quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Me diga com quem andas e te direi quem tu és: um olhar psicoteológico e filosófico.

 


Me diga com quem andas e te direi quem tu és: um olhar psicoteológico e filosófico

Por Abilio Machado Psicanalista e Psicoterapeuta 


Vivemos em uma sociedade marcada por redes de relações, visíveis e invisíveis, que moldam não apenas nossos comportamentos, mas também nossa forma de pensar, sentir e crer. A antiga máxima popular — “Me diga com quem andas e te direi quem tu és” — carrega uma verdade profunda, sustentada tanto pela sabedoria ancestral quanto pela análise psicológica e pela reflexão teológica.


No contexto cultural, essa frase reflete a percepção coletiva de que nossa identidade não se constrói no isolamento. Somos seres sociais, simbólicos e espirituais. O outro nos influencia em níveis mais sutis do que imaginamos: absorvemos linguagens, hábitos, posturas, crenças e até as formas de interpretar a realidade. Assim, nossas companhias revelam não apenas afinidades, mas também nossas escolhas mais íntimas sobre quem queremos ser.


Dimensão psicológica: identidade em espelho


A psicologia contemporânea entende que a construção do “eu” se dá em diálogo com o outro. Erik Erikson já apontava que a identidade se consolida na tensão entre individualidade e pertencimento. Andar com alguém não é um ato neutro; implica estar exposto a valores, narrativas e formas de ser que podem se tornar reflexos ou moldes.


Por isso, a companhia de pessoas marcadas pela negatividade, pelo cinismo ou pelo vazio ético tende a contagiar silenciosamente nossa forma de olhar a vida. Da mesma forma, caminhar com pessoas que cultivam esperança, solidariedade e senso de justiça nos convida a crescer. A questão não é apenas “quem são os outros?”, mas “quem eu escolho me tornar a partir deles?”.


Dimensão filosófica: a ética da convivência


Na filosofia, especialmente em Aristóteles, encontramos a noção de que a amizade é essencial à vida virtuosa. Não há ética que se sustente fora da convivência. A frase popular pode, portanto, ser relida como uma advertência: nossas escolhas de convívio são escolhas éticas.


Nietzsche, por outro lado, alertava para o perigo de nos deixarmos arrastar por valores de rebanho — perder o pensamento próprio na tentativa de pertencer. Nesse sentido, “andar com alguém” também exige discernimento crítico: não se trata de isolamento, mas de saber se aproximar sem dissolver-se.


Dimensão teológica: luz e trevas nas companhias


Do ponto de vista teológico, a Escritura ecoa a sabedoria popular. O apóstolo Paulo escreve: “As más conversações corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15:33). Ao mesmo tempo, Jesus é visto caminhando entre pecadores e publicanos, não para ser moldado por eles, mas para transformar. Aqui está o ponto essencial: não se trata de evitar o outro como se fosse uma ameaça, mas de discernir a direção em que nossas caminhadas nos levam.


Na espiritualidade, a companhia não é apenas física, mas simbólica. Andar com Cristo, andar na luz, significa permitir que Ele seja o referencial que orienta todas as outras relações. A escolha de quem nos acompanha revela, em última instância, quem guia nossa jornada.


Contexto cultural e social: identidade em rede


No mundo digital, essa frase adquire novas camadas. “Com quem andamos” não se limita a laços presenciais: inclui páginas que seguimos, conteúdos que consumimos, comunidades virtuais que moldam opiniões e afetos. Quem nos lê e quem lemos formam hoje uma extensão da convivência. O “andar” tornou-se também “clicar”.


No Brasil contemporâneo, marcado por polarizações ideológicas, desigualdades sociais e a busca incessante por pertencimento, essa máxima popular nos desafia a avaliar: estamos andando em círculos que nos tornam mais humanos, mais solidários, mais éticos? Ou estamos apenas refletindo espelhos fragmentados de intolerância e consumismo?


Conclusão: escolhas de caminhada


Dizer “me diga com quem andas” é reconhecer que a vida é caminho. E cada companhia é como uma encruzilhada que redefine nossa trajetória. Psicologicamente, somos espelhos uns dos outros. Filosoficamente, nossas amizades carregam implicações éticas. Teologicamente, nossas companhias revelam se caminhamos na luz ou na sombra.


