quinta-feira, 25 de junho de 2026

A Psicologia da Vantagem: Quando o Mito do "Esperto" Mora Dentro de Nós

 

O "esperto" não é inteligente porque leva vantagem. Ele apenas é habilidoso em empurrar para os outros a conta dos seus privilégios. Inteligência constrói pontes. Esperteza derruba cercas para passar primeiro. Uma análise ...

A Psicologia da Vantagem: Quando o Mito do "Esperto" Mora Dentro de Nós


Por Abilio Machado


Uma propaganda de cigarros dos anos 1970 atravessou décadas e deixou uma marca curiosa na cultura brasileira. A frase era simples:


"Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também." (Gerson - ex jogador da seleção - Campanha de cigarros Vila Rica- 1976)


O que deveria vender cigarros acabou se transformando em uma expressão popular que passou a representar uma forma de pensar e agir. Nascia aquilo que ficou conhecido como "Lei de Gérson".


Mas será que uma propaganda tem mesmo o poder de mudar uma sociedade?


A psicologia nos mostra que não.


Nenhuma frase, por si só, cria um comportamento coletivo. Ela apenas encontra espaço em algo que já existe. A propaganda não inventou a busca pela vantagem; apenas deu voz a um desejo humano antigo: ganhar mais gastando menos esforço.


Afinal, quem nunca sentiu a tentação de encontrar um atalho?


Quem nunca pensou em furar uma fila, estacionar rapidamente em local proibido porque seria "só um minutinho", ou aproveitar uma brecha para obter algum benefício?


O problema não está apenas nos grandes atos de corrupção que ocupam os noticiários. Muitas vezes, a raiz da corrupção encontra-se nas pequenas concessões éticas que fazemos diariamente.


Recentemente, chamou a atenção o caso de consumidores que retiravam rótulos de produtos em supermercados para procurar figurinhas promocionais, deixando mercadorias danificadas para trás. O prêmio era pequeno. O prejuízo era coletivo.


E ali estava novamente a mesma lógica psicológica:


"Se eu posso ganhar alguma coisa, por que não?"


Essa pergunta aparentemente inocente revela um mecanismo importante estudado pela psicologia social: a racionalização.


A racionalização ocorre quando encontramos justificativas para comportamentos que, no fundo, sabemos serem inadequados.


"Todo mundo faz."


"Não vai fazer falta."


"Ninguém será prejudicado."


"A empresa é rica."


Esses pensamentos funcionam como analgésicos morais. Eles aliviam a culpa e permitem que a pessoa preserve uma imagem positiva de si mesma.


O mais interessante é que raramente alguém se considera desonesto.


Quase sempre a pessoa acredita estar apenas sendo inteligente.


A linha entre inteligência e oportunismo torna-se cada vez mais tênue.


O problema é que sociedades não são construídas apenas por leis. Elas são construídas por valores compartilhados.


Quando a vantagem pessoal passa a valer mais do que a responsabilidade coletiva, o tecido social começa a se desgastar.


A confiança desaparece.


As relações tornam-se defensivas.


As pessoas passam a acreditar que somente os ingênuos seguem regras.


E quando isso acontece, a esperteza deixa de ser uma exceção para se tornar uma expectativa.


Na clínica psicológica observamos algo semelhante. Muitos conflitos interpessoais nascem justamente da incapacidade de considerar o outro. O indivíduo passa a enxergar apenas seus desejos imediatos, suas necessidades e seus ganhos.


A maturidade emocional, por outro lado, exige um movimento contrário.


Exige compreender que viver em sociedade significa aceitar limites.


Nem tudo que podemos fazer devemos fazer.


Nem toda vantagem é legítima.


Nem todo ganho compensa a perda da integridade.


Talvez a verdadeira pergunta não seja por que algumas pessoas levam vantagem.


A pergunta mais importante é:


O que estamos ensinando às próximas gerações quando celebramos a esperteza e ridicularizamos a honestidade?


A resposta para essa questão pode dizer muito mais sobre o futuro do país do que qualquer campanha publicitária já foi capaz de dizer.


Porque uma sociedade não se transforma quando aprende a ganhar mais.


Ela se transforma quando aprende a conviver melhor.


E isso começa quando cada um de nós decide que o caráter vale mais do que qualquer vantagem.

Lendo que:

O "Esperto" e o Idiota: Quem Realmente Está Levando Vantagem?

Porque existe uma contradição interessante: o sujeito que fura a fila, arranca o rótulo da garrafa no supermercado, cola na prova, estaciona na vaga do idoso ou tenta enganar o sistema acredita ser mais inteligente que os demais. Porém, quando milhões fazem a mesma coisa, todos passam a viver numa sociedade mais desconfiada, mais burocrática, mais cara e mais injusta. E o mais terrível é quando o indivíduo que enganou alguém reclama de quando observou outro fazer ou até mesmo quando é feito com ele, quase como se o cósmico lhe desse a lei do retorno.

Quando você utiliza a lei de Gerson seu ganho individual produz uma perda coletiva... Pense sobre isso.


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Abilio Machado – Psicoterapeuta

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Escrevendo estas linhas sentado no banco da praça, observando o movimento apressado das pessoas numa manhã fria. Entre passos rápidos, buzinas e olhares distraídos, fiquei pensando como a pressa por ganhar alguma coisa às vezes nos faz perder justamente aquilo que temos de mais valioso: a capacidade de sermos humanos uns com os outros.


Referência Bibliográfica


Machado de Lima Filho, Abilio. Campo Largo: Produção independente, 2026.

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