sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Fé e razão: As asas da alma humana

 


Fé e razão: As asas da alma humana

Por Abilio Machado


“Fé e razão são como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.” – João Paulo II


A frase de João Paulo II não é apenas um aforismo poético; ela traduz um princípio vital para o equilíbrio humano, tanto no campo espiritual quanto no psicológico. Fé e razão, longe de serem forças opostas, são dimensões complementares que, quando integradas, permitem ao ser humano transcender os limites da visão unilateral da realidade.


Quando uma asa falha


No consultório, é possível ver como a ruptura dessa harmonia afeta a vida das pessoas.


Caso 1 – Razão sem fé

Um homem de meia-idade, altamente intelectualizado, chega com queixas de ansiedade e vazio existencial. Ele possui respostas lógicas para tudo, desmonta qualquer discurso religioso e exige evidências para cada aspecto da vida. Porém, no silêncio da madrugada, sente-se perdido e desamparado. Sua razão funciona como uma única asa batendo com força, mas que não o ergue — apenas o exaure. Falta-lhe o eixo da fé: a capacidade de confiar no que ainda não é visível, de se abrir para um sentido que não cabe apenas na prova matemática.


Caso 2 – Fé sem razão

Uma jovem, profundamente devota, procura ajuda após cair em uma rede de manipulação espiritual. Ela acreditava que cada problema era obra de forças malignas e aceitava sem questionar práticas abusivas impostas por um líder religioso. Sua fé era intensa, mas a razão estava atrofiada. Quando a “asa racional” não participa do voo, a fé pode ser sequestrada por ilusões e distorções, levando a quedas dolorosas.


O voo equilibrado


Um paciente que integrava ambas as dimensões — fé e razão — mostrou como esse equilíbrio se traduz em vida prática. Após um diagnóstico grave de câncer, ele buscou tratamento médico de ponta (razão), mas também cultivou momentos diários de oração e leitura bíblica (fé). Reconhecia a limitação humana e, ao mesmo tempo, abraçava a possibilidade do milagre. Essa postura o sustentou não apenas fisicamente, mas emocionalmente, fortalecendo a esperança e reduzindo o sofrimento psicológico.


Analogia com a aviação


Podemos imaginar o ser humano como um piloto diante de um avião:


A razão é o painel de controle: mostra altitude, velocidade, combustível, riscos e rotas seguras.


A fé é o horizonte visível além da cabine: o céu aberto que orienta o destino e dá sentido ao voo.

Se o piloto confia apenas nos instrumentos, pode perder o sentido da viagem. Se ignora os instrumentos e olha apenas para o horizonte, corre o risco de não chegar ao destino. É no diálogo constante entre painel e horizonte que o voo se mantém estável.



A contemplação da verdade


Do ponto de vista psicoteológico, a contemplação da verdade não é um instante místico isolado, mas um estado de integração: a mente compreende, o coração confia e a alma se aquieta. É quando as perguntas lógicas encontram paz nas respostas que não precisam ser plenamente compreendidas para serem verdadeiras.


Assim como uma ave precisa das duas asas para cortar o ar e alcançar altura, o espírito humano precisa da força da razão e da leveza da fé para chegar a um ponto de visão onde a vida se revela em sentido e beleza.


E talvez, nesse ponto, percebamos que a verdade não é um objeto a ser possuído, mas um horizonte para onde continuamente voamos.



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