reduzido em aproximadamente 32 % a 44 % e mortalidade por câncer em até 48 % .



2.4 Outros benefícios múltiplos


A cirurgia também traz benefícios comprovados para infertilidade, síndrome dos ovários policísticos, incontinência urinária, refluxo e saúde mental .


Um estudo com adolescentes acompanhados por 10 anos mostrou redução média de IMC em 20 % e remissão de diabetes tipo 2 em 57 % dos casos .


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3. Riscos e Complicações


3.1 Mortalidade cirúrgica


As taxas de mortalidade perioperatória são baixas: entre 0,03 % e 0,2 % ; outras estimativas indicam 0,08 % em 30 dias, e 0,31 % após esse período .



3.2 Complicações


Complicações gerais: taxa de complicação geral em até 17 % e reoperação em cerca de 7 % dos casos .


Complicações gastrointestinais: risco aumentado (ex: úlceras 4,7 %, deficiências de ferro 14 %, incisões ou vazamentos) .


Procedimento específico – sleeve gastrique: vazamento (~0,5 %), infecção de ferida (10–15 %), estenoses, refluxo, deficiência de vitamina B12, queda óssea, entre outros .


Duodenal switch (biliopancreatic diversion): risco de má nutrição e deficiências de vitaminas e minerais .



3.3 Efeitos a longo prazo


Aumento do risco de fraturas, distúrbios mentais (suicídio, automutilação), distúrbios alimentares, abuso de álcool e alterações obstétricas adversas como anemia, parto prematuro .


Alguns estudos reportam inconsistências nos benefícios da pressão arterial .



3.4 Preparação e abordagem multidisciplinar


Segundo relatos brasileiros, os riscos vêm caindo significativamente graças ao avanço técnico e à abordagem multidisciplinar que inclui psicólogo, nutricionista e acompanhamento contínuo .



3.5 Experiências de pacientes (site Reddit)


Alguns depoimentos ressaltam que a cirurgia não é um “caminho fácil”, exige responsabilidade pós-operatória intensa e pode trazer dificuldades emocionais e funcionais importantes:


> “Dependendo do quanto você pisar na bola, você pode morrer”

“Pós bariátrica é um caminho difícil e sem retorno. E no fim, todos voltam a ganhar peso.” 


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4. Considerações para Tomada de Decisão


A decisão deve ser compartilhada (shared decision-making), com avaliação individualizada baseada em dados clínicos, perfil de comorbidades, suporte psicossocial, expectativas e risco cirúrgico . Procedimentos mais malabsorptivos trazem maior eficácia mas também maior risco, enquanto os mais restritivos refletem menor risco, porém resultados de peso mais modestos .


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5. Conclusão


A cirurgia bariátrica representa uma ferramenta poderosa e transformadora no combate à obesidade grave e suas comorbidades, com evidências robustas de benefícios como perda de peso sustentável, remissão de doenças metabólicas, redução da mortalidade e melhoria da qualidade de vida. Contudo, exige preparo cuidadoso, acompanhamento multidisciplinar e compreensão dos riscos, incluindo complicações cirúrgicas e efeitos psicológicos a longo prazo.




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Referências Bibliográficas


1. Arterburn DE, Telem DA, Kushner RF, Courcoulas AP. Benefits and Risks of Bariatric Surgery in Adults: A Review. JAMA. 2020 



2. Brethauer SA, Chand B, Schauer PR. Risks and Benefits of Bariatric Surgery: Current Evidence. Clev Clin J Med. 2006 



3. Sjöström L. Long-term effects of bariatric surgery on hypertension, diabetes, cardiovascular events, cancer and mortality: the SOS study. PMCID articles 



4. PubMed meta-analysis: Outcomes and Adverse Events After Bariatric Surgery (2013–2023) 



5. Global umbrella review: Bariatric surgery and health outcomes 



6. Sleeve gastrectomy complications, Wikipedia 



7. Gastric bypass benefits and outcomes, Wikipedia 



8. Cardiovascular effects review, Nat Rev Cardiol 



9. MASLD improvements after bariatric surgery, Wikipedia 



10. Verywell Health – Gastric Sleeve vs Bypass 



11. New England J Medicine: adolescent bariatric outcomes 



12. Time.com: Bariatric surgery for T2D remission 



13. Time.com: Drop in cancer risk post-surgery 



14. CNN Brasil: redução de riscos e abordagem multidisciplinar 



15. Reddit depoimentos sobre pós-operatório 




segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O Sequestro da Cultura: Poder, Hegemonia e Sociedade


O Sequestro da Cultura: Poder, Hegemonia e Sociedade

por Abilio Machado - Psicanálise - Psicoterapia - Neuropsicopedagogia

Introdução

O termo “sequestro da cultura” refere-se ao processo pelo qual correntes ideológicas buscam dominar os símbolos, os valores e os significados que estruturam a vida coletiva. Mais do que a disputa pelo poder político ou econômico, trata-se da conquista do imaginário social — o modo como as pessoas percebem o mundo, interpretam a realidade e definem o que é legítimo, belo, verdadeiro e justo.

