quarta-feira, 22 de abril de 2026

Autismo em Mulheres Adultas: o silêncio de quem aprendeu a caber no mundo

 


Autismo em Mulheres Adultas: o silêncio de quem aprendeu a caber no mundoI

Por Abilio Machado 

Introdução

Há mulheres que passaram a vida inteira tentando entender por que se sentiam diferentes — não exatamente deslocadas, mas como se habitassem o mundo por dentro de um vidro invisível. Participam, sorriem, respondem… mas algo nunca repousa.

Durante muito tempo, o Transtorno do Espectro Autista foi desenhado a partir de olhares masculinos. E, nesse desenho, muitas mulheres ficaram fora da moldura. Não por ausência de traços, mas por excesso de adaptação.

O autismo feminino existe — mas, frequentemente, ele não grita. Ele sussurra.

Desenvolvimento

O corpo que aprende a atuar

Desde cedo, muitas mulheres aprendem a observar antes de agir. Estudam gestos, decoram expressões, treinam respostas. Não é falsidade — é sobrevivência emocional.

Esse fenômeno, conhecido como camuflagem social, cobra um preço alto: cansaço profundo, sensação de não pertencimento e, por vezes, a angústia de não saber quem se é sem o roteiro aprendido (Hull et al., 2017).

É como se viver fosse, diariamente, entrar em cena.

O mundo sentido em volume alto

Há também um corpo que sente demais.

Luzes que incomodam. Sons que atravessam. Ambientes cheios que não apenas cansam — invadem. A Neurociência nos ajuda a compreender que, no autismo, o processamento sensorial pode acontecer de forma amplificada (Robertson & Baron-Cohen, 2017).

Mas, na clínica, isso se traduz de outro jeito: em silêncios depois do excesso, em necessidade de recolhimento, em um cansaço que não se explica — apenas se sente.

Profundidade não é exagero

Muitas dessas mulheres carregam interesses intensos, afetos densos, pensamentos que mergulham fundo.

São vistas como “sensíveis”, “intensas”, “artísticas”. E são mesmo. Mas, às vezes, há mais ali: uma forma própria de organizar o mundo, de se relacionar com o sentido das coisas.

Na psicoarteterapia, esses caminhos simbólicos não são corrigidos — são acolhidos como linguagem.

Os nomes que vieram antes

Antes do nome que organiza, vieram outros que confundiram.

Ansiedade. Depressão. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Transtorno de personalidade borderline.

Diagnósticos que, muitas vezes, descrevem partes — mas não contam a história inteira.

E assim, o essencial vai sendo adiado.

Discussão

Há uma expectativa silenciosa sobre o que é “ser mulher”: saber se relacionar, cuidar, perceber o outro, se adaptar.

E quando alguém precisa aprender tudo isso de forma consciente, treinada, exaustiva — algo se rompe por dentro.

A escuta clínica, então, precisa ser mais do que técnica. Precisa ser ética e sensível. Precisa perceber o que não foi dito, o que foi escondido para caber, o que foi silenciado para ser aceito.

Nesse caminho, a psicoarteterapia oferece algo raro: um espaço onde não é preciso performar.

Como nos lembra Winnicott (1975), é no espaço do brincar — onde não há exigência de acerto — que o verdadeiro self pode emergir.

E, às vezes, é ali que uma mulher, pela primeira vez, se encontra.

Conclusão

Receber um diagnóstico na vida adulta não é o início de um problema — é o início de uma tradução.

De repente, o passado faz sentido. As dificuldades ganham contexto. E a culpa começa, lentamente, a ceder lugar à compreensão.

Reconhecer o autismo feminino é reconhecer histórias que foram vividas em silêncio.

E talvez, mais do que qualquer nome, o que essas mulheres precisam é de algo mais simples — e mais profundo:

Um lugar onde possam existir sem precisar se adaptar o tempo todo.

Referências

HULL, L. et al. “Putting on My Best Normal”: Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 2017.

LAI, M.-C. et al. Sex/Gender Differences and Autism: Setting the Scene for Future Research. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 2015.

ROBERTSON, C. E.; BARON-COHEN, S. Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, 2017.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 2014.


📲 Redação

Há mulheres que passaram a vida inteira tentando se encaixar… sem nunca entender por quê.

O autismo em mulheres adultas muitas vezes não aparece como nos livros. Ele se esconde na adaptação, no cansaço após interações, na sensibilidade intensa e na sensação persistente de ser “diferente”.

Muitas aprenderam a atuar socialmente tão bem… que desapareceram de si mesmas.

O diagnóstico não rotula — ele revela.

Ele organiza uma história que, por muito tempo, foi vivida em silêncio.

O autismo feminino existe.

E merece ser visto, compreendido e acolhido.

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