sábado, 17 de janeiro de 2026

A bebida, o silêncio e o altar invisível


 A bebida, o silêncio e o altar invisível

Ninguém começa usando drogas querendo perder a vida.

Começa querendo perder a dor.

É curioso como a sociedade gosta de falar das drogas apontando o dedo para a substância, como se ela tivesse pernas, braços e intenção própria. Como se o álcool pulasse sozinho para dentro do copo, como se a garrafa chamasse pelo nome, como se o vício fosse um acidente moral e não um processo humano.

Mas quem escuta de verdade sabe:

ninguém bebe apenas bebida.

Bebe história.

Bebe ausência.

Bebe cansaço.

Bebe silêncios acumulados.

As drogas não entram na vida de alguém por acaso. Elas entram onde algo já estava faltando.

O álcool, por exemplo, é social, educado, aceito. Ele chega sorrindo, abraça, diz “relaxa”, “só hoje”, “você merece”. Ele participa das festas, das confraternizações, das despedidas, dos encontros e até dos velórios. É a droga que a cultura ensinou a amar.

E talvez por isso seja uma das mais traiçoeiras.

No começo, ele solta a língua, desamarra o corpo, anestesia a vergonha. O tímido fala. O triste ri. O cansado esquece. O ferido dorme.

E então alguém diz:

— “Quando bebo, fico mais eu.”

Mas não fica.

Fica menos consciente da dor de não ser quem gostaria de ser.

Do ponto de vista psicológico, o abuso de álcool não é busca de prazer. É tentativa de regulação emocional. É um remendo improvisado para emoções que nunca aprenderam a ser sentidas, nomeadas e atravessadas.

Quem bebe demais, muitas vezes, não sabe o que sente. Só sabe que dói.

E quando dói, o corpo aprende rápido: existe um líquido que cala o barulho interno.

O cérebro registra.

O alívio vira hábito.

O hábito vira necessidade.

A necessidade vira prisão.

E, em silêncio, o prazer vai embora. Fica apenas o medo da falta.

Mas há algo ainda mais profundo acontecendo — algo que a psicologia sozinha toca, mas não esgota.

Existe um vazio espiritual que nenhuma substância preenche.

Não falo de religião. Falo de sentido.

De pertencimento.

De reconciliação com a própria história.

Quando o humano não encontra onde repousar a alma, ele cria altares improvisados. Alguns rezam para o sucesso, outros para o corpo perfeito, outros para o reconhecimento. E muitos, sem perceber, fazem do álcool um consolador químico.

O copo vira oração.

A garrafa, refúgio.

O gole, uma promessa falsa de paz.

É uma espiritualidade distorcida, mas real: algo que promete alívio imediato, cobra caro e nunca salva.

O alcoolismo não começa no fígado. Começa na alma.

O fígado adoece depois, como testemunha silenciosa de uma dor que ninguém quis ouvir a tempo.

E enquanto o corpo tenta eliminar a substância — em horas ou dias — a mente continua intoxicada por memórias, culpas, vergonhas e histórias mal contadas.

O álcool pode sair do sangue em doze horas.

Da urina em dois dias.

Mas da identidade… às vezes leva anos.

Porque o problema nunca foi só a bebida.

Foi o que ela substituiu.

As outras drogas seguem caminhos semelhantes, cada uma com sua promessa específica:

umas oferecem coragem, outras desligamento, outras euforia, outras anestesia total. Mas todas têm algo em comum: não ensinam a viver, apenas a escapar.

E ninguém consegue fugir de si para sempre.

Em algum momento, o corpo cobra.

As relações adoecem.

O trabalho falha.

A espiritualidade seca.

O espelho se torna incômodo.

E então surge a pergunta que muitos evitam:

“Quem sou eu sem isso?”

Essa é a pergunta mais assustadora para quem se perdeu no caminho. E também a mais necessária.

Uma abordagem psicoteológica não aponta o dedo. Ela estende a mão.

Ela entende que tratar o abuso de drogas não é apenas retirar a substância, mas devolver à pessoa a capacidade de sentir, escolher e sustentar a própria existência.

Não se trata de condenar o dependente.

Trata-se de chamá-lo de volta à consciência.

À responsabilidade possível.

À dignidade esquecida.

Cura não é abstinência apenas.

Cura é reconstrução de sentido.

Talvez, no fundo, toda dependência seja uma pergunta mal formulada:

“Como viver com essa dor?”

E o trabalho terapêutico — psicológico e espiritual — seja ajudar a reformular a pergunta:

“O que essa dor quer me ensinar sobre mim?”

Enquanto essa pergunta não encontra espaço, a garrafa continua sendo resposta.

Uma resposta frágil.

Temporária.

Cara demais.

Mas ainda assim, compreensível.

Porque ninguém se perde porque quer.

Se perde porque não encontrou outro caminho.

E toda crônica sobre drogas, se for honesta, não termina com julgamento — termina com convite.

Convite à escuta.

À responsabilidade.

À reconstrução.

E, principalmente, à coragem de parar de beber silêncio e começar, enfim, a habitar a própria vida.


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