Esse conceito ganha força a partir das reflexões de Antonio Gramsci, que, em seus Cadernos do Cárcere, destacou que a hegemonia cultural é pré-condição para a manutenção ou conquista do poder político. A cultura não é neutra: ela pode ser capturada, instrumentalizada e moldada.


1. Perspectiva Filosófica: Hegemonia e o Imaginário Social

Gramsci argumentava que não basta conquistar o Estado; é preciso conquistar o consenso. Esse consenso nasce do controle da cultura — escola, literatura, cinema, música, religião e até a linguagem cotidiana.

Pierre Bourdieu, em A Distinção (1979), acrescenta que o poder simbólico pode ser mais eficaz do que a violência física, pois se infiltra nos hábitos e gostos, naturalizando determinadas visões de mundo. Esse processo transforma ideologias em “bom senso”, tornando quase invisível a disputa de fundo.

Exemplo: movimentos políticos contemporâneos priorizam mudanças linguísticas (como novos termos de gênero, redefinição de papéis sociais ou ressignificação de símbolos nacionais) porque entendem que transformar a cultura é transformar a percepção da realidade.


2. Perspectiva Psicanalítica: O Inconsciente Coletivo e a Produção de Desejo

A psicanálise oferece um olhar sobre como a cultura sequestrada atua no nível inconsciente.

Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta que a cultura exige renúncia pulsional para manter a vida em sociedade. Quando uma ideologia toma a cultura, ela redefine o que deve ser reprimido e o que pode ser liberado.

Lacan aprofunda isso ao mostrar que o sujeito é estruturado pela linguagem. Se a cultura é capturada, o próprio campo simbólico é reorganizado. O inconsciente coletivo passa a girar em torno de novos significantes, que orientam desejos e identificações.

Exemplo: a indústria cultural (cinema, séries, música pop) não apenas entretém, mas produz identificações inconscientes que moldam ideais de corpo, de amor, de política e até de espiritualidade.


3. Perspectiva Teológica: Discernimento e Resistência

Na teologia, a noção de “sequestro da cultura” pode ser lida como uma forma de idolatria: substituir o transcendente por construções ideológicas que pretendem ocupar o lugar do absoluto.

O apóstolo Paulo já alertava em Romanos 12:2:

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.”

O cristianismo primitivo se entendia como contracultura diante do Império Romano, resistindo à captura de sua fé pelas narrativas oficiais.

Hoje, muitas tradições religiosas percebem que símbolos e rituais podem ser apropriados por ideologias políticas — seja para legitimar projetos de poder, seja para esvaziar o sentido espiritual e reduzir a fé a mero folclore cultural.

Exemplo: festas religiosas transformadas em eventos turísticos ou slogans políticos revestidos de linguagem bíblica.


4. Exemplos Contemporâneos

  • Educação: currículos escolares tornam-se campo de disputa ideológica, definindo quais narrativas históricas e valores morais são transmitidos.

  • Mídia e Entretenimento: séries, músicas e filmes introduzem novas normatividades, alterando percepções coletivas de família, ética e sexualidade.

  • Política: partidos e movimentos sociais investem na “batalha cultural”, buscando influenciar universidades, redes sociais e até humoristas.

  • Religião: igrejas, templos e símbolos sagrados podem ser instrumentalizados para reforçar agendas políticas.

4.1 Educação

A escola e a universidade são, talvez, os espaços mais estratégicos para a disputa cultural. Quem controla a narrativa educacional controla a memória coletiva e a formação das novas gerações.

  • Seleção histórica: A escolha de quais fatos da história devem ser ensinados (ou omitidos) molda a visão que os alunos terão sobre seu país e seu povo. Narrativas nacionais podem ser exaltadas ou desconstruídas, dependendo da orientação ideológica.

