segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O Sequestro da Cultura: Poder, Hegemonia e Sociedade


O Sequestro da Cultura: Poder, Hegemonia e Sociedade

por Abilio Machado - Psicanálise - Psicoterapia - Neuropsicopedagogia

Introdução

O termo “sequestro da cultura” refere-se ao processo pelo qual correntes ideológicas buscam dominar os símbolos, os valores e os significados que estruturam a vida coletiva. Mais do que a disputa pelo poder político ou econômico, trata-se da conquista do imaginário social — o modo como as pessoas percebem o mundo, interpretam a realidade e definem o que é legítimo, belo, verdadeiro e justo.

Esse conceito ganha força a partir das reflexões de Antonio Gramsci, que, em seus Cadernos do Cárcere, destacou que a hegemonia cultural é pré-condição para a manutenção ou conquista do poder político. A cultura não é neutra: ela pode ser capturada, instrumentalizada e moldada.


1. Perspectiva Filosófica: Hegemonia e o Imaginário Social

Gramsci argumentava que não basta conquistar o Estado; é preciso conquistar o consenso. Esse consenso nasce do controle da cultura — escola, literatura, cinema, música, religião e até a linguagem cotidiana.

Pierre Bourdieu, em A Distinção (1979), acrescenta que o poder simbólico pode ser mais eficaz do que a violência física, pois se infiltra nos hábitos e gostos, naturalizando determinadas visões de mundo. Esse processo transforma ideologias em “bom senso”, tornando quase invisível a disputa de fundo.

Exemplo: movimentos políticos contemporâneos priorizam mudanças linguísticas (como novos termos de gênero, redefinição de papéis sociais ou ressignificação de símbolos nacionais) porque entendem que transformar a cultura é transformar a percepção da realidade.


2. Perspectiva Psicanalítica: O Inconsciente Coletivo e a Produção de Desejo

A psicanálise oferece um olhar sobre como a cultura sequestrada atua no nível inconsciente.

Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), aponta que a cultura exige renúncia pulsional para manter a vida em sociedade. Quando uma ideologia toma a cultura, ela redefine o que deve ser reprimido e o que pode ser liberado.

Lacan aprofunda isso ao mostrar que o sujeito é estruturado pela linguagem. Se a cultura é capturada, o próprio campo simbólico é reorganizado. O inconsciente coletivo passa a girar em torno de novos significantes, que orientam desejos e identificações.

Exemplo: a indústria cultural (cinema, séries, música pop) não apenas entretém, mas produz identificações inconscientes que moldam ideais de corpo, de amor, de política e até de espiritualidade.


3. Perspectiva Teológica: Discernimento e Resistência

Na teologia, a noção de “sequestro da cultura” pode ser lida como uma forma de idolatria: substituir o transcendente por construções ideológicas que pretendem ocupar o lugar do absoluto.

O apóstolo Paulo já alertava em Romanos 12:2:

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.”

O cristianismo primitivo se entendia como contracultura diante do Império Romano, resistindo à captura de sua fé pelas narrativas oficiais.

Hoje, muitas tradições religiosas percebem que símbolos e rituais podem ser apropriados por ideologias políticas — seja para legitimar projetos de poder, seja para esvaziar o sentido espiritual e reduzir a fé a mero folclore cultural.

Exemplo: festas religiosas transformadas em eventos turísticos ou slogans políticos revestidos de linguagem bíblica.


4. Exemplos Contemporâneos

  • Educação: currículos escolares tornam-se campo de disputa ideológica, definindo quais narrativas históricas e valores morais são transmitidos.

  • Mídia e Entretenimento: séries, músicas e filmes introduzem novas normatividades, alterando percepções coletivas de família, ética e sexualidade.

  • Política: partidos e movimentos sociais investem na “batalha cultural”, buscando influenciar universidades, redes sociais e até humoristas.

  • Religião: igrejas, templos e símbolos sagrados podem ser instrumentalizados para reforçar agendas políticas.

4.1 Educação

A escola e a universidade são, talvez, os espaços mais estratégicos para a disputa cultural. Quem controla a narrativa educacional controla a memória coletiva e a formação das novas gerações.

  • Seleção histórica: A escolha de quais fatos da história devem ser ensinados (ou omitidos) molda a visão que os alunos terão sobre seu país e seu povo. Narrativas nacionais podem ser exaltadas ou desconstruídas, dependendo da orientação ideológica.

  • Valores morais: A discussão sobre gênero, sexualidade, família e religião dentro das salas de aula mostra como a educação não é neutra, mas sempre portadora de valores.

  • Linguagem: Mudanças no vocabulário escolar — inclusão de novos pronomes, alteração de termos históricos — são formas de disputar o simbólico.

Exemplo: debates sobre o “Escola sem Partido” no Brasil ou sobre a teoria crítica da raça (critical race theory) nos EUA demonstram como a educação é vista como campo de batalha cultural.


4.2 Mídia e Entretenimento

Cinema, séries, música e redes sociais se tornaram veículos centrais para a produção de significados. O entretenimento não apenas reflete a sociedade: ele antecipa e molda comportamentos.

  • Representatividade: a inclusão ou exclusão de determinados grupos em narrativas midiáticas cria novos padrões de normalidade.

  • Roteiros e enredos: histórias carregadas de mensagens sociais ou políticas podem influenciar a percepção coletiva de justiça, liberdade e identidade.

