sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Pornografia, a fruta proibida e o velho “você é careta”

 


Pornografia, a fruta proibida e o velho “você é careta”

Por Abilio Machado 

Falo como psicanalista.

E também como psicoarteterapeuta.

Mas, antes de tudo, falo como alguém que escuta homens — muitos homens — adultos e adolescentes em silêncio, no consultório online, longe das bravatas das redes sociais.

E é curioso como, quando o assunto é pornografia, o discurso público costuma ser raso, defensivo, agressivo. Sempre surge alguém dizendo:

“Você critica porque não gosta da fruta.”

Ou a velha gíria da minha juventude:

“Ah, isso é coisa de careta!”

Confesso: eu não ouvia essa palavra há décadas. Mas ela voltou.

E voltou com força.

Não como sinal de liberdade, mas como grito de defesa.

Porque toda vez que alguém precisa chamar o outro de careta, o que está em jogo não é o gosto — é o desconforto.

Pornografia não é sobre sexo.

Repito isso sem medo: não é sobre sexo.

É sobre solidão, mesmo na cama do casal.

É sobre vazio, a necessidade de preencher o desejo com rapidez.

É sobre uma dificuldade profunda de sustentar frustração, intimidade e presença real. De descontentamento na posição que se encontra.

O homem que se vicia em pornografia não está “com muito desejo”.

Ele está com pouco encontro, de si e com o outro.

No cérebro, a pornografia treina o prazer rápido, previsível, obediente. Nada ali exige diálogo, espera, frustração ou alteridade. Não há outro sujeito — há apenas imagens que se submetem. O desejo deixa de ser relação e vira consumo.

E quando esse homem é casado, muitos se apressam em explicar de forma simplista:

“Ah, o casamento esfriou.”

Nem sempre. Muitas vezes, o casamento apenas amadureceu, e ele(a) não.

A relação real convoca o sujeito a crescer.

A pornografia permite regredir, aquele busca do prazer da pré adolescência.

Ela oferece controle absoluto, ausência de risco emocional, nenhuma possibilidade de falha simbólica. Não há rejeição, não há silêncio constrangedor, não há cobrança. Só descarga. Quando associada à masturbação.

Depois, vem culpa.

Depois, vem remorso.

Depois, vem repetição.

Depois, vem o vazio...

Não há mais gratificação.

E então chegamos a um ponto que me chama ainda mais atenção:

por que alguns não apenas consomem pornografia, mas precisam exibi-la, compartilhá-la, postá-la?

Aqui não estamos mais falando apenas de vício, a dissolução do jorro inevitável pela masturbação, mas de busca de validação.

Postar pornografia ou erotizar o espaço público não é sinal de liberdade.

É, muitas vezes, um pedido implícito:

“Alguém aí é como eu?

Alguém aí me confirma que isso é normal?”

Quando o desejo está integrado, ele não precisa de plateia.

Quando precisa ser exibido, algo nele está pedindo autorização.

É nesse ponto que surgem as frases prontas, quase sempre agressivas:

“Isso é coisa da sua cabeça.”

“Todo mundo vê.”

“Pior é quem reprime.”

“Você não gosta da fruta.”

“Você é careta.”

Essas frases não dialogam.

Elas blindam. Busca de proteção ao seu ato.

Servem para desqualificar o limite do outro e, assim, evitar o confronto com o próprio hábito. Porque o limite alheio incomoda — ele funciona como espelho. E nem todo mundo tem coragem em olhar o abismo no seu próprio reflexo.

Ninguém gosta de espelhos quando ainda não suporta a própria imagem, fato.

A metáfora da fruta é interessante… e profundamente equivocada.

Nem toda fruta nutre.

Algumas intoxicam.

Outras viciam.

Outras parecem doces, mas corroem lentamente.

Há quem não coma não por nunca ter provado, mas por discernimento.

Há quem se afaste não por repressão, mas por maturidade.

Chamar isso de caretice é um erro antigo.

Na minha juventude, “careta” era o rótulo jogado sobre quem não se dobrava à pressão do grupo. Era a forma elegante de dizer:

“Entre no fluxo ou seja ridicularizado.”

