terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O dilema do Bonde.

 

O Dilema do Bonde

Quadro 1: Um bonde desgovernado avança rapidamente por uma linha férrea. Cinco pessoas estão amarradas nos trilhos à frente.


Quadro 2: Um homem está ao lado de uma alavanca. Ele tem a opção de puxá-la, desviando o bonde para uma segunda linha férrea.


Quadro 3: Nessa segunda linha, uma única pessoa está amarrada.


Quadro 4: O homem está suando, com uma expressão de desespero no rosto, olhando para a alavanca e para as duas opções. Ele sabe que qualquer decisão resultará em morte.


Quadro 5: Close-up do rosto do homem, uma lágrima escorre. Ele precisa decidir.


Quadro 6: O bonde está se aproximando das cinco pessoas, a sombra do bonde já as cobre. O homem ainda não decidiu.


Pergunta: Se você estivesse no lugar do homem da alavanca, o que você faria e por quê?

sábado, 17 de janeiro de 2026

A bebida, o silêncio e o altar invisível


 A bebida, o silêncio e o altar invisível

Ninguém começa usando drogas querendo perder a vida.

Começa querendo perder a dor.

É curioso como a sociedade gosta de falar das drogas apontando o dedo para a substância, como se ela tivesse pernas, braços e intenção própria. Como se o álcool pulasse sozinho para dentro do copo, como se a garrafa chamasse pelo nome, como se o vício fosse um acidente moral e não um processo humano.

Mas quem escuta de verdade sabe:

ninguém bebe apenas bebida.

Bebe história.

Bebe ausência.

Bebe cansaço.

Bebe silêncios acumulados.

As drogas não entram na vida de alguém por acaso. Elas entram onde algo já estava faltando.

O álcool, por exemplo, é social, educado, aceito. Ele chega sorrindo, abraça, diz “relaxa”, “só hoje”, “você merece”. Ele participa das festas, das confraternizações, das despedidas, dos encontros e até dos velórios. É a droga que a cultura ensinou a amar.

E talvez por isso seja uma das mais traiçoeiras.

No começo, ele solta a língua, desamarra o corpo, anestesia a vergonha. O tímido fala. O triste ri. O cansado esquece. O ferido dorme.

E então alguém diz:

— “Quando bebo, fico mais eu.”

Mas não fica.

Fica menos consciente da dor de não ser quem gostaria de ser.

Do ponto de vista psicológico, o abuso de álcool não é busca de prazer. É tentativa de regulação emocional. É um remendo improvisado para emoções que nunca aprenderam a ser sentidas, nomeadas e atravessadas.

Quem bebe demais, muitas vezes, não sabe o que sente. Só sabe que dói.

E quando dói, o corpo aprende rápido: existe um líquido que cala o barulho interno.

O cérebro registra.

O alívio vira hábito.

O hábito vira necessidade.

A necessidade vira prisão.

E, em silêncio, o prazer vai embora. Fica apenas o medo da falta.

Mas há algo ainda mais profundo acontecendo — algo que a psicologia sozinha toca, mas não esgota.

Existe um vazio espiritual que nenhuma substância preenche.

Não falo de religião. Falo de sentido.

De pertencimento.

De reconciliação com a própria história.

Quando o humano não encontra onde repousar a alma, ele cria altares improvisados. Alguns rezam para o sucesso, outros para o corpo perfeito, outros para o reconhecimento. E muitos, sem perceber, fazem do álcool um consolador químico.

O copo vira oração.

A garrafa, refúgio.

O gole, uma promessa falsa de paz.

É uma espiritualidade distorcida, mas real: algo que promete alívio imediato, cobra caro e nunca salva.

O alcoolismo não começa no fígado. Começa na alma.

O fígado adoece depois, como testemunha silenciosa de uma dor que ninguém quis ouvir a tempo.

E enquanto o corpo tenta eliminar a substância — em horas ou dias — a mente continua intoxicada por memórias, culpas, vergonhas e histórias mal contadas.

O álcool pode sair do sangue em doze horas.

Da urina em dois dias.

Mas da identidade… às vezes leva anos.

Porque o problema nunca foi só a bebida.

Foi o que ela substituiu.

As outras drogas seguem caminhos semelhantes, cada uma com sua promessa específica:

umas oferecem coragem, outras desligamento, outras euforia, outras anestesia total. Mas todas têm algo em comum: não ensinam a viver, apenas a escapar.

E ninguém consegue fugir de si para sempre.

Em algum momento, o corpo cobra.

As relações adoecem.

O trabalho falha.

A espiritualidade seca.

O espelho se torna incômodo.

E então surge a pergunta que muitos evitam:

“Quem sou eu sem isso?”

Essa é a pergunta mais assustadora para quem se perdeu no caminho. E também a mais necessária.

Uma abordagem psicoteológica não aponta o dedo. Ela estende a mão.

Ela entende que tratar o abuso de drogas não é apenas retirar a substância, mas devolver à pessoa a capacidade de sentir, escolher e sustentar a própria existência.

Não se trata de condenar o dependente.

Trata-se de chamá-lo de volta à consciência.

À responsabilidade possível.

À dignidade esquecida.

Cura não é abstinência apenas.

Cura é reconstrução de sentido.

Talvez, no fundo, toda dependência seja uma pergunta mal formulada:

“Como viver com essa dor?”

E o trabalho terapêutico — psicológico e espiritual — seja ajudar a reformular a pergunta:

“O que essa dor quer me ensinar sobre mim?”

Enquanto essa pergunta não encontra espaço, a garrafa continua sendo resposta.

Uma resposta frágil.

Temporária.

Cara demais.

Mas ainda assim, compreensível.

Porque ninguém se perde porque quer.

Se perde porque não encontrou outro caminho.

E toda crônica sobre drogas, se for honesta, não termina com julgamento — termina com convite.

Convite à escuta.

À responsabilidade.

À reconstrução.

E, principalmente, à coragem de parar de beber silêncio e começar, enfim, a habitar a própria vida.


