sexta-feira, 18 de setembro de 2026

EDUCAR NAO É AGRADAR

 


EDUCAR NÃO É AGRADAR


“Educar não é entreter.” era a crônica de uma colega a pouco...


Concordo.


Mas talvez essa frase precise de uma segunda parte:


educar também não é desagradar só para provar que estamos educando.


Porque existe uma confusão perigosa acontecendo.


Temos medo de que, ao tornar a aula interessante, acolhedora e prazerosa, estejamos transformando educação em entretenimento.


Não necessariamente.


O problema não é o aluno gostar de aprender.


O problema começa quando a obrigação de fazê-lo gostar passa a decidir o que ele vai aprender.


E aqui tocamos numa ferida que nem sempre é confortável.


Na escola particular, existe uma equação que não podemos fingir que não existe: o aluno estuda, mas quem paga é a família.


E quando a satisfação do cliente entra pela porta da escola, existe o risco de a autonomia pedagógica sair pela janela.


Porque se o aluno não gostou do professor, reclama-se.


Se achou a matéria difícil, reclama-se.


Se recebeu uma nota baixa, reclama-se.


Se ouviu um “não”, reclama-se.


E, dependendo da situação, quem acaba precisando se explicar não é quem precisa aprender, mas quem deveria estar ensinando.


Quando o aluno vira cliente, o professor pode deixar de ser educador para se tornar fornecedor de satisfação.


E isso é muito mais sério do que parece.


Porque educar é justamente oferecer aquilo que nem sempre queremos receber.


É ensinar limites.


É contrariar certezas.


É exigir esforço.


É permitir que alguém experimente a frustração de não saber — para depois descobrir o prazer de conseguir.


Uma criança que nunca pode ser contrariada não está sendo necessariamente acolhida.


Pode estar apenas sendo acostumada a acreditar que o mundo deve se adaptar a ela.


E a escola não deveria reproduzir essa ilusão.


Mas também não precisamos voltar à educação baseada no medo, na humilhação e naquele professor que acreditava que quanto mais sofrido fosse aprender, melhor seria o aprendizado.


É possível exigir sem humilhar.

É possível acolher sem mimar.

É possível ensinar com autoridade sem autoritarismo.

E é perfeitamente possível aprender com prazer sem transformar a escola em parque de diversões.


Talvez o verdadeiro desafio da educação não seja fazer o aluno gostar de tudo.


Talvez seja ajudá-lo a compreender que nem tudo precisa agradá-lo para fazer bem a ele.


Porque existe uma diferença enorme entre educar uma pessoa para o mundo...


e educar o mundo para agradar essa pessoa.


E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes feridas da educação contemporânea.

E fica uma pergunta para nós: estamos educando crianças para enfrentarem um mundo que nem sempre vai dizer “sim” a elas, ou estamos tentando construir uma escola onde elas nunca precisem ouvir “não”?


Porque educar não é fazer o mundo agradar nossos filhos.

É prepará-los para viver no mundo sem perder a capacidade de transformá-lo.


— Abilio Machado

Psicanalista e Psicoterapeuta

"Especialista no Ensino de Artes e na Docência de Teologia e Filosofia" 

#Educação #Educar #Psicanálise #Psicologia #AbilioMachado

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A vida não vem com manual...

 

A VIDA NÃO VEM COM MANUAL


A vida é uma coisa engraçada.


Quando somos jovens, achamos que temos todas as respostas. Depois descobrimos que algumas perguntas mudam, outras ficam sem resposta e algumas… simplesmente deixam de fazer sentido.


A gente passa boa parte da vida tentando controlar tudo: o futuro, as pessoas, os acontecimentos, os sentimentos. Até perceber que a vida não assinou nenhum contrato conosco prometendo que tudo sairia como planejamos.


E aí começa uma espécie de sabedoria.


Não aquela sabedoria de quem sabe tudo, mas a de quem aprendeu a dizer:


“Isso eu não posso mudar. Mas posso escolher como vou atravessar.”


Talvez amadurecer seja exatamente isso.


Entender que nem toda perda é fracasso.

Que nem toda demora é abandono.

Que nem todo silêncio é rejeição.

Que algumas pessoas vão embora, outras ficam e algumas simplesmente deixam uma marca.


E que nós também mudamos.


Já fui muita coisa que hoje não sou mais. Já pensei de um jeito que hoje questiono. Já defendi certezas que a vida tratou de colocar em dúvida.


E tudo bem.


A vida não exige que sejamos perfeitos. Exige que sejamos verdadeiros com aquilo que estamos aprendendo a ser.


No fim das contas, talvez viver seja menos sobre encontrar todas as respostas e mais sobre aprender a fazer boas perguntas.


Quem estou me tornando?

O que realmente importa para mim?

Estou vivendo ou apenas cumprindo uma rotina?

Estou sendo bom comigo enquanto tento ser bom com os outros?


Porque existe uma diferença enorme entre simplesmente existir e realmente viver.


E talvez seja justamente aí que a filosofia encontra a psicologia, a espiritualidade encontra a experiência e a vida encontra sentido:


não precisamos entender tudo para continuar caminhando.


Às vezes, basta dar o próximo passo.


E, se possível, levar um pouco de fé, um pouco de coragem, algum bom humor…


E aceitar que, apesar de tudo, a vida ainda vale muito a pena.


— Abilio Machado

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O que você 🫵 aprendeu na terapia ???

 


Esse pequeno diálogo é muito rico psicoterapeuticamente porque trabalha, com humor, uma questão central da psicologia: o que realmente aprendemos em terapia e como interpretamos aquilo que aprendemos.


A fala da filha — “a gente tem que traumatizar as pessoas de volta” — pode ser compreendida como uma espécie de reação defensiva. Ela parece transformar a experiência de ter sido ferida em uma autorização para ferir. É como se dissesse: “se fizeram isso comigo, agora eu também posso fazer.”


Mas há uma diferença fundamental entre compreender o próprio trauma e reproduzi-lo.


Em psicoterapia, reconhecer que alguém nos machucou não significa receber uma licença para machucar outras pessoas. Pelo contrário: o processo terapêutico busca justamente interromper a repetição. Aquilo que foi recebido como dor pode ser elaborado para que não precise ser transmitido adiante.


