terça-feira, 16 de setembro de 2025

 O amor sombrio e a criança em vulnerabilidade.

 


O amor sombrio e a criança em vulnerabilidade.

Por Abilio Machado - Psicanalista/Psicoarteterapeuta/Neuropsicopedagogo ICH


> “Você não sabe o que é apanhar todo dia sem saber por quê, ter cigarros apagados em seu corpo ou mãos querendo arrancar seus segredos. Era só denunciar, disseram. Mas como? Este já era o lar adotivo.”


Esse testemunho cru, carregado de dor, expõe uma das faces mais obscuras da infância em vulnerabilidade. Aquilo que deveria ser lugar de proteção se transforma em campo de violência, confundindo a criança em sua noção de amor, cuidado e pertencimento.


O paradoxo do amor sombrio


O amor costuma ser sinônimo de cuidado, afeto e proteção. Mas, em muitos contextos, ele aparece distorcido, carregando sombras. Esse “amor sombrio” se manifesta quando o adulto, em vez de oferecer segurança, projeta frustrações e feridas emocionais sobre a criança.

Como apontava Donald Winnicott (1975), a infância precisa de um “ambiente suficientemente bom” para crescer saudável. Quando esse ambiente falha, abre-se espaço para negligência, abuso e formas sutis de violência, muitas vezes justificadas como cuidado.


A criança em vulnerabilidade


A vulnerabilidade infantil pode estar ligada a fatores sociais (pobreza, violência, abandono), familiares (abuso físico, sexual ou emocional) ou psicológicos (pais com transtornos mentais, dependência química, ausência de suporte afetivo).

É nesse terreno que o amor sombrio ganha corpo em frases como:


“Bato porque amo.”

“É para o seu bem.”

“Você me deve obediência porque sou seu pai/mãe.”


Nesses discursos, a criança aprende a confundir dor com afeto, submissão com vínculo e violência com cuidado.


Consequências psicológicas


O impacto desse tipo de vivência é profundo. Pesquisas de Bowlby (1988) e Fonagy (2002) demonstram que padrões de apego moldam a maneira como os indivíduos se relacionam no futuro. Quando o amor é sombrio, os efeitos são duradouros:

Ambivalência afetiva: a criança associa amor com dor.

Baixa autoestima: cresce acreditando não ser digna de cuidado.

Dificuldade em confiar: adota defesas que dificultam vínculos genuínos.

Reprodução do ciclo: pode repetir relações abusivas na vida adulta.


Caminhos de ressignificação


A clínica psicológica tem papel essencial na ressignificação dessas experiências. O processo terapêutico oferece um espaço seguro para que a criança — ou o adulto que carrega a criança ferida dentro de si — reconstrua sua capacidade de confiar e acreditar que o amor pode ser fonte de vida.

Entre as intervenções possíveis, destacam-se:

Psicoterapia individual: elaboração da dor e construção de novas narrativas.

Terapia familiar: revisão das dinâmicas de poder e afeto.

Apoio social: fortalecimento de políticas públicas de proteção à infância.


Mais do que tratar sintomas, trata-se de devolver dignidade, esperança e a possibilidade de experimentar o amor em sua forma saudável.


Este artigo traz à tona de maneira visceral e aborda: o “amor sombrio” — esse afeto distorcido que se esconde atrás da palavra família, do discurso do cuidado, e até mesmo das instituições criadas para proteger.


O impacto da frase “este já era o lar adotivo” carrega um duplo choque:


1. Mostra como a violência pode estar presente não apenas nas famílias de origem, mas também em ambientes que deveriam ser refúgio.


2. Expõe a ingenuidade comum (e até cruel) de quem nunca viveu essa realidade — imaginar que havia uma saída simples, quando, na verdade, para a criança vulnerável, todas as portas parecem trancadas.


Conclusão


O amor sombrio é uma das formas mais cruéis de violência porque se disfarça de cuidado. Reconhecer seus sinais, dar voz às vítimas e oferecer alternativas de proteção é tarefa urgente para famílias, profissionais e sociedade.

A criança em vulnerabilidade não precisa apenas sobreviver — ela tem direito de ser amada de forma verdadeira, segura e libertadora.


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Bibliografia


Bowlby, J. (1988). Apego e perda: Vol. 1. Apego. São Paulo: Martins Fontes.

Fonagy, P. (2002). Apego e funções reflexivas: Desenvolvimento e psicopatologia. Porto Alegre: Artmed.

Winnicott, D. W. (1975). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas.

Bourdieu, P. (1999). A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes.

Rizzini, I., & Pilotti, F. (2011). A arte de governar crianças: A história das políticas sociais, da legislação e da assistência à infância no Brasil. São Paulo: Cortez.

Minayo, M. C. S. (2006). Violência e saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.


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