terça-feira, 4 de novembro de 2025
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
As Mãos que Ferem e os Olhos que Amam: As Más Referências Parentais e a Imagem dos Pais na Vida Psicoespiritual dos Filhos
As Mãos que Ferem e os Olhos que Amam: As Más Referências Parentais e a Imagem dos Pais na Vida Psicoespiritual dos Filhos
Por Abilio Machado - Psicanalista/Psicoarteterapeuta/Neuropsicopedagogo ICH
Resumo
A formação psíquica e espiritual de um indivíduo é profundamente moldada pelas referências parentais internalizadas durante a infância. Quando essas referências são negativas — marcadas por negligência, autoritarismo, frieza afetiva ou manipulação emocional —, produzem feridas invisíveis que repercutem na vida adulta, comprometendo a autoestima, a fé e a capacidade de se vincular de forma saudável. Sob uma perspectiva psicoteológica, este artigo analisa como as distorções nas relações parentais podem corromper a imagem interior de Deus e perpetuar ciclos de sofrimento psíquico e espiritual.
Palavras-chave: #parentalidade; #psicologia; #teologia; #feridas #emocionais; #fé; #trauma.
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1. Introdução
Os pais são os primeiros espelhos da existência. É neles que a criança busca compreender o amor, o limite, o perdão e o sentido de pertencimento. Quando esses espelhos devolvem imagens distorcidas — de rejeição, crítica constante ou abandono —, o psiquismo infantil registra tais experiências como marcas identitárias. Winnicott (1971) descreveu esse fenômeno como a formação de um falso self: um eu que se adapta para sobreviver, mas se distancia da autenticidade.
No âmbito teológico, o lar é o primeiro templo, e os pais, seus primeiros sacerdotes. A relação primária com pai e mãe fornece à criança as primeiras noções de transcendência, justiça e misericórdia. Quando essa estrutura falha, ocorre um colapso simbólico entre o amor humano e o divino — uma rachadura que pode ecoar por toda a vida espiritual.
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2. As Marcas Invisíveis: A Dor que Não se Vê
Grande parte das dores emocionais da vida adulta tem raízes na infância. Freud (1923) demonstrou que as primeiras relações com as figuras parentais formam o alicerce do superego — o tribunal interno que julga e pune o próprio eu. Pais excessivamente críticos ou moralistas tendem a gerar filhos com um superego tirânico, incapaz de acolher a própria fragilidade.
Essas feridas, embora invisíveis, aparecem em atitudes como a busca compulsiva por aprovação, o medo do abandono ou a necessidade de controle. Bowlby (1988), em sua teoria do apego, evidenciou que o tipo de vínculo estabelecido na infância molda a maneira como o adulto se relaciona com o mundo. A falta de acolhimento gera adultos ansiosos, evitativos ou dependentes afetivamente.
Do ponto de vista espiritual, tais feridas criam uma distância simbólica de Deus. O indivíduo projeta sobre o divino a imagem de um pai distante ou de uma mãe fria. Nouwen (1992) descreve esse fenômeno ao afirmar: “Somos chamados a escutar a voz que nos diz que somos amados, mas o ruído das vozes antigas ainda nos acusa”.
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3. A Dimensão Teológica das Referências Parentais
Na tradição cristã, Deus é frequentemente representado com traços parentais: “Pai amoroso”, “Mãe consoladora”, “Protetor e guia”. Entretanto, quando a experiência humana com os pais é marcada por dor, a espiritualidade pode se transformar em um território de medo e culpa. Muitos adultos oram não por amor, mas por medo de castigo; não buscam intimidade com o divino, mas tentam merecer o perdão que acreditam não possuir.
A Escritura afirma: “Aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 João 4:20). Sob uma lente psicoteológica, pode-se dizer: aquele que não foi amado por quem via, pode ter dificuldade de crer no amor daquele que não vê. Essa distorção é uma das mais profundas raízes do afastamento espiritual contemporâneo.
Scazzero (2015) afirma que “não há maturidade espiritual sem maturidade emocional”. Assim, curar a imagem dos pais é também curar a imagem de Deus. Trata-se de um processo duplo: psicológico e redentor, em que o indivíduo aprende a separar o divino do humano, reconstruindo sua fé sobre novas bases de confiança.
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4. A Dor Herdada: Transgeracionalidade e Herança Emocional
As feridas não tratadas tendem a atravessar gerações. Bowen (1978) destacou que padrões emocionais familiares se repetem inconscientemente, até que alguém desenvolva consciência suficiente para romper o ciclo. O que a psicologia chama de transmissão transgeracional, a teologia denomina redenção familiar — o processo pelo qual a dor é transformada em aprendizado espiritual.
