sexta-feira, 24 de abril de 2026

Espulso de algum paraiso

 


A frase de Melanie Klein toca em um ponto delicado da existência: conhecer transforma — e toda transformação cobra um preço.

Há um tipo de “paraíso” que só existe enquanto não sabemos. É o lugar da ilusão confortável, das certezas herdadas, das narrativas que nos protegem da dor de enxergar. Quando começamos a pensar por nós mesmos, quando elaboramos afetos, conflitos e verdades internas, algo se rompe. E não há retorno possível.

O conhecimento, especialmente o emocional, não é apenas aquisição de informação — é perda de inocência. É sair de relações idealizadas, rever vínculos, questionar estruturas internas e externas. É deixar para trás versões de si que já não sustentam quem nos tornamos.

Na clínica e na vida, vemos isso com frequência: amadurecer implica luto. Luto pelas fantasias que nos protegiam. Luto por vínculos que mudam quando passamos a enxergá-los com mais clareza. Mas também é nesse movimento que nasce a liberdade psíquica — a possibilidade de existir com mais verdade, mesmo que com menos conforto.

Talvez o “paraíso” perdido não seja um erro… mas uma etapa.

E crescer seja, justamente, aprender a habitar a realidade sem precisar fugir dela.

Aquela criança ainda existe

 


Muita gente elogia a criança quieta sem imaginar o peso escondido naquele silêncio. Nem sempre era calma. Às vezes era medo de ocupar espaço. Medo de pedir, de errar, de cansar, de virar problema. Então ela aprende cedo a resolver tudo sozinha e cresce com a impressão de que necessidade é fraqueza.


Na vida adulta, isso aparece de muitos jeitos. Gente que ajuda todo mundo, mas se envergonha quando precisa de colo. Gente competente, forte, admirada, mas cansada de nunca poder desabar. Um coração assim não precisa de cobrança. Precisa descobrir, com delicadeza, que ser amado não depende de desempenho. Presença também merece cuidado.

A técnica da cadeira vazia mais aplicação prática na arteterapia

 

A técnica da cadeira vazia é uma ferramenta clássica da Gestalt-terapia, criada por Fritz Perls. Ela parece simples — e é justamente essa simplicidade que a torna tão potente.

🪑 O que é, na prática?

Imagine duas cadeiras:

Uma é a sua.

A outra é de alguém ou algo importante (uma pessoa, um sentimento, uma parte de você mesmo).

Você vai dialogar com essa “presença”, mesmo que ela não esteja ali fisicamente.

🎭 Como aplicar (passo a passo simples)

1. Defina quem (ou o quê) estará na cadeira

Pode ser:

Uma pessoa (viva ou não)

Um sentimento (raiva, medo, culpa)

Uma versão sua (criança, futuro, “eu crítico”)

2. Fale com a cadeira

Sente-se na sua cadeira e diga tudo o que está guardado:

Sem filtros

Sem julgamentos

Como se a pessoa estivesse ali

Exemplo:

“Eu fiquei magoado quando você disse aquilo…”

3. Troque de lugar

Agora sente-se na cadeira vazia e responda como se fosse o outro.

Aqui entra algo profundo:

você acessa percepções, memórias e até empatia que estavam escondidas.

4. Volte para sua cadeira

Responda novamente.

Esse “vai e vem” cria um diálogo interno que antes estava travado.

🧠 Para que serve?

A técnica ajuda a:

Resolver conflitos internos

Elaborar sentimentos não expressos

Trabalhar luto e despedidas

Reduzir ansiedade emocional

Desenvolver autocompreensão

⚠️ Um cuidado importante

Apesar de parecer um exercício simples, ele pode ativar emoções intensas.

Por isso, quando possível, é ideal fazer com acompanhamento terapêutico — especialmente em temas mais delicados.

🌱 Um jeito de entender com profundidade

A cadeira vazia não é sobre “imaginar alguém”.

É sobre dar voz ao que ficou interrompido dentro de você.

Muitas vezes, não sofremos apenas pelo que aconteceu…

mas pelo que não conseguimos dizer.

A aplicação na arteterapia - versão pessoal.

A aplicação da cadeira vazia na arteterapia é um encontro muito bonito entre a expressão verbal e a simbólica. Aqui, não se trata apenas de falar — mas de dar forma, cor e imagem ao que não encontrou linguagem direta.

Essa integração dialoga tanto com a Gestalt-terapia quanto com a Arteterapia, ampliando o campo de acesso ao mundo interno.



🎨🪑 O que muda na arteterapia?

Na prática tradicional, a pessoa fala com a cadeira.

Na arteterapia, ela cria antes de dialogar.

A cadeira deixa de ser apenas um lugar imaginário e passa a ser ocupada por uma representação simbólica:

um desenho

uma pintura

uma colagem

um objeto construído

Ou seja: o invisível ganha corpo.

🖌️ Como aplicar (passo a passo terapêutico)

1. Criação da “presença”

Convide o paciente a representar quem ou o que ocupará a cadeira:

“Desenhe essa pessoa”

“Dê forma à sua ansiedade”

“Como seria a sua criança interior?”

Não importa técnica — importa autenticidade simbólica.

2. Posicionamento no espaço

Coloque a produção artística na cadeira vazia.

Isso gera um efeito poderoso: externaliza o conflito.

O que estava dentro agora pode ser visto, encarado, nomeado.

3. Diálogo com a obra

O paciente fala com a criação:

“O que você quer de mim?”

“Por que você aparece assim?”

A obra funciona como mediadora — muitas vezes facilitando falas que não sairiam diretamente.

4. Inversão de papéis

Agora o paciente muda de lugar e responde como se fosse a própria imagem criada.

Esse momento costuma trazer:

insights inesperados

emoções mais profundas

contato com conteúdos inconscientes

5. Integração simbólica

Ao final, é possível:

modificar a obra

acrescentar elementos

rasgar, reconstruir ou transformar

Aqui acontece algo essencial:

não apenas falar sobre a dor — mas transformá-la simbolicamente.

🌱 Potências clínicas dessa abordagem

Acessa conteúdos difíceis de verbalizar

Diminui resistências (especialmente em adolescentes)

Favorece projeção e elaboração emocional

Trabalha traumas de forma mais segura e indireta

Integra corpo, emoção e cognição

👁️ Um olhar mais profundo

Na arteterapia, a cadeira vazia deixa de ser apenas técnica…

e se torna quase um pequeno ritual de encontro consigo mesmo.

A imagem criada não é só um desenho.

Ela é uma porta.

E, muitas vezes, o paciente não precisa encontrar respostas prontas —

basta, pela primeira vez, sentar-se diante daquilo que sempre evitou olhar.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Quando as marcas deixam de ser feridas e se tornam linguagem da alma


 Quando as marcas deixam de ser feridas e se tornam linguagem da alma

Há uma pergunta que atravessa silenciosamente a existência humana: o que você fez com aquilo que te aconteceu? Não se trata apenas dos fatos, mas daquilo que eles produziram dentro de você. A dor, por si só, não nos define — mas o sentido que damos a ela, sim.

A imagem do pequeno inseto que transforma suas pintas em corações é, na sua simplicidade, uma metáfora profundamente clínica e espiritual. Ela fala de um processo que, na psicologia, chamamos de ressignificação, e que, na teologia, pode ser compreendido como redenção da experiência vivida.

A dor que marca e a alma que interpreta

Na prática clínica, especialmente com adolescentes e adultos que carregam histórias de crítica, rejeição ou abandono, vemos que o sofrimento não está apenas no evento original, mas na narrativa construída a partir dele. Uma criança que ouviu repetidamente que “não é capaz” pode crescer acreditando que há algo essencialmente errado consigo.