A resposta da mãe — “foi a terapeuta que ensinou isso?” — revela outro aspecto interessante: imediatamente ela procura uma autoridade externa responsável pela interpretação da filha. E a resposta da menina é brilhante:


> “A terapeuta não ensinou. Você perguntou o que eu aprendi...”


Aqui aparece uma diferença entre aquilo que foi dito e aquilo que foi compreendido.


O terapeuta pode oferecer ferramentas, perguntas e possibilidades de reflexão, mas o paciente constrói significados a partir da própria história. Duas pessoas podem ouvir a mesma intervenção e produzir compreensões completamente diferentes.


Há ainda uma leitura psicanalítica possível: a filha pode estar expressando, de maneira irônica, um movimento de repetição. Quando não conseguimos elaborar uma experiência dolorosa, existe o risco de reproduzirmos, nos outros, aquilo que um dia fizeram conosco.


Por isso, talvez a verdadeira pergunta terapêutica não seja:


“Quem me traumatizou?”


Mas:


“O que farei com aquilo que fizeram comigo?”


Porque amadurecer psicologicamente não significa nunca mais ser ferido. Significa, pouco a pouco, deixar de transformar a própria ferida em arma.


E talvez essa seja a grande diferença entre vingança e elaboração:

a vingança diz “vou fazer você sentir o que eu senti”;

a elaboração diz “eu senti isso, entendi o que isso fez comigo e não preciso fazer você sentir o mesmo.”

Romper ciclos também é uma forma de cura.

— Abilio Machado



#Psicoterapia #Psicanálise #Autoconhecimento #SaúdeMental #Traumas #InteligênciaEmocional #CuraEmocional #EntenderParaTransformar

sábado, 22 de agosto de 2026

Viver também é aprender a desaparecer

 


Viver também é aprender a desaparecer


Há uma espécie de morte que não acontece quando o coração para.


Ela acontece devagar.


É quando algumas coisas que éramos vão ficando pelo caminho. Um sonho que já não cabe mais na vida. Uma amizade que um dia foi casa e hoje é apenas lembrança. Um amor que terminou antes mesmo de alguém ter coragem de dizer que terminou. Uma versão nossa que envelheceu, cansou ou simplesmente não encontrou mais lugar onde permanecer.


Talvez seja isso que o texto do card nos provoca a pensar: viver também é morrer aos poucos.


Não necessariamente de uma forma triste. Às vezes, é apenas o tempo fazendo seu trabalho silencioso.


A gente perde pequenas partes de si todos os dias.


Perde a ingenuidade depois de algumas decepções. Perde a pressa depois de compreender que nem tudo precisa acontecer agora. Perde pessoas. Perde lugares. Perde certezas. Perde até algumas ilusões que, durante muito tempo, foram necessárias para continuar caminhando.


E existe uma coisa curiosa nisso tudo: enquanto algumas partes nossas morrem, outras nascem.


É como uma casa antiga que vai sendo reformada sem nunca deixar de ser a mesma casa.


Talvez amadurecer seja exatamente isso: aprender a conviver com os cômodos vazios sem esquecer que ainda existem janelas abertas.


Porque viver não é conservar intacto aquilo que fomos.


É ter coragem de continuar sendo alguém depois que tanta coisa deixou de existir.


Há dias em que acordamos e percebemos que já não somos aquela pessoa de dez, vinte ou trinta anos atrás. E talvez exista uma pequena tristeza nisso. Afinal, algumas versões nossas mereciam ter ficado.


Mas também há liberdade.


Porque aquilo que morreu em nós abriu espaço para aquilo que ainda pode nascer.


A vida, às vezes, não nos pede grandes recomeços.


Pede apenas que levantemos da cama, tomemos um café, respiremos fundo e façamos aquilo que precisa ser feito.


Sem heroísmo.


Sem discursos.


Apenas continuando.


E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de resistência humana: continuar sendo alguém mesmo depois de ter perdido quase tudo aquilo que um dia nos definia.


No fundo, viver é uma sucessão de despedidas.


Mas também é uma sucessão de encontros.


E enquanto houver alguma coisa dentro de nós dizendo “ainda não terminei”, talvez seja porque a vida, apesar de todas as perdas, ainda encontrou um jeito de permanecer.


“Nem tudo o que termina é o fim. Algumas perdas são apenas o espaço que a vida abre para aquilo que ainda precisa nascer.”

__Abilio Machado

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Entre o medo de falar e o medo de se perder

 

Entre o medo de falar e o medo de se perder


Obrigado, Clarice Lispector, por colocar em palavras uma das maiores angústias das relações humanas:


“Por te falar, eu te assustarei e te perderei? Mas se eu não falar, eu me perderei. E por me perder, eu te perderia.”


Existe uma verdade dolorosa nessa reflexão: às vezes, ficamos diante de uma escolha aparentemente impossível.


Falar pode nos fazer perder alguém.

Silenciar pode nos fazer perder a nós mesmos.


E talvez esse seja um dos conflitos mais profundos do afeto: até onde devo me calar para não perder quem amo?


Aprendemos, muitas vezes, que amar é preservar o outro, evitar conflitos, escolher as palavras certas, engolir algumas verdades e suportar alguns desconfortos.


Mas existe um limite entre cuidar de uma relação e abandonar a si mesmo dentro dela.


Quando precisamos esconder continuamente aquilo que sentimos, negar aquilo que pensamos ou diminuir aquilo que somos para que alguém permaneça ao nosso lado, talvez a relação já esteja cobrando de nós um preço alto demais.


Porque o silêncio também fala.


Ele fala através da ansiedade, da tristeza, da irritação, do distanciamento e, muitas vezes, daquela sensação difícil de explicar: “Eu estou aqui, mas já não sei mais quem sou.”


Falar não é necessariamente confrontar.

Ser sincero não significa ferir.

Expressar sentimentos não é fazer uma acusação.


Às vezes, falar é simplesmente dizer:


“Isso me machuca.”

“Eu sinto falta de você.”

“Eu não consigo mais continuar assim.”

“Eu preciso que você saiba o que está acontecendo dentro de mim.”


E talvez o verdadeiro amadurecimento emocional esteja justamente em aprender a falar sem destruir e a ouvir sem fugir.


Porque uma relação saudável deveria oferecer espaço para duas verdades existirem: a verdade do outro e a nossa própria verdade.


Se para permanecer com alguém você precisa desaparecer, talvez o medo de perdê-lo esteja fazendo você perder algo ainda mais precioso: a si mesmo.


E há perdas que doem muito.