  • Valores morais: A discussão sobre gênero, sexualidade, família e religião dentro das salas de aula mostra como a educação não é neutra, mas sempre portadora de valores.

  • Linguagem: Mudanças no vocabulário escolar — inclusão de novos pronomes, alteração de termos históricos — são formas de disputar o simbólico.

Exemplo: debates sobre o “Escola sem Partido” no Brasil ou sobre a teoria crítica da raça (critical race theory) nos EUA demonstram como a educação é vista como campo de batalha cultural.


4.2 Mídia e Entretenimento

Cinema, séries, música e redes sociais se tornaram veículos centrais para a produção de significados. O entretenimento não apenas reflete a sociedade: ele antecipa e molda comportamentos.

  • Representatividade: a inclusão ou exclusão de determinados grupos em narrativas midiáticas cria novos padrões de normalidade.

  • Roteiros e enredos: histórias carregadas de mensagens sociais ou políticas podem influenciar a percepção coletiva de justiça, liberdade e identidade.

  • Indústria musical: letras e estilos artísticos, muitas vezes, se tornam slogans de movimentos sociais, funcionando como trilha sonora da mudança cultural.

Exemplo: a força de plataformas como Netflix e Disney em pautar debates sobre diversidade, ou ainda o papel de artistas pop em transformar suas carreiras em movimentos políticos.


4.3 Política

Se antes a política buscava apenas conquistar votos, hoje muitos partidos e lideranças entendem que a disputa é cultural antes de ser eleitoral. Essa é a lição gramsciana aplicada no século XXI.

  • Batalha de narrativas: slogans políticos tornam-se memes, hashtags e símbolos que moldam percepções emocionais muito além de propostas concretas.

  • Tomada de espaços culturais: universidades, centros de pesquisa, ONGs e até conselhos de artes e cultura são vistos como arenas para influência ideológica.

  • Polarização simbólica: bandeiras, hinos e até pratos típicos podem ser apropriados como símbolos de determinada ideologia.

Exemplo: a disputa em torno da bandeira nacional em manifestações políticas — ora sendo símbolo de unidade, ora de facção ideológica.


4.4 Religião

A religião, como depositária de valores transcendentes e identidade coletiva, é um dos territórios mais visados para a captura cultural.

  • Instrumentalização política: líderes políticos buscam legitimar seus projetos com linguagem e símbolos religiosos.

  • Folclorização da fé: ritos e festas religiosas se transformam em atrações turísticas, esvaziadas de sua dimensão espiritual.

  • Redefinição teológica: algumas correntes religiosas reinterpretam suas tradições para alinhar-se a agendas políticas ou sociais.

Exemplo: discursos de candidatos citando versículos bíblicos em campanhas, ou celebrações religiosas transformadas em espetáculos midiáticos que servem mais ao turismo do que à devoção.

Nos quatro campos — educação, mídia, política e religião — o sequestro da cultura se dá pelo controle de símbolos, narrativas e valores. O objetivo não é apenas convencer racionalmente, mas reprogramar o inconsciente coletivo para que uma visão de mundo se torne natural, quase invisível.


Conclusão

O “sequestro da cultura” é mais do que metáfora: é uma estratégia real de poder. A cultura, como espaço simbólico e inconsciente, não é neutra. Controlá-la significa moldar consciências, orientar desejos e redefinir valores sociais.

Diante disso, a resistência não pode ser apenas política ou econômica: é também cultural, simbólica e espiritual. Reconhecer as formas de captura é o primeiro passo para restaurar uma cultura plural, crítica e capaz de sustentar sociedades livres.


Referências

  • Gramsci, A. (1929-1935). Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

  • Bourdieu, P. (1979). A Distinção. São Paulo: Edusp.

  • Freud, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Bíblia Sagrada. Romanos 12:2.


 

“Há homens que nascem póstumos”: Um olhar psicanalítico, filosófico e teológico

 


“Há homens que nascem póstumos”: Um olhar psicanalítico, filosófico e teológico

por Abilio Machado - Psicanálise/ Psicoterapia e Neuropsicopedagogia

Introdução

A frase de Raul Seixas, inspirada em Friedrich Nietzsche (em O Anticristo, §1), provoca uma reflexão que ultrapassa o campo da música. Dizer que “há homens que nascem póstumos” é afirmar que certas existências só encontram sentido, reconhecimento ou realização depois da morte. O verso tenciona os limites entre vida e legado, presença e ausência, tempo e eternidade. Neste artigo, exploraremos essa ideia sob três perspectivas: a psicanalítica, a filosófica e a teológica.


