segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Cicatriz que Nasce Antes do Nome

 

Cicatriz que Nasce Antes do Nome

Por Abilio Machado

Uma criança nasceu
antes mesmo de ter escolha.
Veio ao mundo já herdando
a tolerância às drogas
que a mãe carregava no sangue,
como herança silenciosa
de uma juventude perdida
entre becos, promessas vazias
e o brilho falso das químicas baratas.

Cresceu vendo jovens avançarem curiosos
na mesma rua estreita,
onde o asfalto é ponte insegura
e a cabeça vira laboratório improvisado
de misturas que queimam, aceleram,
apagando o pouco de esperança que restou.
Ali, a vida é química demais
e afeto de menos.

Quem te atura?!
Beber até o mundo rodar,
até o corpo tombar,
até o sono te levar pro chão frio
e o amanhecer te devolver
todo mijado, envergonhado,
repetindo o mesmo lamento:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

Sou infeliz.
Estendo as mãos ao céu rachado
de fios elétricos e promessas quebradas:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

A saúde vai pro buraco,
o trabalho escapa,
as oportunidades fecham a porta
antes mesmo de bater.
Vem a cobrança: da vida, da rua,
da polícia, do crime,
da fome que empurra pro lado errado.
E eu pago caro,
caro demais,
por um caminho que começou torto
antes mesmo de eu saber andar.

Sou infeliz.
E acordo na madrugada, assustado,
com o coração disparado,
com o eco de passos lá fora
e o medo de virar estatística.
Repito baixinho,
como quem confessa ao escuro:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

Mas ninguém vê
que a cagada não nasceu comigo.
Ela me antecede,
me atravessa,
me empurra.
E eu tento, tropeço,
levanto, caio de novo,
nessa guerra invisível
que chamam de vida.

A TRAMA DAS DROGAS ENTRE OS JOVENS



A TRAMA DAS DROGAS ENTRE OS JOVENS

Por Abilio Machado

O uso de drogas entre jovens não nasce no vazio. Ele se constrói em camadas de vulnerabilidade, curiosidade, ausência de pertencimento, fuga emocional e, sobretudo, em uma sociedade que fala muito sobre prevenção, mas esconde seus próprios vícios atrás de taças, rótulos caros e moralismo seletivo.

Os riscos começam na experimentação banalizada: beber até se embriagar é visto, muitas vezes, como rito de passagem. É comum, é “normal”, é celebrado como se fosse um gesto de liberdade — quando, na verdade, se torna uma porta aberta para perdas significativas na saúde, na vida escolar, no trabalho e, em muitos casos, na aproximação com o crime.

O abuso de álcool entre jovens é frequentemente invisibilizado. Fala-se muito das drogas ilícitas, mas silencia-se sobre o etanol vendido em cada esquina, estampado em propagandas festivas, mesmo sendo ele um dos maiores responsáveis por acidentes, violência, intoxicações e danos ao desenvolvimento.

As consequências aparecem cedo: efeitos negativos no corpo e na mente, impulsividade, fragilização emocional, vulnerabilidade às violências e à exploração. A curto prazo, multiplicam-se acidentes e brigas; a longo prazo, traçam-se ciclos de dependência e perda de oportunidades.

O percurso das substâncias varia — maconha, tabaco, ecstasy, LSD — mas a realidade é a mesma: um mundo sombrio que dilacera indivíduos, famílias e comunidades. A droga, por si só, não cria o crime; é o vazio social ao redor dela que alimenta essa engrenagem. Onde há abandono, falta de políticas públicas, desigualdade e ausência de afeto, brota um terreno fértil para o uso e para o recrutamento criminoso.

E, no entanto, existe um ponto crucial nessa discussão: o problema não é exclusivo de ninguém.

Está no pobre, nas periferias, nas minorias que sobrevivem às duras penas, entre conchas de feijão e necessidades básicas.
Mas também está no médio, na classe trabalhadora, no proletariado que se anestesia para esquecer a dureza do dia, entre ossos de frango frito e jornadas exaustivas.
E está no rico, sim, escondido não mais no quinino, mas no caviar, nos condomínios de luxo, nos tapetes felpudos embalados por whisky de 12 anos e vinhos de safras especiais.

