Os percalços do ser: entre o que somos, o que fomos e o que tentamos aparentar
Há tropeços que não fazem barulho.
Não deixam hematomas visíveis, nem arrancam aplausos pela superação. São quedas internas, silenciosas, que acontecem quando a imagem que construímos de nós mesmos começa a rachar.
Ser é um verbo exigente.
Desde cedo aprendemos a desempenhar papéis: o filho responsável, a menina exemplar, o adolescente forte, o adulto produtivo. Construímos versões aceitáveis de nós mesmos para sobreviver emocionalmente aos olhares, às críticas e às expectativas. E, pouco a pouco, passamos a confundir adaptação com identidade.
O primeiro grande percalço do ser nasce aí: quando a máscara se torna mais confortável do que o rosto.
O conflito entre essência e adaptação
A psicologia nos mostra que a formação da identidade é atravessada por múltiplas forças: vínculos primários, experiências traumáticas, modelos culturais e crenças internalizadas. Não nos tornamos quem somos apenas por escolha; tornamo-nos também por defesa.
A criança que foi silenciada pode tornar-se o adulto que fala demais para não ser ignorado.
O adolescente que foi ridicularizado pode vestir a armadura da ironia para não ser ferido novamente.
O profissional competente pode esconder um medo constante de não ser suficiente.
Cada mecanismo de proteção, que um dia foi necessário, pode se transformar em obstáculo quando já não corresponde à realidade atual. Eis outro percalço: carregar estratégias antigas em contextos novos.
O peso das expectativas sociais
Vivemos em uma cultura que valoriza desempenho, visibilidade e produtividade. A subjetividade, porém, não se desenvolve na velocidade das metas. O ser não amadurece sob pressão; ele se constrói na elaboração.
A comparação constante — intensificada pelas redes sociais — cria uma sensação permanente de inadequação. O sujeito passa a se medir por recortes idealizados da vida alheia. E então surge a pergunta corrosiva: “Por que eu não sou como deveria ser?”
Esse “deveria” é um dos maiores sabotadores da autenticidade. Ele afasta o indivíduo de sua própria história e o aproxima de um ideal inatingível.
A travessia da dor como possibilidade
Os percalços do ser não são apenas quedas; são também convites.
Toda crise identitária carrega um potencial de reorganização. Quando o sofrimento é escutado — e não negado — ele pode revelar desejos reprimidos, lutos não elaborados e necessidades esquecidas.
Na clínica, é comum perceber que o sintoma não é inimigo, mas mensageiro. Ansiedade, irritabilidade, desânimo crônico — muitas vezes são expressões de um eu que pede reorganização. O sofrimento, nesse sentido, pode ser um chamado à autenticidade.
Não se trata de romantizar a dor, mas de reconhecer sua função estruturante quando acompanhada e elaborada.
O reencontro consigo
Superar os percalços do ser não significa eliminar conflitos. Significa aprender a habitá-los com consciência. É integrar sombras e luzes, limites e potenciais, sem a necessidade de negar partes da própria história.
Ser não é atingir uma versão final e perfeita de si mesmo.
Ser é um processo contínuo de revisão, amadurecimento e reconciliação.
A autenticidade não nasce da ausência de falhas, mas da coragem de reconhecê-las sem perder a dignidade interna.
Talvez o maior desafio da existência não seja tornar-se extraordinário, mas tornar-se verdadeiro.
E isso exige enfrentamento, escuta interna e, muitas vezes, acompanhamento terapêutico. Porque há travessias que não precisam — e não devem — ser feitas sozinhas.
Abilio Machado
Psicanalista | Psicoarteterapeuta C&P | Neuropsicopedagogo ICH
Terapeuta Cognitivo-Comportamental – abordagem integrativa (Psicologia Essencial)
📞 41 99845-1364 | 41 99635-3923
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