Uma leitura psicológica, sem moralizar, mas desvelando o mecanismo por trás dessa necessidade de exibição que alguns casais tem em postar o suposto agrado afetivo ao outro para ganharem aplausos do " vejam como sou bonzinho(a) e carinhoso (a) — com profundidade clínica e linguagem acessível.
Quando um casal sente a necessidade constante de anunciar suas virtudes nas redes sociais, raramente está apenas compartilhando amor. Muitas vezes, está tentando convencer — o outro, o mundo e, sobretudo, a si mesmo.
A exibição reiterada de gestos afetivos, declarações públicas e performances de cuidado pode funcionar como um recurso defensivo. Não porque o afeto seja falso, mas porque ele precisa ser confirmado externamente. Onde o vínculo é sólido, o amor repousa. Onde ele é frágil, o amor faz barulho.
Do ponto de vista psicológico, isso costuma revelar uma lacuna: a dificuldade de sustentar intimidade no espaço privado. A relação passa a existir mais no olhar do outro do que na experiência entre dois. O casal deixa de se perguntar “como estamos?” e passa a se preocupar com “como parecemos?”.
Há também um componente narcísico sutil. A validação não vem apenas do parceiro, mas do like, do comentário, do aplauso silencioso da audiência. O afeto vira vitrine. O amor, marketing. E, nesse cenário, não se cuida do vínculo — administra-se a imagem.
Em muitos casos, essas postagens cumprem a função de reparação simbólica: tentam cobrir ausências reais — diálogo raso, conflitos não elaborados, ressentimentos acumulados, solidão a dois. É como se o gesto público dissesse aquilo que não consegue ser vivido no cotidiano: “olhem, está tudo bem”.
Relações saudáveis não precisam ser provadas. Elas se revelam na consistência, no silêncio confortável, na capacidade de atravessar crises sem plateia. O afeto que precisa ser anunciado o tempo todo, muitas vezes, está pedindo socorro.
Não se trata de condenar quem compartilha. Trata-se de compreender que, quando o amor vira espetáculo, talvez a relação esteja tentando existir onde já não consegue mais se sustentar.
Porque, no fundo, vínculos seguros não gritam.
Eles permanecem.

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