Sua origem não define seu destino
Abilio Machado Psicanalista e Psicoarteterapeuta
Introdução
Há uma frase que ouvimos desde a infância, em tom de sentença: "de onde você veio, você não sai". Ela aparece em conversas de família, em comentários de vizinhos, às vezes até dentro da nossa própria cabeça, quando julgamos que nossas oportunidades já estavam decididas antes mesmo de chegarmos à idade adulta. No meu caso ouvia muito de duas pessoas que pela posição e representatividade não deveriam usá-la, nem sempre na mesma composição gramática porém com a mesma interpretação é significado. Uma era freira e diretora do colégio que estudei, o outro era professor de língua portuguesa. A freira costumava dizer 'uma vez filho de operário será sempre operário' e ele dizia 'só vai servir prá chão de fábrica'. Entre outras frases daqueles que deveriam proteger e direcionar as crianças só futuro, pois outra frase muito usada ' a criança é o futuro do país.'
Este artigo parte de uma convicção simples e libertadora: sua origem não define seu destino. Ela influencia, sim, quem você é e como aprendeu a enxergar o mundo, mas não tem o poder de decidir por você aquilo que ainda pode se tornar. Você não escolheu o ponto de partida, mas pode escolher, a cada dia, a direção do caminho.
Desenvolvimento
A origem como ponto de partida, não como sentença
Sigmund Freud (1914/1996), em Recordar, repetir e elaborar, mostrou que o passado tende a se repetir enquanto não é compreendido. O ponto central de sua obra, porém, não é a fatalidade, e sim a possibilidade de elaboração: ao trazer à consciência aquilo que nos determina, abrimos espaço para escolhas que antes não enxergávamos. A origem, nessa perspectiva, é matéria-prima para a transformação.
Donald Winnicott (1971/2019), em Tudo começa em casa, lembra que o ambiente inicial importa muito, mas que a vida psíquica não se resume a ele. Para o autor, o que chamamos de "suficientemente bom" é o cuidado capaz de sustentar o desenvolvimento, e não a perfeição. Ou seja, mesmo quando faltou acolhimento, a pessoa pode construir, ao longo da vida, novas formas de se sustentar.
Resiliência: a capacidade de seguir em frente
Boris Cyrulnik (1999), neuropsiquiatra e pesquisador da resiliência, sobreviveu à infância marcada pela guerra e pela perda da família. Em suas obras, ele defende que o trauma não é destino: a resiliência é um processo que envolve vínculos, sentido e a possibilidade de reescrever a própria história. Para Cyrulnik, o ser humano é um "tecelão" de significados, capaz de transformar feridas em narrativas de força.
Edith Eva Eger (2017), psicóloga sobrevivente de Auschwitz, relata em A escolha que, mesmo diante da violência extrema, ainda havia um espaço interno que ninguém podia tomar. Sua trajetória mostra que a liberdade interior pode persistir mesmo quando as condições externas são devastadoras, e que a forma como interpretamos o que nos aconteceu pode abrir ou fechar futuros.
O sentido como motor da vida
Viktor Frankl (1946/2008), psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, escreveu em Em busca de sentido: "Ao homem pode ser tirada tudo, menos a última das liberdades humanas: a escolha da atitude pessoal em qualquer circunstância." Essa frase resume uma das ideias mais poderosas da psicologia: entre o que nos acontece e a resposta que damos existe um espaço de liberdade.
Frankl também observou que quem encontra um sentido para a própria vida suporta melhor as adversidades. Assim, o destino não é apenas aquilo que o passado determinou, mas aquilo que construímos ao dar significado às nossas experiências.
Psicoarteterapia: criar novas narrativas
A psicoarteterapia utiliza linguagens artísticas (desenho, escrita, música, movimento, colagem) como caminhos para acessar sentimentos que nem sempre encontram palavras. Ao criar, a pessoa se reconhece como autora da própria história, e não apenas como personagem de um roteiro escrito por outros.
Carl Rogers (1961/2009), em Tornar-se pessoa, afirma que a mudança acontece quando o indivíduo se sente aceito e compreendido, o que lhe permite abandonar defesas rígidas e explorar novas possibilidades de ser. A arte, nesse contexto, funciona como um espaço seguro para essa exploração.
Discussão
Ao longo dessas referências, percebe-se um fio condutor: a origem influencia, mas não sentencia. Ela pode oferecer recursos, como afeto, cultura, habilidades e valores, e também pode trazer desafios, como carências, traumas e crenças limitantes. Em ambos os casos, o que determina o rumo é a relação que estabelecemos com essa herança.
Isso não significa negar a dor nem minimizar as desigualdades sociais, econômicas e familiares, que existem e exigem reconhecimento. Significa, porém, reconhecer que a pessoa não é um resultado fixo de suas circunstâncias. Há sempre algum grau de movimento possível: uma nova escolha, uma relação que cura, uma atividade que desperta talento, um sentido que reorganiza a vida.
Na prática clínica e no cotidiano, a pergunta mais útil talvez não seja "por que eu sou assim?", e sim "o que eu quero construir a partir de agora?". A primeira pergunta pode nos ajudar a compreender. A segunda nos convida a agir.
Conclusão
Você não precisa ter nascido em um lugar ideal para construir uma vida com sentido. Sua história inicial é parte de quem você é, mas não é o limite de quem você pode se tornar. Cada passo consciente, cada vínculo cultivado, cada criação que expressa a sua verdade é uma afirmação de que o futuro ainda está aberto.
Por isso, deixo um convite: olhe para a sua origem com compaixão e curiosidade, mas não permita que ela seja o último capítulo. O seu destino é escrito por você, a partir de hoje.
Referências
BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
CYRULNIK, Boris. Un merveilleux malheur. Paris: Odile Jacob, 1999.
EGER, Edith Eva. A escolha: a liberdade está dentro de você. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008. (Obra original publicada em 1946.)
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XII.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009. (Obra original publicada em 1961.)
WINNICOTT, Donald W. Tudo começa em casa. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2019. (Obra original publicada em 1971.)

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