  • Indústria musical: letras e estilos artísticos, muitas vezes, se tornam slogans de movimentos sociais, funcionando como trilha sonora da mudança cultural.

Exemplo: a força de plataformas como Netflix e Disney em pautar debates sobre diversidade, ou ainda o papel de artistas pop em transformar suas carreiras em movimentos políticos.


4.3 Política

Se antes a política buscava apenas conquistar votos, hoje muitos partidos e lideranças entendem que a disputa é cultural antes de ser eleitoral. Essa é a lição gramsciana aplicada no século XXI.

  • Batalha de narrativas: slogans políticos tornam-se memes, hashtags e símbolos que moldam percepções emocionais muito além de propostas concretas.

  • Tomada de espaços culturais: universidades, centros de pesquisa, ONGs e até conselhos de artes e cultura são vistos como arenas para influência ideológica.

  • Polarização simbólica: bandeiras, hinos e até pratos típicos podem ser apropriados como símbolos de determinada ideologia.

Exemplo: a disputa em torno da bandeira nacional em manifestações políticas — ora sendo símbolo de unidade, ora de facção ideológica.


4.4 Religião

A religião, como depositária de valores transcendentes e identidade coletiva, é um dos territórios mais visados para a captura cultural.

  • Instrumentalização política: líderes políticos buscam legitimar seus projetos com linguagem e símbolos religiosos.

  • Folclorização da fé: ritos e festas religiosas se transformam em atrações turísticas, esvaziadas de sua dimensão espiritual.

  • Redefinição teológica: algumas correntes religiosas reinterpretam suas tradições para alinhar-se a agendas políticas ou sociais.

Exemplo: discursos de candidatos citando versículos bíblicos em campanhas, ou celebrações religiosas transformadas em espetáculos midiáticos que servem mais ao turismo do que à devoção.

Nos quatro campos — educação, mídia, política e religião — o sequestro da cultura se dá pelo controle de símbolos, narrativas e valores. O objetivo não é apenas convencer racionalmente, mas reprogramar o inconsciente coletivo para que uma visão de mundo se torne natural, quase invisível.


Conclusão

O “sequestro da cultura” é mais do que metáfora: é uma estratégia real de poder. A cultura, como espaço simbólico e inconsciente, não é neutra. Controlá-la significa moldar consciências, orientar desejos e redefinir valores sociais.

Diante disso, a resistência não pode ser apenas política ou econômica: é também cultural, simbólica e espiritual. Reconhecer as formas de captura é o primeiro passo para restaurar uma cultura plural, crítica e capaz de sustentar sociedades livres.


Referências

  • Gramsci, A. (1929-1935). Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

  • Bourdieu, P. (1979). A Distinção. São Paulo: Edusp.

  • Freud, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Bíblia Sagrada. Romanos 12:2.


 

“Há homens que nascem póstumos”: Um olhar psicanalítico, filosófico e teológico

 


“Há homens que nascem póstumos”: Um olhar psicanalítico, filosófico e teológico

por Abilio Machado - Psicanálise/ Psicoterapia e Neuropsicopedagogia

Introdução

A frase de Raul Seixas, inspirada em Friedrich Nietzsche (em O Anticristo, §1), provoca uma reflexão que ultrapassa o campo da música. Dizer que “há homens que nascem póstumos” é afirmar que certas existências só encontram sentido, reconhecimento ou realização depois da morte. O verso tenciona os limites entre vida e legado, presença e ausência, tempo e eternidade. Neste artigo, exploraremos essa ideia sob três perspectivas: a psicanalítica, a filosófica e a teológica.


1. Perspectiva Psicanalítica

Na psicanálise freudiana, a vida psíquica é atravessada pelo conflito entre Eros (instinto de vida) e Thanatos (instinto de morte). O sujeito busca afirmar-se, mas é também atraído por sua própria dissolução. Nesse sentido, o “homem póstumo” pode ser compreendido como aquele cujo desejo não se cumpre em vida, mas se projeta para além dela.

Freud, em Além do Princípio do Prazer (1920), aponta para a repetição como marca da pulsão. O “nascimento póstumo” seria uma espécie de repetição diferida: um eco de significados que só se inscreve no simbólico após o desaparecimento do sujeito.

Um exemplo é Van Gogh, cuja obra foi praticamente ignorada em vida. Seu desejo inconsciente encontrou realização apenas no campo do Outro — no olhar da posteridade. Assim, ele “nasceu” artisticamente apenas depois da morte.

Do ponto de vista lacaniano, o “nascimento póstumo” se relaciona ao registro simbólico: a obra, a palavra ou o gesto que ultrapassa o corpo biológico e se inscreve no discurso da cultura. O sujeito se torna “sujeito do desejo do Outro” apenas quando sua mensagem é decifrada por aqueles que vêm depois.


2. Perspectiva Filosófica

Em Nietzsche, a ideia aparece no início de O Anticristo:

“Alguns nascem póstumos.” (Es gibt Leute, die erst posthum geboren werden.)

Aqui, Nietzsche sugere que certos homens — como ele mesmo se via — não pertencem ao seu tempo. Seu pensamento é radical demais para ser compreendido no presente e só pode frutificar no futuro. O “nascimento póstumo” é, portanto, o destino dos que rompem com os valores vigentes.

Filosoficamente, trata-se de uma reflexão sobre temporalidade e história da recepção. Hegel já dizia que o “filósofo é o filho do seu tempo”, mas Nietzsche rompe com essa máxima: alguns não são filhos do seu tempo, mas do porvir.

