As Brincadeiras que Atravessaram os Séculos: Um Patrimônio da Infância e do Desenvolvimento Humano
Por Abilio Machado – Psicanalista e Psicoarteterapeuta
Muito antes da existência dos videogames, dos celulares e dos brinquedos industrializados, crianças de diferentes povos já corriam, pulavam, competiam, imaginavam e aprendiam através das brincadeiras. Em cada cultura, surgiram formas particulares de diversão que, além de entreter, transmitiam conhecimentos, fortaleciam vínculos sociais e preparavam os pequenos para os desafios da vida adulta.
Curiosamente, muitas dessas brincadeiras atravessaram séculos, sobreviveram a guerras, mudanças culturais e revoluções tecnológicas. Ainda hoje podemos encontrar crianças brincando de amarelinha, soltando pipa ou disputando uma partida de dominó em diversas partes do mundo.
Embora algumas origens históricas sejam objeto de debate entre pesquisadores, o card apresentado reúne versões populares sobre o nascimento de várias brincadeiras clássicas. Mais importante do que determinar uma origem absoluta é perceber como elas revelam algo profundamente humano: a necessidade de brincar.
Amarelinha – Ecos da Roma Antiga
A amarelinha é frequentemente associada à Roma Antiga. Há relatos de que soldados romanos utilizavam percursos desenhados no chão para treinar equilíbrio, coordenação e resistência física. Com o tempo, essas práticas teriam sido adaptadas pelas crianças em forma de brincadeira.
Ao pular em um pé só, alternando movimentos e planejando o percurso, a criança trabalha:
Equilíbrio corporal;
Coordenação motora;
Noção espacial;
Atenção e concentração;
Controle dos impulsos.
A amarelinha ensina que cada etapa precisa ser percorrida antes de alcançar o "céu", uma metáfora curiosamente semelhante aos processos de amadurecimento humano.
Dominó – A Sabedoria Estratégica da China
O dominó possui registros históricos ligados à China, onde já era utilizado há muitos séculos. Mais tarde, espalhou-se pelo mundo, tornando-se um dos jogos de mesa mais populares.
Embora pareça simples, exige habilidades sofisticadas:
Planejamento;
Memória operacional;
Raciocínio lógico;
Antecipação de movimentos;
Tolerância à frustração.
Quando uma criança aprende a esperar sua vez e pensar estrategicamente, está desenvolvendo competências importantes para a vida social e acadêmica.
Peteca – Um Presente dos Povos Indígenas Brasileiros
A peteca é uma das maiores contribuições culturais dos povos indígenas do Brasil para o universo das brincadeiras. Muito antes da chegada dos europeus, diversas etnias já utilizavam versões artesanais feitas com penas e fibras naturais.
Sua prática favorece:
Coordenação motora ampla;
Agilidade;
Reflexos;
Percepção visual;
Trabalho em equipe.
Além disso, simboliza a riqueza cultural dos povos originários e sua profunda relação com a natureza.
Pipa – A Arte de Fazer o Vento Brincar
A tradição atribui à China o surgimento das primeiras pipas há mais de dois mil anos. Inicialmente utilizadas para observações militares e transmissão de sinais, acabaram conquistando também o universo infantil.
Soltar pipa envolve:
Planejamento;
Coordenação motora fina;
Compreensão intuitiva do vento;
Paciência;
Perseverança.
Existe também um aspecto simbólico encantador: a criança aprende que não controla o vento, mas pode aprender a dialogar com ele.
Bolinhas de Gude – Pequenos Universos nas Mãos
Diversas civilizações antigas utilizaram pequenas esferas em jogos infantis. O card associa sua origem ao Egito, onde objetos semelhantes foram encontrados em escavações arqueológicas.
As bolinhas de gude desenvolvem:
Precisão motora;
Coordenação olho-mão;
Estratégia;
Capacidade de previsão;
Controle emocional.
Cada jogada exige cálculo, observação e adaptação, habilidades fundamentais para o desenvolvimento cognitivo.