#fuga #drogas #psicologia #tetapia #sintomas #tratamento 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Entre a mão, a tela e o silêncio

 


Entre a mão, a tela e o silêncio

Há um silêncio estranho que costuma aparecer depois.

Não o silêncio bom — aquele que acalma.

Mas o silêncio vazio, quase constrangedor, que deixa o sujeito sozinho com aquilo que acabou de fazer.

É desse silêncio que quero falar quando o tema é pornografia e masturbação.

Porque, ao contrário do que se diz nas frases prontas das redes, o problema raramente está no ato em si. Está no lugar que ele ocupa. Está na função que assumiu. Está no momento em que o corpo passa a ser usado não como linguagem, mas como anestesia.

No consultório, quase ninguém chega dizendo:

“Tenho prazer demais.”

O que escuto é outra coisa:

“Minha cabeça não para.”

“Fico vazio depois.”

“Prometo que não vou repetir… e repito.”

“Não sei mais se escolho ou se sou levado.”

Pornografia e masturbação, quando se encontram nesse ponto, formam um pacto silencioso. Um acordo rápido entre a angústia e o alívio. A mão obedece, a tela oferece, o corpo descarrega. Tudo parece resolvido por alguns minutos.

Depois, volta o silêncio.

A pornografia promete prazer, mas entrega isolamento.

Ela dispensa o outro real — com seus limites, seus tempos, suas falhas. No lugar do encontro, oferece desempenho. No lugar do afeto, oferece estímulo. No lugar do desejo, oferece repetição.

A masturbação, por sua vez, quando atravessada por esse circuito, deixa de ser expressão corporal e passa a ser resposta automática. Já não nasce do sentir, mas do impulso treinado. Não escuta o corpo — usa-o.

E aqui preciso dizer algo que incomoda:

nem tudo que é íntimo é saudável.

nem tudo que é privado é neutro.

nem tudo que dá prazer produz integração.

Existe uma diferença grande entre um corpo que se expressa e um corpo que se cala através do ato.

O vício não começa quando se faz “demais”.

Começa quando se faz para não sentir.

Muitos defendem dizendo:

“Isso é normal.”

“Todo mundo faz.”

“É coisa da época.”

“Reprimir é pior.”

Talvez.

Mas normalidade estatística não é sinônimo de saúde psíquica.

E frequência coletiva não absolve o vazio individual.

Quando a masturbação associada à pornografia se torna hábito fixo, o que se perde não é a moral — é a capacidade de esperar. O desejo deixa de amadurecer. O corpo não aprende a lidar com tensão. Tudo precisa ser resolvido agora.

A frustração vira inimiga.

O tédio vira ameaça.

O silêncio vira gatilho.

E então o sujeito começa a depender da tela para se acalmar. Não é prazer — é regulação emocional improvisada.

Do ponto de vista psíquico, isso empobrece.

Do ponto de vista relacional, distancia.

Do ponto de vista espiritual, fragmenta.

Não porque “Deus castiga”, mas porque a alma não funciona bem quando é dividida em compartimentos secretos.

O corpo pede sentido.

Quando não encontra, aceita estímulo.

E aqui surge a pergunta que quase nunca é feita com honestidade:

o que eu evito sentir quando recorro a esse circuito?

Solidão?

Raiva?

Medo?

Inadequação?

Cansaço de sustentar uma imagem?

A pornografia não cria esses afetos — ela apenas os encobre por alguns minutos.

Depois, tudo retorna. Um pouco mais forte.

O caminho terapêutico não é demonizar o corpo, nem glorificar o impulso. É restituir a palavra onde o ato tomou o lugar. É ajudar o sujeito a suportar sentir, desejar, esperar, frustrar-se, dialogar.

Quando o desejo pode ser pensado, ele não precisa ser descarregado o tempo todo.

Quando o afeto pode ser nomeado, o corpo descansa.

Quando o silêncio deixa de assustar, a tela perde poder.

Talvez a verdadeira pergunta não seja:

“Posso ou não posso?”

Mas outra, bem mais difícil:

“O que estou tentando calar em mim?”

Enquanto essa pergunta não encontra espaço, a mão continuará obedecendo, a tela continuará oferecendo, e o silêncio continuará voltando.

E o silêncio, cedo ou tarde, sempre fala.


#mao #brinquedos #drscabelandoopalhaco

#masturbação #cincocontraum #CorpoEDesejo #PsicologiaEssencial #DependenciaEmocional #VidaInterior #ReflexoesPsicologicas

Pornografia, a fruta proibida e o velho “você é careta”

 


Pornografia, a fruta proibida e o velho “você é careta”

Por Abilio Machado 

Falo como psicanalista.

E também como psicoarteterapeuta.

Mas, antes de tudo, falo como alguém que escuta homens — muitos homens — adultos e adolescentes em silêncio, no consultório online, longe das bravatas das redes sociais.

E é curioso como, quando o assunto é pornografia, o discurso público costuma ser raso, defensivo, agressivo. Sempre surge alguém dizendo:

“Você critica porque não gosta da fruta.”

Ou a velha gíria da minha juventude:

“Ah, isso é coisa de careta!”

Confesso: eu não ouvia essa palavra há décadas. Mas ela voltou.

E voltou com força.

Não como sinal de liberdade, mas como grito de defesa.

Porque toda vez que alguém precisa chamar o outro de careta, o que está em jogo não é o gosto — é o desconforto.

Pornografia não é sobre sexo.

Repito isso sem medo: não é sobre sexo.

É sobre solidão, mesmo na cama do casal.

É sobre vazio, a necessidade de preencher o desejo com rapidez.

É sobre uma dificuldade profunda de sustentar frustração, intimidade e presença real. De descontentamento na posição que se encontra.

O homem que se vicia em pornografia não está “com muito desejo”.

Ele está com pouco encontro, de si e com o outro.

No cérebro, a pornografia treina o prazer rápido, previsível, obediente. Nada ali exige diálogo, espera, frustração ou alteridade. Não há outro sujeito — há apenas imagens que se submetem. O desejo deixa de ser relação e vira consumo.