Exemplos abundam:

  • Søren Kierkegaard, ignorado em vida, tornou-se pilar do existencialismo no século XX.

  • Antonio Gramsci, cujos Cadernos do Cárcere só foram publicados anos após sua morte, influenciando decisivamente a teoria crítica.

O nascimento póstumo, então, é a marca do pensador intempestivo, que planta sementes que só germinarão em outras estações.


3. Perspectiva Teológica

Na teologia cristã, a ideia de “nascer póstumo” dialoga com a promessa da vida eterna e da ressurreição. O Evangelho de João (12:24) diz:

“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto.”

Aqui, a morte não é o fim, mas condição para a fecundidade. O homem póstumo é aquele cujo verdadeiro nascimento acontece no mistério pascal: morrer para dar vida.

Os mártires cristãos são exemplo claro. São Óscar Romero, assassinado em 1980, tornou-se símbolo de resistência e fé apenas após sua morte, reconhecido oficialmente décadas depois como santo. Sua palavra ganhou vida no silêncio de sua ausência.

Na teologia paulina, especialmente em 1 Coríntios 15, o corpo terreno deve morrer para que o corpo espiritual surja. Isso confere ao verso de Raul Seixas uma dimensão escatológica: certos homens só nascem verdadeiramente ao morrer, pois sua obra transcende o tempo.


Conclusão

A frase de Raul Seixas, ecoando Nietzsche, mostra-se fértil para múltiplas leituras.

  • Para a psicanálise, ela revela o desejo que se realiza apenas no Outro, após a morte do sujeito.

  • Para a filosofia, indica o destino dos intempestivos, incompreendidos em seu tempo.

  • Para a teologia, aponta para a lógica pascal: é preciso morrer para gerar vida.

Dizer que “há homens que nascem póstumos” é reconhecer que a vida humana não cabe inteiramente no presente. Algumas existências pertencem ao futuro, e sua presença só se revela plenamente na ausência.


Referências

  • Freud, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. Rio de Janeiro: Imago.

  • Lacan, J. (1953-1977). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

  • Nietzsche, F. (1895). O Anticristo. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Kierkegaard, S. (1849). Doença para a Morte. Petrópolis: Vozes.

  • Bíblia Sagrada. João 12:24; 1 Coríntios 15.

  • Romero, Ó. (1980). Homilias e Sermões. San Salvador.

  • Van Gogh, V. Cartas a Theo. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Gramsci, A. (1929-1935). Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Me diga com quem andas e te direi quem tu és: um olhar psicoteológico e filosófico.

 


Me diga com quem andas e te direi quem tu és: um olhar psicoteológico e filosófico

Por Abilio Machado Psicanalista e Psicoterapeuta 


Vivemos em uma sociedade marcada por redes de relações, visíveis e invisíveis, que moldam não apenas nossos comportamentos, mas também nossa forma de pensar, sentir e crer. A antiga máxima popular — “Me diga com quem andas e te direi quem tu és” — carrega uma verdade profunda, sustentada tanto pela sabedoria ancestral quanto pela análise psicológica e pela reflexão teológica.


No contexto cultural, essa frase reflete a percepção coletiva de que nossa identidade não se constrói no isolamento. Somos seres sociais, simbólicos e espirituais. O outro nos influencia em níveis mais sutis do que imaginamos: absorvemos linguagens, hábitos, posturas, crenças e até as formas de interpretar a realidade. Assim, nossas companhias revelam não apenas afinidades, mas também nossas escolhas mais íntimas sobre quem queremos ser.


Dimensão psicológica: identidade em espelho


A psicologia contemporânea entende que a construção do “eu” se dá em diálogo com o outro. Erik Erikson já apontava que a identidade se consolida na tensão entre individualidade e pertencimento. Andar com alguém não é um ato neutro; implica estar exposto a valores, narrativas e formas de ser que podem se tornar reflexos ou moldes.


Por isso, a companhia de pessoas marcadas pela negatividade, pelo cinismo ou pelo vazio ético tende a contagiar silenciosamente nossa forma de olhar a vida. Da mesma forma, caminhar com pessoas que cultivam esperança, solidariedade e senso de justiça nos convida a crescer. A questão não é apenas “quem são os outros?”, mas “quem eu escolho me tornar a partir deles?”.


Dimensão filosófica: a ética da convivência


Na filosofia, especialmente em Aristóteles, encontramos a noção de que a amizade é essencial à vida virtuosa. Não há ética que se sustente fora da convivência. A frase popular pode, portanto, ser relida como uma advertência: nossas escolhas de convívio são escolhas éticas.


Nietzsche, por outro lado, alertava para o perigo de nos deixarmos arrastar por valores de rebanho — perder o pensamento próprio na tentativa de pertencer. Nesse sentido, “andar com alguém” também exige discernimento crítico: não se trata de isolamento, mas de saber se aproximar sem dissolver-se.


Dimensão teológica: luz e trevas nas companhias


Do ponto de vista teológico, a Escritura ecoa a sabedoria popular. O apóstolo Paulo escreve: “As más conversações corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15:33). Ao mesmo tempo, Jesus é visto caminhando entre pecadores e publicanos, não para ser moldado por eles, mas para transformar. Aqui está o ponto essencial: não se trata de evitar o outro como se fosse uma ameaça, mas de discernir a direção em que nossas caminhadas nos levam.


