quarta-feira, 22 de abril de 2026

Olha eu aqui, de qualquer ! Me nota!



Uma análise sobre o indivíduo narcísico é a sua necessidade de ser visto e ser notado.

 O Nascido que Precisa Ser Visto

Sentado no banco de madeira — desses que rangem mais do que sustentam —, observo o desfile silencioso das personas. Não as que caminham com os pés, mas as que circulam com imagens, frases, títulos e pequenas coroas invisíveis.

Há um homem — chamemos de “o nascido” — que insiste em nascer todos os dias. Não no sentido biológico, mas simbólico. Ele nasce quando cria um conselho, quando inventa um congresso, quando pede votos para decidir quem é o mais belo Papai Noel.

Ele nasce… porque talvez nunca tenha sentido que nasceu o suficiente.

A questão não é o grupo.

Não é o concurso.

Não é o Papai Noel.

É o parto que não terminou.

Na clínica, aprendemos que a autoestima não se sustenta apenas com aplausos. Ela se estrutura, sobretudo, quando alguém — lá atrás — olha e diz: “eu te vejo como você é, e isso basta por agora.”

Quando isso falha, o sujeito cresce com uma fome estranha:

não de comida, não de afeto direto…

mas de confirmação de existência.

E então ele busca.

Busca nos grupos.

Busca nas narrativas.

Busca na estética.

Busca no “ser o melhor”.

Porque, no fundo, não se trata de ser melhor —

trata-se de não desaparecer.

A identidade, quando frágil, não se sustenta sozinha. Ela precisa de espelhos. Mas não qualquer espelho — precisa daqueles que devolvem uma imagem ampliada, idealizada, às vezes até fantasiosa.

E aí nasce um movimento delicado e perigoso:

o sujeito passa a depender da

validação externa

como quem depende de ar.

Sem ela, sufoca.

Com ela, sobrevive… mas não se constrói.

Há ainda um risco silencioso nesse tipo de dinâmica: quando alguém sustenta sua própria autoestima a partir da comparação constante, acaba, muitas vezes sem perceber, criando um ambiente onde o valor do outro também passa a ser medido por uma régua estreita. O brilho de um passa a depender do apagamento de outros. E, assim, o que poderia ser encontro vira disputa, o que poderia ser partilha vira ranking. Em contextos assim, pessoas mais sensíveis ou com a autoestima já fragilizada podem começar a duvidar de si, a se sentir “menos”, a perder o sentido do próprio papel. Não por incapacidade — mas por estarem inseridas numa lógica onde existir deixou de ser suficiente, e passou a ser necessário vencer.

Há também o narcisismo — esse tão mal compreendido. Nem todo narcisismo é arrogância. Às vezes, é ferida vestida de brilho.

O problema não está em querer ser reconhecido.

O problema começa quando o reconhecimento vira condição para existir.

E como olhar para alguém assim sem cair no julgamento fácil?

Talvez lembrando que, por trás do “conselho”, existe alguém tentando organizar o próprio caos.

Por trás do “concurso”, alguém tentando medir o próprio valor.

Por trás da fantasia, alguém tentando sobreviver à realidade que não acolheu.

Alguns cuidados — para quem observa e para quem vive isso:

Nem toda exibição é vaidade. Às vezes, é um pedido de ajuda mal formulado.

Confrontos diretos tendem a gerar mais defesa do que reflexão.

Evite reforçar excessivamente a fantasia — mas também evite humilhar a tentativa de existir.

Quando possível, devolva perguntas, não sentenças.

E, clinicamente, atenção a padrões persistentes de dependência de validação, distorção da realidade e dificuldade de sustentar frustrações.

Isso pode indicar um funcionamento psíquico que merece cuidado — não rótulo.

Em alguns casos, pode se aproximar de quadros mais estruturados, como o Transtorno de Personalidade Narcisista — mas a prudência é parte da ética: nem todo comportamento é diagnóstico.

No fim, o “nascido” não quer um trono.

Ele quer um berço que não teve.

E enquanto não encontra, vai criando palcos —

onde possa, por alguns instantes,

ser aplaudido…

como se, enfim, tivesse chegado ao mundo.

Apresentação do momento

Escrevo isso quase adormecendo, encostado no banco frio de uma igreja vazia, enquanto o eco dos meus próprios pensamentos parece pedir silêncio — e escuta.

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Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

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