Entre a mão, a tela e o silêncio
Há um silêncio estranho que costuma aparecer depois.
Não o silêncio bom — aquele que acalma.
Mas o silêncio vazio, quase constrangedor, que deixa o sujeito sozinho com aquilo que acabou de fazer.
É desse silêncio que quero falar quando o tema é pornografia e masturbação.
Porque, ao contrário do que se diz nas frases prontas das redes, o problema raramente está no ato em si. Está no lugar que ele ocupa. Está na função que assumiu. Está no momento em que o corpo passa a ser usado não como linguagem, mas como anestesia.
No consultório, quase ninguém chega dizendo:
“Tenho prazer demais.”
O que escuto é outra coisa:
“Minha cabeça não para.”
“Fico vazio depois.”
“Prometo que não vou repetir… e repito.”
“Não sei mais se escolho ou se sou levado.”
Pornografia e masturbação, quando se encontram nesse ponto, formam um pacto silencioso. Um acordo rápido entre a angústia e o alívio. A mão obedece, a tela oferece, o corpo descarrega. Tudo parece resolvido por alguns minutos.
Depois, volta o silêncio.
A pornografia promete prazer, mas entrega isolamento.
Ela dispensa o outro real — com seus limites, seus tempos, suas falhas. No lugar do encontro, oferece desempenho. No lugar do afeto, oferece estímulo. No lugar do desejo, oferece repetição.
A masturbação, por sua vez, quando atravessada por esse circuito, deixa de ser expressão corporal e passa a ser resposta automática. Já não nasce do sentir, mas do impulso treinado. Não escuta o corpo — usa-o.
E aqui preciso dizer algo que incomoda:
nem tudo que é íntimo é saudável.
nem tudo que é privado é neutro.
nem tudo que dá prazer produz integração.
Existe uma diferença grande entre um corpo que se expressa e um corpo que se cala através do ato.
O vício não começa quando se faz “demais”.
Começa quando se faz para não sentir.
Muitos defendem dizendo:
“Isso é normal.”
“Todo mundo faz.”
“É coisa da época.”
“Reprimir é pior.”
Talvez.
Mas normalidade estatística não é sinônimo de saúde psíquica.
E frequência coletiva não absolve o vazio individual.
Quando a masturbação associada à pornografia se torna hábito fixo, o que se perde não é a moral — é a capacidade de esperar. O desejo deixa de amadurecer. O corpo não aprende a lidar com tensão. Tudo precisa ser resolvido agora.
A frustração vira inimiga.
O tédio vira ameaça.
O silêncio vira gatilho.
E então o sujeito começa a depender da tela para se acalmar. Não é prazer — é regulação emocional improvisada.
Do ponto de vista psíquico, isso empobrece.
Do ponto de vista relacional, distancia.
Do ponto de vista espiritual, fragmenta.
Não porque “Deus castiga”, mas porque a alma não funciona bem quando é dividida em compartimentos secretos.
O corpo pede sentido.
Quando não encontra, aceita estímulo.
E aqui surge a pergunta que quase nunca é feita com honestidade:
o que eu evito sentir quando recorro a esse circuito?
Solidão?
Raiva?
Medo?
Inadequação?
Cansaço de sustentar uma imagem?
A pornografia não cria esses afetos — ela apenas os encobre por alguns minutos.
Depois, tudo retorna. Um pouco mais forte.
O caminho terapêutico não é demonizar o corpo, nem glorificar o impulso. É restituir a palavra onde o ato tomou o lugar. É ajudar o sujeito a suportar sentir, desejar, esperar, frustrar-se, dialogar.
Quando o desejo pode ser pensado, ele não precisa ser descarregado o tempo todo.
Quando o afeto pode ser nomeado, o corpo descansa.
Quando o silêncio deixa de assustar, a tela perde poder.
Talvez a verdadeira pergunta não seja:
“Posso ou não posso?”
Mas outra, bem mais difícil:
“O que estou tentando calar em mim?”
Enquanto essa pergunta não encontra espaço, a mão continuará obedecendo, a tela continuará oferecendo, e o silêncio continuará voltando.
E o silêncio, cedo ou tarde, sempre fala.
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