No fim, a frase não é apenas diagnóstico, mas também convite: se queremos ser melhores, precisamos escolher melhor nossas companhias — presenciais, digitais e espirituais. Pois quem anda conosco é, de certa forma, quem nos ajuda a escrever a história do que somos.






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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

 Ninguém vai fazer nada por você, a não ser você mesmo -


 Ninguém vai fazer nada por você, a não ser você mesmo


Essa frase ecoa como uma verdade dura, quase cruel, mas profundamente libertadora: ninguém vai fazer nada por você, a não ser você mesmo.


Do ponto de vista psicológico, ela remete à responsabilidade pessoal. Freud nos ensinou que grande parte de nossas escolhas é atravessada pelo inconsciente, mas também nos deixou a provocação de que só a consciência nos permite transformar destinos repetidos em possibilidades novas. A psicologia cognitiva vai mais além: ninguém pode pensar por você, ninguém pode alterar seus padrões internos de forma mágica; é preciso assumir o trabalho de reconstruir as narrativas internas, desmontar crenças limitantes, reconfigurar os diálogos interiores que nos aprisionam.


Por isso, esperar que outro nos salve é um engano recorrente. O desejo de ser resgatado é humano, mas também infantil. Ele nasce da memória da infância, quando a mãe, o pai ou outra figura protetora nos tirava da queda, da febre, do medo noturno. Porém, na vida adulta, essa expectativa de ser carregado permanece em nós como sombra, gerando frustrações. O amadurecimento psíquico exige a travessia do deserto da autonomia: levantar-se com as próprias pernas, ainda que tremam.


Do ponto de vista teológico, a frase adquire um contorno ainda mais desafiador. Jesus dizia: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24). Aqui está a tensão entre graça e responsabilidade. Deus nos oferece amor, perdão e promessa de redenção, mas a travessia não é feita por anjos em nosso lugar. A cruz é pessoal, intransferível. É sua e é minha.


Na espiritualidade madura, não existe fé terceirizada. Pastores podem aconselhar, amigos podem orar, comunidades podem acolher — mas a decisão de se levantar, de caminhar, de mudar de rota, é sempre sua. Mesmo o milagre, quando vem, exige o gesto humano. O paralítico de Cafarnaum teve sua maca carregada por amigos, mas precisou ouvir do próprio Cristo: “Levanta-te, toma o teu leito e anda.” Ninguém poderia andar por ele.


Assim, essa frase, tantas vezes repetida em tom de autoajuda, é, na verdade, um convite à maturidade integral — psicológica e espiritual. Ela desmascara ilusões: ninguém virá em sua vida para preencher vazios internos, ninguém pode viver sua fé por você, ninguém pode reconstruir seu coração no seu lugar. É tarefa sua, mesmo quando Deus age.


A grande lição é que a vida não nos deve resgates. Mas, paradoxalmente, quando aceitamos isso e damos o primeiro passo, descobrimos que não estamos sós. Porque no movimento da autonomia, a graça se manifesta. O que ninguém fará por você, você precisa começar. E aquilo que você não pode concluir sozinho, Deus completa.


Por Abilio Machado Psicanalista - Psicoterapeuta - Neuropsicopedagogo ICH 


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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Nada funciona se você só se dedica “às vezes” - Artigo


 Nada funciona se você só se dedica “às vezes”

Por Abilio Machado Psicoarteterapeuta 

Há uma frase recorrente que diz: “O sucesso é resultado da disciplina diária, e não de esforços ocasionais.” Essa ideia, aparentemente simples, carrega um peso transformador. Na vida, na psicoterapia, na espiritualidade, nos relacionamentos e até na saúde física, nada se sustenta se for nutrido apenas de vez em quando.


Muitas vezes escuto em atendimentos a frase: “Mas eu tentei, só não consegui continuar.” E aqui mora a questão: não basta tentar uma vez ou outra; a constância é o que molda resultados. Assim como ninguém fica fisicamente saudável indo à academia apenas uma vez por mês, não existe saúde emocional se cuidamos dela apenas em dias de crise.