1. Perspectiva Psicanalítica

Na psicanálise freudiana, a vida psíquica é atravessada pelo conflito entre Eros (instinto de vida) e Thanatos (instinto de morte). O sujeito busca afirmar-se, mas é também atraído por sua própria dissolução. Nesse sentido, o “homem póstumo” pode ser compreendido como aquele cujo desejo não se cumpre em vida, mas se projeta para além dela.

Freud, em Além do Princípio do Prazer (1920), aponta para a repetição como marca da pulsão. O “nascimento póstumo” seria uma espécie de repetição diferida: um eco de significados que só se inscreve no simbólico após o desaparecimento do sujeito.

Um exemplo é Van Gogh, cuja obra foi praticamente ignorada em vida. Seu desejo inconsciente encontrou realização apenas no campo do Outro — no olhar da posteridade. Assim, ele “nasceu” artisticamente apenas depois da morte.

Do ponto de vista lacaniano, o “nascimento póstumo” se relaciona ao registro simbólico: a obra, a palavra ou o gesto que ultrapassa o corpo biológico e se inscreve no discurso da cultura. O sujeito se torna “sujeito do desejo do Outro” apenas quando sua mensagem é decifrada por aqueles que vêm depois.


2. Perspectiva Filosófica

Em Nietzsche, a ideia aparece no início de O Anticristo:

“Alguns nascem póstumos.” (Es gibt Leute, die erst posthum geboren werden.)

Aqui, Nietzsche sugere que certos homens — como ele mesmo se via — não pertencem ao seu tempo. Seu pensamento é radical demais para ser compreendido no presente e só pode frutificar no futuro. O “nascimento póstumo” é, portanto, o destino dos que rompem com os valores vigentes.

Filosoficamente, trata-se de uma reflexão sobre temporalidade e história da recepção. Hegel já dizia que o “filósofo é o filho do seu tempo”, mas Nietzsche rompe com essa máxima: alguns não são filhos do seu tempo, mas do porvir.

Exemplos abundam:

  • Søren Kierkegaard, ignorado em vida, tornou-se pilar do existencialismo no século XX.

  • Antonio Gramsci, cujos Cadernos do Cárcere só foram publicados anos após sua morte, influenciando decisivamente a teoria crítica.

O nascimento póstumo, então, é a marca do pensador intempestivo, que planta sementes que só germinarão em outras estações.


3. Perspectiva Teológica

Na teologia cristã, a ideia de “nascer póstumo” dialoga com a promessa da vida eterna e da ressurreição. O Evangelho de João (12:24) diz:

“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto.”

Aqui, a morte não é o fim, mas condição para a fecundidade. O homem póstumo é aquele cujo verdadeiro nascimento acontece no mistério pascal: morrer para dar vida.

Os mártires cristãos são exemplo claro. São Óscar Romero, assassinado em 1980, tornou-se símbolo de resistência e fé apenas após sua morte, reconhecido oficialmente décadas depois como santo. Sua palavra ganhou vida no silêncio de sua ausência.

Na teologia paulina, especialmente em 1 Coríntios 15, o corpo terreno deve morrer para que o corpo espiritual surja. Isso confere ao verso de Raul Seixas uma dimensão escatológica: certos homens só nascem verdadeiramente ao morrer, pois sua obra transcende o tempo.


Conclusão

A frase de Raul Seixas, ecoando Nietzsche, mostra-se fértil para múltiplas leituras.

  • Para a psicanálise, ela revela o desejo que se realiza apenas no Outro, após a morte do sujeito.

  • Para a filosofia, indica o destino dos intempestivos, incompreendidos em seu tempo.

  • Para a teologia, aponta para a lógica pascal: é preciso morrer para gerar vida.

Dizer que “há homens que nascem póstumos” é reconhecer que a vida humana não cabe inteiramente no presente. Algumas existências pertencem ao futuro, e sua presença só se revela plenamente na ausência.


Referências

  • Freud, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1953-1977). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Nietzsche, F. (1895). O Anticristo. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Kierkegaard, S. (1849). Doença para a Morte. Petrópolis: Vozes.

  • Bíblia Sagrada. João 12:24; 1 Coríntios 15.

  • Romero, Ó. (1980). Homilias e Sermões. San Salvador.

  • Van Gogh, V. Cartas a Theo. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Gramsci, A. (1929-1935). Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

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