Mas existe uma perda ainda mais silenciosa: aquela em que continuamos ao lado de alguém, enquanto, pouco a pouco, deixamos de existir dentro de nós mesmos.


Falar pode colocar uma relação em risco.

Mas silenciar para sempre pode colocar a própria identidade em risco.


Às vezes, dizer a verdade não é escolher perder alguém.


É escolher não se perder mais.


Abílio Machado _ Psi

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A pessoa que nasce dentro de nós...

 



A pessoa que nasce dentro de nós


Um dos processos mais bonitos — e também mais assustadores — da vida é perceber que, em algum momento, já não somos exatamente quem éramos.


Mudamos. Não necessariamente porque deixamos de ser nós mesmos, mas porque algumas experiências nos obrigam a olhar para dentro e reconhecer que a pessoa que fomos precisou morrer em alguns aspectos para que outra pudesse nascer.


Na perspectiva psicológica, esse processo pode representar amadurecimento, ressignificação e reconstrução da identidade. Há momentos em que antigas crenças, padrões, medos e formas de se relacionar deixam de fazer sentido. E quando aquilo que sustentava nossa antiga maneira de viver perde força, podemos experimentar uma espécie de luto por nós mesmos.


É assustador perceber:

“Eu não penso mais como antes. Não aceito mais as mesmas coisas. Não desejo mais a mesma vida.”


Mas talvez isso não seja uma perda. Talvez seja crescimento.


A psicoteologia nos oferece uma leitura ainda mais profunda desse processo. A Bíblia fala sobre transformação, renovação e nascimento de uma nova criatura. Paulo escreve: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). E, em outro momento, afirma que, em Cristo, aquele que está nele é uma “nova criatura” (2 Coríntios 5:17).


Isso não significa apagar a nossa história.


Deus não precisa destruir quem fomos para construir quem podemos ser. Ele pode transformar nossas feridas em consciência, nossos erros em aprendizado, nossas perdas em maturidade e até nossas quedas em lugares de onde aprendemos a levantar.


Talvez a verdadeira mudança não aconteça quando conseguimos esquecer o passado, mas quando conseguimos olhar para ele sem permitir que ele continue governando o presente.


Existe uma hora em que precisamos compreender que permanecer fiel à nossa história não significa permanecer preso a ela.


Você pode honrar quem foi sem continuar vivendo como aquela pessoa.


Pode agradecer pelo caminho sem precisar voltar para ele.


Pode reconhecer suas cicatrizes sem transformá-las em sua identidade.


E talvez seja justamente aí que aconteça uma das experiências mais profundas da existência: continuar sendo você, mas de uma maneira que o seu antigo eu jamais imaginou.


A transformação assusta porque toda mudança verdadeira exige uma despedida.


Mas algumas despedidas não são o fim.


São o começo de uma nova vida dentro da mesma vida.


Abílio Machado _ Psi

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Será que estamos sozinhos no universo?

 


Será que estamos sozinhos no universo?


Há perguntas que parecem nascer da ciência, mas, quando olhamos demoradamente para elas, percebemos que também nasceram dentro de nós.


“Existe vida inteligente em outros planetas?”


É uma pergunta fascinante. Olhamos para o céu, para a imensidão das estrelas, para os bilhões de mundos que talvez existam além daquilo que nossos olhos conseguem alcançar, e imaginamos outras civilizações, outras formas de inteligência, outras criaturas olhando para o mesmo universo e fazendo exatamente a mesma pergunta:


“Será que existe alguém lá fora?”


Mas existe uma ironia nessa história.


Enquanto procuramos desesperadamente sinais de inteligência a milhões de anos-luz, talvez ainda tenhamos dificuldades para reconhecer a inteligência que está aqui, tão perto.


Basta observar a humanidade.


Construímos máquinas capazes de atravessar oceanos, enviamos equipamentos para outros planetas, deciframos o código genético, criamos inteligência artificial, fotografamos galáxias distantes.


E, ao mesmo tempo, ainda não aprendemos completamente a conversar sem transformar diferenças em guerras.


Temos tecnologia para chegar às estrelas, mas muitas vezes não conseguimos atravessar a distância entre duas pessoas que vivem na mesma casa.


Sabemos medir a velocidade da luz, mas ainda tropeçamos na delicada arte de perceber a dor do outro.


Criamos redes que conectam bilhões de pessoas, mas nunca tivemos tanta gente experimentando a solidão.


Talvez a pergunta mais desconcertante não seja se existe vida inteligente em outros planetas.


Talvez seja:


o que uma civilização verdadeiramente inteligente faria com o planeta que recebeu?


Porque inteligência não deveria ser apenas capacidade de calcular, construir, dominar ou conquistar.


Inteligência também deveria ser capacidade de cuidar.


De compreender.


De esperar.


De reconhecer limites.


De perceber que o outro existe para além das nossas necessidades.


Na psicoterapia, aprendemos algo muito simples e, ao mesmo tempo, profundamente difícil: não basta saber o que sentimos. Precisamos aprender a compreender o que fazemos com aquilo que sentimos.


Uma pessoa pode ser intelectualmente brilhante e emocionalmente analfabeta.


Pode conhecer o funcionamento do universo e desconhecer completamente o próprio coração.


Pode discutir filosofia, política, religião e ciência durante horas e ainda assim não conseguir pedir desculpas.


Pode defender grandes causas e ser cruel dentro da própria casa.


Pode falar sobre amor e não saber amar.


Talvez seja essa uma das grandes contradições da nossa espécie.


Temos inteligência suficiente para procurar vida nas estrelas, mas ainda precisamos aprender a reconhecer vida dentro de nós.


E talvez seja por isso que a possibilidade de existir vida inteligente em outros planetas seja tão fascinante.


Porque, no fundo, não estamos apenas procurando extraterrestres.


Estamos procurando um espelho.


Queremos saber se existe alguém lá fora que tenha conseguido aquilo que nós ainda estamos tentando aprender aqui dentro.


Uma civilização que tenha descoberto que crescer não significa apenas acumular conhecimento, mas desenvolver consciência.


Que tenha entendido que poder sem responsabilidade é apenas uma forma sofisticada de destruição.


Que tenha descoberto que sobreviver é pouco quando não aprendemos a conviver.


Então, quando alguém perguntar se existe vida inteligente em outros planetas, talvez possamos responder:


“Eu não sei.”


