Não se Acende Vela para Defunto Ruim
Há ditados populares que atravessam gerações porque carregam mais do que palavras; carregam julgamentos, crenças e, muitas vezes, feridas. Um deles diz: "Não se acende vela para defunto ruim."
A frase parece simples. Em sua essência, sugere que algumas pessoas não merecem homenagem, oração, saudade ou lembrança após a morte. Como se a vida pudesse ser resumida a um veredito final: bom ou ruim.
Mas será que a existência humana cabe em classificações tão definitivas?
A Psicologia do Julgamento
A mente humana gosta de simplificar. É mais fácil colocar alguém na gaveta dos heróis ou dos vilões do que lidar com a complexidade das contradições humanas.
Quando dizemos que alguém foi "ruim", raramente estamos descrevendo toda a pessoa. Estamos descrevendo a dor que ela nos causou, os erros que cometeu ou as marcas que deixou.
A psicologia nos ensina que ninguém nasce pronto. Somos resultado de histórias, traumas, escolhas, influências e circunstâncias. Isso não elimina a responsabilidade pelos atos, mas amplia nossa compreensão sobre eles.
Há pessoas que ferem porque foram feridas. Há quem destrua porque nunca aprendeu a construir. Há quem ame de forma torta porque jamais conheceu outra forma de amor.
Compreender não significa justificar. Significa enxergar além da superfície.
A Perspectiva Teológica
Curiosamente, a Bíblia está cheia de personagens que poderiam ser considerados "defuntos ruins".
Moisés matou um homem.
Davi adulterou e conspirou para a morte de um inocente.
Pedro negou Cristo.
Paulo perseguiu cristãos.
Ainda assim, Deus não os definiu apenas pelos seus piores momentos.
O Evangelho apresenta uma lógica desconcertante: a da graça. Não porque o erro deixe de existir, mas porque a misericórdia se recusa a permitir que o erro seja a última palavra.
Quando Cristo estava na cruz, não morreu pelos perfeitos. Morreu justamente pelos imperfeitos.
Isso deveria nos tornar mais cuidadosos ao decretarmos quem merece ou não uma vela.
A Vela que Ilumina os Vivos
Talvez o verdadeiro propósito da vela nunca tenha sido iluminar os mortos.
Os mortos já encerraram sua caminhada.
Quem precisa de luz somos nós.
Acender uma vela pode simbolizar memória, perdão, reflexão ou oração. Não necessariamente aprovação.
Quando alguém morre, permanece entre os vivos um emaranhado de sentimentos: mágoa, saudade, revolta, gratidão, arrependimento.
A vela, nesse sentido, ilumina os cantos escuros da alma de quem ficou.
Uma Reflexão Necessária
Existe uma diferença entre reconhecer os erros de alguém e apagar completamente sua humanidade.
A justiça exige verdade.
O amor exige misericórdia.
A maturidade exige ambas.
Talvez algumas pessoas tenham vivido de modo tão destrutivo que deixaram pouca coisa para celebrar. Ainda assim, isso não nos transforma em juízes definitivos de seu destino.
Afinal, se Deus decidisse acender velas apenas para os perfeitos, o mundo inteiro permaneceria na escuridão.
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Lembro-me de um antigo cemitério do interior. Em uma noite de finados, caminhei entre túmulos iluminados por centenas de pequenas chamas. Havia ali santos e pecadores, trabalhadores honestos e pessoas que certamente cometeram erros graves. A luz não perguntava quem merecia brilhar. Apenas iluminava.
Talvez seja essa a maior lição.
Nem toda vela é para quem partiu.
Algumas são para impedir que a escuridão tome conta de quem ficou.
Abilio Machado
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