Filhos de pais ausentes podem tornar-se adultos controladores; filhos de mães superprotetoras, indivíduos com medo de autonomia. A história se repete, mas não como destino, e sim como chamado à consciência.
Como afirma Rohr (2019), “o amadurecimento espiritual começa quando reconhecemos nossas feridas como mestres silenciosos — não obstáculos, mas portas para o amor divino”.
A interrupção desse ciclo requer tanto terapia quanto espiritualidade. A oração, a reflexão e o autoconhecimento se tornam ferramentas de libertação intergeracional. A cura não é apenas individual: é um ato de misericórdia que redime o passado e prepara o futuro.
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5. Quando o Coração Aprende a Orar de Novo (Estudo de Caso)
Em atendimentos pastorais e psicoterapêuticos, observa-se frequentemente a influência dessas marcas na fé adulta. Um exemplo simbólico é o de uma mulher de 42 anos, criada sob rigidez moral e ausência de carinho. Ao orar, sentia culpa e medo — como se Deus a observasse com desapontamento. Durante o processo terapêutico, percebeu que sua imagem de Deus havia sido moldada pela figura do pai crítico e da mãe emocionalmente distante. Ao reconstruir essa imagem, descobriu uma nova forma de oração — não mais por medo, mas por confiança.
A reconciliação com o divino foi, paradoxalmente, um reencontro com sua própria humanidade.
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6. O Caminho da Cura: Integração Psicológica e Redenção Espiritual
A cura das más referências parentais exige um movimento de integração: compreender as limitações humanas dos pais sem negar a dor causada por elas. Jung (1954) afirmou que a experiência religiosa autêntica surge quando o indivíduo reconcilia os opostos em si mesmo — a sombra e a luz, a culpa e o perdão.
O processo de cura é espiritual e psicológico ao mesmo tempo: envolve revisitar memórias, ressignificar experiências e permitir que a imagem de Deus se revele livre das distorções humanas. É nesse espaço interior que a graça atua. O perdão — não como esquecimento, mas como libertação — torna-se o ponto de encontro entre a psicologia e a teologia.
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7. Considerações Finais
As más referências parentais não apenas moldam o comportamento: elas ferem a alma. São cicatrizes invisíveis que determinam a forma como o indivíduo se percebe, ama e crê. Sob a visão psicoteológica, curar essas marcas é um ato de fé — é redescobrir em Deus a figura amorosa que os pais, muitas vezes, não puderam ser.
O processo de cura interior é lento, mas sagrado. Envolve reconhecer que o amor divino é maior que a imperfeição humana. Como ensina Nouwen (1992), “a ferida pode tornar-se o lugar onde a luz entra”.
E talvez seja justamente nas cicatrizes que Deus escreva seus mais belos atos de redenção.
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Referências (ABNT)
BÍBLIA SAGRADA. 1 João 4:20. Tradução: Almeida Revista e Atualizada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
BOWEN, Murray. Family Therapy in Clinical Practice. New York: Jason Aronson, 1978.
BOWLBY, John. Apego e perda: Volume 1 – Apego. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1923.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1954.
NOUWEN, Henri J. M. O filho pródigo: A volta para casa. São Paulo: Paulinas, 1992.
ROHR, Richard. O Enxergar do Coração: A Jornada da Transformação Espiritual. São Paulo: Vozes, 2019.
SCAZZERO, Peter. Espiritualidade emocionalmente saudável. São Paulo: Mundo Cristão, 2015.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1971.
sexta-feira, 26 de setembro de 2025
Nem Toda Luz Ilumina
Nem Toda Luz Ilumina
A humanidade sempre buscou a luz. Desde a chama das primeiras tochas até as telas brilhantes que hoje carregamos nos bolsos, luz é sinal de vida, progresso, esperança. Mas é preciso discernir: nem toda luz ilumina.
Existem claridades que confundem, brilhos que ofuscam em vez de revelar. A psicologia chama isso de falsas soluções: escolhas que parecem trazer alívio imediato, mas que a longo prazo aprofundam nossas sombras. Um relacionamento tóxico pode parecer “luz” para a solidão, mas logo mostra-se escuridão disfarçada. Uma dependência pode parecer conforto, mas apenas apaga a verdadeira chama interior.
Na teologia, esse alerta é ainda mais profundo. O apóstolo Paulo já nos advertia sobre aqueles que se transformam em “anjos de luz” (2 Coríntios 11:14), mas que nada têm de divino. É o brilho enganoso que seduz, mas não guia. Diferente da luz de Cristo, que não apenas clareia o caminho, mas revela a verdade e dá vida.
