Uma análise sobre o indivíduo narcísico é a sua necessidade de ser visto e ser notado.
O Nascido que Precisa Ser Visto
Sentado no banco de madeira — desses que rangem mais do que sustentam —, observo o desfile silencioso das personas. Não as que caminham com os pés, mas as que circulam com imagens, frases, títulos e pequenas coroas invisíveis.
Há um homem — chamemos de “o nascido” — que insiste em nascer todos os dias. Não no sentido biológico, mas simbólico. Ele nasce quando cria um conselho, quando inventa um congresso, quando pede votos para decidir quem é o mais belo Papai Noel.
Ele nasce… porque talvez nunca tenha sentido que nasceu o suficiente.
A questão não é o grupo.
Não é o concurso.
Não é o Papai Noel.
É o parto que não terminou.
Na clínica, aprendemos que a autoestima não se sustenta apenas com aplausos. Ela se estrutura, sobretudo, quando alguém — lá atrás — olha e diz: “eu te vejo como você é, e isso basta por agora.”
Quando isso falha, o sujeito cresce com uma fome estranha:
não de comida, não de afeto direto…
mas de confirmação de existência.
E então ele busca.
Busca nos grupos.
Busca nas narrativas.
Busca na estética.
Busca no “ser o melhor”.
Porque, no fundo, não se trata de ser melhor —
trata-se de não desaparecer.
A identidade, quando frágil, não se sustenta sozinha. Ela precisa de espelhos. Mas não qualquer espelho — precisa daqueles que devolvem uma imagem ampliada, idealizada, às vezes até fantasiosa.
E aí nasce um movimento delicado e perigoso:
o sujeito passa a depender da
validação externa
como quem depende de ar.
Sem ela, sufoca.
Com ela, sobrevive… mas não se constrói.
Há ainda um risco silencioso nesse tipo de dinâmica: quando alguém sustenta sua própria autoestima a partir da comparação constante, acaba, muitas vezes sem perceber, criando um ambiente onde o valor do outro também passa a ser medido por uma régua estreita. O brilho de um passa a depender do apagamento de outros. E, assim, o que poderia ser encontro vira disputa, o que poderia ser partilha vira ranking. Em contextos assim, pessoas mais sensíveis ou com a autoestima já fragilizada podem começar a duvidar de si, a se sentir “menos”, a perder o sentido do próprio papel. Não por incapacidade — mas por estarem inseridas numa lógica onde existir deixou de ser suficiente, e passou a ser necessário vencer.
Há também o narcisismo — esse tão mal compreendido. Nem todo narcisismo é arrogância. Às vezes, é ferida vestida de brilho.
O problema não está em querer ser reconhecido.
O problema começa quando o reconhecimento vira condição para existir.
E como olhar para alguém assim sem cair no julgamento fácil?
Talvez lembrando que, por trás do “conselho”, existe alguém tentando organizar o próprio caos.
Por trás do “concurso”, alguém tentando medir o próprio valor.
Por trás da fantasia, alguém tentando sobreviver à realidade que não acolheu.
Alguns cuidados — para quem observa e para quem vive isso:
Nem toda exibição é vaidade. Às vezes, é um pedido de ajuda mal formulado.
Confrontos diretos tendem a gerar mais defesa do que reflexão.
Evite reforçar excessivamente a fantasia — mas também evite humilhar a tentativa de existir.
Quando possível, devolva perguntas, não sentenças.
E, clinicamente, atenção a padrões persistentes de dependência de validação, distorção da realidade e dificuldade de sustentar frustrações.
Isso pode indicar um funcionamento psíquico que merece cuidado — não rótulo.
Em alguns casos, pode se aproximar de quadros mais estruturados, como o Transtorno de Personalidade Narcisista — mas a prudência é parte da ética: nem todo comportamento é diagnóstico.
No fim, o “nascido” não quer um trono.
Ele quer um berço que não teve.
E enquanto não encontra, vai criando palcos —
onde possa, por alguns instantes,
ser aplaudido…
como se, enfim, tivesse chegado ao mundo.
Apresentação do momento
Escrevo isso quase adormecendo, encostado no banco frio de uma igreja vazia, enquanto o eco dos meus próprios pensamentos parece pedir silêncio — e escuta.
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Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

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