Há silêncios que o corpo grita. E desejos que se disfarçam de alívio.
A pornografia, por vezes, nasce desse lugar — onde a solidão busca companhia e o amor perde sua forma humana.
Entre o prazer e a culpa, entre o corpo e o espírito, muitos se perdem em imagens que prometem o que o toque real já não oferece.
Mas o que há por trás desse hábito tão comum e tão pouco confessado?
Seria um vício, um refúgio ou um sintoma de relações que já não respiram?
Tenho alguns conhecidos que volta e meia postam nos grupos ou enviam no privado imagens pornograficas, e sempre há um misto no pensar dos por quês... E saiu este artigo...
Quando o Desejo se Torna Refúgio: um olhar psicológico e teológico sobre a pornografia
Por Abilio Machado
Há um abismo silencioso que separa o prazer do encontro.
E é nesse espaço que muitos homens e mulheres têm se perdido — buscando na pornografia o alívio que não encontram mais na presença real, no toque verdadeiro, na reciprocidade amorosa.
Vivemos numa era de estímulos fáceis e recompensas instantâneas. Um clique e o cérebro é inundado por dopamina, o neurotransmissor do prazer e da recompensa. A princípio, parece inofensivo. Mas o que acontece quando o prazer se desconecta do vínculo, da ternura, da entrega? O que resta é o corpo como objeto, o outro como fantasia e a alma… vazia.
O ponto de vista psicológico
Do ponto de vista psicológico, a pornografia funciona como uma anestesia emocional.
Ela reduz a ansiedade, oferece uma fuga rápida da solidão, do estresse, da insegurança e da sensação de rejeição. Contudo, o preço é alto: o cérebro se condiciona a buscar o prazer em estímulos cada vez mais intensos, o que enfraquece o interesse pelo contato real, pela relação viva.
Casamentos e relacionamentos começam a sofrer: o toque do outro parece sem graça, o ritmo da vida sexual não compete com o frenesi das telas, e o olhar se perde em comparações. Surge a vergonha, a culpa, a mentira — e um ciclo de isolamento e distanciamento afetivo.
Em muitos casos, a pornografia não é a causa, mas o sintoma de uma relação em declínio. É o reflexo de vínculos enfraquecidos, de comunicações que se perderam, de afetos não ditos. Quando o desejo precisa se refugiar na fantasia, é sinal de que algo deixou de ser nutrido na realidade.
O ponto de vista teológico
Sob a ótica teológica, o corpo é templo, e o prazer é um dom sagrado — mas não um fim em si mesmo.
A espiritualidade cristã não nega o desejo, mas o convida à integração: amar é unir corpo, alma e compromisso. A pornografia, ao contrário, fragmenta. Ela cria uma dissociação entre o olhar e o coração, entre o ato e o sentido.
Jesus dizia que “quem olhar para uma mulher com intenção impura já cometeu adultério em seu coração” (Mateus 5:28). Não se trata de moralismo, mas de integridade: o olhar é o espelho da alma, e o desejo sem amor é uma chama que consome, não aquece.
A teologia do corpo, em sua beleza mais profunda, ensina que a sexualidade humana é linguagem de comunhão. Quando essa linguagem é usada para o isolamento — mesmo que no segredo de uma tela — ela deixa de ser expressão de vida e passa a ser consumo.
Entre o vício e a consciência
Reconhecer o vício não é sinal de fraqueza, mas de humanidade.
É admitir que há um buraco na alma que nenhuma imagem conseguirá preencher. A pornografia promete alívio, mas entrega vazio. O caminho da cura passa pelo autoconhecimento, pela escuta interna e, muitas vezes, pela necessidade de ajuda — psicológica e espiritual.
Curiosamente, é no tempo de abstinência que o corpo e a mente podem reencontrar o equilíbrio.
Como no teu caso, poetha — o período de recuperação após uma postectomia torna-se um convite à pausa. O corpo pede descanso, e o espírito pede sentido. É uma oportunidade de reconexão com o próprio sentir, de redescobrir o prazer que nasce do afeto e não apenas do impulso.
Os prós e os contras
Falar de “prós” na pornografia é delicado, mas podemos admitir que, em contextos terapêuticos ou educativos, ela pode despertar curiosidade, autoconhecimento ou servir de reflexão sobre o próprio desejo.
No entanto, seus contras são mais amplos e profundos: despersonaliza o outro, cria expectativas irreais, enfraquece vínculos emocionais, estimula comparações destrutivas e, em muitos casos, alimenta uma cultura de abuso e exploração.
O reencontro com o sagrado
Quando o prazer volta a ser gesto de amor, o corpo reencontra sua dignidade.
O desafio, portanto, não é reprimir o desejo, mas redimi-lo — dar-lhe significado, integrá-lo à vida. A castidade, nesse contexto, não é ausência de sexo, mas presença consciente: é amar de modo inteiro, sem se dividir entre o real e o virtual.
No fim, a pornografia é o espelho turvo de uma carência. E toda carência é um pedido de amor.
Talvez o verdadeiro milagre não esteja em deixar de desejar, mas em aprender a desejar de modo verdadeiro.