Na espiritualidade, a companhia não é apenas física, mas simbólica. Andar com Cristo, andar na luz, significa permitir que Ele seja o referencial que orienta todas as outras relações. A escolha de quem nos acompanha revela, em última instância, quem guia nossa jornada.


Contexto cultural e social: identidade em rede


No mundo digital, essa frase adquire novas camadas. “Com quem andamos” não se limita a laços presenciais: inclui páginas que seguimos, conteúdos que consumimos, comunidades virtuais que moldam opiniões e afetos. Quem nos lê e quem lemos formam hoje uma extensão da convivência. O “andar” tornou-se também “clicar”.


No Brasil contemporâneo, marcado por polarizações ideológicas, desigualdades sociais e a busca incessante por pertencimento, essa máxima popular nos desafia a avaliar: estamos andando em círculos que nos tornam mais humanos, mais solidários, mais éticos? Ou estamos apenas refletindo espelhos fragmentados de intolerância e consumismo?


Conclusão: escolhas de caminhada


Dizer “me diga com quem andas” é reconhecer que a vida é caminho. E cada companhia é como uma encruzilhada que redefine nossa trajetória. Psicologicamente, somos espelhos uns dos outros. Filosoficamente, nossas amizades carregam implicações éticas. Teologicamente, nossas companhias revelam se caminhamos na luz ou na sombra.


No fim, a frase não é apenas diagnóstico, mas também convite: se queremos ser melhores, precisamos escolher melhor nossas companhias — presenciais, digitais e espirituais. Pois quem anda conosco é, de certa forma, quem nos ajuda a escrever a história do que somos.






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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

 Ninguém vai fazer nada por você, a não ser você mesmo -


 Ninguém vai fazer nada por você, a não ser você mesmo


Essa frase ecoa como uma verdade dura, quase cruel, mas profundamente libertadora: ninguém vai fazer nada por você, a não ser você mesmo.


Do ponto de vista psicológico, ela remete à responsabilidade pessoal. Freud nos ensinou que grande parte de nossas escolhas é atravessada pelo inconsciente, mas também nos deixou a provocação de que só a consciência nos permite transformar destinos repetidos em possibilidades novas. A psicologia cognitiva vai mais além: ninguém pode pensar por você, ninguém pode alterar seus padrões internos de forma mágica; é preciso assumir o trabalho de reconstruir as narrativas internas, desmontar crenças limitantes, reconfigurar os diálogos interiores que nos aprisionam.


Por isso, esperar que outro nos salve é um engano recorrente. O desejo de ser resgatado é humano, mas também infantil. Ele nasce da memória da infância, quando a mãe, o pai ou outra figura protetora nos tirava da queda, da febre, do medo noturno. Porém, na vida adulta, essa expectativa de ser carregado permanece em nós como sombra, gerando frustrações. O amadurecimento psíquico exige a travessia do deserto da autonomia: levantar-se com as próprias pernas, ainda que tremam.


Do ponto de vista teológico, a frase adquire um contorno ainda mais desafiador. Jesus dizia: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24). Aqui está a tensão entre graça e responsabilidade. Deus nos oferece amor, perdão e promessa de redenção, mas a travessia não é feita por anjos em nosso lugar. A cruz é pessoal, intransferível. É sua e é minha.


Na espiritualidade madura, não existe fé terceirizada. Pastores podem aconselhar, amigos podem orar, comunidades podem acolher — mas a decisão de se levantar, de caminhar, de mudar de rota, é sempre sua. Mesmo o milagre, quando vem, exige o gesto humano. O paralítico de Cafarnaum teve sua maca carregada por amigos, mas precisou ouvir do próprio Cristo: “Levanta-te, toma o teu leito e anda.” Ninguém poderia andar por ele.


Assim, essa frase, tantas vezes repetida em tom de autoajuda, é, na verdade, um convite à maturidade integral — psicológica e espiritual. Ela desmascara ilusões: ninguém virá em sua vida para preencher vazios internos, ninguém pode viver sua fé por você, ninguém pode reconstruir seu coração no seu lugar. É tarefa sua, mesmo quando Deus age.


A grande lição é que a vida não nos deve resgates. Mas, paradoxalmente, quando aceitamos isso e damos o primeiro passo, descobrimos que não estamos sós. Porque no movimento da autonomia, a graça se manifesta. O que ninguém fará por você, você precisa começar. E aquilo que você não pode concluir sozinho, Deus completa.


Por Abilio Machado Psicanalista - Psicoterapeuta - Neuropsicopedagogo ICH 


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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Nada funciona se você só se dedica “às vezes” - Artigo


 Nada funciona se você só se dedica “às vezes”

Por Abilio Machado Psicoarteterapeuta 

Há uma frase recorrente que diz: “O sucesso é resultado da disciplina diária, e não de esforços ocasionais.” Essa ideia, aparentemente simples, carrega um peso transformador. Na vida, na psicoterapia, na espiritualidade, nos relacionamentos e até na saúde física, nada se sustenta se for nutrido apenas de vez em quando.


Muitas vezes escuto em atendimentos a frase: “Mas eu tentei, só não consegui continuar.” E aqui mora a questão: não basta tentar uma vez ou outra; a constância é o que molda resultados. Assim como ninguém fica fisicamente saudável indo à academia apenas uma vez por mês, não existe saúde emocional se cuidamos dela apenas em dias de crise.


O filósofo Aristóteles já dizia: “Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco). Esse princípio revela que qualquer transformação significativa se dá pela repetição e pela construção de novos padrões.