E quando esse homem é casado, muitos se apressam em explicar de forma simplista:

“Ah, o casamento esfriou.”

Nem sempre. Muitas vezes, o casamento apenas amadureceu, e ele(a) não.

A relação real convoca o sujeito a crescer.

A pornografia permite regredir, aquele busca do prazer da pré adolescência.

Ela oferece controle absoluto, ausência de risco emocional, nenhuma possibilidade de falha simbólica. Não há rejeição, não há silêncio constrangedor, não há cobrança. Só descarga. Quando associada à masturbação.

Depois, vem culpa.

Depois, vem remorso.

Depois, vem repetição.

Depois, vem o vazio...

Não há mais gratificação.

E então chegamos a um ponto que me chama ainda mais atenção:

por que alguns não apenas consomem pornografia, mas precisam exibi-la, compartilhá-la, postá-la?

Aqui não estamos mais falando apenas de vício, a dissolução do jorro inevitável pela masturbação, mas de busca de validação.

Postar pornografia ou erotizar o espaço público não é sinal de liberdade.

É, muitas vezes, um pedido implícito:

“Alguém aí é como eu?

Alguém aí me confirma que isso é normal?”

Quando o desejo está integrado, ele não precisa de plateia.

Quando precisa ser exibido, algo nele está pedindo autorização.

É nesse ponto que surgem as frases prontas, quase sempre agressivas:

“Isso é coisa da sua cabeça.”

“Todo mundo vê.”

“Pior é quem reprime.”

“Você não gosta da fruta.”

“Você é careta.”

Essas frases não dialogam.

Elas blindam. Busca de proteção ao seu ato.

Servem para desqualificar o limite do outro e, assim, evitar o confronto com o próprio hábito. Porque o limite alheio incomoda — ele funciona como espelho. E nem todo mundo tem coragem em olhar o abismo no seu próprio reflexo.

Ninguém gosta de espelhos quando ainda não suporta a própria imagem, fato.

A metáfora da fruta é interessante… e profundamente equivocada.

Nem toda fruta nutre.

Algumas intoxicam.

Outras viciam.

Outras parecem doces, mas corroem lentamente.

Há quem não coma não por nunca ter provado, mas por discernimento.

Há quem se afaste não por repressão, mas por maturidade.

Chamar isso de caretice é um erro antigo.

Na minha juventude, “careta” era o rótulo jogado sobre quem não se dobrava à pressão do grupo. Era a forma elegante de dizer:

“Entre no fluxo ou seja ridicularizado.”

O tempo passou.

E o tempo costuma ser um péssimo aliado das ilusões.

Muitos dos chamados caretas cresceram, integraram desejo e responsabilidade, construíram vínculos possíveis.

Muitos dos “descolados” ficaram presos à repetição, à dependência, à eterna necessidade de estímulo.

A psicoteologia ajuda a entender esse ponto com mais profundidade.

O problema nunca foi o corpo.

Nem o prazer.

Foi a redução do outro a objeto.

Quando o eros deixa de ser ponte e vira produto, algo da alma se fragmenta. O desejo se separa do sentido, a excitação se separa do amor, o corpo se separa da presença.

E então o sujeito passa a viver compartimentado:

um eu público, performático, provocador;

e um eu secreto, envergonhado, cansado.

No consultório, quase nunca vejo homens orgulhosos do próprio vício. Vejo homens exaustos. Vejo culpa. Vejo dificuldade de rezar, de olhar nos olhos, de sustentar silêncio. Vejo uma espiritualidade rachada.

O caminho terapêutico não é humilhação, nem cruzada moral.

É integração.

Não se trata apenas de “parar de ver”.

Trata-se de perguntar com honestidade:

o que este hábito está tentando anestesiar em mim?

Porque quando o vazio encontra sentido, a compulsão perde força.

Quando o desejo encontra alteridade, a imagem perde poder.

Quando a fé deixa de ser repressão e vira caminho, o corpo se aquieta.

Talvez, no fim das contas, seja hora de ressignificar a palavra antiga.

Careta não é quem escolhe limites.

Careta é quem ainda precisa da aprovação do grupo para desejar.

Careta é quem chama de liberdade aquilo que já virou prisão.

Careta é quem confunde estímulo com vida.

E isso — eu digo com toda a dureza necessária —

não tem nada de moderno.



#CorpoEDesejo

#PsicologiaEssencial

#DependenciaEmocional

#VidaInterior

#ReflexoesPsicologicas

🌿 A CORAGEM DE ENCERRAR CICLOS 🌿


🌿 A CORAGEM DE ENCERRAR CICLOS 🌿

Na psicologia, compreendemos que o ego resiste aos fins porque se alimenta da repetição.

Ele se sustenta naquilo que é familiar, mesmo quando já se tornou fonte de dor. Para o ego, mudar é ameaçador, pois mudar significa admitir que aquilo que o definia já não é suficiente.

Na teologia, o apego excessivo ao passado revela uma dificuldade em confiar no tempo de Deus.

Há um medo silencioso de que, ao encerrar um ciclo, o novo não venha — como se a provisão divina dependesse da manutenção do que já morreu por dentro.

A mente condicionada teme os encerramentos porque, no inconsciente, sabe que todo fim revela a impermanência.

E a impermanência desmonta a fantasia de controle, de identidade fixa, de poder absoluto sobre a própria história.

É por isso que tantas pessoas permanecem em:

relacionamentos esvaziados,

trabalhos que adoecem,

crenças que já não sustentam a alma,

papéis familiares que aprisionam.

Não por amor, mas por medo.

Quando resistimos aos fins, resistimos ao fluxo natural da vida, descrito tanto pela psicologia quanto pela espiritualidade.

Essa resistência gera estagnação: a energia psíquica não circula, o movimento interno se interrompe e o corpo passa a carregar tensões emocionais silenciosas — ansiedade crônica, irritabilidade constante, cansaço que não passa.