Essas marcas tornam-se, muitas vezes, “verdades internas”. Elas não são apenas lembranças — são lentes. E é através dessas lentes que a pessoa passa a enxergar a si mesma, o outro e o mundo.

Mas aqui está o ponto crucial: a marca não precisa ser apagada para deixar de doer. Ela precisa ser reinterpretada.

Ressignificar não é negar, é transformar

Existe um equívoco comum ao se falar de ressignificação: o de que ela seria uma forma de minimizar ou negar a dor. Não é. Ressignificar é um ato de coragem psíquica e espiritual. É olhar para a ferida e dizer: isso me feriu, mas não me define.

Na psicologia essencial — essa integração entre pensamento, emoção, história e simbolismo — compreendemos que o ser humano não é prisioneiro do que viveu, mas coautor do que fará com isso.

E aqui a teologia nos oferece uma ponte poderosa.

A lógica do Reino: transformar cicatrizes em testemunho

Na tradição cristã, a dor nunca é o ponto final. A cruz, símbolo máximo do sofrimento, torna-se também símbolo de redenção. Não porque a dor foi ignorada, mas porque foi atravessada com sentido.

A ressurreição não apaga as marcas — Cristo ressuscitado ainda carrega as cicatrizes. Mas agora elas não são mais sinais de derrota, e sim de vitória.

Essa é uma chave psicoteológica fundamental: Deus não trabalha na negação da história, mas na sua transfiguração.

Entre a crítica e a reconstrução

Muitos de nós carregamos “pintas” deixadas por experiências difíceis: palavras duras, rejeições, falhas, perdas. No início, elas parecem apenas manchas — lembranças incômodas que gostaríamos de apagar.

Mas o processo terapêutico e espiritual nos convida a algo diferente: pegar o “pincel” da consciência e começar a redesenhar essas marcas.

Não se trata de fantasia, mas de elaboração. É quando a pessoa consegue dizer:

“Aquilo que me disseram não define quem eu sou.”

“Aquilo que vivi não limita quem eu posso me tornar.”

“Minha história não termina onde fui ferido.”

O risco de não ressignificar

Quando esse processo não acontece, as marcas continuam sendo vividas como feridas abertas. E isso pode gerar:

-baixa autoestima persistente

-dificuldade de vínculo

-necessidade constante de validação externa

-reprodução inconsciente de padrões dolorosos

Além disso, há um fenômeno importante: pessoas feridas que não elaboram suas dores tendem, muitas vezes, a ferir outros — não por maldade deliberada, mas por repetição psíquica.

Por isso, ressignificar não é apenas um ato de autocuidado — é também um ato ético.

A espiritualidade como espaço de reconstrução

A fé, quando bem compreendida, não exige que você seja perfeito — ela te convida a ser inteiro. E ser inteiro inclui reconhecer as próprias marcas.

Na espiritualidade madura, não há negação da dor, mas há esperança de transformação. Há um Deus que não apenas vê a ferida, mas caminha com você no processo de dar a ela um novo significado.

Ressignificar, nesse contexto, é também um ato de fé: acreditar que aquilo que parecia apenas dor pode se tornar fonte de sentido, empatia e até cuidado com o outro.

Um convite silencioso

Talvez hoje a pergunta não seja “o que fizeram com você”, mas sim:

o que você está fazendo com isso agora?

Você pode continuar vendo apenas manchas…

ou pode, com tempo, consciência e cuidado, transformá-las em algo que fale de amor, de superação, de vida.

Nem toda marca desaparece.

Mas toda marca pode ganhar um novo significado.

📞 Telefone: 41 99845-1364 | 41 99635-3923

📷 Instagram: @psicoterapeutaabiliomachado

Referência:

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Autismo em Mulheres Adultas: o silêncio de quem aprendeu a caber no mundo

 


Autismo em Mulheres Adultas: o silêncio de quem aprendeu a caber no mundoI

Por Abilio Machado 

Introdução

Há mulheres que passaram a vida inteira tentando entender por que se sentiam diferentes — não exatamente deslocadas, mas como se habitassem o mundo por dentro de um vidro invisível. Participam, sorriem, respondem… mas algo nunca repousa.

Durante muito tempo, o Transtorno do Espectro Autista foi desenhado a partir de olhares masculinos. E, nesse desenho, muitas mulheres ficaram fora da moldura. Não por ausência de traços, mas por excesso de adaptação.

O autismo feminino existe — mas, frequentemente, ele não grita. Ele sussurra.

Desenvolvimento

O corpo que aprende a atuar

Desde cedo, muitas mulheres aprendem a observar antes de agir. Estudam gestos, decoram expressões, treinam respostas. Não é falsidade — é sobrevivência emocional.

Esse fenômeno, conhecido como camuflagem social, cobra um preço alto: cansaço profundo, sensação de não pertencimento e, por vezes, a angústia de não saber quem se é sem o roteiro aprendido (Hull et al., 2017).

É como se viver fosse, diariamente, entrar em cena.

O mundo sentido em volume alto

Há também um corpo que sente demais.

Luzes que incomodam. Sons que atravessam. Ambientes cheios que não apenas cansam — invadem. A Neurociência nos ajuda a compreender que, no autismo, o processamento sensorial pode acontecer de forma amplificada (Robertson & Baron-Cohen, 2017).

Mas, na clínica, isso se traduz de outro jeito: em silêncios depois do excesso, em necessidade de recolhimento, em um cansaço que não se explica — apenas se sente.

Profundidade não é exagero

Muitas dessas mulheres carregam interesses intensos, afetos densos, pensamentos que mergulham fundo.

São vistas como “sensíveis”, “intensas”, “artísticas”. E são mesmo. Mas, às vezes, há mais ali: uma forma própria de organizar o mundo, de se relacionar com o sentido das coisas.

Na psicoarteterapia, esses caminhos simbólicos não são corrigidos — são acolhidos como linguagem.

Os nomes que vieram antes

Antes do nome que organiza, vieram outros que confundiram.

Ansiedade. Depressão. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Transtorno de personalidade borderline.

Diagnósticos que, muitas vezes, descrevem partes — mas não contam a história inteira.

E assim, o essencial vai sendo adiado.

Discussão

Há uma expectativa silenciosa sobre o que é “ser mulher”: saber se relacionar, cuidar, perceber o outro, se adaptar.

E quando alguém precisa aprender tudo isso de forma consciente, treinada, exaustiva — algo se rompe por dentro.

A escuta clínica, então, precisa ser mais do que técnica. Precisa ser ética e sensível. Precisa perceber o que não foi dito, o que foi escondido para caber, o que foi silenciado para ser aceito.

Nesse caminho, a psicoarteterapia oferece algo raro: um espaço onde não é preciso performar.

Como nos lembra Winnicott (1975), é no espaço do brincar — onde não há exigência de acerto — que o verdadeiro self pode emergir.

E, às vezes, é ali que uma mulher, pela primeira vez, se encontra.

Conclusão

Receber um diagnóstico na vida adulta não é o início de um problema — é o início de uma tradução.

De repente, o passado faz sentido. As dificuldades ganham contexto. E a culpa começa, lentamente, a ceder lugar à compreensão.

Reconhecer o autismo feminino é reconhecer histórias que foram vividas em silêncio.

E talvez, mais do que qualquer nome, o que essas mulheres precisam é de algo mais simples — e mais profundo:

Um lugar onde possam existir sem precisar se adaptar o tempo todo.

