domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Curva da Banana 🍌

 


A Curva da Banana

Há algo profundamente honesto em uma banana.

Ela não disfarça seu processo. Não mascara suas manchas. Não esconde sua maturação. Vai do verde ao amarelo, do amarelo ao dourado intenso, do dourado às marcas, das marcas ao escurecimento. Sem maquiagem. Sem filtros.

“Seja humilde. Você não vai estar em alta para sempre.”

O card diz isso com simplicidade, mas a imagem diz com ironia: a fruta que hoje está perfeita amanhã estará madura demais. E depois… esquecida no canto da fruteira.

Vivemos numa cultura que idolatra o amarelo vibrante — o auge. A fase em que tudo parece no ponto ideal. Aparência impecável, reconhecimento, sucesso, aplausos. Mas esquecemos que o tempo não negocia com ninguém. Ele apenas passa.

A psique humana sofre quando acredita que o auge é permanente. A soberba nasce exatamente aí: na ilusão de estabilidade. Quando alguém está “em alta”, corre o risco de confundir fase com identidade. Esquece que está vivendo um momento, não ocupando um trono eterno.

E o mais curioso: a banana mais doce não é a mais bonita. É aquela já pintada de pequenas manchas. A maturidade real não é estética; é interna. O sabor aprofunda quando a casca já não impressiona tanto.

Há pessoas que, no início da vida, são verdes demais — inseguras, rígidas, duras. Outras florescem no amarelo do reconhecimento. Algumas atravessam o dourado com elegância. E quase todos, cedo ou tarde, conhecerão o escurecimento: perdas, quedas, esquecimento, silêncio.

A questão não é evitar o ciclo. É atravessá-lo com consciência.

Humildade não é se diminuir. É lembrar-se de que somos processuais. Que hoje podemos estar no centro da mesa e amanhã seremos apenas memória do que já fomos. Que aplausos são transitórios, cargos são temporários, elogios têm prazo de validade.

A soberba teme o escurecimento. A humildade entende que ele faz parte da maturação.

Há algo profundamente libertador nisso. Quando aceito que não estarei “em alta” para sempre, deixo de competir obsessivamente. Começo a valorizar mais o sabor do que a aparência. A essência mais do que a vitrine.

E talvez o maior aprendizado seja este: não se trata de permanecer amarelo para sempre. Trata-se de ser inteiro em cada fase.

Verde, aprendendo.

Amarelo, brilhando.

Manchado, amadurecendo.

Escuro, cumprindo o ciclo.

Olho para as quatro bananas do card e vejo a biografia de qualquer ser humano. E penso que a humildade é simplesmente a consciência de que somos todos fruta do tempo.

Hoje podemos estar no auge. Amanhã seremos parte da compostagem da vida — alimentando novos ciclos.

E isso não é tragédia.

É natureza.

Abilio Machado

Psicanalista e Arte-educador

Campo Largo – Paraná

Contato para palestras e atendimentos: 41 998451364 - 41 996353923

Instagram: (inserir @psicoterapeutaabiliomachado

Asas Próprias

 


Asas Próprias

Há uma cena silenciosa que sempre me comove: um pássaro parado no fio, olhando o horizonte como quem mede a própria coragem. Ele não consulta o vento. Não pede autorização às nuvens. Não protocola seu desejo no cartório do medo. Apenas abre as asas — e vai.

“Não peça permissão para voar. As asas são suas. E o céu não pertence a ninguém.”

Essa frase parece simples, mas carrega uma revolução íntima. Fomos ensinados, muitas vezes, a solicitar aval para existir. A família opina, a sociedade julga, a religião delimita, o mercado enquadra. Aos poucos, vamos entregando nossas penas em troca de aceitação. Quando percebemos, estamos domesticados no próprio ninho.

Como psicanalista e arte-educador, escuto diariamente histórias de pessoas que aprenderam a pedir licença para sentir, para escolher, para mudar. Pedem autorização para dizer “não”. Pedem consentimento para amar. Pedem sinal verde para sonhar diferente do roteiro que lhes foi imposto. E a pergunta que ecoa, quase infantilizada pelo medo, é sempre a mesma: “Posso?”