O perigo do brilho vazio
Quantas vezes corremos atrás de holofotes, curtidas e palcos? Eles brilham, mas não aquecem. A verdadeira luz não está na intensidade do brilho externo, mas na profundidade da transformação interior.
A luz que realmente ilumina
Iluminar é permitir que algo seja visto como realmente é. A luz que vem de Deus não cria ilusões, mas revela. Ela mostra o que estava escondido, não para nos condenar, mas para nos curar.
O Natal e a estrela verdadeira
O Natal nos lembra disso: no céu havia muitas luzes, mas apenas uma estrela guiava até o lugar certo. Nem todas as luzes da noite eram caminho, apenas aquela que apontava para a manjedoura.
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✨ Ensinamento do Papai Noel: Nem toda luz ilumina. Algumas apenas distraem. A verdadeira luz revela, aquece e conduz ao propósito.
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quarta-feira, 24 de setembro de 2025
O Silêncio Também Fala
Vivemos cercados por barulhos: notificações do celular, vozes que disputam atenção, opiniões lançadas como pedras em praça pública. Nesse turbilhão, muitos acreditam que só se comunica quem fala. Mas esquecem que o silêncio também tem sua voz.
Na psicologia, o silêncio pode ser um espaço terapêutico: o lugar onde sentimentos ocultos emergem e o inconsciente encontra forma. Quantas vezes, diante do choro de alguém, não precisamos dizer nada? O simples silêncio acolhedor já transmite cuidado.
Na teologia, o silêncio é igualmente sagrado. O salmista escreveu: “Aquietai-vos, e sabei que Eu sou Deus” (Salmos 46:10). É na pausa que ouvimos o divino, na ausência de ruído que reconhecemos a presença. Deus não se revela apenas nos trovões, mas também no sussurro suave.
O peso e o sentido do silêncio
O silêncio pode ser cura ou arma. Cura, quando nos permite escutar, refletir e respeitar o outro. Arma, quando usado como indiferença ou castigo. Assim, não basta silenciar: é preciso perguntar de onde vem esse silêncio e para onde ele aponta.
Em meio à correria, nossa alma implora por silêncios interiores. Não apenas desligar o som externo, mas também aquietar as vozes internas de culpa, cobrança e comparação. O silêncio interior é o que abre espaço para a oração verdadeira, aquela que não é apenas palavras, mas escuta atenta ao coração de Deus.
Natal e o silêncio
O Natal é marcado por essa mesma linguagem silenciosa: o Filho de Deus veio ao mundo sem discursos, sem discursos triunfais, mas no silêncio de uma noite simples. Enquanto os homens dormiam, o maior acontecimento da história se desenrolava em silêncio.
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✨ Ensinamento do Papai Noel: O silêncio pode ser vazio ou plenitude. Que o nosso seja sempre espaço para acolher, ouvir e deixar Deus falar.
---Por Abilio Machado Psicanalista - Psicoterapeuta - Neuropsicopedagogo ICH
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terça-feira, 23 de setembro de 2025
Não é Porque Cabe que Está no Lugar Certo.
Não é Porque Cabe que Está no Lugar Certo
Vivemos em um tempo em que a lógica da adaptação parece ser o lema de vida. Se algo cabe em nossa rotina, em nossa casa, em nossos relacionamentos, logo achamos que está tudo bem. Mas será mesmo? O simples fato de caber não significa que esteja no lugar certo.
Pense em uma gaveta abarrotada. Você força um objeto ali dentro, ele até entra, mas o excesso cria desordem, e aquilo que deveria estar acessível se torna perdido. Assim também acontece com a alma: enchemos nossa vida de coisas, pessoas e escolhas que “cabem” no espaço imediato, mas desalinhadas com o propósito maior que Deus nos confiou.
A psicologia nos ensina que o ser humano tem uma tendência natural de buscar preencher vazios — emocionais, espirituais ou existenciais — com aquilo que está mais próximo e fácil de encaixar. Mas a teologia nos lembra: nem tudo o que preenche edifica. Como disse o apóstolo Paulo: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém” (1 Coríntios 6:12).
O engano do “encaixe”
Quantas vezes aceitamos relacionamentos porque “naquele momento” cabiam em nossa carência, mas estavam longe de ser saudáveis? Quantas vezes dissemos sim a oportunidades que preenchiam um espaço financeiro, mas nos esvaziavam de sentido e de paz?
O problema não está em caber, mas em distorcer nossa vida para fazer caber. É quando nos ajustamos a algo que não deveria estar ali — como uma peça de quebra-cabeça empurrada no lugar errado: ocupa espaço, mas desfigura a imagem maior.
O lugar certo
O que é estar no lugar certo?