Na linguagem simbólica, o apego aprisiona o sopro da vida.

Na linguagem clínica, aprisiona o afeto, bloqueia a elaboração do luto e perpetua o sofrimento.

Encerrar ciclos não é perder.

É um ato de fé e também de saúde mental.

É confiar que, assim como ensina a teologia, há tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado.

E, como mostra a psicologia, só há amadurecimento quando aceitamos que algumas versões de nós precisam morrer para que outras possam nascer.

Quando um ciclo se encerra conscientemente:

a mente se aquieta,

o corpo relaxa,

o espírito encontra alinhamento.

O ego enfraquece quando deixamos de nos identificar com aquilo que já cumpriu sua função.

E a alma se fortalece quando escolhemos permanecer presentes, mesmo diante do vazio que antecede o novo.

✨ Todo fim é um convite à presença.

✨ Todo desapego é um retorno ao equilíbrio.

✨ Toda travessia exige coragem, mas gera liberdade.

Exemplos práticos:

Finalizar um relacionamento que virou apenas medo de ficar só.

Sair de um trabalho que já adoeceu o corpo e a fé.

Abrir mão de uma identidade antiga: “eu sempre fui assim”.

Aceitar que nem tudo que começou com amor precisa terminar da mesma forma.

--- Abilio Machado 

#EncerrarCiclos

#PsicologiaESpiritualidade

#DesapegoConsciente

#SaúdeEmocional

#FéEMaturidade

#LutoESignificado

#TempoDeDeus

#CuraInterior

#Presença

#EquilíbrioEmocional

EI, ME VEJAM ! OLHEM COMO TENHO VIRTUDES AMOROSAS...

 

Rede social  X  Realidade 

Uma leitura psicológica, sem moralizar, mas desvelando o mecanismo por trás dessa necessidade de exibição que alguns casais tem em postar o suposto agrado afetivo ao outro para ganharem aplausos do " vejam como sou bonzinho(a) e carinhoso (a) — com profundidade clínica e linguagem acessível.

Quando um casal sente a necessidade constante de anunciar suas virtudes nas redes sociais, raramente está apenas compartilhando amor. Muitas vezes, está tentando convencer — o outro, o mundo e, sobretudo, a si mesmo.

A exibição reiterada de gestos afetivos, declarações públicas e performances de cuidado pode funcionar como um recurso defensivo. Não porque o afeto seja falso, mas porque ele precisa ser confirmado externamente. Onde o vínculo é sólido, o amor repousa. Onde ele é frágil, o amor faz barulho.

Do ponto de vista psicológico, isso costuma revelar uma lacuna: a dificuldade de sustentar intimidade no espaço privado. A relação passa a existir mais no olhar do outro do que na experiência entre dois. O casal deixa de se perguntar “como estamos?” e passa a se preocupar com “como parecemos?”.

Há também um componente narcísico sutil. A validação não vem apenas do parceiro, mas do like, do comentário, do aplauso silencioso da audiência. O afeto vira vitrine. O amor, marketing. E, nesse cenário, não se cuida do vínculo — administra-se a imagem.

Em muitos casos, essas postagens cumprem a função de reparação simbólica: tentam cobrir ausências reais — diálogo raso, conflitos não elaborados, ressentimentos acumulados, solidão a dois. É como se o gesto público dissesse aquilo que não consegue ser vivido no cotidiano: “olhem, está tudo bem”.

Relações saudáveis não precisam ser provadas. Elas se revelam na consistência, no silêncio confortável, na capacidade de atravessar crises sem plateia. O afeto que precisa ser anunciado o tempo todo, muitas vezes, está pedindo socorro.

Não se trata de condenar quem compartilha. Trata-se de compreender que, quando o amor vira espetáculo, talvez a relação esteja tentando existir onde já não consegue mais se sustentar.

Porque, no fundo, vínculos seguros não gritam.

Eles permanecem.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

E se eu pudesse voltar ...


 **“Se eu pudesse juntar a vitalidade de antes

com a sabedoria que só veio depois…”**

Essa frase não nasce da nostalgia vazia.

Ela surge, quase sempre, depois da queda.

Depois da doença, da perda, do susto, do limite imposto ao corpo ou à vida.

Não é sobre querer voltar no tempo.

É sobre desejar uma síntese impossível:

o corpo que ainda não conhecia o cansaço

com a mente que hoje compreende o valor de cada fôlego.

O desejo que não é regressão

Do ponto de vista psicológico, esse pensamento não é imaturo nem patológico.

Ele não expressa negação da realidade, mas consciência tardia.

Enquanto jovens, gastamos vitalidade como se fosse infinita.

Dormimos pouco, exigimos muito do corpo, silenciamos sinais.

A sabedoria ainda não chegou porque ela só aparece quando algo falha.

Quando o corpo impõe limites, a mente amadurece.

E então nasce essa fantasia reparadora:

“Se eu tivesse o corpo de antes com a cabeça de agora…”

Não é fuga.

É o reconhecimento doloroso de que aprendemos tarde,

mas aprendemos de verdade.

O corpo ensina onde a mente não alcança

Há aprendizados que não vêm por livros, terapias ou conselhos.

Eles vêm por sintomas.

Por cirurgias.

Por faltas de ar.

Por noites em que o corpo assume o comando.

O corpo é o último professor —

e o mais honesto.

Ele não negocia, não argumenta, não idealiza.

Ele impõe.

E quando isso acontece, o sujeito muda.

Muda o olhar, muda o ritmo, muda a forma de desejar.

A vitalidade de antes era inconsciente.

A sabedoria de agora é cara.

O conflito espiritual do tempo

Teologicamente, esse desejo toca num ponto sensível:

o tempo não volta.

A espiritualidade madura não promete retorno ao que foi,

mas sentido para o que restou.

Na tradição bíblica, ninguém é chamado a regressar.

Abraão é chamado a sair.

Moisés não entra na terra.

Paulo carrega um espinho.

