O professor não é espelho. É janela.
por Abilio Machado
Educar não é criar réplicas de si mesmo.
É formar pessoas capazes de pensar com autonomia, senso crítico e responsabilidade — inclusive quando discordam de nós.
O papel do professor não é moldar consciências à sua imagem, mas abrir caminhos para o conhecimento, o diálogo e a liberdade intelectual.
Eu sou professor — e é justamente por isso que preciso dizer o que muita gente prefere sussurrar nos corredores da escola, longe da sala dos professores e das certezas ideológicas.
O meu dever não é fabricar cópias do que penso.
Não é criar pequenos porta-vozes das minhas convicções pessoais.
Muito menos induzir crianças e adolescentes a aceitarem, sem reflexão, visões específicas sobre gênero, política ou mundo.
Meu trabalho é transferir conhecimento, não colonizar consciências.
Quando o professor passa do ponto, ele deixa de ensinar e começa a doutrinar.
E doutrinação é o nome elegante que a vaidade intelectual dá ao autoritarismo pedagógico.
Ensinar exige humildade.
Doutrinar exige aplauso.
O problema começa quando se confunde formar pensamento crítico com formar pensamento alinhado. Quando o aluno discorda e isso é lido como falha, ignorância ou resistência moral — e não como exercício legítimo de autonomia.
Há algo profundamente narcísico em querer que o aluno pense como eu.
Como se o sucesso pedagógico fosse medido pela quantidade de réplicas ideológicas que saem da sala ao fim do ano letivo.
Não se trata de negar valores. Professores os têm — e sempre terão.
Mas valores não se impõem: se apresentam, se discutem, se confrontam.
A sala de aula não é palanque.
O quadro negro não é cartaz de campanha.
E o aluno não é massa de manobra emocional nem laboratório sociopolítico.
Quando eu induzo, eu exerço violência simbólica.
Quando eu silencio quem pensa diferente, ensino medo — não liberdade.
Quando rotulo o aluno crítico como “atrasado” ou “problemático”, já não educo: adestra-se.
As férias chegaram.
E talvez seja hora de menos cursos sobre o que o aluno deve pensar
e mais autoanálise sobre quem nos tornamos enquanto educadores.
Será que eu ensino para libertar
ou para confirmar minhas certezas?
Será que eu acolho o aluno que me questiona
ou apenas celebro o que me repete?
Será que eu crio janelas para o mundo
ou espelhos onde só vejo meu próprio reflexo?
Educar é correr o risco de formar alguém que discorde de mim —
e ainda assim respeitá-lo.
Talvez as férias sejam um bom tempo para essa pausa necessária.
Uma pausa para olhar menos para o que o aluno pensa
e mais para como nós, professores, estamos ensinando.
Onde termina a formação do pensamento crítico
e onde começa a imposição das nossas próprias convicções?
Fica a reflexão.
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