Mas existe uma pergunta anterior, muito mais próxima e muito mais incômoda:


Será que nós, aqui na Terra, já aprendemos a ser inteligentes o suficiente para merecer o nome de humanidade?


Talvez o universo esteja cheio de vida.


Talvez esteja vazio.


Talvez um dia encontremos sinais de outra civilização olhando para nós.


E talvez, nesse dia, a maior descoberta não seja encontrarmos alguém lá fora.


Talvez seja percebermos finalmente quem somos nós aqui dentro.


— Abílio Machado

Psicoterapeuta

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Caráter não se negocia

 


Caráter não se negocia


Vivemos em um tempo em que, muitas vezes, somos convidados a abrir pequenas exceções aos nossos próprios valores. “É só dessa vez.” “Todo mundo faz.” “Ninguém vai saber.” E é justamente nessas pequenas concessões que o caráter começa a ser colocado à prova.


Caráter é aquilo que permanece quando ninguém está olhando.

Princípios são os limites que escolhemos não ultrapassar, mesmo quando ultrapassá-los parece mais fácil. Respeito é reconhecer o valor do outro sem precisar diminuí-lo. E confiança é algo que leva tempo para ser construída, mas pode ser destruída em um instante.


Não se trata de ser perfeito. Trata-se de ser coerente.


Porque, no final das contas, você pode negociar muitas coisas na vida: opiniões, caminhos, estratégias, planos e até algumas certezas.


Mas existem coisas que, quando negociadas, deixam de ser aquilo que deveriam ser.


Seu caráter, seus princípios, seu respeito e sua confiança não deveriam ter preço.


E você? Qual princípio jamais negociaria, mesmo que isso lhe custasse alguma coisa?


#Caráter #Princípios #Valores #Respeito #Confiança #Integridade #Coerência #Ética #Autoconhecimento #DesenvolvimentoPessoal #Psicologia #Psicanálise #Reflexão #Vida #Propósito #AbilioMachado

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Quando o mal prova não ter idade !

 


A MALDADE DESTA CRIANÇA ERA TÃO GRANDE QUE ELE FOI SENTENCIADO À MORTE: MAS AS AUTORIDADES NÃO TIVERAM CORAGEM DE ENFORCA-LO! 

Jesse Pomeroy nasceu em 29 de novembro de 1859, em Boston, Massachusetts, em uma época em que a cidade crescia rapidamente com a chegada de muitos imigrantes europeus, mas também enfrentava pobreza, doenças e violência.


Era o caçula de dois irmãos e cresceu ao lado do irmão mais velho, Charles Pomeroy. A infância dos dois foi marcada por um ambiente familiar conturbado.


Seu pai, Thomas Pomeroy, veterano da Guerra Civil e trabalhador braçal, tinha fama de ser alcoólatra e violentíssimo. Segundo diversos relatos da época, costumava espancar os filhos com cintos e chicotes, chegando, em algumas ocasiões, a obrigá-los a tirar a roupa antes das agressões. 


Em contraste, sua mãe, Ruth Ann Pomeroy, era descrita como uma mulher carinhosa, paciente e profundamente dedicada aos filhos. Costureira, ela se esforçava para proteger a família e acreditava que Jesse era apenas um menino incompreendido.


Em 1870, quando Jesse tinha cerca de 11 anos, Thomas morreu. A perda do pai mudou completamente a dinâmica da casa. Ruth passou a assumir sozinha a responsabilidade pelo sustento da família, trabalhando por longas horas para manter os filhos. 


Sem a presença da figura que impunha medo dentro de casa, Jesse passou a ter muito mais liberdade para circular pelas ruas de South Boston.


Até então visto como um garoto reservado, de poucas amizades e comportamento estranho, Jesse passou a demonstrar um interesse incomum em meninos menores do que ele. 


Aos poucos, desenvolveu o hábito de abordar meninos que brincavam desacompanhados pelas ruas do bairro. Com conversa calma e aparência inofensiva, convencia alguns deles a acompanhá-lo até locais afastados, como terrenos baldios, áreas de mata e regiões pantanosas, longe da movimentação da cidade.


Ao chegar no local, Jesse utilizava cordas, cadarços ou cintos para amarrar os braços e as pernas das vítimas, impedindo qualquer tentativa de fuga.


Munido de canivetes, facas e chicotes improvisados, Jesse tirava a roupa dos garotos, e os submetia a sessões prolongadas de tortura extrema, dando chicotadas ferozes e infligindo cortes e ferimentos, enquanto se masturbava observando o sofrimento da vítima


As vítimas só conseguiam escapar quando Jesse interrompia as agressões por exaustão ou era obrigado a fugir diante da aproximação inesperada de alguma pessoa. Ainda assim, o trauma era devastador. Os meninos voltavam para casa ensanguentados, nus, aterrorizados e em estado de choque. 


Muitos mal conseguiam explicar o que havia acontecido, limitando-se a dizer que haviam sido atacados por um misterioso "menino maior", que surgia do nada, os levava para um lugar isolado e depois desaparecia sem deixar qualquer rastro. A falta de informações concretas dificultou o trabalho da polícia e permitiu que os ataques continuassem por meses.


Em 1872, depois de novos ataques, uma das vítimas finalmente conseguiu reconhecer Jesse. Com apenas 12 anos de idade, ele foi preso. A brutalidade dos crimes impressionou investigadores e médicos, mas sua pouca idade levantou um enorme dilema para a Justiça. 


As autoridades decidiram enviá-lo para a Westborough Reform School, uma instituição destinada à recuperação de jovens infratores.


Ali, Jesse surpreendeu a todos. Enquanto outros internos acumulavam punições, ele se tornou um dos detentos mais disciplinados da instituição. Obedecia às ordens, trabalhava sem reclamar e mantinha uma postura calma e educada. 


Aos poucos, funcionários e inspetores passaram a acreditar que o garoto havia se arrependido sinceramente. Muitos concluíram que a disciplina finalmente havia corrigido seu comportamento.

Essa impressão acabaria se mostrando profundamente equivocada.


Em 1874, aos 14 anos, Jesse recebeu liberdade por bom comportamento e voltou para a casa da mãe. Ruth havia aberto uma pequena loja de jornais e artigos de armarinho na Broadway Street, onde o filho passou a ajudá-la diariamente. Atrás do balcão, organizava mercadorias, atendia clientes e fazia pequenos serviços. Para os vizinhos, parecia um adolescente tímido, trabalhador e completamente recuperado.