A fé não restaura juventude —

ela sustenta a travessia.

Querer juntar vitalidade e sabedoria é humano.

Aceitar que isso não acontece literalmente é espiritual.

Então, o que é “melhorar”?

Melhorar não é voltar a ser quem se foi.

É aprender a viver bem com quem se é agora.

É usar a sabedoria conquistada para:

respeitar os limites do corpo

diminuir exigências irreais

abandonar a culpa por não ser mais o mesmo

cultivar presença em vez de desempenho

A maturidade verdadeira não romantiza a dor,

mas também não desperdiça o que ela ensinou.

A síntese possível

Talvez a junção perfeita nunca aconteça.

Mas existe algo próximo disso:

👉 menos vitalidade desperdiçada

👉 mais consciência aplicada

👉 menos pressa, mais precisão

👉 menos idealização, mais verdade

Não teremos o corpo de antes.

Mas podemos ter algo que antes faltava:

cuidado.

E isso, paradoxalmente, também é uma forma de vida plena.

Porque só quem já perdeu um pouco da própria força

aprende a usá-la com sabedoria.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O professor não é espelho. É janela.



 O professor não é espelho. É janela.

por Abilio Machado 

Educar não é criar réplicas de si mesmo.

É formar pessoas capazes de pensar com autonomia, senso crítico e responsabilidade — inclusive quando discordam de nós.

O papel do professor não é moldar consciências à sua imagem, mas abrir caminhos para o conhecimento, o diálogo e a liberdade intelectual.

Eu sou professor — e é justamente por isso que preciso dizer o que muita gente prefere sussurrar nos corredores da escola, longe da sala dos professores e das certezas ideológicas.

O meu dever não é fabricar cópias do que penso.

Não é criar pequenos porta-vozes das minhas convicções pessoais.

Muito menos induzir crianças e adolescentes a aceitarem, sem reflexão, visões específicas sobre gênero, política ou mundo.

Meu trabalho é transferir conhecimento, não colonizar consciências.

Quando o professor passa do ponto, ele deixa de ensinar e começa a doutrinar.

E doutrinação é o nome elegante que a vaidade intelectual dá ao autoritarismo pedagógico.

Ensinar exige humildade.

Doutrinar exige aplauso.

O problema começa quando se confunde formar pensamento crítico com formar pensamento alinhado. Quando o aluno discorda e isso é lido como falha, ignorância ou resistência moral — e não como exercício legítimo de autonomia.

Há algo profundamente narcísico em querer que o aluno pense como eu.

Como se o sucesso pedagógico fosse medido pela quantidade de réplicas ideológicas que saem da sala ao fim do ano letivo.

Não se trata de negar valores. Professores os têm — e sempre terão.

Mas valores não se impõem: se apresentam, se discutem, se confrontam.

A sala de aula não é palanque.

O quadro negro não é cartaz de campanha.

E o aluno não é massa de manobra emocional nem laboratório sociopolítico.

Quando eu induzo, eu exerço violência simbólica.

Quando eu silencio quem pensa diferente, ensino medo — não liberdade.

Quando rotulo o aluno crítico como “atrasado” ou “problemático”, já não educo: adestra-se.

As férias chegaram.

E talvez seja hora de menos cursos sobre o que o aluno deve pensar

e mais autoanálise sobre quem nos tornamos enquanto educadores.

Será que eu ensino para libertar

ou para confirmar minhas certezas?

Será que eu acolho o aluno que me questiona

ou apenas celebro o que me repete?

Será que eu crio janelas para o mundo

ou espelhos onde só vejo meu próprio reflexo?

Educar é correr o risco de formar alguém que discorde de mim —

e ainda assim respeitá-lo.

Talvez as férias sejam um bom tempo para essa pausa necessária.

Uma pausa para olhar menos para o que o aluno pensa

e mais para como nós, professores, estamos ensinando.

Onde termina a formação do pensamento crítico

e onde começa a imposição das nossas próprias convicções?

Fica a reflexão.


#Educação #Docência #ÉticaNaEducação #FormaçãoHumana #ResponsabilidadeDocente #Educação #Docência #ÉticaNaEducação #PensamentoCrítico #AutonomiaIntelectual #EducarNãoDoutrinar #Responsabilidadeprofissional 

O que a memória ama, fica eterno.

 


O QUE A MEMÓRIA AMA, FICA ETERNO

(Adélia Prado)


   Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. 

   O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

   É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

   Diante do tempo, envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória, ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

   Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

   A capacidade de se emocionar vem daí, quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa – e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, aquela época...

   Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos... mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

   A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre "as crianças", não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Pra eles, a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite... ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

   Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

   Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram. 

🎅🧙‍♂

#papainoelabiliomachado

#psicologiapastoral

Janeiro Branco e a Saúde Mental

 


JANEIRO BRANCO E A SAÚDE MENTAL  

Abilio Machado - Psicanalista, Psicoterapeuta e Neuropsicopedagogo ICH

Janeiro Branco não é apenas um mês no calendário.

É um convite silencioso para olhar para dentro — e, às vezes, isso é mais difícil do que parece.

Depois das festas, dos excessos, das promessas feitas à meia-noite, sobra o que quase nunca recebe atenção: a mente cansada, as emoções acumuladas, os silêncios engolidos ao longo do ano. Janeiro chega branco como uma folha em espera, perguntando, sem pressa: como você está, de verdade?

Cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, é gesto de coragem. É reconhecer que nem tudo precisa ser suportado sozinho, que sentir cansaço, tristeza, confusão ou medo faz parte da experiência humana. O adoecimento psíquico não grita — ele sussurra. E, quando ignorado, cobra seu preço no corpo, nas relações, na vida.

Janeiro Branco nos lembra que falar é tratamento, escutar é cuidado, acolher é prevenção. Que terapia não é luxo, é higiene emocional. Assim como cuidamos do coração, dos ossos, da alimentação, também precisamos aprender a cuidar dos pensamentos que nos habitam e das histórias que contamos a nós mesmos.

