Asas Próprias
Há uma cena silenciosa que sempre me comove: um pássaro parado no fio, olhando o horizonte como quem mede a própria coragem. Ele não consulta o vento. Não pede autorização às nuvens. Não protocola seu desejo no cartório do medo. Apenas abre as asas — e vai.
“Não peça permissão para voar. As asas são suas. E o céu não pertence a ninguém.”
Essa frase parece simples, mas carrega uma revolução íntima. Fomos ensinados, muitas vezes, a solicitar aval para existir. A família opina, a sociedade julga, a religião delimita, o mercado enquadra. Aos poucos, vamos entregando nossas penas em troca de aceitação. Quando percebemos, estamos domesticados no próprio ninho.
Como psicanalista e arte-educador, escuto diariamente histórias de pessoas que aprenderam a pedir licença para sentir, para escolher, para mudar. Pedem autorização para dizer “não”. Pedem consentimento para amar. Pedem sinal verde para sonhar diferente do roteiro que lhes foi imposto. E a pergunta que ecoa, quase infantilizada pelo medo, é sempre a mesma: “Posso?”
Há algo profundamente simbólico nas asas. Elas não são apenas instrumentos de voo; são metáforas da autonomia psíquica. Ter asas é reconhecer que há em nós uma potência anterior ao aplauso e posterior à crítica. É compreender que identidade não se negocia como mercadoria.
O céu, por sua vez, é esse espaço de possibilidades. Ninguém pode cercá-lo. Ninguém pode registrar em cartório a amplidão. Quando alguém tenta nos convencer de que o céu tem dono, está, na verdade, projetando o próprio medo de voar.
Escrevo de Campo Largo, no Paraná. E sempre me chama atenção como o próprio nome da cidade já sugere abertura: campo é extensão, largo é amplitude. Talvez por isso eu acredite tanto que horizonte não foi feito para ser contemplado apenas — foi feito para ser atravessado.
Pedir permissão excessiva revela, muitas vezes, uma história marcada por invalidações. Crianças que ouviram que eram “demais” ou “de menos”. Jovens ensinados a caber. Adultos que desaprenderam a confiar na própria bússola interna. E então se instala uma prisão invisível: a necessidade constante de aprovação.
Mas maturidade emocional é aceitar que desagradar faz parte do voo. Toda decolagem desloca o ar. Nem todos compreenderão sua altitude. Alguns preferem a segurança do galho conhecido. Outros criticam quem se aventura, porque a liberdade alheia confronta suas próprias gaiolas.
Voar não é rebeldia vazia. É responsabilidade. Quem assume as próprias asas assume também as consequências do trajeto. Não há garantias contra tempestades. Contudo, há dignidade em escolher a direção.
Do ponto de vista espiritual, há algo ainda mais profundo: se fomos criados com asas simbólicas — talentos, desejos, vocações — quem somos nós para amputá-las por medo da opinião humana? O céu não pertence às estruturas de controle; pertence ao mistério, à liberdade e à confiança.
Talvez o maior ato de coragem seja simples: parar de pedir autorização para ser quem se é. Não se trata de arrogância, mas de inteireza. Não é sobre impor-se, mas sobre não se diminuir.
Olho novamente para o pássaro do card. Ele não faz discursos. Não reivindica direitos. Apenas voa.
E isso basta.
—
Abilio Machado
Psicanalista e Arte-educador
Campo Largo – Paraná
Contato para palestras e atendimentos: 41 997451364 -:41 996353923
Instagram: (inserir @psicoterapeutaabiliomachado

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