Mas, longe dos olhares da comunidade, algo havia mudado. Pouco tempo depois de retornar ao convívio social, Jesse voltou a procurar vítimas. No entanto, havia uma diferença assustadora: os ataques deixaram de ter apenas o objetivo de provocar dor e sofrimento. Sua sede de violência havia crescido. A tortura deixou de satisfazer seus impulsos, e ele passou a cometer assassinatos.


Entre as vítimas estava Horace Mullen, um menino de apenas 10 anos. Jesse conseguiu atraí-lo para uma região pantanosa em Dorchester. Quando o corpo foi encontrado, a brutalidade dos ferimentos chocou até mesmo os médicos responsáveis pelo exame. 


A intensidade da violência foi tão brutal que causou enorme repercussão entre investigadores e moradores da cidade.


O assassinato provocou pânico coletivo. Famílias passaram a viver com medo constante, crianças desapareceram das ruas e logo, as suspeitas começaram a recair sobre Jesse Pomeroy.


As investigações se intensificaram e, à medida que novas evidências surgiam, Jesse passou a ser o principal suspeito. 


Ruth recusava-se a acreditar nas acusações. Para ela, Jesse era apenas um garoto tímido e trabalhador, incapaz de cometer crimes tão brutais. Enquanto a mãe insistia em defendê-lo, policiais cercaram a pequena loja da família e iniciaram uma busca minuciosa no imóvel. 


A inspeção começou pelo salão principal da loja e, em seguida, os investigadores desceram até o porão, um espaço onde Jesse trabalhava diariamente e ao qual apenas ele tinha acesso. Foi ali, escondido sob entulhos e detritos, que encontraram o corpo de outra criança desaparecida. 


A descoberta causou enorme comoção e praticamente encerrou o caso. A partir daquele momento, as suspeitas deram lugar a evidências concretas, e até mesmo a convicção de Ruth de que o filho era inocente começou a ruir diante das provas reunidas pela investigação.


O comportamento de Jesse chamou atenção, ele demonstrou pouca emoção diante das acusações e das evidências encontradas. Sua aparente frieza impressionou autoridades, jornalistas e o público que acompanhava o julgamento.


Em 1875, aos 15 anos, Jesse foi considerado culpado e condenado à morte por enforcamento por dois assassinatos confirmados, e por diversos abusos sexuais e torturas contra outros meninos.


A sentença entrou para a história por envolver o réu mais jovem já condenado à pena capital em Massachusetts.


No entanto, quando chegou o momento de decidir se um adolescente realmente seria levado ao cadafalso, surgiu um intenso debate entre políticos, magistrados e autoridades estaduais. 


A ideia de executar um garoto de apenas 15 anos dividiu profundamente a opinião pública. No fim, prevaleceu a decisão de comutar a sentença para prisão perpétua, grande parte dela cumprida em isolamento.


Jesse Pomeroy passaria praticamente toda a sua vida atrás das grades. Durante as décadas seguintes, aprendeu diversos idiomas, estudou literatura e escreveu poemas, demonstrando uma capacidade intelectual que contrastava de forma inquietante com a violência de sua juventude.


Ele morreu em 29 de setembro de 1932, após quase seis décadas de prisão. Seu caso continua sendo lembrado como um dos episódios mais perturbadores da história criminal dos Estados Unidos, não apenas pela brutalidade dos crimes, mas pelo fato de terem sido cometidos por alguém que ainda era uma criança.

domingo, 2 de agosto de 2026

O Código de Honra Invisível

 


 O Código de Honra Invisível


Vivemos em uma época em que quase tudo pode ser exibido. Fotografam-se conquistas, registram-se vitórias e compartilham-se aplausos. Mas existe um lugar onde nenhuma câmera alcança: o território silencioso do caráter.



É ali que o verdadeiro ser humano é construído.



Os antigos estoicos compreendiam que a vida não é uma sucessão de grandes batalhas heroicas. Na maior parte do tempo, ela é feita de pequenas escolhas. Levantar e cumprir a palavra dada. Admitir um erro antes que ele seja descoberto. Permanecer honesto quando a mentira seria mais conveniente. Fazer o bem mesmo quando ninguém agradecerá por isso.



O caráter raramente é provado quando tudo está dando certo. A prosperidade costuma esconder as rachaduras da alma. O teste acontece nas manhãs comuns, nos dias difíceis, nas decisões que ninguém testemunha.



Existe uma honra silenciosa em recusar aquilo que fere os próprios princípios, ainda que isso custe oportunidades. Há uma força invisível em assumir responsabilidades sem procurar culpados. E há uma paz que dinheiro algum compra: deitar a cabeça no travesseiro sabendo que a pessoa que o mundo vê é a mesma que existe quando todas as luzes se apagam.



Talvez esse seja o verdadeiro código de honra: não vestir uma máscara de virtudes, mas tornar-se alguém que não precisa dela.



O estoicismo nunca prometeu uma vida fácil. Prometeu algo muito maior: a possibilidade de permanecer íntegro em qualquer circunstância.



Porque, no fim, reputação é aquilo que dizem sobre nós. Caráter é aquilo que permanece quando ninguém está olhando.

Psicoarteterapeuta Abilio Machado





sexta-feira, 31 de julho de 2026

Escreveu La Boétie: "Sede resolutos em não mais servir, e sereis livres." (Discurso da Servidão Voluntária)

 


Você tentou disfarçar o incômodo no primeiro comentário desagradável de alguém. Preferiu não brigar. Evitou o enfrentamento. As coisas pioraram. A pessoa se sentiu mais à vontade para invadir seu espaço. Há algo que levei muito tempo para entender: gente "folgada" vai se sentindo cada vez mais à vontade se você não demarcar limites.

Escreveu La Boétie: "Sede resolutos em não mais servir, e sereis livres." (Discurso da Servidão Voluntária)

Conselho de sexta a partir de La Boétie: decida ser a sua própria prioridade e estabeleça com clareza direta seu direito a existir sem agradar babacas. Provavelmente, quando não puder mais atacar, a pessoa vai se afastar da sua vida. Eis uma perda a comemorar.

Bom fim de semana.   

(imagem: O terapeuta, Magritte)

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A busca errada...