Que este mês seja menos sobre metas inalcançáveis e mais sobre autopercepção. Menos cobrança, mais honestidade interna. Menos pressa, mais presença. Que possamos escrever, nesta folha branca, um compromisso simples e profundo: não abandonar a nós mesmos ao longo do ano.

Porque saúde mental não é ausência de dor.

É a capacidade de atravessá-la com sentido, apoio e humanidade.



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segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Cicatriz que Nasce Antes do Nome

 

Cicatriz que Nasce Antes do Nome

Por Abilio Machado

Uma criança nasceu
antes mesmo de ter escolha.
Veio ao mundo já herdando
a tolerância às drogas
que a mãe carregava no sangue,
como herança silenciosa
de uma juventude perdida
entre becos, promessas vazias
e o brilho falso das químicas baratas.

Cresceu vendo jovens avançarem curiosos
na mesma rua estreita,
onde o asfalto é ponte insegura
e a cabeça vira laboratório improvisado
de misturas que queimam, aceleram,
apagando o pouco de esperança que restou.
Ali, a vida é química demais
e afeto de menos.

Quem te atura?!
Beber até o mundo rodar,
até o corpo tombar,
até o sono te levar pro chão frio
e o amanhecer te devolver
todo mijado, envergonhado,
repetindo o mesmo lamento:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

Sou infeliz.
Estendo as mãos ao céu rachado
de fios elétricos e promessas quebradas:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

A saúde vai pro buraco,
o trabalho escapa,
as oportunidades fecham a porta
antes mesmo de bater.
Vem a cobrança: da vida, da rua,
da polícia, do crime,
da fome que empurra pro lado errado.
E eu pago caro,
caro demais,
por um caminho que começou torto
antes mesmo de eu saber andar.

Sou infeliz.
E acordo na madrugada, assustado,
com o coração disparado,
com o eco de passos lá fora
e o medo de virar estatística.
Repito baixinho,
como quem confessa ao escuro:
“Olha só a cagada que eu fiz…”

Mas ninguém vê
que a cagada não nasceu comigo.
Ela me antecede,
me atravessa,
me empurra.
E eu tento, tropeço,
levanto, caio de novo,
nessa guerra invisível
que chamam de vida.

A TRAMA DAS DROGAS ENTRE OS JOVENS



A TRAMA DAS DROGAS ENTRE OS JOVENS

Por Abilio Machado

O uso de drogas entre jovens não nasce no vazio. Ele se constrói em camadas de vulnerabilidade, curiosidade, ausência de pertencimento, fuga emocional e, sobretudo, em uma sociedade que fala muito sobre prevenção, mas esconde seus próprios vícios atrás de taças, rótulos caros e moralismo seletivo.

Os riscos começam na experimentação banalizada: beber até se embriagar é visto, muitas vezes, como rito de passagem. É comum, é “normal”, é celebrado como se fosse um gesto de liberdade — quando, na verdade, se torna uma porta aberta para perdas significativas na saúde, na vida escolar, no trabalho e, em muitos casos, na aproximação com o crime.

O abuso de álcool entre jovens é frequentemente invisibilizado. Fala-se muito das drogas ilícitas, mas silencia-se sobre o etanol vendido em cada esquina, estampado em propagandas festivas, mesmo sendo ele um dos maiores responsáveis por acidentes, violência, intoxicações e danos ao desenvolvimento.

As consequências aparecem cedo: efeitos negativos no corpo e na mente, impulsividade, fragilização emocional, vulnerabilidade às violências e à exploração. A curto prazo, multiplicam-se acidentes e brigas; a longo prazo, traçam-se ciclos de dependência e perda de oportunidades.

O percurso das substâncias varia — maconha, tabaco, ecstasy, LSD — mas a realidade é a mesma: um mundo sombrio que dilacera indivíduos, famílias e comunidades. A droga, por si só, não cria o crime; é o vazio social ao redor dela que alimenta essa engrenagem. Onde há abandono, falta de políticas públicas, desigualdade e ausência de afeto, brota um terreno fértil para o uso e para o recrutamento criminoso.

E, no entanto, existe um ponto crucial nessa discussão: o problema não é exclusivo de ninguém.

Está no pobre, nas periferias, nas minorias que sobrevivem às duras penas, entre conchas de feijão e necessidades básicas.
Mas também está no médio, na classe trabalhadora, no proletariado que se anestesia para esquecer a dureza do dia, entre ossos de frango frito e jornadas exaustivas.
E está no rico, sim, escondido não mais no quinino, mas no caviar, nos condomínios de luxo, nos tapetes felpudos embalados por whisky de 12 anos e vinhos de safras especiais.

É por isso que a hipocrisia dói:
Há quem pregue moral, quem condene o jovem da periferia, quem discurse inflamado sobre vício e decadência… com um cigarro aceso na ponta dos dedos.
E há quem fale de “bons valores”, “família”, “retidão”, enquanto ergue a taça de vinho chileno ou italiano, alimentando o mesmo sistema de dependência — só que com rótulos mais caros e justificativas socialmente aceitas.

A sociedade denuncia o baseado do adolescente pobre, mas aplaude o brinde do adulto bem vestido.
Aponta o dedo para a maconha no beco, mas normaliza o álcool da confraternização da empresa.
Criminaliza a fuga barata dos vulneráveis, mas romantiza a fuga sofisticada de quem pode pagar.

Esse problema atravessa bairros, cidades, estados, classes, cores, religiões.
Não pertence a um só grupo — afeta a todos.
E enquanto continuarmos tratando a dependência dos pobres como crime, e a dependência dos ricos como “um momento social”, nada mudará.

