quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A pessoa que nasce dentro de nós...

 



A pessoa que nasce dentro de nós


Um dos processos mais bonitos — e também mais assustadores — da vida é perceber que, em algum momento, já não somos exatamente quem éramos.


Mudamos. Não necessariamente porque deixamos de ser nós mesmos, mas porque algumas experiências nos obrigam a olhar para dentro e reconhecer que a pessoa que fomos precisou morrer em alguns aspectos para que outra pudesse nascer.


Na perspectiva psicológica, esse processo pode representar amadurecimento, ressignificação e reconstrução da identidade. Há momentos em que antigas crenças, padrões, medos e formas de se relacionar deixam de fazer sentido. E quando aquilo que sustentava nossa antiga maneira de viver perde força, podemos experimentar uma espécie de luto por nós mesmos.


É assustador perceber:

“Eu não penso mais como antes. Não aceito mais as mesmas coisas. Não desejo mais a mesma vida.”


Mas talvez isso não seja uma perda. Talvez seja crescimento.


A psicoteologia nos oferece uma leitura ainda mais profunda desse processo. A Bíblia fala sobre transformação, renovação e nascimento de uma nova criatura. Paulo escreve: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Romanos 12:2). E, em outro momento, afirma que, em Cristo, aquele que está nele é uma “nova criatura” (2 Coríntios 5:17).


Isso não significa apagar a nossa história.


Deus não precisa destruir quem fomos para construir quem podemos ser. Ele pode transformar nossas feridas em consciência, nossos erros em aprendizado, nossas perdas em maturidade e até nossas quedas em lugares de onde aprendemos a levantar.


Talvez a verdadeira mudança não aconteça quando conseguimos esquecer o passado, mas quando conseguimos olhar para ele sem permitir que ele continue governando o presente.


Existe uma hora em que precisamos compreender que permanecer fiel à nossa história não significa permanecer preso a ela.


Você pode honrar quem foi sem continuar vivendo como aquela pessoa.


Pode agradecer pelo caminho sem precisar voltar para ele.


Pode reconhecer suas cicatrizes sem transformá-las em sua identidade.


E talvez seja justamente aí que aconteça uma das experiências mais profundas da existência: continuar sendo você, mas de uma maneira que o seu antigo eu jamais imaginou.


A transformação assusta porque toda mudança verdadeira exige uma despedida.


Mas algumas despedidas não são o fim.


São o começo de uma nova vida dentro da mesma vida.


Abílio Machado _ Psi

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