O "esperto" não é inteligente porque leva vantagem. Ele apenas é habilidoso em empurrar para os outros a conta dos seus privilégios. Inteligência constrói pontes. Esperteza derruba cercas para passar primeiro. Uma análise ...
A Psicologia da Vantagem: Quando o Mito do "Esperto" Mora Dentro de Nós
Por Abilio Machado
Uma propaganda de cigarros dos anos 1970 atravessou décadas e deixou uma marca curiosa na cultura brasileira. A frase era simples:
"Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também." (Gerson - ex jogador da seleção - Campanha de cigarros Vila Rica- 1976)
O que deveria vender cigarros acabou se transformando em uma expressão popular que passou a representar uma forma de pensar e agir. Nascia aquilo que ficou conhecido como "Lei de Gérson".
Mas será que uma propaganda tem mesmo o poder de mudar uma sociedade?
A psicologia nos mostra que não.
Nenhuma frase, por si só, cria um comportamento coletivo. Ela apenas encontra espaço em algo que já existe. A propaganda não inventou a busca pela vantagem; apenas deu voz a um desejo humano antigo: ganhar mais gastando menos esforço.
Afinal, quem nunca sentiu a tentação de encontrar um atalho?
Quem nunca pensou em furar uma fila, estacionar rapidamente em local proibido porque seria "só um minutinho", ou aproveitar uma brecha para obter algum benefício?
O problema não está apenas nos grandes atos de corrupção que ocupam os noticiários. Muitas vezes, a raiz da corrupção encontra-se nas pequenas concessões éticas que fazemos diariamente.
Recentemente, chamou a atenção o caso de consumidores que retiravam rótulos de produtos em supermercados para procurar figurinhas promocionais, deixando mercadorias danificadas para trás. O prêmio era pequeno. O prejuízo era coletivo.
E ali estava novamente a mesma lógica psicológica:
"Se eu posso ganhar alguma coisa, por que não?"
Essa pergunta aparentemente inocente revela um mecanismo importante estudado pela psicologia social: a racionalização.
A racionalização ocorre quando encontramos justificativas para comportamentos que, no fundo, sabemos serem inadequados.
"Todo mundo faz."
"Não vai fazer falta."
"Ninguém será prejudicado."
"A empresa é rica."
Esses pensamentos funcionam como analgésicos morais. Eles aliviam a culpa e permitem que a pessoa preserve uma imagem positiva de si mesma.
O mais interessante é que raramente alguém se considera desonesto.
Quase sempre a pessoa acredita estar apenas sendo inteligente.
A linha entre inteligência e oportunismo torna-se cada vez mais tênue.
O problema é que sociedades não são construídas apenas por leis. Elas são construídas por valores compartilhados.
Quando a vantagem pessoal passa a valer mais do que a responsabilidade coletiva, o tecido social começa a se desgastar.
A confiança desaparece.
As relações tornam-se defensivas.
As pessoas passam a acreditar que somente os ingênuos seguem regras.
E quando isso acontece, a esperteza deixa de ser uma exceção para se tornar uma expectativa.
Na clínica psicológica observamos algo semelhante. Muitos conflitos interpessoais nascem justamente da incapacidade de considerar o outro. O indivíduo passa a enxergar apenas seus desejos imediatos, suas necessidades e seus ganhos.
A maturidade emocional, por outro lado, exige um movimento contrário.
Exige compreender que viver em sociedade significa aceitar limites.
Nem tudo que podemos fazer devemos fazer.
Nem toda vantagem é legítima.
Nem todo ganho compensa a perda da integridade.
Talvez a verdadeira pergunta não seja por que algumas pessoas levam vantagem.
A pergunta mais importante é:
O que estamos ensinando às próximas gerações quando celebramos a esperteza e ridicularizamos a honestidade?
A resposta para essa questão pode dizer muito mais sobre o futuro do país do que qualquer campanha publicitária já foi capaz de dizer.
Porque uma sociedade não se transforma quando aprende a ganhar mais.
Ela se transforma quando aprende a conviver melhor.
E isso começa quando cada um de nós decide que o caráter vale mais do que qualquer vantagem.
Lendo que:
O "Esperto" e o Idiota: Quem Realmente Está Levando Vantagem?
Porque existe uma contradição interessante: o sujeito que fura a fila, arranca o rótulo da garrafa no supermercado, cola na prova, estaciona na vaga do idoso ou tenta enganar o sistema acredita ser mais inteligente que os demais. Porém, quando milhões fazem a mesma coisa, todos passam a viver numa sociedade mais desconfiada, mais burocrática, mais cara e mais injusta. E o mais terrível é quando o indivíduo que enganou alguém reclama de quando observou outro fazer ou até mesmo quando é feito com ele, quase como se o cósmico lhe desse a lei do retorno.
Quando você utiliza a lei de Gerson seu ganho individual produz uma perda coletiva... Pense sobre isso.
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Escrevendo estas linhas sentado no banco da praça, observando o movimento apressado das pessoas numa manhã fria. Entre passos rápidos, buzinas e olhares distraídos, fiquei pensando como a pressa por ganhar alguma coisa às vezes nos faz perder justamente aquilo que temos de mais valioso: a capacidade de sermos humanos uns com os outros.
Referência Bibliográfica
Machado de Lima Filho, Abilio. Campo Largo: Produção independente, 2026.

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