Referências

HULL, L. et al. “Putting on My Best Normal”: Social Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 2017.

LAI, M.-C. et al. Sex/Gender Differences and Autism: Setting the Scene for Future Research. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 2015.

ROBERTSON, C. E.; BARON-COHEN, S. Sensory perception in autism. Nature Reviews Neuroscience, 2017.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 2014.


📲 Redação

Há mulheres que passaram a vida inteira tentando se encaixar… sem nunca entender por quê.

O autismo em mulheres adultas muitas vezes não aparece como nos livros. Ele se esconde na adaptação, no cansaço após interações, na sensibilidade intensa e na sensação persistente de ser “diferente”.

Muitas aprenderam a atuar socialmente tão bem… que desapareceram de si mesmas.

O diagnóstico não rotula — ele revela.

Ele organiza uma história que, por muito tempo, foi vivida em silêncio.

O autismo feminino existe.

E merece ser visto, compreendido e acolhido.

#AutismoFeminino #SaúdeMental #Psicologia #Neurodiversidade #Psicoarteterapia


Olha eu aqui, de qualquer ! Me nota!



Uma análise sobre o indivíduo narcísico é a sua necessidade de ser visto e ser notado.

 O Nascido que Precisa Ser Visto

Sentado no banco de madeira — desses que rangem mais do que sustentam —, observo o desfile silencioso das personas. Não as que caminham com os pés, mas as que circulam com imagens, frases, títulos e pequenas coroas invisíveis.

Há um homem — chamemos de “o nascido” — que insiste em nascer todos os dias. Não no sentido biológico, mas simbólico. Ele nasce quando cria um conselho, quando inventa um congresso, quando pede votos para decidir quem é o mais belo Papai Noel.

Ele nasce… porque talvez nunca tenha sentido que nasceu o suficiente.

A questão não é o grupo.

Não é o concurso.

Não é o Papai Noel.

É o parto que não terminou.

Na clínica, aprendemos que a autoestima não se sustenta apenas com aplausos. Ela se estrutura, sobretudo, quando alguém — lá atrás — olha e diz: “eu te vejo como você é, e isso basta por agora.”

Quando isso falha, o sujeito cresce com uma fome estranha:

não de comida, não de afeto direto…

mas de confirmação de existência.

E então ele busca.

Busca nos grupos.

Busca nas narrativas.

Busca na estética.

Busca no “ser o melhor”.

Porque, no fundo, não se trata de ser melhor —

trata-se de não desaparecer.

A identidade, quando frágil, não se sustenta sozinha. Ela precisa de espelhos. Mas não qualquer espelho — precisa daqueles que devolvem uma imagem ampliada, idealizada, às vezes até fantasiosa.

E aí nasce um movimento delicado e perigoso:

o sujeito passa a depender da

validação externa

como quem depende de ar.

Sem ela, sufoca.

Com ela, sobrevive… mas não se constrói.

Há ainda um risco silencioso nesse tipo de dinâmica: quando alguém sustenta sua própria autoestima a partir da comparação constante, acaba, muitas vezes sem perceber, criando um ambiente onde o valor do outro também passa a ser medido por uma régua estreita. O brilho de um passa a depender do apagamento de outros. E, assim, o que poderia ser encontro vira disputa, o que poderia ser partilha vira ranking. Em contextos assim, pessoas mais sensíveis ou com a autoestima já fragilizada podem começar a duvidar de si, a se sentir “menos”, a perder o sentido do próprio papel. Não por incapacidade — mas por estarem inseridas numa lógica onde existir deixou de ser suficiente, e passou a ser necessário vencer.

Há também o narcisismo — esse tão mal compreendido. Nem todo narcisismo é arrogância. Às vezes, é ferida vestida de brilho.

O problema não está em querer ser reconhecido.

O problema começa quando o reconhecimento vira condição para existir.

E como olhar para alguém assim sem cair no julgamento fácil?

Talvez lembrando que, por trás do “conselho”, existe alguém tentando organizar o próprio caos.

Por trás do “concurso”, alguém tentando medir o próprio valor.

Por trás da fantasia, alguém tentando sobreviver à realidade que não acolheu.

Alguns cuidados — para quem observa e para quem vive isso:

Nem toda exibição é vaidade. Às vezes, é um pedido de ajuda mal formulado.

Confrontos diretos tendem a gerar mais defesa do que reflexão.

Evite reforçar excessivamente a fantasia — mas também evite humilhar a tentativa de existir.

Quando possível, devolva perguntas, não sentenças.

E, clinicamente, atenção a padrões persistentes de dependência de validação, distorção da realidade e dificuldade de sustentar frustrações.

Isso pode indicar um funcionamento psíquico que merece cuidado — não rótulo.

Em alguns casos, pode se aproximar de quadros mais estruturados, como o Transtorno de Personalidade Narcisista — mas a prudência é parte da ética: nem todo comportamento é diagnóstico.

No fim, o “nascido” não quer um trono.

Ele quer um berço que não teve.

E enquanto não encontra, vai criando palcos —

onde possa, por alguns instantes,

ser aplaudido…

como se, enfim, tivesse chegado ao mundo.

Apresentação do momento

Escrevo isso quase adormecendo, encostado no banco frio de uma igreja vazia, enquanto o eco dos meus próprios pensamentos parece pedir silêncio — e escuta.

#PsicologiaClinica #Narcisismo #Autoestima #Identidade #SaudeMental #Reflexao #Psicanalise #ComportamentoHumano #Cronica #AbilioMachado

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

domingo, 12 de abril de 2026

Os Guardiões da Moral (ou: o dia em que o discurso passou mal no motel)

 


Os Guardiões da Moral (ou: o dia em que o discurso passou mal no motel)

Tem gente que não fala.

Declara.

Não conversa.

Decreta.

E não vive — fiscaliza.

São os guardiões da moral.

Aqueles que acordam com um propósito claro: salvar o mundo… dos outros.

Eles sabem quem está errado, quem está em pecado, quem vai para o inferno — e, curiosamente, sempre sobra pouco tempo para olhar o próprio espelho.

Mas o espelho, convenhamos, não aplaude.

E eles preferem plateia.

Então sobem.

No púlpito, na rede social, na roda de conversa… nos grupos de whatsapp...

e vomitam virtude como quem despeja certeza.

Tudo muito firme.

Muito seguro.

Muito incontestável.

Algumas vezes falam e dividem o santificado e o mundo - ímpio.

Até que a vida — essa péssima administradora de personagens — resolve escrever um roteiro sem consultar o autor.

E aí…

O defensor da família aparece em adultério.

O pregador da pureza tropeça nos próprios desejos.

Na falcatrua de negócios ilícitos.

Muitos até desvios monetários da própria igreja a que dirige.

Dentro de um carro com algum menor num estacionamento ou rua escura... Andando de calcinha feminina e dizendo investigar alguma irmãos... Ou indo para montes e dizendo ter dormido de conchinha só devido ao frio da madrugada...

O vigilante da moral… é encontrado, ironicamente, fora do script.

Não é sobre o erro.

Porque errar é humano — inclusive para quem fala de Deus com voz firme e dedo em riste apontando a todos.

O incômodo não é a queda.

É o pedestal.

Porque quem se coloca acima da condição humana não cai…

despenca.

E o barulho não vem do erro —

vem da altura da fantasia.

No fundo, talvez fosse mais simples:

Menos discurso.

Mais consciência.

Menos condenação.

Mais verdade.