O filósofo Aristóteles já dizia: “Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. A excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito.” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco). Esse princípio revela que qualquer transformação significativa se dá pela repetição e pela construção de novos padrões.


No campo da psicologia, o psicólogo William James, considerado o “pai da psicologia americana”, afirmou: “Todos os nossos hábitos são inicialmente frágeis fios, mas que com a repetição se transformam em cabos fortes que nos prendem ou nos sustentam.” (JAMES, The Principles of Psychology, 1890). Ou seja, aquilo que escolhemos repetir se torna parte do nosso modo de viver.


Quando alguém diz: “Eu oro quando dá.” ou “Eu escrevo quando sinto vontade.” ou ainda “Eu cuido da minha saúde quando estou mal”, o resultado é inevitavelmente raso. A vida exige de nós mais do que lampejos: pede compromisso.


Na espiritualidade, o apóstolo Paulo advertiu: “Não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos.” (Gálatas 6:9). O “não cansar” é uma chamada à perseverança, porque a colheita não vem de tentativas esporádicas, mas da persistência paciente.


É natural que a motivação oscile, que o ânimo falhe e que os resultados pareçam lentos. Mas é justamente nesses momentos que se revela o verdadeiro caráter do compromisso. Como escreveu James Clear, no livro Hábitos Atômicos (2018): “Você não se eleva ao nível dos seus objetivos, você cai ao nível dos seus sistemas.” — e sistemas só existem quando se cria regularidade.


Portanto, se o que você deseja é crescimento, cura, transformação ou até mesmo paz interior, é preciso entender: “às vezes” não muda ninguém. A constância não é uma prisão, mas uma ponte. É a estrada que conecta quem você é hoje àquilo que pode se tornar amanhã.


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✨ Reflexão final: Se hoje você se encontra no ciclo do “às vezes”, pergunte-se: o que posso escolher repetir diariamente, mesmo que em pequenas doses, que me conduza ao que desejo? Pequenos gestos, feitos com regularidade, constroem uma vida inteira.



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📚 Referências:


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001.

JAMES, William. The Principles of Psychology. New York: Henry Holt and Company, 1890.

BÍBLIA SAGRADA. Gálatas 6:9.

CLEAR, James. Hábitos Atômicos: Um método fácil e comprovado de criar bons hábitos e se livrar dos maus. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.


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sábado, 16 de agosto de 2025

Ensaio Psicanalítico-Teológico: Ansiedade e Depressão como Expressões da Falha e do Excesso Emocional

 



Ensaio Psicanalítico-Teológico: Ansiedade e Depressão como Expressões da Falha e do Excesso Emocional

Por Abilio Machado 


1. Introdução


Na linguagem cotidiana, ansiedade e depressão são muitas vezes tratadas como emoções específicas. Entretanto, tanto a psicanálise quanto a teologia apontam para a necessidade de compreender esses fenômenos de forma mais profunda. Em vez de emoções puras, podem ser vistos como resultados de desequilíbrios emocionais e espirituais, isto é, consequências de falhas ou excessos em outras emoções fundamentais, como medo, tristeza, raiva e amor.


2. A visão psicanalítica


Na psicanálise clássica, Sigmund Freud descreve a ansiedade não como uma emoção primária, mas como um sinal do ego diante de perigos internos ou externos (“Inibições, Sintomas e Ansiedade”, 1926). Para ele, a ansiedade é um estado sinalizador, um alarme de conflito psíquico entre id, ego e superego. Assim, não se trata de uma emoção independente, mas de um produto secundário do conflito entre pulsões e repressões.

Excesso do medo: gera ansiedade. O indivíduo não sente apenas medo pontual, mas uma antecipação exagerada de ameaças.

Falha no amor e no desejo de vida (Eros): resulta em depressão. A libido, incapaz de investir em novos objetos, recolhe-se ao ego, provocando autodepreciação e melancolia (Freud, “Luto e Melancolia”, 1917).

