sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

EI, ME VEJAM ! OLHEM COMO TENHO VIRTUDES AMOROSAS...

 

Rede social  X  Realidade 

Uma leitura psicológica, sem moralizar, mas desvelando o mecanismo por trás dessa necessidade de exibição que alguns casais tem em postar o suposto agrado afetivo ao outro para ganharem aplausos do " vejam como sou bonzinho(a) e carinhoso (a) — com profundidade clínica e linguagem acessível.

Quando um casal sente a necessidade constante de anunciar suas virtudes nas redes sociais, raramente está apenas compartilhando amor. Muitas vezes, está tentando convencer — o outro, o mundo e, sobretudo, a si mesmo.

A exibição reiterada de gestos afetivos, declarações públicas e performances de cuidado pode funcionar como um recurso defensivo. Não porque o afeto seja falso, mas porque ele precisa ser confirmado externamente. Onde o vínculo é sólido, o amor repousa. Onde ele é frágil, o amor faz barulho.

Do ponto de vista psicológico, isso costuma revelar uma lacuna: a dificuldade de sustentar intimidade no espaço privado. A relação passa a existir mais no olhar do outro do que na experiência entre dois. O casal deixa de se perguntar “como estamos?” e passa a se preocupar com “como parecemos?”.

Há também um componente narcísico sutil. A validação não vem apenas do parceiro, mas do like, do comentário, do aplauso silencioso da audiência. O afeto vira vitrine. O amor, marketing. E, nesse cenário, não se cuida do vínculo — administra-se a imagem.

Em muitos casos, essas postagens cumprem a função de reparação simbólica: tentam cobrir ausências reais — diálogo raso, conflitos não elaborados, ressentimentos acumulados, solidão a dois. É como se o gesto público dissesse aquilo que não consegue ser vivido no cotidiano: “olhem, está tudo bem”.

Relações saudáveis não precisam ser provadas. Elas se revelam na consistência, no silêncio confortável, na capacidade de atravessar crises sem plateia. O afeto que precisa ser anunciado o tempo todo, muitas vezes, está pedindo socorro.

Não se trata de condenar quem compartilha. Trata-se de compreender que, quando o amor vira espetáculo, talvez a relação esteja tentando existir onde já não consegue mais se sustentar.

Porque, no fundo, vínculos seguros não gritam.

Eles permanecem.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

E se eu pudesse voltar ...


 **“Se eu pudesse juntar a vitalidade de antes

com a sabedoria que só veio depois…”**

Essa frase não nasce da nostalgia vazia.

Ela surge, quase sempre, depois da queda.

Depois da doença, da perda, do susto, do limite imposto ao corpo ou à vida.

Não é sobre querer voltar no tempo.

É sobre desejar uma síntese impossível:

o corpo que ainda não conhecia o cansaço

com a mente que hoje compreende o valor de cada fôlego.

O desejo que não é regressão

Do ponto de vista psicológico, esse pensamento não é imaturo nem patológico.

Ele não expressa negação da realidade, mas consciência tardia.

Enquanto jovens, gastamos vitalidade como se fosse infinita.

Dormimos pouco, exigimos muito do corpo, silenciamos sinais.

A sabedoria ainda não chegou porque ela só aparece quando algo falha.

Quando o corpo impõe limites, a mente amadurece.

E então nasce essa fantasia reparadora:

“Se eu tivesse o corpo de antes com a cabeça de agora…”

Não é fuga.

É o reconhecimento doloroso de que aprendemos tarde,

mas aprendemos de verdade.

O corpo ensina onde a mente não alcança

Há aprendizados que não vêm por livros, terapias ou conselhos.

Eles vêm por sintomas.

Por cirurgias.

Por faltas de ar.

Por noites em que o corpo assume o comando.

O corpo é o último professor —

e o mais honesto.

Ele não negocia, não argumenta, não idealiza.

Ele impõe.

E quando isso acontece, o sujeito muda.

Muda o olhar, muda o ritmo, muda a forma de desejar.

A vitalidade de antes era inconsciente.

A sabedoria de agora é cara.

O conflito espiritual do tempo

Teologicamente, esse desejo toca num ponto sensível:

o tempo não volta.

