Quer nadar junto com tubarões? Não sangre.
É uma frase curta, mas carregada de intensidade. À primeira vista, parece apenas um alerta pragmático: cuidado com o ambiente, cuidado com os predadores. Mas, para quem observa com olhos psicanalíticos, ela é muito mais profunda.
Os tubarões, nesse cenário, não são apenas animais. Eles são metáforas poderosas — figuras do Outro, do inconsciente social, daqueles medos que nos perseguem e das pressões que nos desafiam. Eles podem representar chefes implacáveis, colegas competitivos, pessoas que nos testam, ou até fragmentos internos, partes de nós mesmos que duvidam e julgam.
“Não sangue.” Eis aí a chave. Sangrar significa expor a própria vulnerabilidade. Mostramos feridas, carências, inseguranças. E a psicanálise nos ensina que, muitas vezes, essas feridas despertam reações externas que podem ser agressivas — ou que simplesmente refletem nosso próprio medo de sermos feridos. Lacan diria que o desejo exposto, o que deixamos visível, nos coloca à mercê do olhar do Outro. Freud lembraria que o superego interno, severo e exigente, já nos puniria por qualquer sinal de fraqueza.
Evitar sangrar é um mecanismo de defesa. É reprimir, conter, mascarar emoções e desejos. Funciona, sim, como proteção — um escudo. Mas há um risco: a contenção prolongada pode gerar ansiedade, culpa ou frustração, porque não lidamos com a dor ou com o medo de frente, apenas tentamos escondê-los.
Nadar com tubarões também é um teste de poder e sobrevivência social. É aprender a administrar a exposição, a escolher cuidadosamente o que mostrar. Mas é igualmente um convite à consciência: conhecer seus limites, reconhecer suas feridas e não se perder no esforço de escondê-las.
A psicanálise essencial nos lembra que não precisamos sangrar para aprender, nem nos tornar invisíveis para sobreviver. É possível navegar com segurança, equilibrando assertividade, vulnerabilidade e cuidado consigo mesmo. É nessa tensão, entre força e fragilidade, que encontramos não apenas sobrevivência, mas crescimento.
E assim seguimos, nadando com os tubarões, conscientes de nossas feridas, atentos aos predadores externos, mas sobretudo respeitando o que carregamos dentro de nós. Sangrar não é proibido; é escolher o momento certo, a forma certa, e transformar a vulnerabilidade em consciência.
— Psicoterapeuta Abilio Machado

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