Ensaio Psicanalítico-Teológico: Ansiedade e Depressão como Expressões da Falha e do Excesso Emocional
Por Abilio Machado
1. Introdução
Na linguagem cotidiana, ansiedade e depressão são muitas vezes tratadas como emoções específicas. Entretanto, tanto a psicanálise quanto a teologia apontam para a necessidade de compreender esses fenômenos de forma mais profunda. Em vez de emoções puras, podem ser vistos como resultados de desequilíbrios emocionais e espirituais, isto é, consequências de falhas ou excessos em outras emoções fundamentais, como medo, tristeza, raiva e amor.
2. A visão psicanalítica
Na psicanálise clássica, Sigmund Freud descreve a ansiedade não como uma emoção primária, mas como um sinal do ego diante de perigos internos ou externos (“Inibições, Sintomas e Ansiedade”, 1926). Para ele, a ansiedade é um estado sinalizador, um alarme de conflito psíquico entre id, ego e superego. Assim, não se trata de uma emoção independente, mas de um produto secundário do conflito entre pulsões e repressões.
Excesso do medo: gera ansiedade. O indivíduo não sente apenas medo pontual, mas uma antecipação exagerada de ameaças.
Falha no amor e no desejo de vida (Eros): resulta em depressão. A libido, incapaz de investir em novos objetos, recolhe-se ao ego, provocando autodepreciação e melancolia (Freud, “Luto e Melancolia”, 1917).
Na tradição psicanalítica pós-freudiana, Donald Winnicott amplia essa perspectiva ao mostrar que a depressão muitas vezes nasce da falha ambiental (quando o sujeito não encontra sustentação materna suficiente). Aqui também a depressão não é uma emoção isolada, mas a falência de outras emoções estruturantes.
3. A perspectiva das neurociências emocionais
Pesquisadores como Jaak Panksepp (1998), no estudo das emoções básicas, identificaram sete sistemas emocionais primários nos mamíferos: SEEKING, FEAR, RAGE, LUST, CARE, PANIC/GRIEF e PLAY. Nem ansiedade nem depressão aparecem nessa lista. Elas são estados compostos, oriundos de distorções nesses sistemas:
Ansiedade → hiperativação do FEAR (medo) e disfunção no SEEKING (motivação).
Depressão → falência prolongada do SEEKING (motivação e esperança) e hiperativação do PANIC/GRIEF (perda e tristeza).
Isso reforça que tais estados não são emoções básicas, mas configurações resultantes de excessos ou falhas emocionais.
4. A leitura teológica
Na tradição bíblica, não se encontra o termo “depressão” como emoção. O que aparece é a experiência da tristeza profunda, angústia ou desespero (ex.: Salmo 42:5 – “Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim?”).
A teologia cristã compreende que a ansiedade e a depressão são, antes de tudo, condições existenciais, reflexos da queda humana e do distanciamento de Deus. O apóstolo Paulo, em Filipenses 4:6, recomenda: “Não andeis ansiosos por coisa alguma”, não porque a ansiedade seja uma emoção natural, mas porque é um estado que nasce do excesso de preocupação e da falha na confiança em Deus.
Nesse sentido:
Ansiedade = falha de fé/confiança + excesso de medo.
Depressão = falha de esperança + excesso de tristeza ou culpa.
Teólogos como Paul Tillich (em “A Coragem de Ser”, 1952) explicam que a ansiedade é a experiência existencial do “não-ser”, uma sombra que se instala quando o homem se vê incapaz de confiar na transcendência. Já Santo Agostinho aponta que a alma, quando desordenada em seus amores (amor mal direcionado ou excessivo), adoece.
5. Integração psicanalítica e teológica
Tanto a psicanálise quanto a teologia convergem na visão de que ansiedade e depressão são expressões de desordens internas. Não são emoções puras, mas estados compostos:
Do lado psicanalítico: desequilíbrio pulsional, falhas no ambiente e conflitos inconscientes.
Do lado teológico: falha da fé, da esperança e do amor (1 Coríntios 13:13).
Portanto, podemos dizer que ansiedade e depressão não existem como emoções originárias, mas como estados complexos, frutos da ruptura da ordem emocional e espiritual.
6. Conclusão
Compreender ansiedade e depressão dessa maneira abre caminho para uma abordagem mais ampla:
O psicoterapeuta atua restabelecendo equilíbrio entre as emoções básicas.
O teólogo ou pastor acompanha o fiel no resgate da fé, da esperança e do amor.
Ambos reconhecem que o sofrimento humano não pode ser reduzido a uma simples emoção, mas é um estado de desequilíbrio profundo que clama por cuidado integral.
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Referências
Freud, S. (1917). Luto e Melancolia.
Freud, S. (1926). Inibições, Sintomas e Ansiedade.
Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment.
Panksepp, J. (1998). Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions.
Tillich, P. (1952). The Courage to Be.
Santo Agostinho. Confissões.
Bíblia Sagrada (Salmos 42, Filipenses 4:6, 1 Coríntios 13:13).

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