Entre o Toque e a Fome
Hoje me deparei com uma imagem que não sai da cabeça.
Duas crianças.
À esquerda, um bebê segura um tablet maior que o próprio tronco. O símbolo brilhante denuncia tecnologia, acesso, futuro digital. O olhar é curioso, quase distraído. Há conforto. Há proteção. Há promessa.
À direita, outra criança.
O corpo encolhido, ossos marcados, olhar abatido. O chão é duro. A sombra atrás dela parece maior que sua própria existência. Não há brilho. Não há distração. Há fome.
E entre elas… um abismo.
Não é apenas desigualdade econômica.
É uma diferença político-sociocultural que nos obriga a refletir sobre o que em nós é ético, moral e justo.
Na clínica aprendi que o ser humano cria mecanismos para suportar o que dói. Quando a dor é coletiva, chamamos de estatística. Quando é distante, chamamos de problema social. Quando nos ameaça, chamamos de ideologia.
Mas quando está diante dos nossos olhos… chamamos de quê?
O bebê da tecnologia não é culpado.
A criança da fome não é responsável.
O conflito está em nós.
Psicologicamente, a desigualdade pode produzir anestesia ou culpa.
Espiritualmente, ela revela a qualidade da nossa consciência.
É fácil defender ideias.
Difícil é sustentar coerência.
É confortável consumir inovação.
Desafiador é enfrentar a exclusão.
A fé que professo me lembra que justiça não é discurso inflamado, é cuidado concreto. Que moral não nasce do grupo ao qual pertenço, mas das escolhas que faço quando ninguém está aplaudindo. Que ética não é opinião — é posicionamento diante da dor do outro.
A imagem não condena tecnologia.
Ela denuncia indiferença.
E talvez a pergunta mais honesta não seja sobre sistemas, governos ou partidos.
Talvez seja:
O que essa diferença revela sobre mim?
Porque enquanto uma infância toca telas, outra toca o chão frio.
E a verdadeira batalha não está entre elas.
Está dentro de nós.
📞 Abilio Machado
Psicoterapeuta – Psicologia Essencial
(41) 99845-1364
(41) 99635-3923

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