No campo da psicologia, o psicólogo William James, considerado o “pai da psicologia americana”, afirmou: “Todos os nossos hábitos são inicialmente frágeis fios, mas que com a repetição se transformam em cabos fortes que nos prendem ou nos sustentam.” (JAMES, The Principles of Psychology, 1890). Ou seja, aquilo que escolhemos repetir se torna parte do nosso modo de viver.


Quando alguém diz: “Eu oro quando dá.” ou “Eu escrevo quando sinto vontade.” ou ainda “Eu cuido da minha saúde quando estou mal”, o resultado é inevitavelmente raso. A vida exige de nós mais do que lampejos: pede compromisso.


Na espiritualidade, o apóstolo Paulo advertiu: “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos.” (Gálatas 6:9). O “não cansar” é uma chamada à perseverança, porque a colheita não vem de tentativas esporádicas, mas da persistência paciente.


É natural que a motivação oscile, que o ânimo falhe e que os resultados pareçam lentos. Mas é justamente nesses momentos que se revela o verdadeiro caráter do compromisso. Como escreveu James Clear, no livro Hábitos Atômicos (2018): “Você não se eleva ao nível dos seus objetivos, você cai ao nível dos seus sistemas.” — e sistemas só existem quando se cria regularidade.


Portanto, se o que você deseja é crescimento, cura, transformação ou até mesmo paz interior, é preciso entender: “às vezes” não muda ninguém. A constância não é uma prisão, mas uma ponte. É a estrada que conecta quem você é hoje àquilo que pode se tornar amanhã.


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✨ Reflexão final: Se hoje você se encontra no ciclo do “às vezes”, pergunte-se: o que posso escolher repetir diariamente, mesmo que em pequenas doses, que me conduza ao que desejo? Pequenos gestos, feitos com regularidade, constroem uma vida inteira.



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📚 Referências:


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001.

JAMES, William. The Principles of Psychology. New York: Henry Holt and Company, 1890.

BÍBLIA SAGRADA. Gálatas 6:9.

CLEAR, James. Hábitos Atômicos: Um método fácil e comprovado de criar bons hábitos e se livrar dos maus. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.


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sábado, 16 de agosto de 2025

Ensaio Psicanalítico-Teológico: Ansiedade e Depressão como Expressões da Falha e do Excesso Emocional

 



Ensaio Psicanalítico-Teológico: Ansiedade e Depressão como Expressões da Falha e do Excesso Emocional

Por Abilio Machado 


1. Introdução


Na linguagem cotidiana, ansiedade e depressão são muitas vezes tratadas como emoções específicas. Entretanto, tanto a psicanálise quanto a teologia apontam para a necessidade de compreender esses fenômenos de forma mais profunda. Em vez de emoções puras, podem ser vistos como resultados de desequilíbrios emocionais e espirituais, isto é, consequências de falhas ou excessos em outras emoções fundamentais, como medo, tristeza, raiva e amor.


2. A visão psicanalítica


Na psicanálise clássica, Sigmund Freud descreve a ansiedade não como uma emoção primária, mas como um sinal do ego diante de perigos internos ou externos (“Inibições, Sintomas e Ansiedade”, 1926). Para ele, a ansiedade é um estado sinalizador, um alarme de conflito psíquico entre id, ego e superego. Assim, não se trata de uma emoção independente, mas de um produto secundário do conflito entre pulsões e repressões.

Excesso do medo: gera ansiedade. O indivíduo não sente apenas medo pontual, mas uma antecipação exagerada de ameaças.

Falha no amor e no desejo de vida (Eros): resulta em depressão. A libido, incapaz de investir em novos objetos, recolhe-se ao ego, provocando autodepreciação e melancolia (Freud, “Luto e Melancolia”, 1917).

Na tradição psicanalítica pós-freudiana, Donald Winnicott amplia essa perspectiva ao mostrar que a depressão muitas vezes nasce da falha ambiental (quando o sujeito não encontra sustentação materna suficiente). Aqui também a depressão não é uma emoção isolada, mas a falência de outras emoções estruturantes.


3. A perspectiva das neurociências emocionais


Pesquisadores como Jaak Panksepp (1998), no estudo das emoções básicas, identificaram sete sistemas emocionais primários nos mamíferos: SEEKING, FEAR, RAGE, LUST, CARE, PANIC/GRIEF e PLAY. Nem ansiedade nem depressão aparecem nessa lista. Elas são estados compostos, oriundos de distorções nesses sistemas:

Ansiedade → hiperativação do FEAR (medo) e disfunção no SEEKING (motivação).

Depressão → falência prolongada do SEEKING (motivação e esperança) e hiperativação do PANIC/GRIEF (perda e tristeza).

Isso reforça que tais estados não são emoções básicas, mas configurações resultantes de excessos ou falhas emocionais.


4. A leitura teológica


Na tradição bíblica, não se encontra o termo “depressão” como emoção. O que aparece é a experiência da tristeza profunda, angústia ou desespero (ex.: Salmo 42:5 – “Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim?”).

A teologia cristã compreende que a ansiedade e a depressão são, antes de tudo, condições existenciais, reflexos da queda humana e do distanciamento de Deus. O apóstolo Paulo, em Filipenses 4:6, recomenda: “Não andeis ansiosos por coisa alguma”, não porque a ansiedade seja uma emoção natural, mas porque é um estado que nasce do excesso de preocupação e da falha na confiança em Deus.


Nesse sentido:

Ansiedade = falha de fé/confiança + excesso de medo.

