Esse pequeno diálogo é muito rico psicoterapeuticamente porque trabalha, com humor, uma questão central da psicologia: o que realmente aprendemos em terapia e como interpretamos aquilo que aprendemos.
A fala da filha — “a gente tem que traumatizar as pessoas de volta” — pode ser compreendida como uma espécie de reação defensiva. Ela parece transformar a experiência de ter sido ferida em uma autorização para ferir. É como se dissesse: “se fizeram isso comigo, agora eu também posso fazer.”
Mas há uma diferença fundamental entre compreender o próprio trauma e reproduzi-lo.
Em psicoterapia, reconhecer que alguém nos machucou não significa receber uma licença para machucar outras pessoas. Pelo contrário: o processo terapêutico busca justamente interromper a repetição. Aquilo que foi recebido como dor pode ser elaborado para que não precise ser transmitido adiante.
A resposta da mãe — “foi a terapeuta que ensinou isso?” — revela outro aspecto interessante: imediatamente ela procura uma autoridade externa responsável pela interpretação da filha. E a resposta da menina é brilhante:
> “A terapeuta não ensinou. Você perguntou o que eu aprendi...”
Aqui aparece uma diferença entre aquilo que foi dito e aquilo que foi compreendido.
O terapeuta pode oferecer ferramentas, perguntas e possibilidades de reflexão, mas o paciente constrói significados a partir da própria história. Duas pessoas podem ouvir a mesma intervenção e produzir compreensões completamente diferentes.
Há ainda uma leitura psicanalítica possível: a filha pode estar expressando, de maneira irônica, um movimento de repetição. Quando não conseguimos elaborar uma experiência dolorosa, existe o risco de reproduzirmos, nos outros, aquilo que um dia fizeram conosco.
Por isso, talvez a verdadeira pergunta terapêutica não seja:
“Quem me traumatizou?”
Mas:
“O que farei com aquilo que fizeram comigo?”
Porque amadurecer psicologicamente não significa nunca mais ser ferido. Significa, pouco a pouco, deixar de transformar a própria ferida em arma.
E talvez essa seja a grande diferença entre vingança e elaboração:
a vingança diz “vou fazer você sentir o que eu senti”;
a elaboração diz “eu senti isso, entendi o que isso fez comigo e não preciso fazer você sentir o mesmo.”
Romper ciclos também é uma forma de cura.
— Abilio Machado
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