Há algo profundamente simbólico nas asas. Elas não são apenas instrumentos de voo; são metáforas da autonomia psíquica. Ter asas é reconhecer que há em nós uma potência anterior ao aplauso e posterior à crítica. É compreender que identidade não se negocia como mercadoria.

O céu, por sua vez, é esse espaço de possibilidades. Ninguém pode cercá-lo. Ninguém pode registrar em cartório a amplidão. Quando alguém tenta nos convencer de que o céu tem dono, está, na verdade, projetando o próprio medo de voar.

Escrevo de Campo Largo, no Paraná. E sempre me chama atenção como o próprio nome da cidade já sugere abertura: campo é extensão, largo é amplitude. Talvez por isso eu acredite tanto que horizonte não foi feito para ser contemplado apenas — foi feito para ser atravessado.

Pedir permissão excessiva revela, muitas vezes, uma história marcada por invalidações. Crianças que ouviram que eram “demais” ou “de menos”. Jovens ensinados a caber. Adultos que desaprenderam a confiar na própria bússola interna. E então se instala uma prisão invisível: a necessidade constante de aprovação.

Mas maturidade emocional é aceitar que desagradar faz parte do voo. Toda decolagem desloca o ar. Nem todos compreenderão sua altitude. Alguns preferem a segurança do galho conhecido. Outros criticam quem se aventura, porque a liberdade alheia confronta suas próprias gaiolas.

Voar não é rebeldia vazia. É responsabilidade. Quem assume as próprias asas assume também as consequências do trajeto. Não há garantias contra tempestades. Contudo, há dignidade em escolher a direção.

Do ponto de vista espiritual, há algo ainda mais profundo: se fomos criados com asas simbólicas — talentos, desejos, vocações — quem somos nós para amputá-las por medo da opinião humana? O céu não pertence às estruturas de controle; pertence ao mistério, à liberdade e à confiança.

Talvez o maior ato de coragem seja simples: parar de pedir autorização para ser quem se é. Não se trata de arrogância, mas de inteireza. Não é sobre impor-se, mas sobre não se diminuir.

Olho novamente para o pássaro do card. Ele não faz discursos. Não reivindica direitos. Apenas voa.

E isso basta.

Abilio Machado

Psicanalista e Arte-educador

Campo Largo – Paraná

Contato para palestras e atendimentos: 41 997451364 -:41 996353923

Instagram: (inserir @psicoterapeutaabiliomachado

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Sobre o isolamento...

 


A psicologia moderna acaba de absolver quem prefere o silêncio da própria companhia ao barulho das multidões. Evitar eventos sociais não é necessariamente um defeito de personalidade ou timidez, mas um mecanismo avançado de defesa contra a hipocrisia.


Estudos sobre sensibilidade sensorial revelam que pessoas com alta inteligência emocional possuem um "filtro de tolerância" muito mais restrito. Enquanto a maioria suporta interações superficiais por convenção social, o cérebro desses indivíduos interpreta conversas forçadas e dramas desnecessários como uma agressão direta ao sistema nervoso.


O isolamento seletivo, portanto, não é fuga, é higiene mental. É uma escolha deliberada pela paz em vez da "performance social". Ao recusar convites, você não está rejeitando as pessoas, mas sim protegendo sua energia de ambientes que exigem um teatro emocional que você não está mais disposto a encenar. Preferir a calma à popularidade não é solidão, é autopreservação.


#históriailimitada #psicologia #saúdemental #comportamento #sociedade

domingo, 8 de fevereiro de 2026

"Será que fui suficiente?”

" ...às vezes eu acho que não fui e não estou sendo um bom pai... Vejo outras famílias e é inevitável a comparação, aquelas onde os pais maltratam, batem, negligenciam, não dão atenção, parece que geram uma união e uma dependência maior ..."



Essa imagem dói num lugar silencioso.

Não grita. Não acusa. Ela se encolhe.

Um pai curvado sobre si mesmo vira abrigo. O corpo cansado vira teto. O frio cai do lado de fora enquanto, ali dentro, duas crianças aprendem cedo demais o que é mundo. Não há heroísmo explícito. Há exaustão. Há medo. Há amor tentando dar conta do impossível.