Na tradição psicanalítica pós-freudiana, Donald Winnicott amplia essa perspectiva ao mostrar que a depressão muitas vezes nasce da falha ambiental (quando o sujeito não encontra sustentação materna suficiente). Aqui também a depressão não é uma emoção isolada, mas a falência de outras emoções estruturantes.


3. A perspectiva das neurociências emocionais


Pesquisadores como Jaak Panksepp (1998), no estudo das emoções básicas, identificaram sete sistemas emocionais primários nos mamíferos: SEEKING, FEAR, RAGE, LUST, CARE, PANIC/GRIEF e PLAY. Nem ansiedade nem depressão aparecem nessa lista. Elas são estados compostos, oriundos de distorções nesses sistemas:

Ansiedade → hiperativação do FEAR (medo) e disfunção no SEEKING (motivação).

Depressão → falência prolongada do SEEKING (motivação e esperança) e hiperativação do PANIC/GRIEF (perda e tristeza).

Isso reforça que tais estados não são emoções básicas, mas configurações resultantes de excessos ou falhas emocionais.


4. A leitura teológica


Na tradição bíblica, não se encontra o termo “depressão” como emoção. O que aparece é a experiência da tristeza profunda, angústia ou desespero (ex.: Salmo 42:5 – “Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim?”).

A teologia cristã compreende que a ansiedade e a depressão são, antes de tudo, condições existenciais, reflexos da queda humana e do distanciamento de Deus. O apóstolo Paulo, em Filipenses 4:6, recomenda: “Não andeis ansiosos por coisa alguma”, não porque a ansiedade seja uma emoção natural, mas porque é um estado que nasce do excesso de preocupação e da falha na confiança em Deus.


Nesse sentido:

Ansiedade = falha de fé/confiança + excesso de medo.

Depressão = falha de esperança + excesso de tristeza ou culpa.


Teólogos como Paul Tillich (em “A Coragem de Ser”, 1952) explicam que a ansiedade é a experiência existencial do “não-ser”, uma sombra que se instala quando o homem se vê incapaz de confiar na transcendência. Já Santo Agostinho aponta que a alma, quando desordenada em seus amores (amor mal direcionado ou excessivo), adoece.


5. Integração psicanalítica e teológica


Tanto a psicanálise quanto a teologia convergem na visão de que ansiedade e depressão são expressões de desordens internas. Não são emoções puras, mas estados compostos:

Do lado psicanalítico: desequilíbrio pulsional, falhas no ambiente e conflitos inconscientes.

Do lado teológico: falha da fé, da esperança e do amor (1 Coríntios 13:13).

Portanto, podemos dizer que ansiedade e depressão não existem como emoções originárias, mas como estados complexos, frutos da ruptura da ordem emocional e espiritual.


6. Conclusão


Compreender ansiedade e depressão dessa maneira abre caminho para uma abordagem mais ampla:

O psicoterapeuta atua restabelecendo equilíbrio entre as emoções básicas.

O teólogo ou pastor acompanha o fiel no resgate da fé, da esperança e do amor.

Ambos reconhecem que o sofrimento humano não pode ser reduzido a uma simples emoção, mas é um estado de desequilíbrio profundo que clama por cuidado integral.



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Referências


Freud, S. (1917). Luto e Melancolia.

Freud, S. (1926). Inibições, Sintomas e Ansiedade.

Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment.

Panksepp, J. (1998). Affective Neuroscience: The Foundations of Human and Animal Emotions.

Tillich, P. (1952). The Courage to Be.

Santo Agostinho. Confissões.

Bíblia Sagrada (Salmos 42, Filipenses 4:6, 1 Coríntios 13:13).


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Fé e razão: As asas da alma humana

 


Fé e razão: As asas da alma humana

Por Abilio Machado


“Fé e razão são como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.” – João Paulo II


A frase de João Paulo II não é apenas um aforismo poético; ela traduz um princípio vital para o equilíbrio humano, tanto no campo espiritual quanto no psicológico. Fé e razão, longe de serem forças opostas, são dimensões complementares que, quando integradas, permitem ao ser humano transcender os limites da visão unilateral da realidade.


Quando uma asa falha


No consultório, é possível ver como a ruptura dessa harmonia afeta a vida das pessoas.