O tempo passou.

E o tempo costuma ser um péssimo aliado das ilusões.

Muitos dos chamados caretas cresceram, integraram desejo e responsabilidade, construíram vínculos possíveis.

Muitos dos “descolados” ficaram presos à repetição, à dependência, à eterna necessidade de estímulo.

A psicoteologia ajuda a entender esse ponto com mais profundidade.

O problema nunca foi o corpo.

Nem o prazer.

Foi a redução do outro a objeto.

Quando o eros deixa de ser ponte e vira produto, algo da alma se fragmenta. O desejo se separa do sentido, a excitação se separa do amor, o corpo se separa da presença.

E então o sujeito passa a viver compartimentado:

um eu público, performático, provocador;

e um eu secreto, envergonhado, cansado.

No consultório, quase nunca vejo homens orgulhosos do próprio vício. Vejo homens exaustos. Vejo culpa. Vejo dificuldade de rezar, de olhar nos olhos, de sustentar silêncio. Vejo uma espiritualidade rachada.

O caminho terapêutico não é humilhação, nem cruzada moral.

É integração.

Não se trata apenas de “parar de ver”.

Trata-se de perguntar com honestidade:

o que este hábito está tentando anestesiar em mim?

Porque quando o vazio encontra sentido, a compulsão perde força.

Quando o desejo encontra alteridade, a imagem perde poder.

Quando a fé deixa de ser repressão e vira caminho, o corpo se aquieta.

Talvez, no fim das contas, seja hora de ressignificar a palavra antiga.

Careta não é quem escolhe limites.

Careta é quem ainda precisa da aprovação do grupo para desejar.

Careta é quem chama de liberdade aquilo que já virou prisão.

Careta é quem confunde estímulo com vida.

E isso — eu digo com toda a dureza necessária —

não tem nada de moderno.



#CorpoEDesejo

#PsicologiaEssencial

#DependenciaEmocional

#VidaInterior

#ReflexoesPsicologicas

🌿 A CORAGEM DE ENCERRAR CICLOS 🌿


🌿 A CORAGEM DE ENCERRAR CICLOS 🌿

Na psicologia, compreendemos que o ego resiste aos fins porque se alimenta da repetição.

Ele se sustenta naquilo que é familiar, mesmo quando já se tornou fonte de dor. Para o ego, mudar é ameaçador, pois mudar significa admitir que aquilo que o definia já não é suficiente.

Na teologia, o apego excessivo ao passado revela uma dificuldade em confiar no tempo de Deus.

Há um medo silencioso de que, ao encerrar um ciclo, o novo não venha — como se a provisão divina dependesse da manutenção do que já morreu por dentro.

A mente condicionada teme os encerramentos porque, no inconsciente, sabe que todo fim revela a impermanência.

E a impermanência desmonta a fantasia de controle, de identidade fixa, de poder absoluto sobre a própria história.

É por isso que tantas pessoas permanecem em:

relacionamentos esvaziados,

trabalhos que adoecem,

crenças que já não sustentam a alma,

papéis familiares que aprisionam.

Não por amor, mas por medo.

Quando resistimos aos fins, resistimos ao fluxo natural da vida, descrito tanto pela psicologia quanto pela espiritualidade.

Essa resistência gera estagnação: a energia psíquica não circula, o movimento interno se interrompe e o corpo passa a carregar tensões emocionais silenciosas — ansiedade crônica, irritabilidade constante, cansaço que não passa.

Na linguagem simbólica, o apego aprisiona o sopro da vida.

Na linguagem clínica, aprisiona o afeto, bloqueia a elaboração do luto e perpetua o sofrimento.

Encerrar ciclos não é perder.

É um ato de fé e também de saúde mental.

É confiar que, assim como ensina a teologia, há tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado.

E, como mostra a psicologia, só há amadurecimento quando aceitamos que algumas versões de nós precisam morrer para que outras possam nascer.

Quando um ciclo se encerra conscientemente:

a mente se aquieta,

o corpo relaxa,

o espírito encontra alinhamento.

O ego enfraquece quando deixamos de nos identificar com aquilo que já cumpriu sua função.

