domingo, 18 de outubro de 2026

“Viu, quando você precisa, eu levanto!” — A ereção, o envelhecimento e a masculinidade em questão

 


“Viu, quando você precisa, eu levanto!” — A ereção, o envelhecimento e a masculinidade em questão


Por Abilio Machado — Psicanalista e Psicoterapeuta


O que uma piada sobre um velho e seu pênis revela sobre o medo masculino de envelhecer, perder a potência e deixar de se sentir desejado?


Quando o humor revela aquilo que o homem não consegue dizer


Um velho acorda de madrugada com vontade de urinar. Levanta-se, caminha até o banheiro e, antes de começar a fazer suas necessidades, olha para o próprio pênis e dispara:


— Está vendo? Quando você precisa, eu levanto! Agora, quando eu preciso de você, você não levanta!


É impossível não perceber o humor da situação. Afinal, o velho parece ter descoberto que seu companheiro de tantas décadas desenvolveu uma vontade própria: atende ao chamado da bexiga, mas já não responde com a mesma disposição aos desejos sexuais do seu proprietário.


Rimos porque reconhecemos a ironia. Mas, depois da risada, fica uma pergunta que merece ser feita: o que acontece com um homem quando seu corpo deixa de responder da maneira como ele aprendeu a esperar?


A anedota nos oferece uma oportunidade para conversar sobre um tema que ainda carrega constrangimentos, preconceitos e silêncios: a disfunção erétil no envelhecimento masculino.


E, antes que alguém pense que estamos falando apenas de sexo, vale esclarecer: estamos falando também de identidade, autoestima, afetividade, saúde e da maneira como aprendemos a compreender nossa própria masculinidade.


O envelhecimento não aposenta o desejo


Existe uma crença cultural persistente de que a sexualidade pertence à juventude e de que, depois de determinada idade, o homem deveria simplesmente aceitar o fim da vida sexual.


Essa ideia é tão equivocada quanto injusta.


Envelhecer não significa necessariamente deixar de desejar, de sentir atração ou de buscar intimidade. O que pode mudar é a resposta do organismo, o ritmo da excitação, a disposição física e a maneira de vivenciar o prazer.


A ereção pode demorar mais para acontecer, exigir estímulos diferentes ou apresentar menor rigidez. O período de recuperação depois do orgasmo também pode aumentar.


Essas mudanças não são iguais para todos os homens. E existe uma distinção fundamental: a disfunção erétil é caracterizada pela dificuldade persistente de obter ou manter uma ereção suficiente para uma atividade sexual satisfatória. Não deve ser confundida com um episódio ocasional em que o corpo simplesmente não correspondeu à expectativa.


A disfunção erétil torna-se mais frequente com a idade, mas não deve ser considerada uma consequência inevitável do envelhecimento. Há causas que podem ser investigadas e tratamentos que podem ajudar.


Portanto, não se trata de exigir que o corpo de um homem de setenta anos funcione exatamente como funcionava aos vinte. Trata-se de reconhecer suas mudanças sem transformar cada dificuldade em uma sentença definitiva.


Quando o pênis deixa de ser apenas um órgão


Aqui começamos a entrar no território da psicologia e da psicanálise.


Para muitos homens, o pênis representa muito mais do que uma parte da anatomia. Culturalmente, ele foi associado à potência, à força, à virilidade, à capacidade de conquistar e até ao valor pessoal.


Desde cedo, muitos aprendem que o homem precisa estar sempre pronto, disponível e capaz de corresponder sexualmente. A ereção, nesse imaginário, torna-se quase uma comprovação de masculinidade.


O problema começa quando essa associação se transforma em uma exigência.


Se o corpo responde, o homem sente-se seguro. Se não responde, pode experimentar vergonha, frustração, medo de decepcionar e uma sensação de perda que ultrapassa o acontecimento físico.


Ele não pensa apenas: “Hoje não consegui ter uma ereção”.


Pode pensar: “Será que deixei de ser homem?”.


Perceba a diferença.


Na primeira situação, temos uma dificuldade que precisa ser compreendida. Na segunda, temos uma dificuldade transformada em julgamento sobre a própria identidade.


É nesse ponto que a experiência fisiológica pode adquirir uma dimensão emocional dolorosa.


O medo do fracasso pode se tornar parte do problema


Imagine um homem que teve uma dificuldade de ereção em determinada ocasião.


Na próxima tentativa de intimidade, em vez de se permitir viver o encontro, começa a vigiar o próprio corpo.


Será que vai funcionar?


Será que ela vai perceber?


E se acontecer novamente?


