O Sequestro da Cultura: Poder, Hegemonia e Sociedade
Introdução
O termo “sequestro da cultura” refere-se ao processo pelo qual correntes ideológicas buscam dominar os símbolos, os valores e os significados que estruturam a vida coletiva. Mais do que a disputa pelo poder político ou econômico, trata-se da conquista do imaginário social — o modo como as pessoas percebem o mundo, interpretam a realidade e definem o que é legítimo, belo, verdadeiro e justo.
Esse conceito ganha força a partir das reflexões de Antonio Gramsci, que, em seus Cadernos do Cárcere, destacou que a hegemonia cultural é pré-condição para a manutenção ou conquista do poder político. A cultura não é neutra: ela pode ser capturada, instrumentalizada e moldada.
1. Perspectiva Filosófica: Hegemonia e o Imaginário Social
Gramsci argumentava que não basta conquistar o Estado; é preciso conquistar o consenso. Esse consenso nasce do controle da cultura — escola, literatura, cinema, música, religião e até a linguagem cotidiana.
Pierre Bourdieu, em A Distinção (1979), acrescenta que o poder simbólico pode ser mais eficaz do que a violência física, pois se infiltra nos hábitos e gostos, naturalizando determinadas visões de mundo. Esse processo transforma ideologias em “bom senso”, tornando quase invisível a disputa de fundo.
Exemplo: movimentos políticos contemporâneos priorizam mudanças linguísticas (como novos termos de gênero, redefinição de papéis sociais ou ressignificação de símbolos nacionais) porque entendem que transformar a cultura é transformar a percepção da realidade.
2. Perspectiva Psicanalítica: O Inconsciente Coletivo e a Produção de Desejo
A psicanálise oferece um olhar sobre como a cultura sequestrada atua no nível inconsciente.
Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta que a cultura exige renúncia pulsional para manter a vida em sociedade. Quando uma ideologia toma a cultura, ela redefine o que deve ser reprimido e o que pode ser liberado.
Lacan aprofunda isso ao mostrar que o sujeito é estruturado pela linguagem. Se a cultura é capturada, o próprio campo simbólico é reorganizado. O inconsciente coletivo passa a girar em torno de novos significantes, que orientam desejos e identificações.
Exemplo: a indústria cultural (cinema, séries, música pop) não apenas entretém, mas produz identificações inconscientes que moldam ideais de corpo, de amor, de política e até de espiritualidade.
3. Perspectiva Teológica: Discernimento e Resistência
Na teologia, a noção de “sequestro da cultura” pode ser lida como uma forma de idolatria: substituir o transcendente por construções ideológicas que pretendem ocupar o lugar do absoluto.
O apóstolo Paulo já alertava em Romanos 12:2:
“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.”
O cristianismo primitivo se entendia como contracultura diante do Império Romano, resistindo à captura de sua fé pelas narrativas oficiais.
Hoje, muitas tradições religiosas percebem que símbolos e rituais podem ser apropriados por ideologias políticas — seja para legitimar projetos de poder, seja para esvaziar o sentido espiritual e reduzir a fé a mero folclore cultural.
Exemplo: festas religiosas transformadas em eventos turísticos ou slogans políticos revestidos de linguagem bíblica.
4. Exemplos Contemporâneos
-
Educação: currículos escolares tornam-se campo de disputa ideológica, definindo quais narrativas históricas e valores morais são transmitidos.
-
Mídia e Entretenimento: séries, músicas e filmes introduzem novas normatividades, alterando percepções coletivas de família, ética e sexualidade.
-
Política: partidos e movimentos sociais investem na “batalha cultural”, buscando influenciar universidades, redes sociais e até humoristas.
-
Religião: igrejas, templos e símbolos sagrados podem ser instrumentalizados para reforçar agendas políticas.
4.1 Educação
A escola e a universidade são, talvez, os espaços mais estratégicos para a disputa cultural. Quem controla a narrativa educacional controla a memória coletiva e a formação das novas gerações.
