Google Não é Arco, Diagnóstico Não é Flecha
Hoje ele chega com o alvo na mão.
— “Eu já sei o que eu tenho.”
Ansiedade generalizada. TDAH. Transtorno borderline. Depressão atípica. Autismo leve. Narcisismo encoberto. Tudo pesquisado, comparado, confirmado… pelo Google.
Ele quer a flecha no centro antes mesmo de aprender a segurar o arco.
Vivemos a era do autodiagnóstico instantâneo. Sintomas digitados às duas da manhã, vídeos de um minuto que resumem transtornos complexos, testes online que prometem revelar a estrutura da personalidade em cinco perguntas.
A internet oferece informação.
Mas não oferece elaboração.
O paciente chega querendo cura rápida. Quer que a dor cesse como quem toma um analgésico. Quer uma técnica imediata, uma ferramenta pronta, uma resposta fechada. Quer sair do consultório diferente na mesma velocidade com que entrou.
Mas saúde mental não é aplicativo.
É processo.
Na clínica, o “hoje” costuma ser caótico. Emoções desreguladas. Narrativas fragmentadas. Crenças distorcidas. E, muitas vezes, um diagnóstico autoatribuído que funciona mais como identidade do que como hipótese.
O problema do autodiagnóstico não é a curiosidade — essa é legítima. O problema é quando o rótulo vira armadura. Quando o sujeito deixa de investigar sua história porque já acredita saber o final.
Diagnóstico sério é construção cuidadosa. Exige escuta, análise, contexto, história de vida, padrões persistentes. Exige tempo.
E o tempo é exatamente o que a cultura atual menos tolera.
Daqui a um mês de constância clínica, o paciente começa a perceber nuances. Descobre que não é apenas “ansioso”, mas alguém que aprendeu a viver em hipervigilância. Não é simplesmente “borderline”, mas carrega traumas de abandono. Não é só “desatento”, mas talvez sobrecarregado emocionalmente.
O alvo começa a ficar mais claro.
Daqui a um ano, se houver compromisso, o resultado aparece. Não como mágica. Não como promessa vendida em vídeo curto. Mas como transformação gradual: respostas emocionais mais reguladas, escolhas mais conscientes, relações mais equilibradas.
A flecha não acerta o centro porque foi nomeada.
Ela acerta porque foi treinada.
O Google pode até sugerir o alvo.
Mas não ensina a sustentar o arco.
E talvez o maior trabalho clínico hoje seja este: desacelerar o imediatismo, desmontar o rótulo precipitado e convidar o paciente a atravessar o processo.
Porque cura rápida costuma ser alívio temporário.
Transformação exige constância.
—
Abilio Machado
Psicanalista e Arte-educador
Campo Largo – Paraná
📞 41 99845-1364 | 41 99635-3923
Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado

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