A atenção, antes dirigida ao prazer, ao contato e à outra pessoa, passa a se concentrar no desempenho. O homem tenta controlar uma resposta fisiológica complexa, como se precisasse demonstrar sua capacidade diante de uma banca examinadora.


O quarto, que poderia ser um espaço de intimidade, transforma-se em um lugar de avaliação.


A ansiedade pode interferir na resposta sexual, e o medo de uma nova dificuldade pode contribuir para sua repetição.


Isso não significa que toda disfunção erétil tenha origem emocional. Problemas vasculares, diabetes, alterações neurológicas, determinados medicamentos, questões hormonais e outras condições de saúde podem estar envolvidos. Muitas vezes, fatores físicos e psicológicos coexistem.


O cuidado adequado começa justamente quando deixamos de procurar uma explicação única para todos os casos.


O homem não precisa escolher entre admitir que seu corpo mudou e reconhecer que está sofrendo emocionalmente. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.


O corpo tem suas razões: a dimensão física da ereção


A ereção depende de mecanismos neurológicos, vasculares e hormonais que trabalham em conjunto. Para que ela aconteça e seja mantida, é necessário que o sangue chegue adequadamente aos tecidos do pênis e que os mecanismos envolvidos na resposta sexual funcionem de maneira coordenada.


Por isso, algumas condições podem comprometer a função erétil, entre elas:


- Diabetes: pode prejudicar os nervos e os vasos sanguíneos envolvidos na ereção.

- Doenças cardiovasculares e aterosclerose: podem comprometer a circulação sanguínea.

- Hipertensão arterial: especialmente quando associada a outros fatores de risco vascular.

- Alterações hormonais: níveis baixos de testosterona podem contribuir para a redução do desejo e, em alguns casos, para dificuldades sexuais.

- Medicamentos: determinados antidepressivos, anti-hipertensivos e outros fármacos podem interferir na função sexual.

- Depressão, ansiedade, estresse e dor crônica: podem afetar o desejo, a excitação e a experiência da intimidade.


Esses fatores merecem atenção porque a dificuldade de ereção não é necessariamente um problema isolado. Em determinadas situações, pode ser um sinal de uma condição de saúde que ainda precisa ser identificada ou melhor controlada.


A orientação é procurar avaliação médica quando a dificuldade se torna recorrente. O profissional poderá investigar as causas, revisar os medicamentos em uso e discutir opções de tratamento.


É importante também não recorrer por conta própria a medicamentos para ereção. Alguns são contraindicados para pessoas que utilizam nitratos e podem causar interações perigosas em determinadas condições cardiovasculares.


Cuidar da sexualidade também é cuidar da saúde.


A companheira ainda me deseja?


Existe uma dimensão relacional que não pode ser ignorada.


Quando a ereção falha, alguns homens interpretam o episódio como uma ameaça à relação. Imaginam que a companheira ficará decepcionada, que perderá o interesse ou que começará a questionar sua capacidade de satisfazê-la.


Ao mesmo tempo, a parceira pode interpretar a dificuldade como sinal de que já não é atraente ou desejada.


E assim, sem que ninguém diga claramente o que está sentindo, os dois podem começar a construir uma distância.


O homem evita iniciar o contato íntimo porque tem medo de não corresponder. A mulher interpreta o afastamento como rejeição. Ele percebe o distanciamento dela e fica ainda mais inseguro.


O que começou como uma dificuldade física pode se transformar em um problema de comunicação e de vínculo.


Por isso, conversar é tão importante.


Não para exigir explicações, cobrar resultados ou procurar culpados, mas para permitir que ambos compreendam o que está acontecendo.


A intimidade não precisa ser reduzida à penetração. Beijos, carícias, abraços, massagens, conversas e outras formas consensuais de prazer continuam podendo fazer parte da vida sexual do casal.


Isso não significa desistir de buscar tratamento para a disfunção erétil. Significa não permitir que a dificuldade determine, sozinha, o destino da intimidade.


A masculinidade precisa de uma ereção para existir?


Talvez esta seja a pergunta mais importante de toda a reflexão.


Se um homem só se sente homem quando consegue uma ereção, o que acontece com sua identidade quando o corpo não corresponde?


A resposta pode revelar o quanto a masculinidade foi construída sobre exigências de desempenho.


Aprendemos a valorizar o homem que conquista, produz, sustenta, protege e demonstra força. Em muitos contextos, falar de fragilidade, pedir ajuda ou admitir dificuldades sexuais parece incompatível com esse ideal.


O resultado é um homem que, às vezes, prefere sofrer em silêncio a admitir que precisa de cuidado.