É por isso que a hipocrisia dói:
Há quem pregue moral, quem condene o jovem da periferia, quem discurse inflamado sobre vício e decadência… com um cigarro aceso na ponta dos dedos.
E há quem fale de “bons valores”, “família”, “retidão”, enquanto ergue a taça de vinho chileno ou italiano, alimentando o mesmo sistema de dependência — só que com rótulos mais caros e justificativas socialmente aceitas.

A sociedade denuncia o baseado do adolescente pobre, mas aplaude o brinde do adulto bem vestido.
Aponta o dedo para a maconha no beco, mas normaliza o álcool da confraternização da empresa.
Criminaliza a fuga barata dos vulneráveis, mas romantiza a fuga sofisticada de quem pode pagar.

Esse problema atravessa bairros, cidades, estados, classes, cores, religiões.
Não pertence a um só grupo — afeta a todos.
E enquanto continuarmos tratando a dependência dos pobres como crime, e a dependência dos ricos como “um momento social”, nada mudará.

Só haverá transformação quando reconhecermos que o vício é um fenômeno humano, social e emocional — e que a hipocrisia institucionalizada é um dos maiores impedimentos para enfrentar, de fato, essa realidade. 



sexta-feira, 21 de novembro de 2025

A ALEGRIA POR MIM

 



A ALEGRIA

Por Abilio Machado 

A alegria nasce quando o ser humano decide acender a própria luz por dentro. É quando ele afina o passo, percebe o valor de cada segundo, e descobre que a felicidade verdadeira não é algo que se recebe — é algo que se oferece. Quem encontra esse estado interno sabe transformar pensamento em gesto, gesto em presença, presença em humanidade. Cria vínculos, estende solidariedade, dignifica quem toca. E faz isso com prazer.


Com a palavra suave e o coração desarmado, ele constrói mundo. Alimenta, acolhe, reconstrói pela via do amor. Caminha, sempre, na direção da integração — consigo, com o outro, com o todo.


A cada instante, coloca sua consciência a serviço do bem. Sabe que toda grande transformação humana nasce do equilíbrio mental, espiritual e moral. Por isso trabalha com empenho; liberta-se da angústia, da vacilação e do vazio, porque aprendeu a repousar o pensamento na construção — da justiça, da liberdade, da harmonia.


É alguém que busca o diálogo, cultiva entendimento, oferece boa vontade. Fraterno, reconhece que a vida cotidiana pede olhos atentos ao lado bom das coisas. Eleva-se acima das provações e mantém viva a capacidade de agradecer. Sua existência se torna um cântico suave dirigido ao Criador.


O espírito fortalecido cresce na disciplina, no autoconhecimento, na esperança que brota de uma autoestima bem cultivada. O homem espiritualizado não carrega tristeza como morada: ele confia, respeita, compreende a diversidade humana sem tentar encaixá-la em moldes estreitos.


A alegria, quando real, transforma destinos. Empurra o ser humano para territórios interiores onde o trabalho, o propósito e o bem ganham nova luz. Sempre foi — e sempre será — uma força evolutiva incontornável, capaz de elevar moral, espírito e caráter.


A certeza da vida eterna liberta a alma do que fere, do que magoa, do que tenta desviá-la no percurso terrestre. Quem vive o processo construtivo da alegria sabe que o futuro não é ameaça: é horizonte de luz, dignidade, esperança e paz.


E assim, aquele que se educa, que se forma cultural e moralmente, entende que tem um dever silencioso: cultivar autodisciplina, buscar aprendizado permanente, expressar — em todas as circunstâncias — o prazer de existir, a fé no Criador, e a convicção de que cada experiência é uma força que empurra o espírito para frente.


Esperança. Alegria. Júbilo.

Três sementes que, quando plantadas por dentro, fazem o mundo florescer por fora.


 Ser ou não ser? Eis a questão!



 Ser ou não ser? Eis a questão!

Por Abilio Machado 

Imortalizada por Shakespeare, esta frase está presente nas dúvidas de muitas pessoas quando o assunto é o espirito. Qualquer um de nós pode se perguntar: sou um espirito ou tenho um espírito? Ou ainda, sou um corpo ou tenho um corpo?

Se, após alguma análise, a conclusão for que sou um espirito e tenho um corpo, a dúvida seguinte poderá ser: sendo um espirito, sou imortal ou isso é uma ilusão das religiões?

Como ainda há muitos irmãos de outras crenças que nos informam que o espírito está sujeito a uma segunda morte, caberia questionar: se corpo e espirito fossem mortais, por que haveria corpo e espírito então? Considerando que não há dúvidas de que o corpo é mortal, podemos concluir que, ou não há espírito, ou o espirito é imortal.