Depressão = falha de esperança + excesso de tristeza ou culpa.


Teólogos como Paul Tillich (em “A Coragem de Ser”, 1952) explicam que a ansiedade é a experiência existencial do “não-ser”, uma sombra que se instala quando o homem se vê incapaz de confiar na transcendência. Já Santo Agostinho aponta que a alma, quando desordenada em seus amores (amor mal direcionado ou excessivo), adoece.


5. Integração psicanalítica e teológica


Tanto a psicanálise quanto a teologia convergem na visão de que ansiedade e depressão são expressões de desordens internas. Não são emoções puras, mas estados compostos:

Do lado psicanalítico: desequilíbrio pulsional, falhas no ambiente e conflitos inconscientes.

Do lado teológico: falha da fé, da esperança e do amor (1 Coríntios 13:13).

Portanto, podemos dizer que ansiedade e depressão não existem como emoções originárias, mas como estados complexos, frutos da ruptura da ordem emocional e espiritual.


6. Conclusão


Compreender ansiedade e depressão dessa maneira abre caminho para uma abordagem mais ampla:

O psicoterapeuta atua restabelecendo equilíbrio entre as emoções básicas.

O teólogo ou pastor acompanha o fiel no resgate da fé, da esperança e do amor.

Ambos reconhecem que o sofrimento humano não pode ser reduzido a uma simples emoção, mas é um estado de desequilíbrio profundo que clama por cuidado integral.



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Referências


Freud, S. (1917). Luto e Melancolia.

Freud, S. (1926). Inibições, Sintomas e Ansiedade.

Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment.

Panksepp, J. (1998). Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions.

Tillich, P. (1952). The Courage to Be.

Santo Agostinho. Confissões.

Bíblia Sagrada (Salmos 42, Filipenses 4:6, 1 Coríntios 13:13).


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Fé e razão: As asas da alma humana

 


Fé e razão: As asas da alma humana

Por Abilio Machado


“Fé e razão são como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.” – João Paulo II


A frase de João Paulo II não é apenas um aforismo poético; ela traduz um princípio vital para o equilíbrio humano, tanto no campo espiritual quanto no psicológico. Fé e razão, longe de serem forças opostas, são dimensões complementares que, quando integradas, permitem ao ser humano transcender os limites da visão unilateral da realidade.


Quando uma asa falha


No consultório, é possível ver como a ruptura dessa harmonia afeta a vida das pessoas.


Caso 1 – Razão sem fé

Um homem de meia-idade, altamente intelectualizado, chega com queixas de ansiedade e vazio existencial. Ele possui respostas lógicas para tudo, desmonta qualquer discurso religioso e exige evidências para cada aspecto da vida. Porém, no silêncio da madrugada, sente-se perdido e desamparado. Sua razão funciona como uma única asa batendo com força, mas que não o ergue — apenas o exaure. Falta-lhe o eixo da fé: a capacidade de confiar no que ainda não é visível, de se abrir para um sentido que não cabe apenas na prova matemática.


Caso 2 – Fé sem razão

Uma jovem, profundamente devota, procura ajuda após cair em uma rede de manipulação espiritual. Ela acreditava que cada problema era obra de forças malignas e aceitava sem questionar práticas abusivas impostas por um líder religioso. Sua fé era intensa, mas a razão estava atrofiada. Quando a “asa racional” não participa do voo, a fé pode ser sequestrada por ilusões e distorções, levando a quedas dolorosas.


O voo equilibrado


Um paciente que integrava ambas as dimensões — fé e razão — mostrou como esse equilíbrio se traduz em vida prática. Após um diagnóstico grave de câncer, ele buscou tratamento médico de ponta (razão), mas também cultivou momentos diários de oração e leitura bíblica (fé). Reconhecia a limitação humana e, ao mesmo tempo, abraçava a possibilidade do milagre. Essa postura o sustentou não apenas fisicamente, mas emocionalmente, fortalecendo a esperança e reduzindo o sofrimento psicológico.


Analogia com a aviação


Podemos imaginar o ser humano como um piloto diante de um avião:


A razão é o painel de controle: mostra altitude, velocidade, combustível, riscos e rotas seguras.


A fé é o horizonte visível além da cabine: o céu aberto que orienta o destino e dá sentido ao voo.

Se o piloto confia apenas nos instrumentos, pode perder o sentido da viagem. Se ignora os instrumentos e olha apenas para o horizonte, corre o risco de não chegar ao destino. É no diálogo constante entre painel e horizonte que o voo se mantém estável.



A contemplação da verdade


Do ponto de vista psicoteológico, a contemplação da verdade não é um instante místico isolado, mas um estado de integração: a mente compreende, o coração confia e a alma se aquieta. É quando as perguntas lógicas encontram paz nas respostas que não precisam ser plenamente compreendidas para serem verdadeiras.


Assim como uma ave precisa das duas asas para cortar o ar e alcançar altura, o espírito humano precisa da força da razão e da leveza da fé para chegar a um ponto de visão onde a vida se revela em sentido e beleza.


E talvez, nesse ponto, percebamos que a verdade não é um objeto a ser possuído, mas um horizonte para onde continuamente voamos.



Baile de Máscaras

 



Baile de Máscaras

Nunca fui bom em dançar, mas sempre gostei de observar. Naquele salão imaginário em que todos pareciam saber o compasso, descobri — tarde demais — que o ritmo não era ditado pela música, mas pela máscara.

