domingo, 12 de abril de 2026

Os Guardiões da Moral (ou: o dia em que o discurso passou mal no motel)

 


Os Guardiões da Moral (ou: o dia em que o discurso passou mal no motel)

Tem gente que não fala.

Declara.

Não conversa.

Decreta.

E não vive — fiscaliza.

São os guardiões da moral.

Aqueles que acordam com um propósito claro: salvar o mundo… dos outros.

Eles sabem quem está errado, quem está em pecado, quem vai para o inferno — e, curiosamente, sempre sobra pouco tempo para olhar o próprio espelho.

Mas o espelho, convenhamos, não aplaude.

E eles preferem plateia.

Então sobem.

No púlpito, na rede social, na roda de conversa… nos grupos de whatsapp...

e vomitam virtude como quem despeja certeza.

Tudo muito firme.

Muito seguro.

Muito incontestável.

Algumas vezes falam e dividem o santificado e o mundo - ímpio.

Até que a vida — essa péssima administradora de personagens — resolve escrever um roteiro sem consultar o autor.

E aí…

O defensor da família aparece em adultério.

O pregador da pureza tropeça nos próprios desejos.

Na falcatrua de negócios ilícitos.

Muitos até desvios monetários da própria igreja a que dirige.

Dentro de um carro com algum menor num estacionamento ou rua escura... Andando de calcinha feminina e dizendo investigar alguma irmãos... Ou indo para montes e dizendo ter dormido de conchinha só devido ao frio da madrugada...

O vigilante da moral… é encontrado, ironicamente, fora do script.

Não é sobre o erro.

Porque errar é humano — inclusive para quem fala de Deus com voz firme e dedo em riste apontando a todos.

O incômodo não é a queda.

É o pedestal.

Porque quem se coloca acima da condição humana não cai…

despenca.

E o barulho não vem do erro —

vem da altura da fantasia.

No fundo, talvez fosse mais simples:

Menos discurso.

Mais consciência.

Menos condenação.

Mais verdade.

Porque quem precisa gritar que é santo…

geralmente está tentando abafar algo que ainda não conseguiu escutar.

E a vida…

ah, a vida não se impressiona com sermão.

Ela tem um talento curioso:

revelar, no tempo certo, aquilo que o sujeito tentou esconder de si mesmo.

E aí num afoito, o desafortunado acaba por infartar sobre a amante no motel e para piorar a amante também é aquela irmã casada, toda crente, que tinha no imaginário a perfeição.

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