Nos dizeres atribuídos a Jesus em seu diálogo com Nicodemos: (0 espírito é como o vento que sopra... "não se sabe de onde vem e nem para onde vai, mas em verdade te digo que se o Homem não renasce da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus".

Nesta oportunidade, Jesus buscava explicar ao interessado que reencarnação era o caminho evolucionário para um reino de harmonia que está dentro de cada um de nós, mas que temos que descobrir e ocupar por meio do nosso próprio esforço.

O espírito é creado simples e ignorante, mas por ser dotado de inteligência e liberdade constrói a si mesmo ao longo da sua trajetória.

Como modelo exemplar desta ideia, no pátio de uma universidade norte ame-ricana há uma estátua inacabada, onde o personagem bem acabado até a altura da cintura, com um martelo em uma mão e uma talhadeira na outra, aparece esculpindo a si mesmo. Sem uma palavra, a bela imagem passa a mensagem que o ser é o construtor do seu próprio aperfeiçoamento.


Como espirito, sou uma unidade de vida inteligente, sou também a soma de minhas vivências e convivências, alegrias e tristezas, amores e dissabores, erros e acertos. Sou a causa e o efeito da minha própria história multiencarnatória. Em mim estão os principios, as crenças e os valores morais que construi. Aos poucos vou testando e substituindo ideias. Sou o fruto do polimento que dei a mim mesmo e minha história é meu patrimônio de conhecimento.


Sou como o bloco de pedra ou metal que aos poucos tem os excessos removidos e que a exemplo da escultura mencionada adquire formas harmo-niosas, revela sua essência e cumpre os papéis que escolhe.


Aprendizado contínuo faz coerência com imortalidade, com liberdade, respon-sabilidade e resultados. Hoje já sou melhor do que fui ontem e amanhã poderei ser um pouco melhor do que sou hoje.


Duvido, logo penso. Penso, logo sou. Descartes

Relaxação...ou relaxamento !

 


Relaxação

Por Abilio Machado 

Técnica de relaxamento / meditação que objetiva promover relaxamento fisico e mental, diminuindo as tensões musculares ocasionadas pelo estresse.

Para obter bons resultados com a prática desta técnica, como a diminuição das dores de coluna, enxaqueca e insônia, é necessário que você a pratique diariamente, duas vezes ao dia, por 10 minutos.


Como realizar?


1º - Procure um local calmo, tranquilo;

2º - Sente-se confortavelmente, não deite;

3º - Feche os olhos;

4º - Inicie uma inspiração e expiração nasal profunda e tranquila e mantenha esta forma de respiração durante alguns segundos;

5º - De olhos fechados direcione o pensamento para o corpo (pés, pernas, braços...) e procure soltar os músculos de cada segmento corporal, dos pés a cabeça;

6º - Inicie o exercício de vocalização inspirando pelo nariz e quando soltar o ar vocalize a letra "U".


IMPORTANTE:


Não pratique a técnica (vocalização) por mais de 20 minutos.

Não coloque despertador para avisar o término do tempo.


A relaxação, ou ação de relaxar, propicia o relaxamento ou estado de estar relaxado e promove a meditação, autoconhecimento, equilíbrio e serenidade."

sábado, 8 de novembro de 2025

Quando o Desejo se Torna Refúgio: um olhar psicológico e teológico sobre a pornografia

 Há silêncios que o corpo grita. E desejos que se disfarçam de alívio.

A pornografia, por vezes, nasce desse lugar — onde a solidão busca companhia e o amor perde sua forma humana.

Entre o prazer e a culpa, entre o corpo e o espírito, muitos se perdem em imagens que prometem o que o toque real já não oferece.

Mas o que há por trás desse hábito tão comum e tão pouco confessado?

Seria um vício, um refúgio ou um sintoma de relações que já não respiram?

Tenho alguns conhecidos que volta e meia postam nos grupos ou enviam no privado imagens pornograficas,  e sempre há um misto no pensar dos por quês... E saiu este artigo...



Quando o Desejo se Torna Refúgio: um olhar psicológico e teológico sobre a pornografia

Por Abilio Machado 

Há um abismo silencioso que separa o prazer do encontro.

E é nesse espaço que muitos homens e mulheres têm se perdido — buscando na pornografia o alívio que não encontram mais na presença real, no toque verdadeiro, na reciprocidade amorosa.