E a alma se fortalece quando escolhemos permanecer presentes, mesmo diante do vazio que antecede o novo.

✨ Todo fim é um convite à presença.

✨ Todo desapego é um retorno ao equilíbrio.

✨ Toda travessia exige coragem, mas gera liberdade.

Exemplos práticos:

Finalizar um relacionamento que virou apenas medo de ficar só.

Sair de um trabalho que já adoeceu o corpo e a fé.

Abrir mão de uma identidade antiga: “eu sempre fui assim”.

Aceitar que nem tudo que começou com amor precisa terminar da mesma forma.

--- Abilio Machado 

#EncerrarCiclos

#PsicologiaESpiritualidade

#DesapegoConsciente

#SaúdeEmocional

#FéEMaturidade

#LutoESignificado

#TempoDeDeus

#CuraInterior

#Presença

#EquilíbrioEmocional

EI, ME VEJAM ! OLHEM COMO TENHO VIRTUDES AMOROSAS...

 

Rede social  X  Realidade 

Uma leitura psicológica, sem moralizar, mas desvelando o mecanismo por trás dessa necessidade de exibição que alguns casais tem em postar o suposto agrado afetivo ao outro para ganharem aplausos do " vejam como sou bonzinho(a) e carinhoso (a) — com profundidade clínica e linguagem acessível.

Quando um casal sente a necessidade constante de anunciar suas virtudes nas redes sociais, raramente está apenas compartilhando amor. Muitas vezes, está tentando convencer — o outro, o mundo e, sobretudo, a si mesmo.

A exibição reiterada de gestos afetivos, declarações públicas e performances de cuidado pode funcionar como um recurso defensivo. Não porque o afeto seja falso, mas porque ele precisa ser confirmado externamente. Onde o vínculo é sólido, o amor repousa. Onde ele é frágil, o amor faz barulho.

Do ponto de vista psicológico, isso costuma revelar uma lacuna: a dificuldade de sustentar intimidade no espaço privado. A relação passa a existir mais no olhar do outro do que na experiência entre dois. O casal deixa de se perguntar “como estamos?” e passa a se preocupar com “como parecemos?”.

Há também um componente narcísico sutil. A validação não vem apenas do parceiro, mas do like, do comentário, do aplauso silencioso da audiência. O afeto vira vitrine. O amor, marketing. E, nesse cenário, não se cuida do vínculo — administra-se a imagem.

Em muitos casos, essas postagens cumprem a função de reparação simbólica: tentam cobrir ausências reais — diálogo raso, conflitos não elaborados, ressentimentos acumulados, solidão a dois. É como se o gesto público dissesse aquilo que não consegue ser vivido no cotidiano: “olhem, está tudo bem”.

Relações saudáveis não precisam ser provadas. Elas se revelam na consistência, no silêncio confortável, na capacidade de atravessar crises sem plateia. O afeto que precisa ser anunciado o tempo todo, muitas vezes, está pedindo socorro.

Não se trata de condenar quem compartilha. Trata-se de compreender que, quando o amor vira espetáculo, talvez a relação esteja tentando existir onde já não consegue mais se sustentar.

Porque, no fundo, vínculos seguros não gritam.

Eles permanecem.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

E se eu pudesse voltar ...


 **“Se eu pudesse juntar a vitalidade de antes

com a sabedoria que só veio depois…”**

Essa frase não nasce da nostalgia vazia.

Ela surge, quase sempre, depois da queda.

Depois da doença, da perda, do susto, do limite imposto ao corpo ou à vida.

Não é sobre querer voltar no tempo.

É sobre desejar uma síntese impossível:

o corpo que ainda não conhecia o cansaço

com a mente que hoje compreende o valor de cada fôlego.

O desejo que não é regressão

Do ponto de vista psicológico, esse pensamento não é imaturo nem patológico.

Ele não expressa negação da realidade, mas consciência tardia.

Enquanto jovens, gastamos vitalidade como se fosse infinita.

Dormimos pouco, exigimos muito do corpo, silenciamos sinais.