Porque quem precisa gritar que é santo…

geralmente está tentando abafar algo que ainda não conseguiu escutar.

E a vida…

ah, a vida não se impressiona com sermão.

Ela tem um talento curioso:

revelar, no tempo certo, aquilo que o sujeito tentou esconder de si mesmo.

E aí num afoito, o desafortunado acaba por infartar sobre a amante no motel e para piorar a amante também é aquela irmã casada, toda crente, que tinha no imaginário a perfeição.

Religião, Espiritualidade e Transcendência: entre estrutura, experiência e sentido.



 Religião, Espiritualidade e Transcendência: entre estrutura, experiência e sentido

Por Abilio Machado 

"Entre regras, sentidos e mistérios, o ser humano segue tentando compreender aquilo que o ultrapassa — e, ao mesmo tempo, o habita."

Apresentação

Este artigo propõe uma análise interdisciplinar — psicológica, filosófica e teológica — acerca das diferenças e intersecções entre religião, espiritualidade e transcendência. Em um contexto contemporâneo marcado por tensões entre fé, autonomia e crítica institucional, torna-se fundamental compreender como essas dimensões operam na constituição subjetiva do indivíduo.

Introdução

A experiência do sagrado acompanha a humanidade desde suas origens, manifestando-se por meio de sistemas organizados de crença, vivências subjetivas e experiências de ultrapassamento existencial. Contudo, a confusão entre religião, espiritualidade e transcendência frequentemente gera reducionismos — ora institucionalizando o que é experiência íntima, ora subjetivando excessivamente aquilo que possui dimensão coletiva.

Além disso, observa-se que, quando instrumentalizada, a religião pode assumir funções de controle e normatização que impactam diretamente a autonomia psíquica dos indivíduos. Diante disso, este estudo busca distinguir conceitualmente tais dimensões, analisando seus efeitos na subjetividade humana.

Desenvolvimento

Religião: sistema simbólico e estrutura social

A religião pode ser compreendida como um sistema organizado de crenças, rituais e normas que orientam a relação do indivíduo com o sagrado e com a comunidade.

Segundo Émile Durkheim, a religião constitui um sistema solidário de crenças e práticas relativas ao sagrado, promovendo coesão social. Já Clifford Geertz a define como um sistema cultural que fornece modelos de significado para interpretar a realidade.

Sob essa perspectiva, a religião cumpre funções importantes:

organização social

construção de identidade coletiva

transmissão de valores

Entretanto, quando rigidificada, pode tornar-se:

normativa em excesso

repressiva

inibidora do pensamento crítico

Espiritualidade: experiência subjetiva e busca de sentido

Diferentemente da religião institucional, a espiritualidade refere-se à vivência pessoal do sagrado e à busca de sentido existencial.

Para Viktor Frankl, a principal motivação humana é a busca de sentido, sendo a espiritualidade um dos caminhos para essa realização. Na psicologia analítica, Carl Gustav Jung relaciona a espiritualidade ao processo de individuação, no qual o sujeito integra aspectos conscientes e inconscientes.

A espiritualidade, portanto, caracteriza-se por:

autonomia subjetiva

reflexão existencial

abertura ao significado

Transcendência: o ultrapassar da experiência ordinária

A transcendência refere-se à capacidade humana de ir além de si mesmo, experienciando estados de conexão com algo maior.

Abraham Maslow descreve essas vivências como “experiências de pico”, marcadas por sensação de unidade e plenitude. Já Rudolf Otto identifica o encontro com o sagrado como experiência do numinoso — simultaneamente fascinante e perturbadora.

Diferentemente da religião, a transcendência não pode ser sistematizada; trata-se de uma experiência que ocorre, não de uma prática que se impõe.

Discussão

A distinção entre religião, espiritualidade e transcendência revela que tais dimensões não são excludentes, mas complementares.

Entretanto, quando a religião se sobrepõe às demais, anulando a subjetividade e o pensamento crítico, pode gerar efeitos psicológicos adversos, como:

culpa exacerbada

dependência emocional

supressão da autonomia

Nesse contexto, o desejo humano de poder torna-se um fator relevante. Conforme argumenta Michel Foucault, o poder se manifesta nas relações e discursos, podendo transformar estruturas religiosas em mecanismos de controle.

Além disso, Friedrich Nietzsche aponta que a moral pode ser utilizada como instrumento de dominação, mascarando interesses de controle sob a aparência de virtude.

Do ponto de vista psicanalítico, Sigmund Freud sugere que a rigidez moral pode funcionar como mecanismo defensivo, enquanto Carl Gustav Jung destaca que conteúdos não integrados tendem a ser projetados no outro, intensificando julgamentos.

Conclusão

Religião, espiritualidade e transcendência representam dimensões distintas da experiência humana com o sagrado:

A religião organiza

A espiritualidade interioriza

A transcendência ultrapassa

O equilíbrio entre essas dimensões favorece um desenvolvimento humano mais saudável, no qual fé e pensamento coexistem. Por outro lado, a absolutização de qualquer uma delas — especialmente quando associada ao exercício de poder — pode comprometer a autonomia e a integridade psíquica do indivíduo.

Assim, uma vivência madura do sagrado exige não apenas crença, mas também consciência crítica e responsabilidade ética.

Referências

Durkheim, É. As formas elementares da vida religiosa

Geertz, C. A interpretação das culturas

Frankl, V. Em busca de sentido

Jung, C. G. O homem e seus símbolos

Maslow, A. Religions, Values, and Peak Experiences

Otto, R. O sagrado

Foucault, M. Vigiar e punir

Nietzsche, F. Genealogia da moral

Freud, S. O futuro de uma ilusão

terça-feira, 7 de abril de 2026

A solidão não bate à porta. Ela tem a chave

 


A solidão não bate à porta. Ela tem a chave.

Entra sem pedir licença, senta no mesmo lugar de sempre e cruza as pernas com uma intimidade que ninguém mais conseguiu sustentar por muito tempo. Não pergunta como foi o dia, porque já sabe. Ela não precisa de atualizações — conhece o roteiro, os desvios, os tropeços repetidos com pequenas variações de esperança.

É curioso… há quem tema a solidão como se fosse abandono, mas, no fundo, ela é a única que permanece depois que todos os ensaios de pertencimento falham. Quando a gente tenta caber em versões mais aceitáveis de si mesmo, quando força um sorriso que não encontra eco, quando abre janelas internas só para perceber que ninguém entra — é para ela que voltamos.

E ela não faz cena.

Não cobra coerência, não exige performance, não pede explicações. Apenas acolhe, com um silêncio que, de tão constante, vira linguagem. Um silêncio que diz: “eu sei”. E, às vezes, é só isso que a gente precisa — alguém ou algo que saiba, sem que a gente precise se justificar.

Há uma fidelidade estranha nisso.

Porque a solidão não promete cura, mas entrega presença. Não resolve a dor, mas não a nega. Não transforma perdas em aprendizado bonito, mas segura a nossa mão enquanto a gente tenta não desmoronar por completo.

Talvez o erro esteja em tratá-la como inimiga.

Talvez ela seja, na verdade, uma espécie de testemunha — aquela que assiste todas as nossas tentativas de ser outro alguém e, ainda assim, nos reconhece quando voltamos a ser quem somos de verdade. Mesmo quebrados. Mesmo cansados. Mesmo com a sensação de que amar virou um jogo onde a gente sempre perde na prorrogação.

E é aí que mora o desconforto.

Porque, no fundo, a solidão não nos abandona… mas também não nos ilude. Ela nos devolve a nós mesmos — sem maquiagem, sem plateia, sem aplauso.

