sexta-feira, 19 de setembro de 2025

 A dor de ver demais

 


A dor de ver demais

Em troca de mensagem com meu primo sobre como a inteligência, desenvolvimento cognitivo, nos causa dor porque acabamos tendo mais percepção das coisas ao nosso redor e nos entristecemos por compreende-las.

Há uma estranha ironia no tempo: quando mais precisamos da leveza da ignorância, ele nos dá o peso da lucidez. Na juventude, caminhamos quase cegos, e ainda assim a vida parece menos árdua. O tempo é um rio largo, sem margens visíveis, e acreditamos que ele sempre estará ali, correndo a nosso favor.

Mas os anos passam, e a inteligência se aguça como uma lâmina que já não podemos devolver à bainha. E com ela, vêm percepções que antes nos escapavam: o limite do corpo, a fragilidade dos laços, a finitude dos dias. Descobrimos que cada manhã é também um adeus silencioso, e que a memória, essa companheira fiel, guarda não apenas a doçura do vivido, mas também as feridas que insistem em latejar.

Sofremos porque vemos. Vemos demais.

Vemos as injustiças que antes não nos importavam, os enganos que nos vestiam de esperança, os rostos que envelhecem ao nosso lado. Vemos as contradições humanas, as máscaras, o fingimento que a vida exige para se manter em movimento. E nessa clareza, já não há o consolo do véu da ignorância.

É curioso: a mesma inteligência que expande nosso olhar também amplia nossa dor. Porque enxergar não é apenas contemplar o que é — é também vislumbrar o que poderia ter sido. É perceber a beleza que se perdeu, o afeto que não floresceu, os caminhos que ficaram intransitáveis.

E ainda assim, há um paradoxo silencioso. Essa dor que nasce da lucidez é também a seiva de uma vida mais autêntica. Quando sofremos por compreender, também amamos com mais profundidade, perdoamos com mais generosidade, e nos tornamos capazes de enxergar a dignidade que existe mesmo naquilo que fere.

O tempo nos ensina a ver. A inteligência nos obriga a sentir. E entre a dor e a beleza, seguimos vivendo — carregando nos ombros não apenas os anos, mas a claridade de tudo o que eles revelam.



---


🌿 #Crônica #Reflexão #Tempo #Vida #DorDaLucidez #Consciência #Existência #Memória #Sabedoria #ReflexõesDaVida #Blog


Nenhum comentário:

Postar um comentário

O dilema do Bonde.

  O Dilema do Bonde Quadro 1: Um bonde desgovernado avança rapidamente por uma linha férrea. Cinco pessoas estão amarradas nos trilhos à fre...