A Curva da Banana
Há algo profundamente honesto em uma banana.
Ela não disfarça seu processo. Não mascara suas manchas. Não esconde sua maturação. Vai do verde ao amarelo, do amarelo ao dourado intenso, do dourado às marcas, das marcas ao escurecimento. Sem maquiagem. Sem filtros.
“Seja humilde. Você não vai estar em alta para sempre.”
O card diz isso com simplicidade, mas a imagem diz com ironia: a fruta que hoje está perfeita amanhã estará madura demais. E depois… esquecida no canto da fruteira.
Vivemos numa cultura que idolatra o amarelo vibrante — o auge. A fase em que tudo parece no ponto ideal. Aparência impecável, reconhecimento, sucesso, aplausos. Mas esquecemos que o tempo não negocia com ninguém. Ele apenas passa.
A psique humana sofre quando acredita que o auge é permanente. A soberba nasce exatamente aí: na ilusão de estabilidade. Quando alguém está “em alta”, corre o risco de confundir fase com identidade. Esquece que está vivendo um momento, não ocupando um trono eterno.
E o mais curioso: a banana mais doce não é a mais bonita. É aquela já pintada de pequenas manchas. A maturidade real não é estética; é interna. O sabor aprofunda quando a casca já não impressiona tanto.
Há pessoas que, no início da vida, são verdes demais — inseguras, rígidas, duras. Outras florescem no amarelo do reconhecimento. Algumas atravessam o dourado com elegância. E quase todos, cedo ou tarde, conhecerão o escurecimento: perdas, quedas, esquecimento, silêncio.
A questão não é evitar o ciclo. É atravessá-lo com consciência.
Humildade não é se diminuir. É lembrar-se de que somos processuais. Que hoje podemos estar no centro da mesa e amanhã seremos apenas memória do que já fomos. Que aplausos são transitórios, cargos são temporários, elogios têm prazo de validade.
A soberba teme o escurecimento. A humildade entende que ele faz parte da maturação.
Há algo profundamente libertador nisso. Quando aceito que não estarei “em alta” para sempre, deixo de competir obsessivamente. Começo a valorizar mais o sabor do que a aparência. A essência mais do que a vitrine.
E talvez o maior aprendizado seja este: não se trata de permanecer amarelo para sempre. Trata-se de ser inteiro em cada fase.
Verde, aprendendo.
Amarelo, brilhando.
Manchado, amadurecendo.
Escuro, cumprindo o ciclo.
Olho para as quatro bananas do card e vejo a biografia de qualquer ser humano. E penso que a humildade é simplesmente a consciência de que somos todos fruta do tempo.
Hoje podemos estar no auge. Amanhã seremos parte da compostagem da vida — alimentando novos ciclos.
E isso não é tragédia.
É natureza.
—
Abilio Machado
Psicanalista e Arte-educador
Campo Largo – Paraná
Contato para palestras e atendimentos: 41 998451364 - 41 996353923
Instagram: (inserir @psicoterapeutaabiliomachado

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