Quando o Cérebro Entra no Modo Econômico
Uma reflexão pela Psicologia Essencial por Abilio Machado
Esquecer o celular em casa. Voltar do supermercado sem o pão. Perder compromissos simples. No início, rimos. Fazemos piada. Dizemos que estamos “distraídos demais”.
Mas quando esses esquecimentos se tornam frequentes, algo mais profundo pode estar acontecendo — não necessariamente uma doença, mas um cérebro pouco desafiado.
Dentro da Psicologia Essencial, compreendemos o ser humano como uma integração dinâmica entre cognição, emoção, história pessoal e contexto relacional. O cérebro não é apenas um órgão biológico; é também um espaço simbólico onde hábitos, afetos e experiências moldam conexões neurais.
E conexões que não são usadas tendem a perder eficiência.
O Cérebro Precisa de Trabalho
A neurociência contemporânea demonstra que o cérebro mantém capacidade de reorganização ao longo da vida — fenômeno chamado neuroplasticidade. Pesquisas desenvolvidas na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) apontam que estímulos cognitivos constantes fortalecem circuitos neurais relacionados à memória, atenção e funções executivas.
Não exercitar a mente não significa que o cérebro “atrofia” de imediato, mas sim que ele entra em modo de economia. Ele passa a operar com o mínimo necessário. E essa economia se manifesta nos pequenos lapsos do cotidiano.
Atenção: A Porta de Entrada da Memória
Grande parte dos esquecimentos não nasce da memória em si, mas da atenção. Se você não estava realmente atento quando colocou o celular sobre a mesa, o registro neural daquela ação foi superficial.
Estudos em neuropsicologia desenvolvidos na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) destacam que a atenção sustentada e o controle inibitório são funções executivas treináveis. Ou seja: podem melhorar com prática direcionada.
Quando vivemos em excesso de estímulos digitais, alternando tarefas a cada poucos segundos, reduzimos nossa capacidade de foco profundo. A mente se acostuma à superficialidade.
E o superficial raramente se consolida como memória duradoura.
Reserva Cognitiva: Um Conceito Fundamental
O conceito de reserva cognitiva, amplamente discutido na literatura científica, sustenta que indivíduos que mantêm vida intelectualmente ativa apresentam maior resistência ao declínio cognitivo.
No Brasil, materiais educativos da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) reforçam que leitura, aprendizado contínuo, interação social e resolução de problemas são fatores protetivos para a saúde cerebral.
Não se trata apenas de envelhecimento. Jovens também apresentam lapsos quando submetidos a rotina automatizada e baixa exigência mental.
Automatização Excessiva: O Paradoxo Moderno
Aplicativos lembram horários. GPS decide rotas. Calculadoras fazem contas simples. Alarmes organizam a vida.
A tecnologia é uma aliada extraordinária — mas quando substitui completamente o esforço mental, reduzimos o exercício natural das funções executivas.
Dentro da Psicologia Essencial, entendemos que autonomia não é apenas liberdade emocional — é também competência cognitiva. Quando terceirizamos demais nossas decisões, diminuímos nossa musculatura psíquica.
Exercitar o Cérebro é um Ato Ético Consigo Mesmo
Estimular a mente não exige grandes estruturas. Exige intencionalidade.
Algumas práticas eficazes:
Aprender algo novo (idioma, instrumento, habilidade manual).
Ler textos que desafiem interpretação.
Escrever à mão.
Resolver problemas sem recorrer imediatamente ao celular.
Realizar testes de atenção e memória.
Praticar presença plena em tarefas simples.
O cérebro responde ao desafio. Ele precisa de novidade, complexidade e significado.
Quando Observar com Mais Atenção
Esquecimentos ocasionais são normais. Porém, quando lapsos se tornam frequentes, persistentes e associados a dificuldade de organização, desorientação ou prejuízo funcional significativo, é importante buscar avaliação profissional.
Nem todo esquecimento é patológico. Mas todo padrão merece investigação.
A Psicologia Essencial não trabalha com alarmismo, mas com consciência. Entre o riso e o alerta, existe a responsabilidade de cuidar da própria mente.
Considerações Finais
O cérebro não enferruja por maldade do tempo. Ele apenas responde ao que oferecemos.
Se oferecemos repetição automática, ele se automatiza.
Se oferecemos desafio e presença, ele se expande.
Esquecer o pão pode ser engraçado.
Esquecer de exercitar a mente pode custar autonomia.
Cuidar do cérebro é preservar identidade, história e capacidade de escolha.
E isso não é luxo — é maturidade.
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ALZHEIMER (ABRAz). Materiais educativos sobre estimulação cognitiva e prevenção do declínio cognitivo. São Paulo, s.d.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG). Pesquisas em neuropsicologia e funções executivas. Belo Horizonte, s.d.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP). Estudos em neurologia cognitiva e reabilitação neuropsicológica. São Paulo, s.d.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). Departamento de Neurologia. Pesquisas sobre envelhecimento cognitivo e plasticidade neural. São Paulo, s.d.
Abilio Machado
Psicoterapeuta – Psicologia Essencial
📞 41 99845-1364 | 41 99635-3923
📲 Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado

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