E nem sempre estamos prontos para esse encontro.

Mas ele acontece. Sempre.

domingo, 5 de abril de 2026

Tento me reconstruir todos os dias sem incomodar ninguém...

 


Tem dias em que eu me recolho em silêncio… tentando juntar os pedaços de mim sem fazer barulho. Como se reconstruir fosse algo que eu devesse fazer escondido, para não incomodar ninguém.


Mas a verdade é que recomeçar dói, cansa… e, às vezes, precisa ser visto, acolhido, partilhado. Nem tudo em nós precisa caber no silêncio.


Ainda assim, sigo… um pouco por vez. Porque mesmo quieto, o coração continua tentando.



#Recomeço #Autoconhecimento #SilêncioQueFala #Processo #CuraInterior

PRINCIPAIS PONTOS de relacionamentos amorosos...



 PRINCIPAIS PONTOS de relacionamentos amorosos...

Há laços energéticos, emocionais e físicos que estão presentes em nossa vida. Mesmo que você não os enxergue. 

Mesmo que você busque se isolar, nunca estará sozinha(o) Você está sempre conectado com o mundo , natureza e as pessoas. Mesmo que não há dialogo ou interação. (conexão energética)

Há dois tipos de conexão (cármica - Espiritual) e a construída através dos nossos padrões energéticos e decisões que tomamos. 

Certos eventos bons e ruins em nossa vida, fazem parte da nossa missão na terra, não adianta fugir... A única diferença é o que cada um faz com estas experiências... Alguns constroem e edificam, outros se lamentam e estagnam.

Sexo e o amor são os maiores fortalecedores de conexão e laços... Quando fortalecidos por anos, são quase impossíveis de "romper". Por isso o caminho é sempre ressignificar, perdoar e compreender que o passado passou... se foi...

O passado que você foge é o futuro que você deixa de criar. Quando mais fugir do seu passado por medo, mais forte ele se torna.

Esquecer do passado não é a solução... O único sentimento que deve existir no passado é o de gratidão pelas coisas boas e ruins. Enquanto não houver gratidão, enquanto não tiver preenchido seu passado com amor, continuará a carrega-lo no presente. 

Enquanto houver ressentimentos, traumas, dores, medos, inseguranças, nenhum relacionamento vai prosperar no agora. 

As expectativas que carregamos de um relacionamento para o outro, corroem pouco a pouco o amor e a harmonia. 

A verdadeira transformação e aprendizado levam tempo! Muitas dores que carregamos foram construídas ao longo de vários anos. E por este motivo precisamos de tempo para las cura também. 


Terapeuta Abilio Machado

Psicoterapeuta Abilio Machado

quinta-feira, 2 de abril de 2026

O corajoso ato de mudar de caminho

 


O Corajoso Ato de Mudar de Caminho

Há um momento silencioso — quase imperceptível — em que algo dentro de nós deixa de fazer sentido. Não é um rompimento barulhento, nem uma crise escancarada. É mais sutil. Um cansaço que não se explica, uma insistência que já não encontra eco, uma esperança que começa a parecer teimosa demais para continuar sendo chamada de fé.

Durante muito tempo, fomos ensinados a persistir. A não desistir. A lutar até o fim. E, de fato, há virtude nisso. Mas pouco se fala sobre o outro lado dessa moeda: o risco de transformar perseverança em prisão.

Insistir, às vezes, não é sinal de força — é medo disfarçado.

Medo de admitir que não deu certo.

Medo de recomeçar.

Medo de parecer fraco diante dos outros… ou pior, diante de si mesmo.

Então seguimos. Arrastando relações que já não respiram, sustentando projetos que já não nos representam, permanecendo em lugares onde nossa alma já fez as malas há muito tempo.

E é nesse ponto que a perda acontece.

Não quando mudamos de direção.

Mas quando nos abandonamos tentando manter algo que já nos abandonou primeiro.

Recomeçar carrega um estigma injusto, como se fosse sinônimo de fracasso. Mas, sob uma lente mais honesta, recomeçar é um dos atos mais lúcidos que alguém pode ter. Exige coragem para olhar para a própria história sem maquiagem, reconhecer limites e, principalmente, aceitar que nem tudo que começa precisa continuar.

Há uma espécie de luto em cada mudança de rota. Um adeus ao que poderia ter sido. Um confronto com expectativas não cumpridas. Mas também há algo profundamente vivo nisso tudo: a possibilidade.

Mudar de direção não apaga quem você foi. Pelo contrário, integra. Cada tentativa, cada erro, cada insistência — até mesmo as desnecessárias — compõem o mapa que agora te permite escolher com mais consciência.

Talvez o problema nunca tenha sido desistir.

Talvez o problema tenha sido permanecer além do necessário.

Existe uma sabedoria silenciosa em saber a hora de parar. Não como quem foge, mas como quem se respeita. Não como quem perde, mas como quem finalmente entende que viver não é sobre provar resistência infinita, e sim sobre alinhar-se com aquilo que faz sentido.

Porque, no fim das contas, perder não é mudar de caminho.

Perder é continuar caminhando para um lugar onde você já não existe mais.

Ele estava sentado no banco da igreja, olhando fixamente para o altar vazio, como se esperasse uma resposta que nunca viria daquele silêncio. Foi ali, entre um suspiro e outro, que percebeu: talvez Deus não estivesse pedindo que ele insistisse… mas que ele tivesse coragem de recomeçar.

#recomeço #coragem #autoconhecimento #psicologia #reflexão #mudança #vida #sentido #fé #psicoteologia

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O custo do jogo online no Brasil: as bets.

 O questionamento que trago não fala apenas de números — revela um conflito profundo entre desejo, ilusão e destino. O fenômeno das apostas online, quando atravessa a realidade das classes mais vulneráveis, deixa de ser apenas uma prática econômica e passa a ser um sintoma existencial, psicológico e espiritual. 


O custo do jogo online no Brasil: as bets

Vamos olhar para isso com um olhar psicoteológico.

🧠 O desejo imediato e a mente vulnerável

Na psicologia, sabemos que o comportamento de apostar ativa circuitos de recompensa no cérebro, especialmente ligados à dopamina. A promessa de ganho rápido cria uma sensação de controle ilusório sobre a própria vida.

Para muitos brasileiros em situação de vulnerabilidade, apostar não é apenas um jogo — é uma tentativa de escapar da dor, da escassez e da sensação de impotência.

O problema é que o alívio é momentâneo, mas a consequência é duradoura: dívida, culpa e vergonha.

✝️ A dimensão espiritual: entre a providência e a tentação

Do ponto de vista teológico, há um princípio importante: a relação entre confiança em Deus e a tentação do “atalho”.

A lógica do jogo muitas vezes seduz com a ideia de ganho sem processo, de colheita sem plantio. Isso confronta diretamente princípios espirituais fundamentais, como:

O valor do esforço e da perseverança

A sabedoria na administração dos recursos

A confiança na providência divina, e não no acaso

A aposta, nesse contexto, pode se tornar uma forma moderna de idolatria — não necessariamente consciente — onde o dinheiro rápido ocupa o lugar da esperança.

💔 Endividamento como ferida emocional

O card aponta que o impacto é maior nas classes C, D e E. Psicologicamente, isso não é coincidência.

A escassez constante gera um estado mental chamado de “mentalidade de sobrevivência”. Nesse estado, o indivíduo:

Pensa mais no curto prazo

Assume mais riscos

Busca soluções imediatas

Ou seja, quanto menos se tem, maior é a tendência de apostar — não por irresponsabilidade, mas por desespero.

