O Que Fica em Nós
Há pessoas que passam por nossa vida como rios passageiros. Levam consigo palavras, gestos, abraços, tempo, cuidado e até partes inteiras de nossa história. Quando partem, quase sempre deixamos algo delas em nós. E, inevitavelmente, deixamos algo de nós nelas.
Mas existe uma dor silenciosa que acompanha o ato de oferecer: a esperança.
Esperamos que o carinho retorne. Que a dedicação seja reconhecida. Que a presença seja lembrada. Que o amor encontre eco no coração de quem o recebeu. Afinal, somos humanos. Não amamos como pedras lançadas ao acaso. Amamos porque desejamos encontro. Desejamos reciprocidade. Desejamos que aquilo que floresceu em nosso peito encontre solo fértil no outro.
E quando isso não acontece, quando a gratidão não vem, quando o afeto retorna deformado ou simplesmente não retorna, surge uma pergunta amarga:
"Será que tudo foi em vão?"
A alma ferida costuma responder que sim.
Mas a vida, com sua sabedoria paciente, responde diferente.
Aquilo que você ofereceu nunca pertenceu verdadeiramente ao outro. Pertenceu primeiro a você. A generosidade revelou sua essência. A compaixão mostrou sua humanidade. O cuidado expôs a beleza que habita seu coração. Cada gesto de amor foi um retrato silencioso de quem você é.
O retorno, ou a ausência dele, fala sobre a história do outro.
A entrega fala sobre a sua.
Talvez um dos maiores aprendizados da maturidade seja compreender que o amor não perde valor quando não é correspondido. A bondade não se torna inútil porque não foi reconhecida. A luz não deixa de iluminar porque alguém escolheu fechar os olhos.
Existe uma riqueza que ninguém pode tomar de nós: a capacidade de amar.
Ela não depende de aplausos, recompensas ou agradecimentos. É um patrimônio construído nas profundezas da alma, onde a dignidade encontra morada e o afeto encontra sentido.
Por isso, quando a vida parecer injusta e o coração insistir em contabilizar o que deu e o que recebeu, lembre-se:
Nenhum amor verdadeiro foi desperdiçado.
Tudo aquilo que nasceu de sua melhor parte continua sendo seu.
E isso, talvez, seja a mais preciosa herança que uma pessoa pode carregar pela existência.
"Há viagens que fazemos pelos trilhos do mundo. Outras percorremos dentro de nós. E, olhando pela janela do tempo, descobrimos que nem tudo o que ficou para trás foi perdido. Algumas coisas transformaram-se em paisagem, outras em saudade, e algumas em sabedoria. O que oferecemos ao longo do caminho continua viajando conosco."
Abilio Machado
Psicoarteterapeuta

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