E é aí que nasce essa dúvida que você confessa — e que quase todo pai que ama carrega escondida no bolso do peito:

“Será que fui suficiente?”

“Será que estou sendo um bom pai?”

A comparação vem como uma armadilha moral. A gente olha para famílias partidas, violentas, negligentes, e algo profundamente desconcertante acontece: os filhos parecem mais unidos, mais dependentes, mais colados uns nos outros. Como se a dor tivesse criado um pacto. Como se o abandono tivesse virado cola.

Mas essa união não é virtude — é sobrevivência.

A violência, o medo e a ausência não produzem laço saudável; produzem necessidade. Produzem crianças que se agarram porque não há chão. Produzem vínculos baseados em urgência, não em escolha. É o amor que nasce da falta, não do cuidado.

O pai da imagem não está criando dependência. Ele está oferecendo algo muito mais raro e, paradoxalmente, menos visível: segurança.

E segurança não gera gratidão imediata. Segurança não vira discurso bonito. Segurança, muitas vezes, passa despercebida. Porque quando ela existe, a criança não precisa gritar por ela.

Pais que batem, negligenciam ou ferem deixam marcas barulhentas. Pais que protegem deixam marcas silenciosas — tão silenciosas que o próprio pai duvida se deixou alguma.

Ser um bom pai não é ser perfeito, nem ser o centro da vida do filho. É ser teto quando o mundo desaba. É ser corpo cansado que aguenta mais um pouco. É errar pedindo desculpa. É amar mesmo com medo de falhar. É oferecer o melhor que se tinha — mesmo quando o melhor parecia pouco.

Talvez seus filhos não dependam de você da forma dramática que outras crianças dependem de pais ausentes.

E isso não é fracasso.

Isso é sucesso invisível.

A imagem diz “agradeça”.

Mas talvez o recado mais honesto seja outro:

perdoe-se.

Porque quem se pergunta se foi um bom pai… geralmente já estava tentando ser.

Como a ansiedade noa afeta !

 


A verdade é que a ansiedade pode afetar a nossa mente em todos os aspectos possíveis...


Muitas pessoas chegam ao meu consultório médico desesperadas, porque acham que estão com um problema neurológico grave, um tumor ou algo do tipo, e na verdade, após a consulta podemos identificar que estão enfrentando algum tipo de ansiedade


Queixam-se de dificuldade para se concentrar nas atividades diárias, esquecimentos, dor de cabeça, mente cansada e pesada...


E a maioria demorou a buscar ajuda profissional porque tinha medo, vergonha ou porque não imaginava que a ansiedade poderia causar todos esses sintomas!


Se você está passando por algo do tipo e ainda não começou um tratamento adequado, não deixe para depois!


Os transtornos de ansiedade além de prejudicarem a mente, também podem causar doenças em todos os locais do nosso corpo !!


Para saber como posso te ajudar a enfrentar a ansiedade através do meu acompanhamento médico personalizado, entre em contato:

Psicoterapeuta Abilio Machado 

Psicanalista Abilio Machado 


Ajudo você a construir uma mente saudável!


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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A esquizofrenia não "surge" do nada.

 


A esquizofrenia não "surge" do nada. Ela geralmente mostra sinais anos antes, em um período que chamamos de Fase Prodrômica.

🧠 Imagine que nossa mente organiza as informações do mundo como um quebra-cabeça em constante montagem. 

Nos sintomas prodrômicos, algumas peças começam a parecer que não se encaixam como antes, ou cores de cenários diferentes se misturam. 

Identificar essas pequenas peças é o que permite ajudar a pessoa a reorganizar sua vivência com segurança.


🚩 O "Retraimento" diferente na adolescência 

Muitos confundem com a rebeldia típica, mas observe a intensidade:

 🔸️O isolamento social: Aquele jovem que era sociável e, de repente, abandona o grupo de amigos e prefere ficar trancado no quarto por semanas, sem interesse em hobbies antigos.

🔸️Queda no rendimento escolar: Uma dificuldade súbita de concentração. Ele lê a mesma página dez vezes e não entende nada.

🔸️ Higiene relaxada: Deixar de tomar banho ou trocar de roupa por dias, demonstrando uma apatia profunda (a "falta de vontade").