O endividamento, então, deixa de ser apenas financeiro. Ele se torna:

Endividamento emocional (culpa, ansiedade, vergonha)

Endividamento relacional (conflitos familiares)

Endividamento espiritual (sensação de afastamento de Deus, fracasso moral)

📉 Educação interrompida: o futuro hipotecado

Quando o card mostra jovens deixando a faculdade por causa de dívidas de jogo, vemos algo ainda mais grave: a quebra do projeto de vida.

A educação representa construção, tempo, maturidade. O jogo representa imediatismo, impulso e risco.

Aqui existe uma tensão simbólica forte:

A educação constrói o futuro

A aposta consome o presente

🔍 Uma leitura psicoteológica mais profunda

Podemos compreender esse fenômeno como uma tentativa humana de resolver, de forma mágica, dores que são estruturais.

No fundo, o jogo oferece três promessas ilusórias:

Controle sobre o destino

Alívio da dor sem enfrentamento

Valor pessoal medido pelo dinheiro ganho

Mas a espiritualidade saudável aponta outro caminho:

Sentido antes de resultado

Processo antes de recompensa

Identidade antes de conquista

🌱 Caminho de reconstrução

Uma abordagem psicoteológica não condena — ela compreende e redireciona.

O caminho passa por:

Consciência: entender o ciclo emocional do jogo

Responsabilização sem culpa destrutiva

Reconexão espiritual (não baseada em punição, mas em acolhimento)

Educação emocional e financeira

Resgate do sentido de vida além do dinheiro

Conclusão

O avanço das apostas entre os mais pobres não é apenas uma questão econômica — é um grito silencioso de quem busca esperança onde só encontra ilusão.

Entre a fé e o acaso, entre o esforço e o atalho, o ser humano continua tentando dar sentido à própria dor.

E talvez a maior cura não esteja em proibir o jogo, mas em restaurar no sujeito aquilo que o jogo tenta substituir: esperança, dignidade e propósito.

terça-feira, 31 de março de 2026

O Dia em que Esqueci de Mim

 

O Dia em que Esqueci de Mim

Há uma educação silenciosa que nos atravessa desde cedo.

Ela não vem escrita em livros, nem é ensinada com clareza nas salas de aula.

É aprendida nos olhares de aprovação, nos sorrisos que recebemos quando agradamos… e, principalmente, nas ausências que sentimos quando ousamos ser quem somos.

Fomos ensinados a não incomodar.

A não decepcionar.

A sermos bons filhos, bons amigos, bons profissionais.

E, no meio dessa lista interminável de “bons”, esquecemos de aprender a ser inteiros.

Há algo profundamente doloroso em viver para corresponder.

Porque, aos poucos, vamos nos moldando às expectativas alheias como quem veste roupas que nunca serviram de fato.

Apertam aqui, incomodam ali… mas seguimos usando, porque fomos convencidos de que o desconforto é o preço do amor.

E assim adoecemos.

Não de forma brusca, não de uma vez só.

Mas em pequenas renúncias diárias.

Na palavra que engolimos.

No “sim” que dizemos querendo dizer “não”.

Na culpa que sentimos ao tentar nos priorizar.

No cansaço que não é físico, mas existencial.

Adoecemos porque nos abandonamos.

Há um momento — e ele chega, inevitavelmente — em que o corpo começa a falar aquilo que a alma já grita há muito tempo.

Ansiedade, angústia, irritação, vazio…

Não são fraquezas.

São mensagens.

São partes de nós batendo à porta, pedindo para voltar para casa.

Talvez o maior desafio da vida não seja aprender a amar o outro,

mas reaprender a amar a si mesmo sem culpa.

E isso exige coragem.

Coragem para decepcionar expectativas.

Para quebrar padrões antigos.

Para sustentar o desconforto de não ser mais aquilo que esperavam de nós.

Porque, no fundo, a verdade é simples e dura:

quem vive para agradar a todos, inevitavelmente trai a si mesmo.

E não há saúde emocional possível onde existe autoabandono.

Cuidar de si não é egoísmo.

É responsabilidade afetiva consigo mesmo.

É reconhecer que você também merece o cuidado que sempre ofereceu aos outros.

Talvez hoje seja um bom dia para começar diferente.

Não precisa ser um grande gesto.

Às vezes, tudo começa com um pequeno movimento de retorno.

Um limite colocado.

Um silêncio respeitado.

Uma escolha feita por você.

Porque, no fim, não se trata de deixar de amar o outro…

mas de, finalmente, incluir a si mesmo nesse amor.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Quando Somos Nosso Próprio Obstáculo: A Psicologia da Autossabotagem


 Quando Somos Nosso Próprio Obstáculo: A Psicologia da Autossabotagem

Por Abilio Machado 

Introdução

Há um paradoxo silencioso que atravessa a experiência humana: desejamos crescer, avançar, conquistar — mas, não raras vezes, somos nós mesmos que interrompemos esse movimento. A autossabotagem não é um acidente, tampouco um simples erro de percurso. Trata-se de um fenômeno psicológico complexo, que envolve conflitos internos, crenças limitantes e mecanismos inconscientes de proteção.

Como já apontava Carl Gustav Jung, “até que você torne o inconsciente consciente, ele dirigirá sua vida e você o chamará de destino”. Nesse sentido, compreender a autossabotagem é, antes de tudo, um convite ao autoconhecimento.

Desenvolvimento

A autossabotagem pode ser entendida como um conjunto de comportamentos, pensamentos ou emoções que interferem negativamente na realização de objetivos pessoais. Ela surge, muitas vezes, como uma tentativa inconsciente de evitar dor emocional, rejeição ou fracasso.

Do ponto de vista da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse processo está profundamente ligado às crenças centrais disfuncionais. Aaron Beck (1997) descreve que indivíduos podem desenvolver ideias rígidas como “não sou capaz”, “vou fracassar” ou “não mereço sucesso”, que acabam influenciando suas ações de forma automática.

Já na perspectiva psicodinâmica, a autossabotagem pode ser vista como um conflito entre desejos conscientes e conteúdos inconscientes. Freud (1923) sugeria que forças internas, como o superego rígido, podem punir o indivíduo quando ele tenta se afastar de padrões internalizados, gerando comportamentos autodestrutivos.

Além disso, fatores como experiências na infância, críticas constantes, traumas emocionais e padrões familiares disfuncionais contribuem para a formação desse padrão.

Sintomas da Autossabotagem

A autossabotagem nem sempre é evidente. Muitas vezes, ela se manifesta de forma sutil e repetitiva. Entre os principais sinais, destacam-se:

Procrastinação constante, especialmente em tarefas importantes

Medo excessivo de falhar ou de ter sucesso

Perfeccionismo paralisante

Autocrítica intensa e desproporcional

Dificuldade em manter consistência em projetos ou relacionamentos

Comportamentos impulsivos que prejudicam conquistas

Desistência recorrente diante de desafios

Esses sintomas frequentemente geram um ciclo de frustração, reforçando crenças negativas e alimentando ainda mais o comportamento autossabotador.

Tratamentos e Caminhos de Superação

Superar a autossabotagem não significa eliminá-la completamente, mas aprender a reconhecê-la e transformá-la. Alguns caminhos terapêuticos incluem:

1. Psicoterapia

A TCC ajuda a identificar e reestruturar pensamentos disfuncionais, enquanto abordagens psicodinâmicas exploram os conflitos inconscientes que sustentam esses padrões.

