quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

E se eu pudesse voltar ...


 **“Se eu pudesse juntar a vitalidade de antes

com a sabedoria que só veio depois…”**

Essa frase não nasce da nostalgia vazia.

Ela surge, quase sempre, depois da queda.

Depois da doença, da perda, do susto, do limite imposto ao corpo ou à vida.

Não é sobre querer voltar no tempo.

É sobre desejar uma síntese impossível:

o corpo que ainda não conhecia o cansaço

com a mente que hoje compreende o valor de cada fôlego.

O desejo que não é regressão

Do ponto de vista psicológico, esse pensamento não é imaturo nem patológico.

Ele não expressa negação da realidade, mas consciência tardia.

Enquanto jovens, gastamos vitalidade como se fosse infinita.

Dormimos pouco, exigimos muito do corpo, silenciamos sinais.

A sabedoria ainda não chegou porque ela só aparece quando algo falha.

Quando o corpo impõe limites, a mente amadurece.

E então nasce essa fantasia reparadora:

“Se eu tivesse o corpo de antes com a cabeça de agora…”

Não é fuga.

É o reconhecimento doloroso de que aprendemos tarde,

mas aprendemos de verdade.

O corpo ensina onde a mente não alcança

Há aprendizados que não vêm por livros, terapias ou conselhos.

Eles vêm por sintomas.

Por cirurgias.

Por faltas de ar.

Por noites em que o corpo assume o comando.

O corpo é o último professor —

e o mais honesto.

Ele não negocia, não argumenta, não idealiza.

Ele impõe.

E quando isso acontece, o sujeito muda.

Muda o olhar, muda o ritmo, muda a forma de desejar.

A vitalidade de antes era inconsciente.

A sabedoria de agora é cara.

O conflito espiritual do tempo

Teologicamente, esse desejo toca num ponto sensível:

o tempo não volta.

A espiritualidade madura não promete retorno ao que foi,

mas sentido para o que restou.

Na tradição bíblica, ninguém é chamado a regressar.

Abraão é chamado a sair.

Moisés não entra na terra.

Paulo carrega um espinho.

A fé não restaura juventude —

ela sustenta a travessia.

Querer juntar vitalidade e sabedoria é humano.

Aceitar que isso não acontece literalmente é espiritual.

Então, o que é “melhorar”?

Melhorar não é voltar a ser quem se foi.

É aprender a viver bem com quem se é agora.

É usar a sabedoria conquistada para:

respeitar os limites do corpo

diminuir exigências irreais

abandonar a culpa por não ser mais o mesmo

cultivar presença em vez de desempenho

A maturidade verdadeira não romantiza a dor,

mas também não desperdiça o que ela ensinou.

A síntese possível

Talvez a junção perfeita nunca aconteça.

Mas existe algo próximo disso:

👉 menos vitalidade desperdiçada

👉 mais consciência aplicada

👉 menos pressa, mais precisão

👉 menos idealização, mais verdade

Não teremos o corpo de antes.

Mas podemos ter algo que antes faltava:

cuidado.

E isso, paradoxalmente, também é uma forma de vida plena.

Porque só quem já perdeu um pouco da própria força

aprende a usá-la com sabedoria.

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