O Coração no Micro-ondas
Hoje, sentado diante do paciente, percebo o gesto mais comum do século: ele segura um coração imaginário, coloca no micro-ondas e aperta “start”.
“Doutor, quero que pare de doer. Já tentei respirar, meditar, escrever… nada adianta. Preciso que seja rápido.”
O micro-ondas da alma é uma metáfora silenciosa da nossa urgência patológica: a pressa pela cura.
O paciente acredita que sofrimento tem prazo de validade, que dor pode ser aquecida, descongelada e servida pronta. Que emoção pode ser acelerada como comida industrial. Que crescimento acontece em minutos, como café instantâneo.
Enquanto ele espera, esquece de perceber o calor real da transformação: o tempo.
Esquece que o amor próprio e a maturidade emocional não se cozem no mesmo ciclo do forno de micro-ondas.
Esquece que cada tentativa frustrada é uma lição, não um fracasso.
Na clínica, vejo isso todos os dias: seres humanos modernos buscando resultados imediatos. Tentando driblar a constância. Pulando etapas. Ignorando o processo.
Mas a cura não é um eletrodoméstico. Não é prática instantânea. Não responde a impulsos e botões. Ela exige ritmo, presença e paciência.
O micro-ondas continua lá, ligado, aquecendo o coração que nunca vai ficar pronto tão rápido quanto a ansiedade espera. Mas o paciente, se quiser, pode colocar outro utensílio na mesa: a escuta, a reflexão, a prática diária. A paciência.
Cada sessão é um minuto que aquece sem pressa. Cada insight é uma onda que penetra gradualmente. Cada lágrima, cada silêncio, cada exercício de observação interna é o calor real da mudança.
E aos poucos, o paciente percebe:
não é o coração que precisa ser aquecido rápido.
É o próprio paciente que precisa aprender a estar com ele, sentir o ritmo da dor, acolher o desconforto, respeitar o tempo do crescimento.
O micro-ondas serve apenas de alerta.
A terapia serve de ponte.
E a cura, se houver constância, se realiza no ritmo do próprio coração.
—
Abilio Machado
Psicanalista e Arte-educador
Campo Largo – Paraná
📞 41 99845-1364 | 41 99635-3923
Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado

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