Só haverá transformação quando reconhecermos que o vício é um fenômeno humano, social e emocional — e que a hipocrisia institucionalizada é um dos maiores impedimentos para enfrentar, de fato, essa realidade. 



sexta-feira, 21 de novembro de 2025

A ALEGRIA POR MIM

 



A ALEGRIA

Por Abilio Machado 

A alegria nasce quando o ser humano decide acender a própria luz por dentro. É quando ele afina o passo, percebe o valor de cada segundo, e descobre que a felicidade verdadeira não é algo que se recebe — é algo que se oferece. Quem encontra esse estado interno sabe transformar pensamento em gesto, gesto em presença, presença em humanidade. Cria vínculos, estende solidariedade, dignifica quem toca. E faz isso com prazer.


Com a palavra suave e o coração desarmado, ele constrói mundo. Alimenta, acolhe, reconstrói pela via do amor. Caminha, sempre, na direção da integração — consigo, com o outro, com o todo.


A cada instante, coloca sua consciência a serviço do bem. Sabe que toda grande transformação humana nasce do equilíbrio mental, espiritual e moral. Por isso trabalha com empenho; liberta-se da angústia, da vacilação e do vazio, porque aprendeu a repousar o pensamento na construção — da justiça, da liberdade, da harmonia.


É alguém que busca o diálogo, cultiva entendimento, oferece boa vontade. Fraterno, reconhece que a vida cotidiana pede olhos atentos ao lado bom das coisas. Eleva-se acima das provações e mantém viva a capacidade de agradecer. Sua existência se torna um cântico suave dirigido ao Criador.


O espírito fortalecido cresce na disciplina, no autoconhecimento, na esperança que brota de uma autoestima bem cultivada. O homem espiritualizado não carrega tristeza como morada: ele confia, respeita, compreende a diversidade humana sem tentar encaixá-la em moldes estreitos.


A alegria, quando real, transforma destinos. Empurra o ser humano para territórios interiores onde o trabalho, o propósito e o bem ganham nova luz. Sempre foi — e sempre será — uma força evolutiva incontornável, capaz de elevar moral, espírito e caráter.


A certeza da vida eterna liberta a alma do que fere, do que magoa, do que tenta desviá-la no percurso terrestre. Quem vive o processo construtivo da alegria sabe que o futuro não é ameaça: é horizonte de luz, dignidade, esperança e paz.


E assim, aquele que se educa, que se forma cultural e moralmente, entende que tem um dever silencioso: cultivar autodisciplina, buscar aprendizado permanente, expressar — em todas as circunstâncias — o prazer de existir, a fé no Criador, e a convicção de que cada experiência é uma força que empurra o espírito para frente.


Esperança. Alegria. Júbilo.

Três sementes que, quando plantadas por dentro, fazem o mundo florescer por fora.


 Ser ou não ser? Eis a questão!



 Ser ou não ser? Eis a questão!

Por Abilio Machado 

Imortalizada por Shakespeare, esta frase está presente nas dúvidas de muitas pessoas quando o assunto é o espirito. Qualquer um de nós pode se perguntar: sou um espirito ou tenho um espírito? Ou ainda, sou um corpo ou tenho um corpo?

Se, após alguma análise, a conclusão for que sou um espirito e tenho um corpo, a dúvida seguinte poderá ser: sendo um espirito, sou imortal ou isso é uma ilusão das religiões?

Como ainda há muitos irmãos de outras crenças que nos informam que o espírito está sujeito a uma segunda morte, caberia questionar: se corpo e espirito fossem mortais, por que haveria corpo e espírito então? Considerando que não há dúvidas de que o corpo é mortal, podemos concluir que, ou não há espírito, ou o espirito é imortal.

Nos dizeres atribuídos a Jesus em seu diálogo com Nicodemos: (0 espírito é como o vento que sopra... "não se sabe de onde vem e nem para onde vai, mas em verdade te digo que se o Homem não renasce da água e do espírito, não pode entrar no reino de Deus".

Nesta oportunidade, Jesus buscava explicar ao interessado que reencarnação era o caminho evolucionário para um reino de harmonia que está dentro de cada um de nós, mas que temos que descobrir e ocupar por meio do nosso próprio esforço.

O espírito é creado simples e ignorante, mas por ser dotado de inteligência e liberdade constrói a si mesmo ao longo da sua trajetória.

Como modelo exemplar desta ideia, no pátio de uma universidade norte ame-ricana há uma estátua inacabada, onde o personagem bem acabado até a altura da cintura, com um martelo em uma mão e uma talhadeira na outra, aparece esculpindo a si mesmo. Sem uma palavra, a bela imagem passa a mensagem que o ser é o construtor do seu próprio aperfeiçoamento.


Como espirito, sou uma unidade de vida inteligente, sou também a soma de minhas vivências e convivências, alegrias e tristezas, amores e dissabores, erros e acertos. Sou a causa e o efeito da minha própria história multiencarnatória. Em mim estão os principios, as crenças e os valores morais que construi. Aos poucos vou testando e substituindo ideias. Sou o fruto do polimento que dei a mim mesmo e minha história é meu patrimônio de conhecimento.


Sou como o bloco de pedra ou metal que aos poucos tem os excessos removidos e que a exemplo da escultura mencionada adquire formas harmo-niosas, revela sua essência e cumpre os papéis que escolhe.


Aprendizado contínuo faz coerência com imortalidade, com liberdade, respon-sabilidade e resultados. Hoje já sou melhor do que fui ontem e amanhã poderei ser um pouco melhor do que sou hoje.


Duvido, logo penso. Penso, logo sou. Descartes

Relaxação...ou relaxamento !

 


Relaxação

Por Abilio Machado 

Técnica de relaxamento / meditação que objetiva promover relaxamento fisico e mental, diminuindo as tensões musculares ocasionadas pelo estresse.

Para obter bons resultados com a prática desta técnica, como a diminuição das dores de coluna, enxaqueca e insônia, é necessário que você a pratique diariamente, duas vezes ao dia, por 10 minutos.


Como realizar?


1º - Procure um local calmo, tranquilo;

2º - Sente-se confortavelmente, não deite;

3º - Feche os olhos;

4º - Inicie uma inspiração e expiração nasal profunda e tranquila e mantenha esta forma de respiração durante alguns segundos;

5º - De olhos fechados direcione o pensamento para o corpo (pés, pernas, braços...) e procure soltar os músculos de cada segmento corporal, dos pés a cabeça;

6º - Inicie o exercício de vocalização inspirando pelo nariz e quando soltar o ar vocalize a letra "U".