Vivemos numa era de estímulos fáceis e recompensas instantâneas. Um clique e o cérebro é inundado por dopamina, o neurotransmissor do prazer e da recompensa. A princípio, parece inofensivo. Mas o que acontece quando o prazer se desconecta do vínculo, da ternura, da entrega? O que resta é o corpo como objeto, o outro como fantasia e a alma… vazia.


O ponto de vista psicológico


Do ponto de vista psicológico, a pornografia funciona como uma anestesia emocional.

Ela reduz a ansiedade, oferece uma fuga rápida da solidão, do estresse, da insegurança e da sensação de rejeição. Contudo, o preço é alto: o cérebro se condiciona a buscar o prazer em estímulos cada vez mais intensos, o que enfraquece o interesse pelo contato real, pela relação viva.

Casamentos e relacionamentos começam a sofrer: o toque do outro parece sem graça, o ritmo da vida sexual não compete com o frenesi das telas, e o olhar se perde em comparações. Surge a vergonha, a culpa, a mentira — e um ciclo de isolamento e distanciamento afetivo.

Em muitos casos, a pornografia não é a causa, mas o sintoma de uma relação em declínio. É o reflexo de vínculos enfraquecidos, de comunicações que se perderam, de afetos não ditos. Quando o desejo precisa se refugiar na fantasia, é sinal de que algo deixou de ser nutrido na realidade.


O ponto de vista teológico


Sob a ótica teológica, o corpo é templo, e o prazer é um dom sagrado — mas não um fim em si mesmo.

A espiritualidade cristã não nega o desejo, mas o convida à integração: amar é unir corpo, alma e compromisso. A pornografia, ao contrário, fragmenta. Ela cria uma dissociação entre o olhar e o coração, entre o ato e o sentido.

Jesus dizia que “quem olhar para uma mulher com intenção impura já cometeu adultério em seu coração” (Mateus 5:28). Não se trata de moralismo, mas de integridade: o olhar é o espelho da alma, e o desejo sem amor é uma chama que consome, não aquece.

A teologia do corpo, em sua beleza mais profunda, ensina que a sexualidade humana é linguagem de comunhão. Quando essa linguagem é usada para o isolamento — mesmo que no segredo de uma tela — ela deixa de ser expressão de vida e passa a ser consumo.



Entre o vício e a consciência


Reconhecer o vício não é sinal de fraqueza, mas de humanidade.

É admitir que há um buraco na alma que nenhuma imagem conseguirá preencher. A pornografia promete alívio, mas entrega vazio. O caminho da cura passa pelo autoconhecimento, pela escuta interna e, muitas vezes, pela necessidade de ajuda — psicológica e espiritual.

Curiosamente, é no tempo de abstinência que o corpo e a mente podem reencontrar o equilíbrio.

Como no teu caso, poetha — o período de recuperação após uma postectomia torna-se um convite à pausa. O corpo pede descanso, e o espírito pede sentido. É uma oportunidade de reconexão com o próprio sentir, de redescobrir o prazer que nasce do afeto e não apenas do impulso.


Os prós e os contras


Falar de “prós” na pornografia é delicado, mas podemos admitir que, em contextos terapêuticos ou educativos, ela pode despertar curiosidade, autoconhecimento ou servir de reflexão sobre o próprio desejo.

No entanto, seus contras são mais amplos e profundos: despersonaliza o outro, cria expectativas irreais, enfraquece vínculos emocionais, estimula comparações destrutivas e, em muitos casos, alimenta uma cultura de abuso e exploração.


O reencontro com o sagrado


Quando o prazer volta a ser gesto de amor, o corpo reencontra sua dignidade.

O desafio, portanto, não é reprimir o desejo, mas redimi-lo — dar-lhe significado, integrá-lo à vida. A castidade, nesse contexto, não é ausência de sexo, mas presença consciente: é amar de modo inteiro, sem se dividir entre o real e o virtual.

No fim, a pornografia é o espelho turvo de uma carência. E toda carência é um pedido de amor.

Talvez o verdadeiro milagre não esteja em deixar de desejar, mas em aprender a desejar de modo verdadeiro.




O dilema do Bonde.

  O Dilema do Bonde Quadro 1: Um bonde desgovernado avança rapidamente por uma linha férrea. Cinco pessoas estão amarradas nos trilhos à fre...