A espiritualidade madura não promete retorno ao que foi,

mas sentido para o que restou.

Na tradição bíblica, ninguém é chamado a regressar.

Abraão é chamado a sair.

Moisés não entra na terra.

Paulo carrega um espinho.

A fé não restaura juventude —

ela sustenta a travessia.

Querer juntar vitalidade e sabedoria é humano.

Aceitar que isso não acontece literalmente é espiritual.

Então, o que é “melhorar”?

Melhorar não é voltar a ser quem se foi.

É aprender a viver bem com quem se é agora.

É usar a sabedoria conquistada para:

respeitar os limites do corpo

diminuir exigências irreais

abandonar a culpa por não ser mais o mesmo

cultivar presença em vez de desempenho

A maturidade verdadeira não romantiza a dor,

mas também não desperdiça o que ela ensinou.

A síntese possível

Talvez a junção perfeita nunca aconteça.

Mas existe algo próximo disso:

👉 menos vitalidade desperdiçada

👉 mais consciência aplicada

👉 menos pressa, mais precisão

👉 menos idealização, mais verdade

Não teremos o corpo de antes.

Mas podemos ter algo que antes faltava:

cuidado.

E isso, paradoxalmente, também é uma forma de vida plena.

Porque só quem já perdeu um pouco da própria força

aprende a usá-la com sabedoria.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O professor não é espelho. É janela.



 O professor não é espelho. É janela.

por Abilio Machado 

Educar não é criar réplicas de si mesmo.

É formar pessoas capazes de pensar com autonomia, senso crítico e responsabilidade — inclusive quando discordam de nós.

O papel do professor não é moldar consciências à sua imagem, mas abrir caminhos para o conhecimento, o diálogo e a liberdade intelectual.

Eu sou professor — e é justamente por isso que preciso dizer o que muita gente prefere sussurrar nos corredores da escola, longe da sala dos professores e das certezas ideológicas.

O meu dever não é fabricar cópias do que penso.

Não é criar pequenos porta-vozes das minhas convicções pessoais.

Muito menos induzir crianças e adolescentes a aceitarem, sem reflexão, visões específicas sobre gênero, política ou mundo.

Meu trabalho é transferir conhecimento, não colonizar consciências.

Quando o professor passa do ponto, ele deixa de ensinar e começa a doutrinar.

E doutrinação é o nome elegante que a vaidade intelectual dá ao autoritarismo pedagógico.

Ensinar exige humildade.

Doutrinar exige aplauso.

O problema começa quando se confunde formar pensamento crítico com formar pensamento alinhado. Quando o aluno discorda e isso é lido como falha, ignorância ou resistência moral — e não como exercício legítimo de autonomia.

Há algo profundamente narcísico em querer que o aluno pense como eu.

Como se o sucesso pedagógico fosse medido pela quantidade de réplicas ideológicas que saem da sala ao fim do ano letivo.

Não se trata de negar valores. Professores os têm — e sempre terão.

Mas valores não se impõem: se apresentam, se discutem, se confrontam.

A sala de aula não é palanque.

O quadro negro não é cartaz de campanha.

E o aluno não é massa de manobra emocional nem laboratório sociopolítico.

Quando eu induzo, eu exerço violência simbólica.

Quando eu silencio quem pensa diferente, ensino medo — não liberdade.

Quando rotulo o aluno crítico como “atrasado” ou “problemático”, já não educo: adestra-se.

As férias chegaram.

E talvez seja hora de menos cursos sobre o que o aluno deve pensar

e mais autoanálise sobre quem nos tornamos enquanto educadores.

Será que eu ensino para libertar

ou para confirmar minhas certezas?

Será que eu acolho o aluno que me questiona

ou apenas celebro o que me repete?

Será que eu crio janelas para o mundo

ou espelhos onde só vejo meu próprio reflexo?

Educar é correr o risco de formar alguém que discorde de mim —

e ainda assim respeitá-lo.

Talvez as férias sejam um bom tempo para essa pausa necessária.

Uma pausa para olhar menos para o que o aluno pensa

e mais para como nós, professores, estamos ensinando.

Onde termina a formação do pensamento crítico

e onde começa a imposição das nossas próprias convicções?

Fica a reflexão.


