A solidão não bate à porta. Ela tem a chave.
Entra sem pedir licença, senta no mesmo lugar de sempre e cruza as pernas com uma intimidade que ninguém mais conseguiu sustentar por muito tempo. Não pergunta como foi o dia, porque já sabe. Ela não precisa de atualizações — conhece o roteiro, os desvios, os tropeços repetidos com pequenas variações de esperança.
É curioso… há quem tema a solidão como se fosse abandono, mas, no fundo, ela é a única que permanece depois que todos os ensaios de pertencimento falham. Quando a gente tenta caber em versões mais aceitáveis de si mesmo, quando força um sorriso que não encontra eco, quando abre janelas internas só para perceber que ninguém entra — é para ela que voltamos.
E ela não faz cena.
Não cobra coerência, não exige performance, não pede explicações. Apenas acolhe, com um silêncio que, de tão constante, vira linguagem. Um silêncio que diz: “eu sei”. E, às vezes, é só isso que a gente precisa — alguém ou algo que saiba, sem que a gente precise se justificar.
Há uma fidelidade estranha nisso.
Porque a solidão não promete cura, mas entrega presença. Não resolve a dor, mas não a nega. Não transforma perdas em aprendizado bonito, mas segura a nossa mão enquanto a gente tenta não desmoronar por completo.
Talvez o erro esteja em tratá-la como inimiga.
Talvez ela seja, na verdade, uma espécie de testemunha — aquela que assiste todas as nossas tentativas de ser outro alguém e, ainda assim, nos reconhece quando voltamos a ser quem somos de verdade. Mesmo quebrados. Mesmo cansados. Mesmo com a sensação de que amar virou um jogo onde a gente sempre perde na prorrogação.
E é aí que mora o desconforto.
Porque, no fundo, a solidão não nos abandona… mas também não nos ilude. Ela nos devolve a nós mesmos — sem maquiagem, sem plateia, sem aplauso.
E nem sempre estamos prontos para esse encontro.
Mas ele acontece. Sempre.

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