2. Consciência emocional

Reconhecer emoções como medo, vergonha e insegurança é essencial. Como aponta Daniel Goleman (1995), a inteligência emocional começa pela capacidade de perceber e nomear o que se sente.

3. Reestruturação de crenças

Questionar pensamentos automáticos e substituí-los por interpretações mais realistas e funcionais.

4. Desenvolvimento da autocompaixão

Kristin Neff (2011) destaca que tratar-se com gentileza, em vez de crítica, favorece mudanças mais sustentáveis.

5. Pequenas ações consistentes

A mudança não ocorre por grandes rupturas, mas por pequenas decisões repetidas que reconstroem a confiança interna.

Discussão

A autossabotagem revela uma verdade desconfortável: muitas vezes, não é o mundo externo que nos limita, mas os significados que construímos sobre nós mesmos. No entanto, é importante compreender que esses padrões não surgem por fraqueza, mas como estratégias de sobrevivência emocional.

O que hoje impede o crescimento pode ter sido, em outro momento, uma forma de proteção. Essa compreensão é fundamental para evitar julgamentos e promover um processo terapêutico mais acolhedor.

Além disso, em uma sociedade que valoriza desempenho constante, a autossabotagem também pode ser uma resposta ao excesso de pressão, funcionando como uma forma inconsciente de resistência.

Conclusão

A autossabotagem não é um inimigo a ser combatido com dureza, mas um sinal a ser escutado com atenção. Ela aponta para feridas, crenças e histórias que ainda precisam ser elaboradas.

Ao desenvolver consciência, acolhimento e novas formas de pensar e agir, é possível transformar esse padrão em um caminho de crescimento. Afinal, o maior avanço não está em nunca falhar, mas em compreender por que falhamos — e, a partir disso, escolher diferente.

Referências Bibliográficas

BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva e Transtornos Emocionais. Porto Alegre: Artmed, 1997.

FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. Rio de Janeiro: Imago, 1923.

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

NEFF, Kristin. Self-Compassion: The Proven Power of Being Kind to Yourself. New York: William Morrow, 2011.

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1928.

Se quiser citar meu artigo;

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

domingo, 29 de março de 2026

Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites



Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites

Por Abílio Machado 

Introdução

Vivemos sob a pressão silenciosa de sermos sempre agradáveis, disponíveis e emocionalmente estáveis. A ideia de “ser uma boa pessoa” foi socialmente moldada como sinônimo de ausência de conflito, erro ou limite. No entanto, essa construção tem produzido sujeitos exaustos, ansiosos e desconectados de si.

Como afirma Carl Rogers, “o curioso paradoxo é que quando me aceito como sou, então posso mudar”. A aceitação da própria imperfeição não é fracasso moral — é o início de um processo autêntico de crescimento.

Desenvolvimento

A psicologia contemporânea aponta que muitas pessoas desenvolvem padrões de comportamento baseados em aprovação externa. Segundo Aaron T. Beck, crenças centrais como “preciso agradar para ser amado” estruturam pensamentos automáticos disfuncionais, levando a comportamentos de submissão e evitação de conflitos.

O  desconstruir esse modelo ao validar atitudes essenciais para a saúde psíquica:

Dizer não

Estabelecer limites

Não dar conta de tudo

Discordar de alguém

Errar

Defender o que sente

Mudar de ideia

Ficar de mau humor

Essas atitudes se alinham ao conceito de assertividade, amplamente estudado por Manuel J. Smith, que afirma que o indivíduo tem o direito de dizer não sem culpa e de mudar de opinião sem precisar se justificar constantemente.

Já Donald Winnicott contribui com a ideia do “falso self”, um mecanismo psíquico no qual a pessoa se adapta excessivamente às expectativas externas, perdendo o contato com seu self verdadeiro. Nesse sentido, a tentativa de ser “bom demais” pode, na verdade, ser um afastamento da autenticidade.

Discussão

A dimensão psicoteológica amplia essa reflexão. A figura de Jesus Cristo frequentemente é interpretada como modelo de perfeição moral, mas os textos revelam alguém que expressava limites claros, indignação e posicionamento.

Ele disse “não”, confrontou estruturas e não buscou agradar a todos — o que reforça a ideia de que a verdadeira integridade não está na aceitação universal, mas na coerência interna.

Além disso, Brené Brown destaca que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas “o berço da coragem, da conexão e da autenticidade”. Negar emoções como tristeza, frustração ou irritação é, portanto, negar partes essenciais da experiência humana.

O sofrimento psíquico surge quando o indivíduo tenta sustentar uma identidade idealizada. Essa dissonância entre o que se sente e o que se mostra gera ansiedade, culpa e esgotamento emocional.

Motivação

Talvez você tenha aprendido que ser bom era não incomodar.

Que amar era ceder sempre.

Que maturidade era suportar em silêncio.

Mas isso não é maturidade — é sobrecarga emocional.

Como aponta Albert Ellis, grande parte do sofrimento humano vem de crenças rígidas como “eu devo ser aprovado por todos o tempo todo”. Questionar essas exigências é um ato de libertação.

Você pode ser gentil sem ser permissivo.

Pode amar sem se anular.

Pode falhar sem se condenar.

Existe dignidade em ser humano — não em ser perfeito.

Conclusão

Ser uma boa pessoa não significa ausência de falhas, mas presença de consciência. Trata-se de viver com responsabilidade emocional sem abrir mão da própria identidade.

A integração entre limites, vulnerabilidade e autenticidade fortalece o indivíduo e melhora suas relações. A bondade saudável não exige autoabandono — ela inclui o próprio sujeito.

Como sintetiza Carl Rogers, tornar-se pessoa é um processo contínuo de aceitação, mudança e autenticidade.

Ser bom, portanto, é também saber onde você termina — e onde o outro começa.

Referências Bibliográficas

BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva e os Transtornos Emocionais. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

BROWN, Brené. A Coragem de Ser Imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.

ELLIS, Albert. A Guide to Rational Living. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1961.

ROGERS, Carl. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

SMITH, Manuel J. Quando Digo Não, Me Sinto Culpado. São Paulo: Saraiva, 2000.

WINNICOTT, Donald W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

BÍBLIA SAGRADA. Diversas edições.

Se quiser citar este artigo:

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.


Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana

 


Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana

Por Abilio Machado 

Introdução

A Distimia, atualmente denominada Transtorno Depressivo Persistente nos manuais diagnósticos contemporâneos, é uma condição psicológica caracterizada por um humor deprimido crônico, de intensidade geralmente leve a moderada, porém duradouro. Diferente dos episódios intensos da depressão maior, a distimia se infiltra na vida do indivíduo de forma contínua, muitas vezes sendo confundida com traços de personalidade ou “jeito de ser”.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), essa condição exige a presença de sintomas por pelo menos dois anos em adultos (American Psychiatric Association, 2013). A relevância clínica da distimia reside não apenas na sua persistência, mas no impacto silencioso que exerce sobre a qualidade de vida, relações interpessoais e funcionamento global do sujeito.

Desenvolvimento

A distimia manifesta-se por meio de sintomas como baixa autoestima, fadiga constante, dificuldade de concentração, desesperança e alterações no sono e apetite. Por ser menos intensa do que a depressão maior, muitas pessoas seguem suas rotinas, porém com sofrimento interno contínuo.

Do ponto de vista etiológico, a distimia é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Estudos indicam a influência de predisposições genéticas, alterações neuroquímicas (especialmente envolvendo serotonina e dopamina), além de experiências de vida marcadas por perdas, negligência emocional ou ambientes invalidantes (Klein et al., 2018).