-
Seleção histórica: A escolha de quais fatos da história devem ser ensinados (ou omitidos) molda a visão que os alunos terão sobre seu país e seu povo. Narrativas nacionais podem ser exaltadas ou desconstruídas, dependendo da orientação ideológica.
-
Valores morais: A discussão sobre gênero, sexualidade, família e religião dentro das salas de aula mostra como a educação não é neutra, mas sempre portadora de valores.
-
Linguagem: Mudanças no vocabulário escolar — inclusão de novos pronomes, alteração de termos históricos — são formas de disputar o simbólico.
Exemplo: debates sobre o “Escola sem Partido” no Brasil ou sobre a teoria crítica da raça (critical race theory) nos EUA demonstram como a educação é vista como campo de batalha cultural.
4.2 Mídia e Entretenimento
Cinema, séries, música e redes sociais se tornaram veículos centrais para a produção de significados. O entretenimento não apenas reflete a sociedade: ele antecipa e molda comportamentos.
-
Representatividade: a inclusão ou exclusão de determinados grupos em narrativas midiáticas cria novos padrões de normalidade.
-
Roteiros e enredos: histórias carregadas de mensagens sociais ou políticas podem influenciar a percepção coletiva de justiça, liberdade e identidade.
-
Indústria musical: letras e estilos artísticos, muitas vezes, se tornam slogans de movimentos sociais, funcionando como trilha sonora da mudança cultural.
Exemplo: a força de plataformas como Netflix e Disney em pautar debates sobre diversidade, ou ainda o papel de artistas pop em transformar suas carreiras em movimentos políticos.
4.3 Política
Se antes a política buscava apenas conquistar votos, hoje muitos partidos e lideranças entendem que a disputa é cultural antes de ser eleitoral. Essa é a lição gramsciana aplicada no século XXI.
-
Batalha de narrativas: slogans políticos tornam-se memes, hashtags e símbolos que moldam percepções emocionais muito além de propostas concretas.
-
Tomada de espaços culturais: universidades, centros de pesquisa, ONGs e até conselhos de artes e cultura são vistos como arenas para influência ideológica.
-
Polarização simbólica: bandeiras, hinos e até pratos típicos podem ser apropriados como símbolos de determinada ideologia.
Exemplo: a disputa em torno da bandeira nacional em manifestações políticas — ora sendo símbolo de unidade, ora de facção ideológica.
4.4 Religião
A religião, como depositária de valores transcendentes e identidade coletiva, é um dos territórios mais visados para a captura cultural.
-
Instrumentalização política: líderes políticos buscam legitimar seus projetos com linguagem e símbolos religiosos.
-
Folclorização da fé: ritos e festas religiosas se transformam em atrações turísticas, esvaziadas de sua dimensão espiritual.
-
Redefinição teológica: algumas correntes religiosas reinterpretam suas tradições para alinhar-se a agendas políticas ou sociais.
Exemplo: discursos de candidatos citando versículos bíblicos em campanhas, ou celebrações religiosas transformadas em espetáculos midiáticos que servem mais ao turismo do que à devoção.
Nos quatro campos — educação, mídia, política e religião — o sequestro da cultura se dá pelo controle de símbolos, narrativas e valores. O objetivo não é apenas convencer racionalmente, mas reprogramar o inconsciente coletivo para que uma visão de mundo se torne natural, quase invisível.
Conclusão
O “sequestro da cultura” é mais do que metáfora: é uma estratégia real de poder. A cultura, como espaço simbólico e inconsciente, não é neutra. Controlá-la significa moldar consciências, orientar desejos e redefinir valores sociais.
Diante disso, a resistência não pode ser apenas política ou econômica: é também cultural, simbólica e espiritual. Reconhecer as formas de captura é o primeiro passo para restaurar uma cultura plural, crítica e capaz de sustentar sociedades livres.
Referências
-
Gramsci, A. (1929-1935). Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
-
Bourdieu, P. (1979). A Distinção. São Paulo: Edusp.
-
Freud, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago.
-
Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
-
Bíblia Sagrada. Romanos 12:2.







