segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Cirurgia no Texto Sagrado

 


A Cirurgia no Texto Sagrado

Hoje vi uma cena curiosa. 

Uma sala cirúrgica. Luzes acesas. Instrumentos esterilizados.

E sobre a mesa… não estava um corpo. Estava um livro.

Uma Bíblia.

Os “cirurgiões” não usavam bisturi para salvar — mas para remover.

“Vamos tirar essa parte sobre pecado. Muito ofensivo.”

“Esse texto sobre inferno… fora também.”

“O casamento está desatualizado.”

"A família tem que ser removida com certeza."

E ali, sob o foco da luz, não se operava uma doença.

Operava-se o desconforto.

A geração que não suporta incômodo decidiu anestesiar o texto.

Mas talvez o problema nunca tenha sido o texto —

e sim o espelho que ele se tornou. Como pensamentos intrusivos que dizem, se não deu certo para mim este relacionamento não vai dar para todos, se minha família é disfuncional quero que todas sejam, se me dá prazer não pode ser pecado. "Quem nunca, né?!"

Na clínica aprendi algo semelhante:

quando algo dói demais, a tendência não é tratar a ferida,

é eliminar o diagnóstico.

Se a palavra confronta, corta-se a palavra.

Se o princípio desafia, remove-se o princípio.

Se a verdade incomoda, chama-se de preconceito. Críticas viram fobias. A própria dúvida sobre a identidade cria um aparato de defesa.

Mas toda cirurgia tem consequência.

Ao retirar partes essenciais, o que sobra não é cura — é mutilação.

O curioso é que ninguém ali parecia odiar o livro.

Pelo contrário, queriam torná-lo “aceitável”, “inclusivo”, “atual”.

Queriam adaptá-lo ao tempo.

Só esqueceram que a função de um texto sagrado nunca foi se adaptar ao homem —

mas confrontá-lo.

Na terapia vejo movimento parecido:

o paciente quer aliviar a culpa sem rever a conduta. Não quer rever seus comportamentos, mesmo que o coloquem em risco.

Quer paz sem responsabilidade.

Quer consolo sem transformação.

O problema não é discutir interpretação.

O problema é quando o critério deixa de ser hermenêutico

e passa a ser emocional.

“Isso me ofende” virou argumento final.

Mas maturidade espiritual — assim como maturidade psíquica — exige tolerância à frustração.

Nem tudo que fere é violência.

Às vezes é revelação.

Não se trata de fanatismo.

Nem de intolerância.

Trata-se de honestidade.

Quando começamos a editar aquilo que nos confronta,

corremos o risco de transformar fé em opinião

e espiritualidade em reflexo cultural. Já vemos isso acontecer: igrejas usando metodologia de boates com cores, obstrução do contato com o exterior, som e luzes para dirigir as emoções durante o culto. E tudo começou na simplicidade de uma mesa com venda de bolo e salgadinho. Depois uma bateria mais forte, um solo de guitarra, gritos e agora temos uma absorção do "se funciona lá para manter as pessoas, por que não aqui ?!" 

E, ironicamente, a cirurgia feita para salvar pode terminar esvaziando. Não o vazio de pessoas, mas sim do Espírito Santo de Deus. Esvaziando o conceito moral e o sociopolítico.

Talvez o livro sobre a mesa não precise de bisturi.

Talvez quem esteja na mesa, invisível, sejamos nós, com todas as nossas falhas.

E talvez a pergunta não seja:

“Que parte devemos remover?”

Mas sim:

“Por que essa parte me dói tanto?”

Abilio Machado

Psicanalista e Arte-educador

Campo Largo – Paraná

📞 41 99845-1364 | 41 99635-3923

Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado

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