sexta-feira, 18 de setembro de 2026

EDUCAR NAO É AGRADAR

 


EDUCAR NÃO É AGRADAR


“Educar não é entreter.” era a crônica de uma colega a pouco...


Concordo.


Mas talvez essa frase precise de uma segunda parte:


educar também não é desagradar só para provar que estamos educando.


Porque existe uma confusão perigosa acontecendo.


Temos medo de que, ao tornar a aula interessante, acolhedora e prazerosa, estejamos transformando educação em entretenimento.


Não necessariamente.


O problema não é o aluno gostar de aprender.


O problema começa quando a obrigação de fazê-lo gostar passa a decidir o que ele vai aprender.


E aqui tocamos numa ferida que nem sempre é confortável.


Na escola particular, existe uma equação que não podemos fingir que não existe: o aluno estuda, mas quem paga é a família.


E quando a satisfação do cliente entra pela porta da escola, existe o risco de a autonomia pedagógica sair pela janela.


Porque se o aluno não gostou do professor, reclama-se.


Se achou a matéria difícil, reclama-se.


Se recebeu uma nota baixa, reclama-se.


Se ouviu um “não”, reclama-se.


E, dependendo da situação, quem acaba precisando se explicar não é quem precisa aprender, mas quem deveria estar ensinando.


Quando o aluno vira cliente, o professor pode deixar de ser educador para se tornar fornecedor de satisfação.


E isso é muito mais sério do que parece.


Porque educar é justamente oferecer aquilo que nem sempre queremos receber.


É ensinar limites.


É contrariar certezas.


É exigir esforço.


É permitir que alguém experimente a frustração de não saber — para depois descobrir o prazer de conseguir.


Uma criança que nunca pode ser contrariada não está sendo necessariamente acolhida.


Pode estar apenas sendo acostumada a acreditar que o mundo deve se adaptar a ela.


E a escola não deveria reproduzir essa ilusão.


Mas também não precisamos voltar à educação baseada no medo, na humilhação e naquele professor que acreditava que quanto mais sofrido fosse aprender, melhor seria o aprendizado.


É possível exigir sem humilhar.

É possível acolher sem mimar.

É possível ensinar com autoridade sem autoritarismo.

E é perfeitamente possível aprender com prazer sem transformar a escola em parque de diversões.


Talvez o verdadeiro desafio da educação não seja fazer o aluno gostar de tudo.


Talvez seja ajudá-lo a compreender que nem tudo precisa agradá-lo para fazer bem a ele.


Porque existe uma diferença enorme entre educar uma pessoa para o mundo...


e educar o mundo para agradar essa pessoa.


E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes feridas da educação contemporânea.

E fica uma pergunta para nós: estamos educando crianças para enfrentarem um mundo que nem sempre vai dizer “sim” a elas, ou estamos tentando construir uma escola onde elas nunca precisem ouvir “não”?


Porque educar não é fazer o mundo agradar nossos filhos.

É prepará-los para viver no mundo sem perder a capacidade de transformá-lo.


— Abilio Machado

Psicanalista e Psicoterapeuta

"Especialista no Ensino de Artes e na Docência de Teologia e Filosofia" 

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