A Leveza Que Não É Leve
Por Abilio Machado - Psicanalista e Psicoarteterapeuta
Há pessoas que parecem atravessar a vida com uma serenidade invejável. Estão sempre tranquilas, sorrindo, dizendo que "não vale a pena se estressar". Mas, quando olhamos mais de perto, percebemos que essa leveza nem sempre nasce da maturidade. Muitas vezes, ela é apenas o resultado de um peso que foi cuidadosamente colocado sobre os ombros de alguém.
Na clínica psicanalítica, aprendemos que aquilo que não conseguimos elaborar tende a ser projetado. A culpa que não suportamos, a responsabilidade que recusamos, a dor que evitamos e até os nossos fracassos acabam sendo depositados no outro. É um mecanismo inconsciente de defesa: para aliviar a própria tensão, fazemos do outro um depósito de nossas angústias.
É por isso que algumas pessoas parecem tão leves. Não porque aprenderam a carregar a própria cruz, mas porque convenceram alguém a carregá-la por elas.
São pais que entregam aos filhos a missão de realizar sonhos que nunca conseguiram viver. Líderes que distribuem responsabilidades, mas recolhem apenas os méritos. Relacionamentos em que um assume o trabalho emocional enquanto o outro desfruta da estabilidade construída pelo parceiro. Ambientes onde um adoece para que todos os demais permaneçam aparentemente saudáveis.
Essa leveza é ilusória.
Quem transfere constantemente seus fardos não amadurece. Apenas adia o encontro consigo mesmo. E quem aceita carregar o peso de todos acaba, cedo ou tarde, perdendo a própria identidade, vivendo uma exaustão que sequer consegue explicar.
Carl Gustav Jung dizia que aquilo que não trazemos à consciência aparece em nossa vida como destino. O peso que hoje lançamos sobre alguém inevitavelmente voltará, porque nenhuma projeção substitui o trabalho de elaborar a própria história.
Existe uma diferença enorme entre compartilhar um fardo e abandoná-lo nas costas de outra pessoa. Compartilhar é um gesto de amor. Transferir é um ato de fuga.
Talvez a verdadeira leveza não esteja em ter menos peso, mas em desenvolver ombros capazes de sustentar aquilo que realmente nos pertence.
Porque, no fim das contas, é muito fácil parecer leve quando se sobrecarrega os outros. A verdadeira leveza nasce quando cada um aprende a carregar, com dignidade, o próprio fardo.
Essa reflexão dialoga tanto com a psicanálise quanto com a vida cotidiana, convidando o leitor a perguntar não apenas "quem está colocando peso sobre mim?", mas também "quais pesos meus eu tenho deixado que os outros carreguem?". Afinal, maturidade é reconhecer a diferença entre pedir ajuda e terceirizar a própria responsabilidade.

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