Na perspectiva cognitivo-comportamental, indivíduos com distimia tendem a desenvolver padrões de pensamento negativos e automáticos, frequentemente internalizados ao longo do tempo. Já sob um olhar psicodinâmico, pode-se compreender a distimia como uma expressão de conflitos psíquicos não elaborados, frequentemente ligados a experiências precoces de rejeição ou desamparo.

Aaron Beck, um dos principais teóricos da terapia cognitiva, afirma que:

“Os indivíduos deprimidos apresentam uma tríade cognitiva negativa: visão negativa de si mesmos, do mundo e do futuro” (Beck, 1979).

Essa tríade, quando persistente e menos intensa, pode sustentar o quadro distímico ao longo dos anos.

Discussão

Um dos maiores desafios no diagnóstico da distimia é sua invisibilidade relativa. Por não incapacitar completamente o indivíduo, muitas vezes ela é negligenciada tanto pelo próprio sujeito quanto pelo meio social. Isso gera um fenômeno importante: a naturalização do sofrimento.

Além disso, a distimia pode coexistir com episódios de depressão maior, caracterizando o chamado “duplo transtorno depressivo”, o que agrava significativamente o prognóstico (McCullough, 2003).

Do ponto de vista psicoterapêutico, abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a Terapia Interpessoal e intervenções integrativas têm demonstrado eficácia. Em muitos casos, o uso de medicação antidepressiva também é indicado.

Sob uma ótica psicoteológica — especialmente relevante para práticas clínicas integrativas — a distimia pode ser compreendida como um estado de esvaziamento existencial. Não necessariamente uma ausência de fé, mas, por vezes, uma dificuldade de acessar sentido, esperança e conexão interna. Viktor Frankl já apontava que:

“Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos” (Frankl, 1984).

Essa reflexão abre espaço para intervenções que resgatem significado, propósito e reconstrução subjetiva.

Conclusão

A distimia é uma condição que exige atenção clínica sensível e contínua. Seu caráter crônico e silencioso a torna particularmente perigosa, pois pode limitar o potencial de vida do indivíduo sem que haja um colapso evidente.

Compreender a distimia é reconhecer que nem todo sofrimento grita — alguns apenas persistem. E é justamente nessa persistência que se encontra a necessidade de escuta qualificada, intervenção terapêutica e reconstrução de sentido.

A ampliação do olhar — integrando aspectos biológicos, psicológicos e existenciais — permite não apenas tratar sintomas, mas acolher a complexidade do ser humano em sua totalidade.

Referências

American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Washington, DC.

Beck, A. T. (1979). Cognitive Therapy and the Emotional Disorders. New York: Penguin.

Frankl, V. E. (1984). Man’s Search for Meaning. Boston: Beacon Press.

Klein, D. N., Shankman, S. A., & Rose, S. (2018). Dysthymia and chronic depression: Course and treatment. Annual Review of Clinical Psychology.

McCullough, J. P. (2003). Treatment for Chronic Depression: Cognitive Behavioral Analysis System of Psychotherapy (CBASP). Guilford Press.

Se quiser citar este artigo:

Machado de Lima Filho, Abilio. Distimia: a tristeza persistente que silencia a vida cotidiana . Campo Largo: Produção independente, 2026.

sexta-feira, 27 de março de 2026

EVOLUIR É...


 Uma metáfora simples, uma pergunta complexa e profundamente reveladora sobre o processo de crescimento humano — psicológico e espiritual.

De um lado, o recipiente transbordando acompanhado da frase “Eu sei tudo!” revela um estado psíquico marcado pela ilusão de completude. Aqui podemos associar ao conhecido fenômeno da Efeito Dunning-Kruger, no qual quanto menos alguém sabe, mais acredita dominar o conhecimento. Psicologicamente, isso aponta para um ego inflado que não tolera o “não saber”. Esse excesso, paradoxalmente, impede a entrada de algo novo — o sujeito está cheio demais de si.

Teologicamente, esse estado se aproxima daquilo que as Escrituras frequentemente tratam como orgulho ou endurecimento do coração. Um coração cheio de certezas não se abre para a revelação. É como um vaso que já está cheio: não há espaço para Deus agir, ensinar ou transformar. A arrogância espiritual cria uma barreira invisível entre o indivíduo e a graça.

Do outro lado, o recipiente sendo preenchido com a pergunta: “O que mais eu posso aprender?” revela uma postura completamente diferente — a humildade epistêmica. Psicologicamente, trata-se de uma mente aberta, curiosa, que reconhece suas limitações e, por isso mesmo, continua crescendo. Aqui o ego não precisa provar nada; ele pode aprender.

Na dimensão teológica, essa postura ecoa o princípio bíblico da mansidão e da humildade de coração. É o espírito ensinável, aquele que se coloca como aprendiz diante da vida e de Deus. Há uma espécie de “esvaziamento do eu” que lembra o conceito de kenosis (esvaziamento), abrindo espaço para ser preenchido por algo maior.

A imagem, portanto, propõe um contraste essencial:

O cheio de si → transborda, mas não cresce

O vazio consciente → se enche e se transforma

Psicoteologicamente, o crescimento verdadeiro exige um movimento duplo:

Desaprender certezas rígidas (quebrar defesas do ego)

Acolher o novo com humildade (abrir-se à transformação)

No fundo, o card nos confronta com uma pergunta silenciosa, mas decisiva:

Você quer estar cheio… ou quer ser preenchido?

E talvez a resposta mais madura seja perceber que evoluir não é acumular conteúdo, mas manter-se disponível ao processo. Porque quem acredita que já chegou, parou. Mas quem pergunta, continua caminhando.

Abílio Machado 🎅 Paz Profunda 

Os 13 problemas da Psicologia Atual

 

A obra “A Verdade saindo do poço armada com seu chicote” (Jean-Léon Gérôme, 1896) ilustra nosso cenário. A psicologia enfrenta uma crise metodológica silenciosa. A solução? Encarar o poço e adotar uma postura clínica e científica implacável. Primeiro, estabeleça limites estritos para o objeto de estudo. Especifique redes nomológicas testáveis, prove invariância conceitual entre contextos e evite criar falsas entidades teóricas. Quantifique a variância de erro, triangule medidas com vieses diferentes e justifique empiricamente a sensibilidade e especificidade de cada ponto de corte. Na prática terapêutica, o mero ajuste estatístico não confirma causalidade. Defina antecipadamente resultados empíricos que refutariam a teoria. Alinhe a análise ao nível de agregação adequado, modelando heterogeneidade para evitar a falácia ecológica. Explicite qual padrão normativo define o prejuízo, impedindo patologização sem critério e evitando a reificação. Como processos violam condições de ergodicidade, a precisão clínica requer modelos de séries temporais e avaliações ecológicas momentâneas, capturando a trajetória intrapessoal genuína. A inferência causal demanda grafos acíclicos explícitos e distinção rigorosa entre relações constitutivas, mediadoras e moderadoras. Por fim, a integridade científica cobra transparência absoluta: pré-registro de protocolos e análises de sensibilidade para combater viés de publicação. Para que intervenções funcionem na vida real, a transportabilidade exige modelar variáveis moderadoras de contexto antecipadamente, delineando ajustes exatos para novas populações. Salve este guia e envie para colegas que levam a ciência a sério.













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Espulso de algum paraiso

  A frase de Melanie Klein toca em um ponto delicado da existência: conhecer transforma — e toda transformação cobra um preço. Há um tipo de...