 


"Tenho visto as pessoas tornarem-se freqüentemente neuróticas quando se contentam com respostas erradas ou inadequadas para as questões da vida. Elas buscam posição, casamento, reputação, sucesso externo ou dinheiro, e continuam infelizes e neuróticas mesmo depois de terem alcançado aquilo que tinham buscado. Essas pessoas encontram-se em geral confinadas a horizontes espirituais muito limitados. Sua vida não tem conteúdo ou significado suficientes. Se têm condições para ampliar e desenvolver personalidades mais abrangentes sua neurose costuma desaparecer".

Carl Jung

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Eu vou fazer o que for necessário até dar certo !

 


Há uma frase que costumo dizer a muitos pacientes durante o processo terapêutico:


"Eu vou fazer o que for necessário até dar certo."


Mas atenção: isso não significa insistir no erro, negar o sofrimento ou acreditar que tudo acontecerá no nosso tempo. Significa desenvolver a coragem de aprender, ajustar a rota, recomeçar quantas vezes forem necessárias e permanecer fiel ao propósito que Deus colocou em seu coração.


A psicologia nos ensina que a resiliência nasce da capacidade de enfrentar a realidade sem desistir de si mesmo. A fé nos lembra que a perseverança produz experiência, a experiência fortalece a esperança, e a esperança não decepciona quando está firmada em Deus.


Por isso, não desista porque o caminho ficou difícil. Mude a estratégia quando for preciso, amadureça com as quedas, aceite ajuda quando necessário e continue caminhando. O tempo de Deus não elimina o esforço humano; ele o transforma em crescimento.


Como costumo orientar meus pacientes: faça o que for necessário, mas nunca abra mão dos seus valores, da sua saúde emocional e da sua fé. O sucesso mais importante não é apenas chegar ao destino, mas tornar-se alguém melhor durante a caminhada.


— Psicoarteterapeuta Abilio Machado


#Psicoarteterapia #Psicologia #Psicanálise #Psicoteologia #SaúdeMental #Autoconhecimento #Resiliência #Fé #Esperança #DesenvolvimentoPessoal #InteligênciaEmocional #AbilioMachado

O cisco no olho do outro...


 Há um perigo silencioso na alma: gastar tanto tempo observando as falhas dos outros que deixamos de enxergar as nossas.


A psicologia nos mostra que é mais fácil projetar no outro aquilo que nos incomoda em nós mesmos. A teologia nos recorda as palavras de Jesus: "Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão e não percebes a trave que está no teu próprio olho?" (Mateus 7:3).


Quando nossa atenção está excessivamente voltada para os erros alheios, nossa própria transformação fica estagnada. A crítica constante ao próximo pode se tornar um mecanismo de fuga, impedindo o encontro sincero com nossas fragilidades, medos e necessidades de mudança.


O amadurecimento espiritual e emocional começa quando trocamos o julgamento pela autorreflexão. Quem dedica tempo para corrigir a si mesmo descobre que sobra menos espaço para condenar o outro e mais espaço para exercer misericórdia, humildade e amor.


Antes de apontar um erro, pergunte a si mesmo: o que esta situação revela sobre mim? Talvez essa seja a pergunta que Deus mais deseja responder em nosso coração.


— Abilio Machado



NA CRUZ

Reflexões de Psicoteologia sobre a dor, a fé e a reconstrução da alma.

Abilio Machado

Psicoarteterapeuta


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Tudo que eu tinha medo de perder, eu perdi...

 

Há uma frase que, quando deixa de ser apenas uma hipótese e se torna realidade, muda para sempre a forma como enxergamos a vida:


"Tudo que eu tinha medo de perder, eu perdi."


A psique costuma acreditar que a segurança está em controlar, reter e impedir as perdas. A fé, porém, nos ensina outro caminho: Deus não promete uma vida sem rupturas, mas uma presença constante em meio a elas.


Quando perdemos pessoas, saúde, sonhos, posições ou certezas, descobrimos que nossa identidade não pode estar fundamentada apenas naquilo que possuímos. É no vazio que muitas vezes encontramos a oportunidade de reconstruir quem realmente somos.


Paradoxalmente, algumas perdas não encerram uma história; elas inauguram uma nova. O sofrimento não é um fim em si mesmo, mas pode tornar-se um mestre quando nos conduz ao amadurecimento, à humildade e à confiança em Deus.


Talvez a pergunta mais importante não seja: "O que eu perdi?", mas "Quem estou me tornando depois de tudo o que perdi?"


"O Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor." (Jó 1:21)


Abilio Machado

Psicoarteterapeuta



NA CRUZ

Reflexões de Psicoteologia sobre a dor, a fé e a reconstrução da alma.

Abilio Machado

Psicoarteterapeuta

sábado, 18 de julho de 2026

Por que há pessoas que se afastam da família e amigos

 


Tem gente que não se afasta porque não gosta das pessoas. Se afasta porque tem medo de ser conhecida de verdade.

A vergonha cria uma prisão silenciosa. A pessoa acredita que, se alguém chegar perto demais, vai descobrir aquilo que ela tenta esconder. Então desaparece, evita intimidade, recusa convites e chama isso de personalidade.

Mas muitas vezes não é vontade de ficar sozinho. É medo de ser descoberto.

Vergonha não quer que você mude. Quer que você desapareça.

O problema começa quando você deixa de pensar “eu cometi um erro” e passa a acreditar “eu sou um erro”. Uma falha vira identidade, e quem se confunde com o próprio pior capítulo começa a enxergar o mundo inteiro como um tribunal.

Viktor Frankl ensinava que o ser humano nunca pode ser reduzido ao que sofreu ou ao que fez. Sempre existe dentro de nós a liberdade de escolher a próxima resposta.

A Chassidut vai ainda mais fundo. Existe em cada pessoa uma essência Divina que permanece inteira. Podemos cair, errar, nos perder e nos esconder, mas nada disso apaga aquilo que somos em nossa raiz.

Você pode ter feito algo que não combina com a sua alma. Isso não significa que perdeu a sua alma.

Talvez, quando alguém se aproximar, não encontre um monstro. Encontre apenas uma pessoa humana, ferida, tentando carregar sozinha algo que nunca deveria ter carregado em segredo.

Todo mundo tem partes que prefere não mostrar. Todo mundo conhece culpa, medo e contradição. Você não é o único tentando parecer inteiro enquanto reorganiza pedaços por dentro.

Não significa contar tudo para qualquer pessoa. Significa parar de viver escondido por acreditar que não merece ser amado.

