“Há homens que nascem póstumos”: Um olhar psicanalítico, filosófico e teológico
Introdução
A frase de Raul Seixas, inspirada em Friedrich Nietzsche (em O Anticristo, §1), provoca uma reflexão que ultrapassa o campo da música. Dizer que “há homens que nascem póstumos” é afirmar que certas existências só encontram sentido, reconhecimento ou realização depois da morte. O verso tenciona os limites entre vida e legado, presença e ausência, tempo e eternidade. Neste artigo, exploraremos essa ideia sob três perspectivas: a psicanalítica, a filosófica e a teológica.
1. Perspectiva Psicanalítica
Na psicanálise freudiana, a vida psíquica é atravessada pelo conflito entre Eros (instinto de vida) e Thanatos (instinto de morte). O sujeito busca afirmar-se, mas é também atraído por sua própria dissolução. Nesse sentido, o “homem póstumo” pode ser compreendido como aquele cujo desejo não se cumpre em vida, mas se projeta para além dela.
Freud, em Além do Princípio do Prazer (1920), aponta para a repetição como marca da pulsão. O “nascimento póstumo” seria uma espécie de repetição diferida: um eco de significados que só se inscreve no simbólico após o desaparecimento do sujeito.
Um exemplo é Van Gogh, cuja obra foi praticamente ignorada em vida. Seu desejo inconsciente encontrou realização apenas no campo do Outro — no olhar da posteridade. Assim, ele “nasceu” artisticamente apenas depois da morte.
Do ponto de vista lacaniano, o “nascimento póstumo” se relaciona ao registro simbólico: a obra, a palavra ou o gesto que ultrapassa o corpo biológico e se inscreve no discurso da cultura. O sujeito se torna “sujeito do desejo do Outro” apenas quando sua mensagem é decifrada por aqueles que vêm depois.
2. Perspectiva Filosófica
Em Nietzsche, a ideia aparece no início de O Anticristo:
“Alguns nascem póstumos.” (Es gibt Leute, die erst posthum geboren werden.)
Aqui, Nietzsche sugere que certos homens — como ele mesmo se via — não pertencem ao seu tempo. Seu pensamento é radical demais para ser compreendido no presente e só pode frutificar no futuro. O “nascimento póstumo” é, portanto, o destino dos que rompem com os valores vigentes.
Filosoficamente, trata-se de uma reflexão sobre temporalidade e história da recepção. Hegel já dizia que o “filósofo é o filho do seu tempo”, mas Nietzsche rompe com essa máxima: alguns não são filhos do seu tempo, mas do porvir.
Exemplos abundam:
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Søren Kierkegaard, ignorado em vida, tornou-se pilar do existencialismo no século XX.
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Antonio Gramsci, cujos Cadernos do Cárcere só foram publicados anos após sua morte, influenciando decisivamente a teoria crítica.
O nascimento póstumo, então, é a marca do pensador intempestivo, que planta sementes que só germinarão em outras estações.
3. Perspectiva Teológica
Na teologia cristã, a ideia de “nascer póstumo” dialoga com a promessa da vida eterna e da ressurreição. O Evangelho de João (12:24) diz:
“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto.”
Aqui, a morte não é o fim, mas condição para a fecundidade. O homem póstumo é aquele cujo verdadeiro nascimento acontece no mistério pascal: morrer para dar vida.
Os mártires cristãos são exemplo claro. São Óscar Romero, assassinado em 1980, tornou-se símbolo de resistência e fé apenas após sua morte, reconhecido oficialmente décadas depois como santo. Sua palavra ganhou vida no silêncio de sua ausência.
Na teologia paulina, especialmente em 1 Coríntios 15, o corpo terreno deve morrer para que o corpo espiritual surja. Isso confere ao verso de Raul Seixas uma dimensão escatológica: certos homens só nascem verdadeiramente ao morrer, pois sua obra transcende o tempo.
Conclusão
A frase de Raul Seixas, ecoando Nietzsche, mostra-se fértil para múltiplas leituras.
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Para a psicanálise, ela revela o desejo que se realiza apenas no Outro, após a morte do sujeito.
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Para a filosofia, indica o destino dos intempestivos, incompreendidos em seu tempo.
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Para a teologia, aponta para a lógica pascal: é preciso morrer para gerar vida.
Dizer que “há homens que nascem póstumos” é reconhecer que a vida humana não cabe inteiramente no presente. Algumas existências pertencem ao futuro, e sua presença só se revela plenamente na ausência.
Referências
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Freud, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. Rio de Janeiro: Imago.
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Lacan, J. (1953-1977). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
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Nietzsche, F. (1895). O Anticristo. São Paulo: Companhia das Letras.
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Kierkegaard, S. (1849). Doença para a Morte. Petrópolis: Vozes.
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Bíblia Sagrada. João 12:24; 1 Coríntios 15.
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Romero, Ó. (1980). Homilias e Sermões. San Salvador.
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Van Gogh, V. Cartas a Theo. São Paulo: Companhia das Letras.
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Gramsci, A. (1929-1935). Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.