As pessoas giravam, riam, brindavam, se inclinavam umas para as outras com sorrisos tão perfeitamente esculpidos que chegavam a brilhar mais do que o lustre central. E eu, tolo, apareci de rosto nu.


No início, pensei que seria um gesto de coragem. Afinal, para que se esconder se não havia nada a temer? Mas a cada volta pelo salão, percebia olhares enviesados, como se eu tivesse cometido um pecado de etiqueta: mostrar a pele quando todos vestiam porcelana. Foi quando a vergonha chegou — não como um tropeço súbito, mas como um peso que escorre pelo corpo e prende os pés no chão.


Eu não sabia que naquele baile, a sinceridade era a roupa imprópria. Ali, a verdade não se vestia de pele; vestia-se de fantasia. E quem ousava entrar desarmado aprendia, cedo ou tarde, que a nudez da alma é indecente para olhos acostumados a adornos.


Hoje entendo que talvez não fosse o caso de vestir uma máscara qualquer, mas de aprender a dançar com a minha própria. Porque nesse baile, para sobreviver, não basta ter um rosto — é preciso ter um disfarce.

Quer nadar junto com tubarões? Não sangre.




 Quer nadar junto com tubarões? Não sangre.


É uma frase curta, mas carregada de intensidade. À primeira vista, parece apenas um alerta pragmático: cuidado com o ambiente, cuidado com os predadores. Mas, para quem observa com olhos psicanalíticos, ela é muito mais profunda.


Os tubarões, nesse cenário, não são apenas animais. Eles são metáforas poderosas — figuras do Outro, do inconsciente social, daqueles medos que nos perseguem e das pressões que nos desafiam. Eles podem representar chefes implacáveis, colegas competitivos, pessoas que nos testam, ou até fragmentos internos, partes de nós mesmos que duvidam e julgam.


“Não sangue.” Eis aí a chave. Sangrar significa expor a própria vulnerabilidade. Mostramos feridas, carências, inseguranças. E a psicanálise nos ensina que, muitas vezes, essas feridas despertam reações externas que podem ser agressivas — ou que simplesmente refletem nosso próprio medo de sermos feridos. Lacan diria que o desejo exposto, o que deixamos visível, nos coloca à mercê do olhar do Outro. Freud lembraria que o superego interno, severo e exigente, já nos puniria por qualquer sinal de fraqueza.


Evitar sangrar é um mecanismo de defesa. É reprimir, conter, mascarar emoções e desejos. Funciona, sim, como proteção — um escudo. Mas há um risco: a contenção prolongada pode gerar ansiedade, culpa ou frustração, porque não lidamos com a dor ou com o medo de frente, apenas tentamos escondê-los.


Nadar com tubarões também é um teste de poder e sobrevivência social. É aprender a administrar a exposição, a escolher cuidadosamente o que mostrar. Mas é igualmente um convite à consciência: conhecer seus limites, reconhecer suas feridas e não se perder no esforço de escondê-las.


A psicanálise essencial nos lembra que não precisamos sangrar para aprender, nem nos tornar invisíveis para sobreviver. É possível navegar com segurança, equilibrando assertividade, vulnerabilidade e cuidado consigo mesmo. É nessa tensão, entre força e fragilidade, que encontramos não apenas sobrevivência, mas crescimento.


E assim seguimos, nadando com os tubarões, conscientes de nossas feridas, atentos aos predadores externos, mas sobretudo respeitando o que carregamos dentro de nós. Sangrar não é proibido; é escolher o momento certo, a forma certa, e transformar a vulnerabilidade em consciência.


Psicoterapeuta Abilio Machado


terça-feira, 12 de agosto de 2025

Psicologia ou militância? O impacto do “psicologue clínique” e a erosão da neutralidade profissional


 Psicologia ou militância? O impacto do “psicologue clínique” e a erosão da neutralidade profissional

por Abilio Machado

A psicologia brasileira atravessa um momento de inflexão. Ao lado de avanços no reconhecimento de minorias e no combate a preconceitos, cresce uma tendência que preocupa: a incorporação explícita de pautas ideológicas na própria identidade profissional, como no caso dos chamados “psicologues clíniques”. A mudança não é meramente estética ou linguística; ela sinaliza uma redefinição de prioridades que pode colocar em risco o compromisso da profissão com a objetividade, o pluralismo e a base científica que a sustenta.

Pesquisas internacionais mostram que essa tensão não é exclusiva do Brasil. Em 2021, um levantamento da American Psychological Association (APA) identificou um aumento significativo na pressão para que psicólogos adotem terminologias e posturas políticas específicas, sob pena de serem vistos como antiéticos ou preconceituosos (APA Task Force on Addressing Systemic Racism, 2021). Embora o combate ao preconceito seja um pilar ético, o relatório alerta para o risco de “reduzir a prática psicológica a um instrumento de educação política, enfraquecendo seu papel como ciência baseada em evidências”.

O caso do 12º Congresso Nacional de Psicologia exemplifica esse deslocamento. O evento, tradicionalmente dedicado à atualização técnica e ao debate científico, incluiu a apresentação de um rap com forte carga ideológica, transformando um espaço profissional em palco de militância. Episódios assim reforçam a percepção de que há uma tentativa de uniformizar o pensamento dentro da categoria — algo que contraria a própria Resolução CFP nº 010/2005, a qual estabelece que a atuação do psicólogo deve respeitar a diversidade e a liberdade de expressão, sem impor convicções pessoais.