🚩 A Percepção se altera na fase adulta

Aqui, o mundo começa a parecer "estranho" ou ameaçador:

🔸️ Pensamentos Mágicos: Uma mulher que passa a acreditar que as cores das roupas das pessoas na rua são mensagens secretas para ela.

🔸️ Desconfiança (Paranoia leve): O homem que começa a achar que os colegas de trabalho estão rindo dele pelas costas ou que o celular está sendo monitorado, sem uma base real.

🔸️ Alterações Sensoriais: Sentir que os sons estão altos demais ou que as cores estão brilhantes de um jeito desconfortável.


💡 Por que observar importa?

É o momento de ouro para intervenção terapêutica e medicamentosa leve, que pode evitar que o quadro evolua para um surto grave.

Se você notar que um filho, aluno ou paciente está "se distanciando" da realidade de forma persistente, não espere o quadro aparecer. 

O acolhimento e a avaliação profissional precoce salvam o futuro.

❤️❤️❤️

Abilio Machado 

Psicoarteterapeuta C & P 

Aos poucos tudo muda


 Há um dia em que a casa fica estranhamente silenciosa, e não é porque a criança foi embora. Ela ainda está ali, sentada no chão, no sofá, no quarto. O que mudou foi a língua que ela fala — e, junto com ela, o modo como nos alcança.

No começo, tudo era aproximação. A picoca não precisava virar pipoca para ser compreendida. O erro não era falha, era ponte. A linguagem infantil não nomeia o mundo: ela o cria. Cada palavra torta é um ensaio de sentido, uma tentativa de pertencimento. O adulto entende não porque a palavra está correta, mas porque o vínculo está inteiro.

Com o tempo, algo acontece. A estela aprende que é estrela. O tefone se ajeita em telefone. A mânica se corrige para máquina. Não é apenas alfabetização — é adaptação. A criança vai aprendendo que, para ser ouvida no mundo, precisa falar como o mundo fala. A escola chama isso de desenvolvimento linguístico. A psicopedagogia sabe que é também um movimento de separação.

Cada palavra corrigida é uma conquista cognitiva, sim. Amplia o pensamento, organiza a realidade, estrutura o raciocínio simbólico. Mas, ao mesmo tempo, fecha um pequeno portal da infância. O adulto vibra com o progresso, enquanto algo delicado se despede sem cerimônia: aquele idioma íntimo, imperfeito e cúmplice que só existia entre pais e filhos.

Até que chega o dia em que o “não sabo” vira “não sei”. E ninguém aplaude. Porque ali não houve erro a ser corrigido, apenas uma constatação. A criança já sabe que não sabe. Metacognição, diriam os livros. Consciência dos próprios limites, diriam os teóricos. Para os pais, muitas vezes, é só um aperto estranho no peito — como quem percebe que o filho começou a resolver o mundo sem pedir ajuda.

Do ponto de vista psicopedagógico, esse afastamento é saudável. É sinal de maturação, de autonomia intelectual, de construção do eu. A criança precisa sair do colo simbólico para pensar com as próprias palavras. Mas do ponto de vista afetivo, é um luto miúdo, cotidiano, quase invisível. Não se chora por ele, mas ele se acumula.

Os pais não se afastam porque querem. Afastam-se porque a criança avança. E avançar exige espaço. O que antes era dito em voz alta passa a ser pensado. O que era perguntado vira silêncio. O que era compartilhado se torna interno. Não é rejeição — é desenvolvimento.

Talvez o desafio do adulto não seja impedir essa distância, mas aprender outra forma de proximidade. Menos correção, mais escuta. Menos tradução do mundo, mais curiosidade pelo que a criança pensa dele. Porque, mesmo quando a linguagem amadurece, o desejo de ser compreendido permanece infantil por muito tempo.

Aos poucos, os filhos aprendem a falar certo. E os pais precisam aprender a ouvir diferente.


Abilio Machado 

Psicanalista 

Psicoarteterapeuta C & P 

Neuropsicopedagogo ICH 

Arteeducador

A Cirurgia no Texto Sagrado

  A Cirurgia no Texto Sagrado Hoje vi uma cena curiosa.  Uma sala cirúrgica. Luzes acesas. Instrumentos esterilizados. E sobre a mesa… não ...