Viver também é aprender a desaparecer
Há uma espécie de morte que não acontece quando o coração para.
Ela acontece devagar.
É quando algumas coisas que éramos vão ficando pelo caminho. Um sonho que já não cabe mais na vida. Uma amizade que um dia foi casa e hoje é apenas lembrança. Um amor que terminou antes mesmo de alguém ter coragem de dizer que terminou. Uma versão nossa que envelheceu, cansou ou simplesmente não encontrou mais lugar onde permanecer.
Talvez seja isso que o texto do card nos provoca a pensar: viver também é morrer aos poucos.
Não necessariamente de uma forma triste. Às vezes, é apenas o tempo fazendo seu trabalho silencioso.
A gente perde pequenas partes de si todos os dias.
Perde a ingenuidade depois de algumas decepções. Perde a pressa depois de compreender que nem tudo precisa acontecer agora. Perde pessoas. Perde lugares. Perde certezas. Perde até algumas ilusões que, durante muito tempo, foram necessárias para continuar caminhando.
E existe uma coisa curiosa nisso tudo: enquanto algumas partes nossas morrem, outras nascem.
É como uma casa antiga que vai sendo reformada sem nunca deixar de ser a mesma casa.
Talvez amadurecer seja exatamente isso: aprender a conviver com os cômodos vazios sem esquecer que ainda existem janelas abertas.
Porque viver não é conservar intacto aquilo que fomos.
É ter coragem de continuar sendo alguém depois que tanta coisa deixou de existir.
Há dias em que acordamos e percebemos que já não somos aquela pessoa de dez, vinte ou trinta anos atrás. E talvez exista uma pequena tristeza nisso. Afinal, algumas versões nossas mereciam ter ficado.
Mas também há liberdade.
Porque aquilo que morreu em nós abriu espaço para aquilo que ainda pode nascer.
A vida, às vezes, não nos pede grandes recomeços.
Pede apenas que levantemos da cama, tomemos um café, respiremos fundo e façamos aquilo que precisa ser feito.
Sem heroísmo.
Sem discursos.
Apenas continuando.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de resistência humana: continuar sendo alguém mesmo depois de ter perdido quase tudo aquilo que um dia nos definia.
No fundo, viver é uma sucessão de despedidas.
Mas também é uma sucessão de encontros.
E enquanto houver alguma coisa dentro de nós dizendo “ainda não terminei”, talvez seja porque a vida, apesar de todas as perdas, ainda encontrou um jeito de permanecer.
“Nem tudo o que termina é o fim. Algumas perdas são apenas o espaço que a vida abre para aquilo que ainda precisa nascer.”
__Abilio Machado

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