#Educação #Docência #ÉticaNaEducação #FormaçãoHumana #ResponsabilidadeDocente #Educação #Docência #ÉticaNaEducação #PensamentoCrítico #AutonomiaIntelectual #EducarNãoDoutrinar #Responsabilidadeprofissional 

O que a memória ama, fica eterno.

 


O QUE A MEMÓRIA AMA, FICA ETERNO

(Adélia Prado)


   Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. 

   O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

   É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

   Diante do tempo, envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória, ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

   Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

   A capacidade de se emocionar vem daí, quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa – e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, aquela época...

   Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos... mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

   A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre "as crianças", não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Pra eles, a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite... ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

   Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

   Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram. 

🎅🧙‍♂

#papainoelabiliomachado

#psicologiapastoral

Janeiro Branco e a Saúde Mental

 


JANEIRO BRANCO E A SAÚDE MENTAL  

Abilio Machado - Psicanalista, Psicoterapeuta e Neuropsicopedagogo ICH

Janeiro Branco não é apenas um mês no calendário.

É um convite silencioso para olhar para dentro — e, às vezes, isso é mais difícil do que parece.

Depois das festas, dos excessos, das promessas feitas à meia-noite, sobra o que quase nunca recebe atenção: a mente cansada, as emoções acumuladas, os silêncios engolidos ao longo do ano. Janeiro chega branco como uma folha em espera, perguntando, sem pressa: como você está, de verdade?

Cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, é gesto de coragem. É reconhecer que nem tudo precisa ser suportado sozinho, que sentir cansaço, tristeza, confusão ou medo faz parte da experiência humana. O adoecimento psíquico não grita — ele sussurra. E, quando ignorado, cobra seu preço no corpo, nas relações, na vida.

Janeiro Branco nos lembra que falar é tratamento, escutar é cuidado, acolher é prevenção. Que terapia não é luxo, é higiene emocional. Assim como cuidamos do coração, dos ossos, da alimentação, também precisamos aprender a cuidar dos pensamentos que nos habitam e das histórias que contamos a nós mesmos.

Que este mês seja menos sobre metas inalcançáveis e mais sobre autopercepção. Menos cobrança, mais honestidade interna. Menos pressa, mais presença. Que possamos escrever, nesta folha branca, um compromisso simples e profundo: não abandonar a nós mesmos ao longo do ano.

Porque saúde mental não é ausência de dor.

É a capacidade de atravessá-la com sentido, apoio e humanidade.



#JaneiroBranco #SaúdeMentalImporta #CuidarDaMente #AutocuidadoEmocional #SaúdeEmocional #FalarÉCuidar #EscutaQueAcolhe #ConsciênciaEmocional #PsicologiaParaTodos #TerapiaÉCuidado #HumanizarSentimentos #CuidarDeSi #BemEstarPsicológico

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Cicatriz que Nasce Antes do Nome

 

Cicatriz que Nasce Antes do Nome

Por Abilio Machado

Uma criança nasceu
antes mesmo de ter escolha.
Veio ao mundo já herdando
a tolerância às drogas
que a mãe carregava no sangue,
como herança silenciosa
de uma juventude perdida
entre becos, promessas vazias
e o brilho falso das químicas baratas.

Cresceu vendo jovens avançarem curiosos
na mesma rua estreita,
onde o asfalto é ponte insegura
e a cabeça vira laboratório improvisado
de misturas que queimam, aceleram,
apagando o pouco de esperança que restou.
Ali, a vida é química demais
e afeto de menos.

Quem te atura?!
Beber até o mundo rodar,
até o corpo tombar,
até o sono te levar pro chão frio
e o amanhecer te devolver
todo mijado, envergonhado,
repetindo o mesmo lamento:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

Sou infeliz.
Estendo as mãos ao céu rachado
de fios elétricos e promessas quebradas:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

A saúde vai pro buraco,
o trabalho escapa,
as oportunidades fecham a porta
antes mesmo de bater.
Vem a cobrança: da vida, da rua,
da polícia, do crime,
da fome que empurra pro lado errado.
E eu pago caro,
caro demais,
por um caminho que começou torto
antes mesmo de eu saber andar.