A sabedoria ainda não chegou porque ela só aparece quando algo falha.

Quando o corpo impõe limites, a mente amadurece.

E então nasce essa fantasia reparadora:

“Se eu tivesse o corpo de antes com a cabeça de agora…”

Não é fuga.

É o reconhecimento doloroso de que aprendemos tarde,

mas aprendemos de verdade.

O corpo ensina onde a mente não alcança

Há aprendizados que não vêm por livros, terapias ou conselhos.

Eles vêm por sintomas.

Por cirurgias.

Por faltas de ar.

Por noites em que o corpo assume o comando.

O corpo é o último professor —

e o mais honesto.

Ele não negocia, não argumenta, não idealiza.

Ele impõe.

E quando isso acontece, o sujeito muda.

Muda o olhar, muda o ritmo, muda a forma de desejar.

A vitalidade de antes era inconsciente.

A sabedoria de agora é cara.

O conflito espiritual do tempo

Teologicamente, esse desejo toca num ponto sensível:

o tempo não volta.

A espiritualidade madura não promete retorno ao que foi,

mas sentido para o que restou.

Na tradição bíblica, ninguém é chamado a regressar.

Abraão é chamado a sair.

Moisés não entra na terra.

Paulo carrega um espinho.

A fé não restaura juventude —

ela sustenta a travessia.

Querer juntar vitalidade e sabedoria é humano.

Aceitar que isso não acontece literalmente é espiritual.

Então, o que é “melhorar”?

Melhorar não é voltar a ser quem se foi.

É aprender a viver bem com quem se é agora.

É usar a sabedoria conquistada para:

respeitar os limites do corpo

diminuir exigências irreais

abandonar a culpa por não ser mais o mesmo

cultivar presença em vez de desempenho

A maturidade verdadeira não romantiza a dor,

mas também não desperdiça o que ela ensinou.

A síntese possível

Talvez a junção perfeita nunca aconteça.

Mas existe algo próximo disso:

👉 menos vitalidade desperdiçada

👉 mais consciência aplicada

👉 menos pressa, mais precisão

👉 menos idealização, mais verdade

Não teremos o corpo de antes.

Mas podemos ter algo que antes faltava:

cuidado.

E isso, paradoxalmente, também é uma forma de vida plena.

Porque só quem já perdeu um pouco da própria força

aprende a usá-la com sabedoria.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O professor não é espelho. É janela.



 O professor não é espelho. É janela.

por Abilio Machado 

Educar não é criar réplicas de si mesmo.

É formar pessoas capazes de pensar com autonomia, senso crítico e responsabilidade — inclusive quando discordam de nós.

O papel do professor não é moldar consciências à sua imagem, mas abrir caminhos para o conhecimento, o diálogo e a liberdade intelectual.

Eu sou professor — e é justamente por isso que preciso dizer o que muita gente prefere sussurrar nos corredores da escola, longe da sala dos professores e das certezas ideológicas.

O meu dever não é fabricar cópias do que penso.

Não é criar pequenos porta-vozes das minhas convicções pessoais.

Muito menos induzir crianças e adolescentes a aceitarem, sem reflexão, visões específicas sobre gênero, política ou mundo.

Meu trabalho é transferir conhecimento, não colonizar consciências.

Quando o professor passa do ponto, ele deixa de ensinar e começa a doutrinar.

E doutrinação é o nome elegante que a vaidade intelectual dá ao autoritarismo pedagógico.

Ensinar exige humildade.

Doutrinar exige aplauso.

O problema começa quando se confunde formar pensamento crítico com formar pensamento alinhado. Quando o aluno discorda e isso é lido como falha, ignorância ou resistência moral — e não como exercício legítimo de autonomia.

Há algo profundamente narcísico em querer que o aluno pense como eu.

Como se o sucesso pedagógico fosse medido pela quantidade de réplicas ideológicas que saem da sala ao fim do ano letivo.

Não se trata de negar valores. Professores os têm — e sempre terão.

Mas valores não se impõem: se apresentam, se discutem, se confrontam.

A sala de aula não é palanque.

O quadro negro não é cartaz de campanha.