No campo internacional, exemplos semelhantes já geraram consequências concretas. No Reino Unido, o relatório Cass Review (2022), sobre serviços de saúde para jovens trans, apontou que pressões ideológicas estavam influenciando diagnósticos e condutas terapêuticas, em detrimento de avaliações clínicas cuidadosas. A principal autora, Dra. Hilary Cass, advertiu que “a polarização ideológica compromete a segurança e a qualidade do atendimento, além de afastar profissionais que discordam da narrativa dominante”.

O impacto dessa tendência vai além dos muros da profissão. Quando a psicologia é percebida como militância disfarçada de ciência, sua credibilidade pública sofre erosão. Dados do Pew Research Center (2022) mostram que, nos Estados Unidos, a confiança na psicologia como ciência caiu de 59% para 48% em uma década, com parte significativa dos entrevistados apontando “politização” como causa dessa desconfiança.

No entanto, a adoção do termo ainda encontra resistências — tanto dentro quanto fora da categoria profissional. Críticas vão desde a dificuldade de adaptação à linguagem neutra até o questionamento sobre a real efetividade dessa mudança no enfrentamento de preconceitos estruturais. Parte da comunidade argumenta que a transformação social vai muito além da nomenclatura, exigindo políticas públicas, formação acadêmica e práticas clínicas comprometidas com equidade, mas o que seria esta equidade senão a abertura de diálogo e aceitação das diferenças, mas quando o próprio discurso feito vem impregnado de ofensas e ameaças na destruição dos principais fundamentos sociais, religiosos, familiares em que afetam diretamente a dinâmica das relações, qual seria o melhor caminho?

É claro que inclusão e acolhimento são valores essenciais. Mas quando a identidade pessoal do profissional — seja de gênero, política ou cultural, não esquecendo a religiosa — passa a determinar linguagem, diagnóstico e conduta clínica, corremos o risco de substituir a escuta plural por um catecismo ideológico. O verdadeiro desafio é manter um equilíbrio em que a diversidade seja respeitada, mas sem que a ciência se torne refém de modas e pressões políticas.


A psicologia, enquanto ciência e profissão regulamentada, não pode se dar ao luxo de ser conduzida pelo pêndulo das modas ideológicas. A empatia e o acolhimento são pilares inegociáveis, mas não devem se confundir com a abdicação da objetividade e da autonomia crítica. Quando a identidade pessoal do psicólogo(a/e) passa a ditar a forma como ele conduz a teoria, a técnica e até a linguagem, abre-se um precedente perigoso: o de transformar a clínica num espaço de militância e catequese ideológica, em vez de um ambiente de investigação e cuidado fundamentado.

O desafio não está em proibir palavras ou identidades, mas em resgatar o eixo da psicologia como campo científico que dialoga com a sociedade sem se tornar refém de agendas particulares. A profissão só se fortalece quando consegue integrar diversidade sem abrir mão da liberdade de pensamento — algo que, no cenário atual, parece cada vez mais ameaçado.

Se a psicologia abdicar desse equilíbrio, não será apenas um termo como psicologue que estará em jogo. Será a própria capacidade da profissão de exercer sua função primordial: compreender e cuidar da mente humana com objetividade, ética e liberdade de pensamento.

Referências:

  • American Psychological Association. Task Force on Addressing Systemic Racism. APA, 2021.

  • Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 010/2005. Brasília, 2005.

  • Cass, H. Independent Review of Gender Identity Services for Children and Young People (Cass Review). NHS England, 2022.

  • Pew Research Center. Public Trust in Scientists Has Dropped Since the Pandemic. Washington, 2022.

sábado, 2 de agosto de 2025

A ansiedade de ajudar que estraga tudo!

 



Embora bem-intencionados, às vezes nem tanto, mães e pais acabam prejudicando os filhos ao envolvê-los nos conflitos, até mesmo por falta de informação, já que estão acostumados com uma sociedade em que o litígio faz parte da vida cotidiana e nunca foram alertados sobre os efeitos nocivos de tais abordagens destrutivas dos conflitos aos filhos ou sobre o que eles podem fazer para minimizá-los.


Muito comuns são os casos em que os pais falam mal um do outro para os filhos e os usam como mensageiros ou espiões, discutem na frente deles, dificultam o contato dos filhos com a mãe ou o pai pelos mais variados motivos, induzem os filhos a tomar partido, sem perceber que essas condutas os deixam ansiosos, estressados, tristes, aborrecidos e prejudicam o desenvolvimento emocional de seus filhos.


Esta realidade precisa ser alterada. E as mudanças devem ocorrer como parte da formação de uma cultura de realização de necessidades e interesses de todos que vivem em família. A família e todos seus membros precisam adequar suas condutas à nova formatação da família após a profunda mudança na relação dos pais que o divórcio acarreta.


Nesse novo momento – após o divórcio – a família pode, por muitos anos, sofrer com conflitos mal administrados nos quais prevalece uma cultura de brigas e antagonismos ou pode também aprender a lidar com o novo contexto da família fazendo prevalecer uma cultura de paz.


Naturalmente, o divórcio consiste em grande desafio emocional para os pais e filhos e, nesse momento delicado, é necessário o engajamento de todos para que essa cultura da paz possa ser duradoura.


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O dilema do Bonde.

  O Dilema do Bonde Quadro 1: Um bonde desgovernado avança rapidamente por uma linha férrea. Cinco pessoas estão amarradas nos trilhos à fre...