Ioiô – O Movimento que Retorna
O ioiô possui uma história complexa e multicultural, mas frequentemente é associado às antigas tradições asiáticas.
O simples movimento de lançar e recolher exige:
Coordenação bilateral;
Ritmo;
Persistência;
Aprendizagem por tentativa e erro.
Talvez por isso o ioiô seja uma metáfora perfeita da vida: às vezes nos afastamos para depois retornar mais experientes.
Jogo da Velha – Estratégia em sua Forma Mais Pura
Há registros de jogos semelhantes ao jogo da velha em civilizações antigas, incluindo o Egito.
Embora pareça elementar, estimula:
Pensamento estratégico;
Antecipação de consequências;
Planejamento;
Resolução de problemas.
É um excelente exemplo de como uma brincadeira simples pode gerar processos cognitivos complexos.
Queimada – Movimento, Cooperação e Coragem
A queimada possui versões em vários países e culturas. O card relaciona sua popularização ao Reino Unido.
Durante a brincadeira, a criança desenvolve:
Agilidade;
Velocidade;
Atenção dividida;
Cooperação;
Capacidade de lidar com vitórias e derrotas.
Ela aprende que nem sempre permaneceremos no centro do jogo, mas sempre podemos retornar à partida.
Jokenpô – A Psicologia da Escolha
Pedra, papel e tesoura possui raízes históricas ligadas à China e posteriormente difundidas pelo Japão.
Apesar de extremamente simples, envolve:
Tomada de decisão rápida;
Leitura do comportamento do outro;
Aceitação do acaso;
Flexibilidade cognitiva.
É um pequeno laboratório psicológico sobre escolhas, previsões e incertezas.
O Brincar Sob o Olhar da Psicologia
Do ponto de vista psicológico, brincar nunca é apenas brincar.
Enquanto corre, pula, imagina ou compete, a criança está organizando emoções, construindo sua identidade e aprendendo a conviver com o mundo.
Através das brincadeiras ela aprende:
A esperar;
A negociar;
A perder;
A ganhar;
A cooperar;
A criar soluções;
A controlar impulsos;
A lidar com frustrações.
Na psicanálise, o brincar é considerado uma linguagem simbólica da infância. Muitas vezes a criança expressa através do jogo aquilo que ainda não consegue colocar em palavras.
Já sob a perspectiva da psicologia do desenvolvimento, brincar estimula funções executivas essenciais, como memória, atenção, autocontrole e flexibilidade mental.
Na arteterapia, o brincar é uma forma legítima de expressão criativa, permitindo que sentimentos encontrem caminhos seguros para serem vivenciados e compreendidos.
O Perigo de uma Infância Sem Brincadeiras
Vivemos uma época em que as telas ocupam cada vez mais espaço na vida das crianças. Embora a tecnologia tenha seus benefícios, ela não substitui completamente as experiências corporais, sociais e imaginativas proporcionadas pelas brincadeiras tradicionais.
Uma infância empobrecida em movimento, interação e criatividade pode gerar dificuldades em aspectos importantes do desenvolvimento emocional e social.
Por isso, resgatar brincadeiras antigas não é um gesto de nostalgia. É um investimento na saúde mental das novas gerações.
Considerações Finais
Quando uma criança pula amarelinha, solta uma pipa ou disputa uma partida de bolinhas de gude, ela não está apenas repetindo um passatempo antigo. Está participando de uma herança cultural construída por inúmeras gerações ao longo da história humana.
Essas brincadeiras sobreviveram porque respondem a necessidades profundas do desenvolvimento humano: explorar, criar, aprender, pertencer e sonhar.
Talvez por isso continuem encantando crianças de todas as épocas.
No fundo, cada brincadeira é uma pequena escola da vida, onde o corpo aprende movimento, a mente aprende estratégias e o coração aprende a ser humano.
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Abilio Machado
Psicanalista e Psicoarteterapeuta
📷 Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado
Machado de Lima Filho, Abilio. Campo Largo: Produção independente, 2026.

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