E o aluno não é massa de manobra emocional nem laboratório sociopolítico.

Quando eu induzo, eu exerço violência simbólica.

Quando eu silencio quem pensa diferente, ensino medo — não liberdade.

Quando rotulo o aluno crítico como “atrasado” ou “problemático”, já não educo: adestra-se.

As férias chegaram.

E talvez seja hora de menos cursos sobre o que o aluno deve pensar

e mais autoanálise sobre quem nos tornamos enquanto educadores.

Será que eu ensino para libertar

ou para confirmar minhas certezas?

Será que eu acolho o aluno que me questiona

ou apenas celebro o que me repete?

Será que eu crio janelas para o mundo

ou espelhos onde só vejo meu próprio reflexo?

Educar é correr o risco de formar alguém que discorde de mim —

e ainda assim respeitá-lo.

Talvez as férias sejam um bom tempo para essa pausa necessária.

Uma pausa para olhar menos para o que o aluno pensa

e mais para como nós, professores, estamos ensinando.

Onde termina a formação do pensamento crítico

e onde começa a imposição das nossas próprias convicções?

Fica a reflexão.


#Educação #Docência #ÉticaNaEducação #FormaçãoHumana #ResponsabilidadeDocente #Educação #Docência #ÉticaNaEducação #PensamentoCrítico #AutonomiaIntelectual #EducarNãoDoutrinar #Responsabilidadeprofissional 

O que a memória ama, fica eterno.

 


O QUE A MEMÓRIA AMA, FICA ETERNO

(Adélia Prado)


   Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. 

   O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

   É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

   Diante do tempo, envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória, ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

   Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

   A capacidade de se emocionar vem daí, quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa – e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, aquela época...

   Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos... mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

   A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre "as crianças", não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Pra eles, a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite... ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

   Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

   Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram. 

🎅🧙‍♂

#papainoelabiliomachado

#psicologiapastoral

Janeiro Branco e a Saúde Mental

 


JANEIRO BRANCO E A SAÚDE MENTAL  

Abilio Machado - Psicanalista, Psicoterapeuta e Neuropsicopedagogo ICH

Janeiro Branco não é apenas um mês no calendário.

É um convite silencioso para olhar para dentro — e, às vezes, isso é mais difícil do que parece.

Depois das festas, dos excessos, das promessas feitas à meia-noite, sobra o que quase nunca recebe atenção: a mente cansada, as emoções acumuladas, os silêncios engolidos ao longo do ano. Janeiro chega branco como uma folha em espera, perguntando, sem pressa: como você está, de verdade?

Cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, é gesto de coragem. É reconhecer que nem tudo precisa ser suportado sozinho, que sentir cansaço, tristeza, confusão ou medo faz parte da experiência humana. O adoecimento psíquico não grita — ele sussurra. E, quando ignorado, cobra seu preço no corpo, nas relações, na vida.

Janeiro Branco nos lembra que falar é tratamento, escutar é cuidado, acolher é prevenção. Que terapia não é luxo, é higiene emocional. Assim como cuidamos do coração, dos ossos, da alimentação, também precisamos aprender a cuidar dos pensamentos que nos habitam e das histórias que contamos a nós mesmos.

Que este mês seja menos sobre metas inalcançáveis e mais sobre autopercepção. Menos cobrança, mais honestidade interna. Menos pressa, mais presença. Que possamos escrever, nesta folha branca, um compromisso simples e profundo: não abandonar a nós mesmos ao longo do ano.

Porque saúde mental não é ausência de dor.

É a capacidade de atravessá-la com sentido, apoio e humanidade.



#JaneiroBranco #SaúdeMentalImporta #CuidarDaMente #AutocuidadoEmocional #SaúdeEmocional #FalarÉCuidar #EscutaQueAcolhe #ConsciênciaEmocional #PsicologiaParaTodos #TerapiaÉCuidado #HumanizarSentimentos #CuidarDeSi #BemEstarPsicológico

O dilema do Bonde.

  O Dilema do Bonde Quadro 1: Um bonde desgovernado avança rapidamente por uma linha férrea. Cinco pessoas estão amarradas nos trilhos à fre...