Escolha uma pessoa segura e permita que ela conheça um pouco mais de você.

Às vezes, a liberdade não começa quando todos nos aceitam.

Começa quando finalmente paramos de fugir de nós mesmos.



terça-feira, 14 de julho de 2026

A leveza que não é leve.

 


A Leveza Que Não É Leve

Por Abilio Machado - Psicanalista e Psicoarteterapeuta 

Há pessoas que parecem atravessar a vida com uma serenidade invejável. Estão sempre tranquilas, sorrindo, dizendo que "não vale a pena se estressar". Mas, quando olhamos mais de perto, percebemos que essa leveza nem sempre nasce da maturidade. Muitas vezes, ela é apenas o resultado de um peso que foi cuidadosamente colocado sobre os ombros de alguém.


Na clínica psicanalítica, aprendemos que aquilo que não conseguimos elaborar tende a ser projetado. A culpa que não suportamos, a responsabilidade que recusamos, a dor que evitamos e até os nossos fracassos acabam sendo depositados no outro. É um mecanismo inconsciente de defesa: para aliviar a própria tensão, fazemos do outro um depósito de nossas angústias.


É por isso que algumas pessoas parecem tão leves. Não porque aprenderam a carregar a própria cruz, mas porque convenceram alguém a carregá-la por elas.


São pais que entregam aos filhos a missão de realizar sonhos que nunca conseguiram viver. Líderes que distribuem responsabilidades, mas recolhem apenas os méritos. Relacionamentos em que um assume o trabalho emocional enquanto o outro desfruta da estabilidade construída pelo parceiro. Ambientes onde um adoece para que todos os demais permaneçam aparentemente saudáveis.


Essa leveza é ilusória.


Quem transfere constantemente seus fardos não amadurece. Apenas adia o encontro consigo mesmo. E quem aceita carregar o peso de todos acaba, cedo ou tarde, perdendo a própria identidade, vivendo uma exaustão que sequer consegue explicar.


Carl Gustav Jung dizia que aquilo que não trazemos à consciência aparece em nossa vida como destino. O peso que hoje lançamos sobre alguém inevitavelmente voltará, porque nenhuma projeção substitui o trabalho de elaborar a própria história.


Existe uma diferença enorme entre compartilhar um fardo e abandoná-lo nas costas de outra pessoa. Compartilhar é um gesto de amor. Transferir é um ato de fuga.


Talvez a verdadeira leveza não esteja em ter menos peso, mas em desenvolver ombros capazes de sustentar aquilo que realmente nos pertence.


Porque, no fim das contas, é muito fácil parecer leve quando se sobrecarrega os outros. A verdadeira leveza nasce quando cada um aprende a carregar, com dignidade, o próprio fardo.

Essa reflexão dialoga tanto com a psicanálise quanto com a vida cotidiana, convidando o leitor a perguntar não apenas "quem está colocando peso sobre mim?", mas também "quais pesos meus eu tenho deixado que os outros carreguem?". Afinal, maturidade é reconhecer a diferença entre pedir ajuda e terceirizar a própria responsabilidade.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Quando um país deixa de ler, começa a esquecer como pensar

 


Quando um país deixa de ler, começa a esquecer como pensar

Por Abilio Machado 

A mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil trouxe um dos dados mais preocupantes das últimas décadas: pela primeira vez, os brasileiros que não leram nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa (53%) superaram aqueles considerados leitores (47%). Em apenas quatro anos, o Brasil perdeu aproximadamente 6,7 milhões de leitores. O dado não afeta apenas o mercado editorial ou as estatísticas educacionais; ele revela transformações profundas na forma como a sociedade se relaciona com o conhecimento.


Quando observamos esse cenário, surge uma pergunta inevitável: como podemos imaginar um futuro melhor se estamos lendo cada vez menos?


A leitura não é apenas um instrumento de acesso à informação. Ela é uma prática que desenvolve a capacidade de reflexão, amplia o vocabulário, fortalece a memória, estimula a criatividade e favorece a compreensão da complexidade humana. Ler é muito mais do que decifrar palavras; é exercitar a capacidade de pensar.


Sob a perspectiva psicológica, a leitura mobiliza funções cognitivas sofisticadas, como atenção sustentada, interpretação, imaginação, planejamento e pensamento abstrato. Diferentemente dos conteúdos rápidos consumidos nas redes sociais, o livro exige permanência. Ele convida o leitor a desacelerar, acompanhar raciocínios mais longos e conviver com a dúvida antes de alcançar uma conclusão.


Entretanto, é importante compreender que a leitura não nasce espontaneamente. Ela se conquista através do hábito. Ninguém nasce leitor. Torna-se leitor. E esse processo não ocorre por imposição, mas pela repetição de experiências significativas com os livros.


O hábito da leitura é semelhante ao cultivo de um jardim. Ele exige tempo, constância e cuidado. Quanto mais se lê, mais natural a leitura se torna. Quanto menos se lê, mais distante ela parece. Por isso, a formação de leitores depende não apenas da escola, mas também da família, da comunidade e da valorização cultural dos livros.


Nesse ponto, surge outra questão frequentemente levantada: será que as novas gerações perderam a curiosidade?


Talvez a resposta seja não.


Os jovens continuam curiosos. Nunca houve tanta busca por informação, tutoriais, vídeos explicativos, conteúdos sobre tecnologia, ciência, arte e entretenimento. A curiosidade permanece viva. O que mudou foi a forma como ela é alimentada.


A diferença é que vivemos em uma cultura marcada pela velocidade. As respostas chegam em segundos. Os vídeos duram poucos minutos. Os algoritmos oferecem novidades incessantemente. O problema não parece ser a ausência de curiosidade, mas a dificuldade crescente de sustentar a atenção por períodos mais longos.


Assim, talvez estejamos diante não de uma crise da curiosidade, mas de uma crise da profundidade.


As pessoas continuam fazendo perguntas, mas encontram cada vez menos espaço para permanecer diante das respostas. E a leitura, especialmente a leitura de livros, exige exatamente isso: permanência, concentração e reflexão.


Sob o aspecto social, uma população que lê menos tende a reduzir seu contato com diferentes perspectivas de mundo. Livros permitem viajar por culturas, épocas e experiências humanas distintas. Quando essa experiência diminui, aumenta o risco de interpretações simplificadas da realidade, de polarizações e da dificuldade de compreender a complexidade dos fenômenos sociais.


