Os Guardiões da Moral (ou: o dia em que o discurso passou mal no motel)
Tem gente que não fala.
Declara.
Não conversa.
Decreta.
E não vive — fiscaliza.
São os guardiões da moral.
Aqueles que acordam com um propósito claro: salvar o mundo… dos outros.
Eles sabem quem está errado, quem está em pecado, quem vai para o inferno — e, curiosamente, sempre sobra pouco tempo para olhar o próprio espelho.
Mas o espelho, convenhamos, não aplaude.
E eles preferem plateia.
Então sobem.
No púlpito, na rede social, na roda de conversa… nos grupos de whatsapp...
e vomitam virtude como quem despeja certeza.
Tudo muito firme.
Muito seguro.
Muito incontestável.
Algumas vezes falam e dividem o santificado e o mundo - ímpio.
Até que a vida — essa péssima administradora de personagens — resolve escrever um roteiro sem consultar o autor.
E aí…
O defensor da família aparece em adultério.
O pregador da pureza tropeça nos próprios desejos.
Na falcatrua de negócios ilícitos.
Muitos até desvios monetários da própria igreja a que dirige.
Dentro de um carro com algum menor num estacionamento ou rua escura... Andando de calcinha feminina e dizendo investigar alguma irmãos... Ou indo para montes e dizendo ter dormido de conchinha só devido ao frio da madrugada...
O vigilante da moral… é encontrado, ironicamente, fora do script.
Não é sobre o erro.
Porque errar é humano — inclusive para quem fala de Deus com voz firme e dedo em riste apontando a todos.
O incômodo não é a queda.
É o pedestal.
Porque quem se coloca acima da condição humana não cai…
despenca.
E o barulho não vem do erro —
vem da altura da fantasia.
No fundo, talvez fosse mais simples:
Menos discurso.
Mais consciência.
Menos condenação.
Mais verdade.
Porque quem precisa gritar que é santo…
geralmente está tentando abafar algo que ainda não conseguiu escutar.
E a vida…
ah, a vida não se impressiona com sermão.
Ela tem um talento curioso:
revelar, no tempo certo, aquilo que o sujeito tentou esconder de si mesmo.
E aí num afoito, o desafortunado acaba por infartar sobre a amante no motel e para piorar a amante também é aquela irmã casada, toda crente, que tinha no imaginário a perfeição.

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