Do ponto de vista psicanalítico, podemos refletir sobre a relação entre a imagem que o sujeito construiu de si mesmo e a experiência concreta de um corpo que muda. Quando a identidade está excessivamente apoiada na potência sexual, a dificuldade de ereção pode ser vivida como uma ferida narcísica, isto é, como um abalo na imagem e no valor que o indivíduo atribui a si próprio.


Essa é uma possibilidade de compreensão clínica, não uma explicação universal. Cada homem tem sua história, seus vínculos, seus medos e sua maneira particular de experimentar o envelhecimento.


Ainda assim, vale perguntar: por que é tão difícil para alguns homens aceitar que precisam de tempo, adaptação ou ajuda?


Talvez porque tenham aprendido a medir seu valor pela capacidade de nunca falhar.


Mas o corpo humano não é uma máquina programada para satisfazer permanentemente nossas expectativas. Ele muda, adoece, recupera-se, impõe limites e exige cuidados.


E reconhecer isso não diminui ninguém.


Ressignificar a sexualidade é descobrir novas possibilidades


Quando compreendemos a sexualidade apenas como ereção e penetração, reduzimos uma experiência humana complexa a uma única resposta fisiológica.


A sexualidade também envolve desejo, fantasia, afeto, comunicação, confiança, curiosidade, prazer e intimidade.


Na maturidade, algumas pessoas descobrem novas formas de viver essa dimensão. Há casais que passam a conversar mais abertamente sobre suas necessidades, a respeitar o próprio ritmo e a experimentar maneiras diferentes de compartilhar prazer.


Isso não significa romantizar o envelhecimento nem sugerir que a pessoa deva simplesmente aceitar qualquer dificuldade. A perda persistente da função erétil merece investigação, e o sofrimento emocional merece acolhimento.


Significa compreender que buscar tratamento e ampliar a maneira de viver a intimidade são caminhos que podem caminhar juntos.


A sexualidade não precisa permanecer presa às expectativas da juventude. Ela pode ser reconstruída a partir das possibilidades reais de cada pessoa, de seus desejos e de suas condições de saúde.


O objetivo não é provar que o homem ainda consegue funcionar como antes. É ajudá-lo a viver com saúde, dignidade e satisfação.


E o velho da anedota, afinal?


Voltemos ao nosso personagem.


Ele levanta de madrugada, vai ao banheiro e reclama com o próprio pênis porque, segundo sua avaliação, um atende às necessidades do corpo enquanto o outro parece ignorar suas expectativas.


A piada continua engraçada.


Mas agora sabemos que, por trás dela, pode existir uma questão muito maior: o desconforto de perceber que o corpo já não responde da mesma maneira e a dificuldade de encontrar um novo significado para essa mudança.


Talvez o velho não esteja apenas reclamando do pênis. Talvez esteja reclamando do tempo, das expectativas que construiu e de uma sociedade que ensinou muitos homens a confundir potência com valor pessoal.


E talvez a verdadeira maturidade comece quando ele percebe que não precisa transformar cada mudança do corpo em uma disputa contra si mesmo.


Envelhecer não é deixar de ser homem. Não conseguir uma ereção não é deixar de desejar. E precisar de ajuda não é fracassar.


O corpo pode mudar, o desejo pode mudar de ritmo e a intimidade pode assumir outras formas. Nada disso elimina a possibilidade de afeto, prazer, vínculo e descoberta.


A questão não é exigir que o corpo continue levantando a qualquer custo.


É aprender a escutá-lo sem deixar de cuidar dele.


Uma última pergunta para você, leitor


Quantos homens você conhece que conseguem falar abertamente sobre seus medos, suas inseguranças e suas dificuldades sexuais, sem transformar tudo em piada?


E quantos continuam sofrendo em silêncio porque acreditam que admitir uma dificuldade é o mesmo que perder a masculinidade?


Talvez esteja na hora de rir com a anedota, mas ir além dela.


Porque o homem não precisa provar sua potência a cada encontro. Precisa, antes de tudo, compreender que seu valor nunca esteve condicionado a uma ereção.


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Abilio Machado

Psicanalista e Psicoterapeuta


Este artigo tem caráter informativo e reflexivo. Não substitui avaliação médica ou acompanhamento psicológico individualizado.

Vídeo base da ideia para o artigo...


Referências para aprofundamento


- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK). "Disfunção erétil: sintomas e causas" (https://www.niddk.nih.gov/health-information/urologic-diseases/erectile-dysfunction/symptoms-causes).

- National Institute on Aging (NIA). "Sexualidade e intimidade em adultos mais velhos" (https://www.nia.nih.gov/health/sexuality/sexuality-and-intimacy-older-adults).

- NIDDK. "Disfunção erétil: diagnóstico e tratamento" (https://www.niddk.nih.gov/health-information/urologic-diseases/erectile-dysfunction).


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