Politicamente, a questão também merece atenção. Uma sociedade que lê pouco torna-se mais vulnerável à desinformação, aos discursos simplistas e às narrativas que dispensam reflexão crítica. A leitura não torna ninguém automaticamente sábio ou virtuoso, mas amplia a capacidade de analisar argumentos, comparar ideias e construir opiniões fundamentadas.


É importante reconhecer que esse cenário não pode ser atribuído a um único governo, partido ou corrente ideológica. Trata-se de um fenômeno multifatorial, resultado das transformações tecnológicas, das mudanças nos hábitos culturais, das desigualdades educacionais e das políticas públicas desenvolvidas — ou negligenciadas — ao longo de décadas.


Talvez a pergunta mais importante não seja apenas por que os brasileiros estão lendo menos. Talvez devêssemos perguntar o que acontece com uma sociedade quando ela perde, aos poucos, o hábito de dedicar tempo à reflexão profunda.


O futuro de uma nação não depende apenas de sua economia, de sua tecnologia ou de seus recursos naturais. Depende também da sua capacidade de formar cidadãos que pensem, interpretem, questionem e compreendam.


Porque a leitura não é apenas um caminho para o conhecimento.


É um exercício diário de liberdade intelectual.


E toda sociedade que deixa de ler corre o risco de delegar a outros a tarefa de pensar por ela.


Referências


Instituto Pró-Livro. Retratos da Leitura no Brasil – 6ª edição.


Fundação Itaú. Observatório da Leitura – Retratos da Leitura no Brasil.


Câmara Brasileira do Livro (CBL). Mais da metade dos brasileiros não lê livros, aponta pesquisa.


Freire, Paulo. A Importância do Ato de Ler. São Paulo: Cortez Editora.


Wolf, Maryanne. O Cérebro no Mundo Digital. Editora Contexto.

Imagem: Mural da Literatura no Rio de Janeiro desenvolvida pelo artista plástico Cobra 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Quando a mudança incomoda mais do que a injustiça



 Quando a mudança incomoda mais do que a injustiça


Existe um fenômeno curioso nas relações humanas: muitas pessoas percebem rapidamente quando você muda, mas raramente se perguntam o que o levou a mudar.


É comum ouvir alguém dizer: "Você não é mais o mesmo." O que quase nunca se escuta é: "Será que fiz algo que contribuiu para essa mudança?"


Na psicologia, sabemos que o comportamento humano é influenciado pelas experiências vividas. Ninguém se torna mais desconfiado, mais reservado ou mais cauteloso por acaso. Muitas vezes, essas mudanças são respostas a repetidas decepções, desrespeitos, manipulações, críticas constantes ou falta de reciprocidade.


Isso não significa que devemos viver culpando os outros por tudo. Cada pessoa é responsável pela maneira como reage às circunstâncias. No entanto, também é verdade que toda relação produz efeitos. O modo como tratamos alguém pode fortalecer sua autoestima ou feri-la; pode gerar confiança ou medo; pode incentivar a aproximação ou provocar o afastamento.


Infelizmente, existe uma tendência muito humana de julgar apenas o resultado, ignorando o processo. Critica-se a frieza de alguém sem conhecer as feridas que ela precisou esconder. Condena-se o silêncio, mas ninguém se lembra das vezes em que aquela pessoa falou e não foi ouvida. Reclama-se da distância, esquecendo quantas portas foram fechadas antes.


Isso nos convida a uma reflexão importante: antes de apontarmos o dedo para a mudança de alguém, talvez devêssemos olhar para a qualidade da nossa presença na vida dessa pessoa.


Ao mesmo tempo, essa reflexão também serve para quem mudou. Nem toda mudança é saudável. Há transformações que representam amadurecimento, estabelecimento de limites e preservação da saúde emocional. Outras, porém, podem nos tornar amargos, endurecidos e incapazes de confiar novamente.


A verdadeira evolução não consiste em deixar que as dores definam quem somos, mas em aprender com elas sem perder nossa essência. É possível colocar limites sem perder a bondade. É possível dizer "não" sem deixar de amar. É possível proteger o coração sem transformá-lo em uma fortaleza intransponível.


Mudar faz parte da vida. A questão não é se vamos mudar, mas em quem estamos nos tornando durante esse processo.


Que nossas experiências nos tornem mais sábios, e não mais cruéis; mais conscientes, e não mais indiferentes; mais fortes, sem deixarmos de ser humanos.


Quer aprender a promover mudanças profundas e duradouras em sua vida?


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Abilio Machado

Psicoterapeuta | Arte-educador

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Referência bibliográfica:

Machado de Lima Filho, Abilio. Ser bom não é ser perfeito: a coragem de existir com limites. Campo Largo: Produção independente, 2026.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Aos fofoqueiros de plantão....



Há pessoas que passam horas comentando a vida alheia porque ainda não descobriram um propósito para a própria existência.


Se falam mal de você, não se desespere. Na maioria das vezes, a crítica revela muito mais sobre quem a faz do que sobre quem a recebe.


Quem está ocupado construindo sonhos, aprendendo, trabalhando, servindo e evoluindo dificilmente encontra tempo para alimentar a inveja, a fofoca ou a maldade.


Aceite uma verdade libertadora: você não nasceu para agradar todo mundo. Nem todos compreenderão suas escolhas. Nem todos celebrarão suas vitórias. E isso não diminui o seu valor.


O problema nunca foi ser criticado. O verdadeiro perigo é abandonar sua essência para conquistar a aprovação de pessoas que jamais estarão satisfeitas.


Permaneça fiel aos seus princípios. Faça o que é certo, mesmo quando ninguém estiver aplaudindo. Caminhe com a consciência em paz, porque ela vale mais do que qualquer elogio passageiro.


No fim das contas, a opinião dos outros não determina o seu destino. O que constrói o seu futuro são suas decisões, sua coragem, seu caráter e sua perseverança.


Se falam mal de mim, tudo bem.


Pior seria precisar diminuir alguém para me sentir maior.


Prefiro ser criticado por viver a verdade do que elogiado por representar uma mentira.


E você, o que pensa sobre isso? 👇

EDUCAR NAO É AGRADAR

  EDUCAR NÃO É AGRADAR “Educar não é entreter.” era a crônica de uma colega a pouco... Concordo. Mas talvez essa frase precise de uma segund...