IMPORTANTE:


Não pratique a técnica (vocalização) por mais de 20 minutos.

Não coloque despertador para avisar o término do tempo.


A relaxação, ou ação de relaxar, propicia o relaxamento ou estado de estar relaxado e promove a meditação, autoconhecimento, equilíbrio e serenidade."

sábado, 8 de novembro de 2025

Quando o Desejo se Torna Refúgio: um olhar psicológico e teológico sobre a pornografia

 Há silêncios que o corpo grita. E desejos que se disfarçam de alívio.

A pornografia, por vezes, nasce desse lugar — onde a solidão busca companhia e o amor perde sua forma humana.

Entre o prazer e a culpa, entre o corpo e o espírito, muitos se perdem em imagens que prometem o que o toque real já não oferece.

Mas o que há por trás desse hábito tão comum e tão pouco confessado?

Seria um vício, um refúgio ou um sintoma de relações que já não respiram?

Tenho alguns conhecidos que volta e meia postam nos grupos ou enviam no privado imagens pornograficas,  e sempre há um misto no pensar dos por quês... E saiu este artigo...



Quando o Desejo se Torna Refúgio: um olhar psicológico e teológico sobre a pornografia

Por Abilio Machado 

Há um abismo silencioso que separa o prazer do encontro.

E é nesse espaço que muitos homens e mulheres têm se perdido — buscando na pornografia o alívio que não encontram mais na presença real, no toque verdadeiro, na reciprocidade amorosa.

Vivemos numa era de estímulos fáceis e recompensas instantâneas. Um clique e o cérebro é inundado por dopamina, o neurotransmissor do prazer e da recompensa. A princípio, parece inofensivo. Mas o que acontece quando o prazer se desconecta do vínculo, da ternura, da entrega? O que resta é o corpo como objeto, o outro como fantasia e a alma… vazia.


O ponto de vista psicológico


Do ponto de vista psicológico, a pornografia funciona como uma anestesia emocional.

Ela reduz a ansiedade, oferece uma fuga rápida da solidão, do estresse, da insegurança e da sensação de rejeição. Contudo, o preço é alto: o cérebro se condiciona a buscar o prazer em estímulos cada vez mais intensos, o que enfraquece o interesse pelo contato real, pela relação viva.

Casamentos e relacionamentos começam a sofrer: o toque do outro parece sem graça, o ritmo da vida sexual não compete com o frenesi das telas, e o olhar se perde em comparações. Surge a vergonha, a culpa, a mentira — e um ciclo de isolamento e distanciamento afetivo.

Em muitos casos, a pornografia não é a causa, mas o sintoma de uma relação em declínio. É o reflexo de vínculos enfraquecidos, de comunicações que se perderam, de afetos não ditos. Quando o desejo precisa se refugiar na fantasia, é sinal de que algo deixou de ser nutrido na realidade.


O ponto de vista teológico


Sob a ótica teológica, o corpo é templo, e o prazer é um dom sagrado — mas não um fim em si mesmo.

A espiritualidade cristã não nega o desejo, mas o convida à integração: amar é unir corpo, alma e compromisso. A pornografia, ao contrário, fragmenta. Ela cria uma dissociação entre o olhar e o coração, entre o ato e o sentido.

Jesus dizia que “quem olhar para uma mulher com intenção impura já cometeu adultério em seu coração” (Mateus 5:28). Não se trata de moralismo, mas de integridade: o olhar é o espelho da alma, e o desejo sem amor é uma chama que consome, não aquece.

A teologia do corpo, em sua beleza mais profunda, ensina que a sexualidade humana é linguagem de comunhão. Quando essa linguagem é usada para o isolamento — mesmo que no segredo de uma tela — ela deixa de ser expressão de vida e passa a ser consumo.



Entre o vício e a consciência


Reconhecer o vício não é sinal de fraqueza, mas de humanidade.

É admitir que há um buraco na alma que nenhuma imagem conseguirá preencher. A pornografia promete alívio, mas entrega vazio. O caminho da cura passa pelo autoconhecimento, pela escuta interna e, muitas vezes, pela necessidade de ajuda — psicológica e espiritual.

Curiosamente, é no tempo de abstinência que o corpo e a mente podem reencontrar o equilíbrio.

Como no teu caso, poetha — o período de recuperação após uma postectomia torna-se um convite à pausa. O corpo pede descanso, e o espírito pede sentido. É uma oportunidade de reconexão com o próprio sentir, de redescobrir o prazer que nasce do afeto e não apenas do impulso.


Os prós e os contras


Falar de “prós” na pornografia é delicado, mas podemos admitir que, em contextos terapêuticos ou educativos, ela pode despertar curiosidade, autoconhecimento ou servir de reflexão sobre o próprio desejo.

No entanto, seus contras são mais amplos e profundos: despersonaliza o outro, cria expectativas irreais, enfraquece vínculos emocionais, estimula comparações destrutivas e, em muitos casos, alimenta uma cultura de abuso e exploração.


O reencontro com o sagrado


Quando o prazer volta a ser gesto de amor, o corpo reencontra sua dignidade.

O desafio, portanto, não é reprimir o desejo, mas redimi-lo — dar-lhe significado, integrá-lo à vida. A castidade, nesse contexto, não é ausência de sexo, mas presença consciente: é amar de modo inteiro, sem se dividir entre o real e o virtual.

No fim, a pornografia é o espelho turvo de uma carência. E toda carência é um pedido de amor.

Talvez o verdadeiro milagre não esteja em deixar de desejar, mas em aprender a desejar de modo verdadeiro.




O dilema do Bonde.

  O Dilema do Bonde Quadro 1: Um bonde desgovernado avança rapidamente por uma linha férrea. Cinco pessoas estão amarradas nos trilhos à fre...