É alinhar o que temos e vivemos com o que fomos chamados a ser. É colocar prioridades, dons, afetos e limites dentro de uma ordem que respeite tanto nossa saúde psicológica quanto nossa caminhada espiritual.
No fundo, o convite é para uma vida menos cheia e mais coerente. Não é acúmulo, é direção. Não é quantidade de encaixes, mas a fidelidade ao propósito de cada peça.
No psicológico: pergunte a si mesmo — “Isso que estou colocando na minha vida me constrói ou apenas me ocupa?”
No espiritual: ore — “Senhor, mostra-me não apenas onde cabe, mas onde deve estar.”
O Natal, símbolo maior da simplicidade e do propósito divino, nos lembra: não havia espaço nas hospedarias, mas havia o lugar certo — uma manjedoura. Caberia em muitos outros lugares, mas Deus escolheu o que fazia sentido no Seu plano.
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✨ Ensinamento do Papai Noel: O verdadeiro presente da vida não é encher espaços, mas discernir o lugar certo para cada coisa, cada pessoa e cada decisão.
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domingo, 21 de setembro de 2025
Seu pescoço...e sua defesa!
Sua defesa silenciosa também vive no seu pescoço
O que aparece nesta imagem não são apenas “cabos” percorrendo o corpo, mas uma rede de vasos sanguíneos e linfáticos que trabalham juntos para manter você vivo e protegido.
* As veias (em azul) são responsáveis por devolver o sangue pobre em oxigênio e carregado de resíduos da cabeça de volta ao coração.
* Os vasos linfáticos (em amarelo) e seus gânglios funcionam como filtros biológicos: retêm vírus, bactérias e células alteradas antes que sigam circulando.
Sempre que suas defesas entram em ação, esses pequenos nódulos aumentam de tamanho, mostrando que o corpo está enfrentando uma batalha interna.
O pescoço é uma das regiões onde essa união vital fica mais evidente: aqui se encontram veias, artérias, nervos e cadeias de gânglios linfáticos, todos protegendo funções essenciais como respiração, digestão e a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo.
Um detalhe importante: quando o médico palpa seu pescoço, ele não está apenas verificando tensão muscular, mas também avaliando esses gânglios linfáticos, que podem indicar infecções, inflamações ou até doenças mais graves.
Nota: este conteúdo (texto e imagem) é educativo e informativo. Não substitui avaliação médica presencial nem deve ser usado para autodiagnóstico. Se houver sintomas ou dúvidas sobre sua saúde, procure sempre um profissional qualificado.
sexta-feira, 19 de setembro de 2025
A dor de ver demais
A dor de ver demais
Em troca de mensagem com meu primo sobre como a inteligência, desenvolvimento cognitivo, nos causa dor porque acabamos tendo mais percepção das coisas ao nosso redor e nos entristecemos por compreende-las.
Há uma estranha ironia no tempo: quando mais precisamos da leveza da ignorância, ele nos dá o peso da lucidez. Na juventude, caminhamos quase cegos, e ainda assim a vida parece menos árdua. O tempo é um rio largo, sem margens visíveis, e acreditamos que ele sempre estará ali, correndo a nosso favor.
Mas os anos passam, e a inteligência se aguça como uma lâmina que já não podemos devolver à bainha. E com ela, vêm percepções que antes nos escapavam: o limite do corpo, a fragilidade dos laços, a finitude dos dias. Descobrimos que cada manhã é também um adeus silencioso, e que a memória, essa companheira fiel, guarda não apenas a doçura do vivido, mas também as feridas que insistem em latejar.
Sofremos porque vemos. Vemos demais.
Vemos as injustiças que antes não nos importavam, os enganos que nos vestiam de esperança, os rostos que envelhecem ao nosso lado. Vemos as contradições humanas, as máscaras, o fingimento que a vida exige para se manter em movimento. E nessa clareza, já não há o consolo do véu da ignorância.
É curioso: a mesma inteligência que expande nosso olhar também amplia nossa dor. Porque enxergar não é apenas contemplar o que é — é também vislumbrar o que poderia ter sido. É perceber a beleza que se perdeu, o afeto que não floresceu, os caminhos que ficaram intransitáveis.
E ainda assim, há um paradoxo silencioso. Essa dor que nasce da lucidez é também a seiva de uma vida mais autêntica. Quando sofremos por compreender, também amamos com mais profundidade, perdoamos com mais generosidade, e nos tornamos capazes de enxergar a dignidade que existe mesmo naquilo que fere.
O tempo nos ensina a ver. A inteligência nos obriga a sentir. E entre a dor e a beleza, seguimos vivendo — carregando nos ombros não apenas os anos, mas a claridade de tudo o que eles revelam.
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