Sou infeliz.
E acordo na madrugada, assustado,
com o coração disparado,
com o eco de passos lá fora
e o medo de virar estatística.
Repito baixinho,
como quem confessa ao escuro:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

Mas ninguém vê
que a cagada não nasceu comigo.
Ela me antecede,
me atravessa,
me empurra.
E eu tento, tropeço,
levanto, caio de novo,
nessa guerra invisível
que chamam de vida.

A TRAMA DAS DROGAS ENTRE OS JOVENS



A TRAMA DAS DROGAS ENTRE OS JOVENS

Por Abilio Machado

O uso de drogas entre jovens não nasce no vazio. Ele se constrói em camadas de vulnerabilidade, curiosidade, ausência de pertencimento, fuga emocional e, sobretudo, em uma sociedade que fala muito sobre prevenção, mas esconde seus próprios vícios atrás de taças, rótulos caros e moralismo seletivo.

Os riscos começam na experimentação banalizada: beber até se embriagar é visto, muitas vezes, como rito de passagem. É comum, é “normal”, é celebrado como se fosse um gesto de liberdade — quando, na verdade, se torna uma porta aberta para perdas significativas na saúde, na vida escolar, no trabalho e, em muitos casos, na aproximação com o crime.

O abuso de álcool entre jovens é frequentemente invisibilizado. Fala-se muito das drogas ilícitas, mas silencia-se sobre o etanol vendido em cada esquina, estampado em propagandas festivas, mesmo sendo ele um dos maiores responsáveis por acidentes, violência, intoxicações e danos ao desenvolvimento.

As consequências aparecem cedo: efeitos negativos no corpo e na mente, impulsividade, fragilização emocional, vulnerabilidade às violências e à exploração. A curto prazo, multiplicam-se acidentes e brigas; a longo prazo, traçam-se ciclos de dependência e perda de oportunidades.

O percurso das substâncias varia — maconha, tabaco, ecstasy, LSD — mas a realidade é a mesma: um mundo sombrio que dilacera indivíduos, famílias e comunidades. A droga, por si só, não cria o crime; é o vazio social ao redor dela que alimenta essa engrenagem. Onde há abandono, falta de políticas públicas, desigualdade e ausência de afeto, brota um terreno fértil para o uso e para o recrutamento criminoso.

E, no entanto, existe um ponto crucial nessa discussão: o problema não é exclusivo de ninguém.

Está no pobre, nas periferias, nas minorias que sobrevivem às duras penas, entre conchas de feijão e necessidades básicas.
Mas também está no médio, na classe trabalhadora, no proletariado que se anestesia para esquecer a dureza do dia, entre ossos de frango frito e jornadas exaustivas.
E está no rico, sim, escondido não mais no quinino, mas no caviar, nos condomínios de luxo, nos tapetes felpudos embalados por whisky de 12 anos e vinhos de safras especiais.

É por isso que a hipocrisia dói:
Há quem pregue moral, quem condene o jovem da periferia, quem discurse inflamado sobre vício e decadência… com um cigarro aceso na ponta dos dedos.
E há quem fale de “bons valores”, “família”, “retidão”, enquanto ergue a taça de vinho chileno ou italiano, alimentando o mesmo sistema de dependência — só que com rótulos mais caros e justificativas socialmente aceitas.

A sociedade denuncia o baseado do adolescente pobre, mas aplaude o brinde do adulto bem vestido.
Aponta o dedo para a maconha no beco, mas normaliza o álcool da confraternização da empresa.
Criminaliza a fuga barata dos vulneráveis, mas romantiza a fuga sofisticada de quem pode pagar.

Esse problema atravessa bairros, cidades, estados, classes, cores, religiões.
Não pertence a um só grupo — afeta a todos.
E enquanto continuarmos tratando a dependência dos pobres como crime, e a dependência dos ricos como “um momento social”, nada mudará.

Só haverá transformação quando reconhecermos que o vício é um fenômeno humano, social e emocional — e que a hipocrisia institucionalizada é um dos maiores impedimentos para enfrentar, de fato, essa realidade. 



Aos poucos tudo muda

 Há um dia em que a casa fica estranhamente silenciosa, e não é porque a criança foi embora. Ela ainda está ali, sentada no chão, no sofá, n...