Caso 1 – Razão sem fé

Um homem de meia-idade, altamente intelectualizado, chega com queixas de ansiedade e vazio existencial. Ele possui respostas lógicas para tudo, desmonta qualquer discurso religioso e exige evidências para cada aspecto da vida. Porém, no silêncio da madrugada, sente-se perdido e desamparado. Sua razão funciona como uma única asa batendo com força, mas que não o ergue — apenas o exaure. Falta-lhe o eixo da fé: a capacidade de confiar no que ainda não é visível, de se abrir para um sentido que não cabe apenas na prova matemática.


Caso 2 – Fé sem razão

Uma jovem, profundamente devota, procura ajuda após cair em uma rede de manipulação espiritual. Ela acreditava que cada problema era obra de forças malignas e aceitava sem questionar práticas abusivas impostas por um líder religioso. Sua fé era intensa, mas a razão estava atrofiada. Quando a “asa racional” não participa do voo, a fé pode ser sequestrada por ilusões e distorções, levando a quedas dolorosas.


O voo equilibrado


Um paciente que integrava ambas as dimensões — fé e razão — mostrou como esse equilíbrio se traduz em vida prática. Após um diagnóstico grave de câncer, ele buscou tratamento médico de ponta (razão), mas também cultivou momentos diários de oração e leitura bíblica (fé). Reconhecia a limitação humana e, ao mesmo tempo, abraçava a possibilidade do milagre. Essa postura o sustentou não apenas fisicamente, mas emocionalmente, fortalecendo a esperança e reduzindo o sofrimento psicológico.


Analogia com a aviação


Podemos imaginar o ser humano como um piloto diante de um avião:


A razão é o painel de controle: mostra altitude, velocidade, combustível, riscos e rotas seguras.


A fé é o horizonte visível além da cabine: o céu aberto que orienta o destino e dá sentido ao voo.

Se o piloto confia apenas nos instrumentos, pode perder o sentido da viagem. Se ignora os instrumentos e olha apenas para o horizonte, corre o risco de não chegar ao destino. É no diálogo constante entre painel e horizonte que o voo se mantém estável.



A contemplação da verdade


Do ponto de vista psicoteológico, a contemplação da verdade não é um instante místico isolado, mas um estado de integração: a mente compreende, o coração confia e a alma se aquieta. É quando as perguntas lógicas encontram paz nas respostas que não precisam ser plenamente compreendidas para serem verdadeiras.


Assim como uma ave precisa das duas asas para cortar o ar e alcançar altura, o espírito humano precisa da força da razão e da leveza da fé para chegar a um ponto de visão onde a vida se revela em sentido e beleza.


E talvez, nesse ponto, percebamos que a verdade não é um objeto a ser possuído, mas um horizonte para onde continuamente voamos.



Baile de Máscaras

 



Baile de Máscaras

Nunca fui bom em dançar, mas sempre gostei de observar. Naquele salão imaginário em que todos pareciam saber o compasso, descobri — tarde demais — que o ritmo não era ditado pela música, mas pela máscara.

As pessoas giravam, riam, brindavam, se inclinavam umas para as outras com sorrisos tão perfeitamente esculpidos que chegavam a brilhar mais do que o lustre central. E eu, tolo, apareci de rosto nu.


No início, pensei que seria um gesto de coragem. Afinal, para que se esconder se não havia nada a temer? Mas a cada volta pelo salão, percebia olhares enviesados, como se eu tivesse cometido um pecado de etiqueta: mostrar a pele quando todos vestiam porcelana. Foi quando a vergonha chegou — não como um tropeço súbito, mas como um peso que escorre pelo corpo e prende os pés no chão.


Eu não sabia que naquele baile, a sinceridade era a roupa imprópria. Ali, a verdade não se vestia de pele; vestia-se de fantasia. E quem ousava entrar desarmado aprendia, cedo ou tarde, que a nudez da alma é indecente para olhos acostumados a adornos.


Hoje entendo que talvez não fosse o caso de vestir uma máscara qualquer, mas de aprender a dançar com a minha própria. Porque nesse baile, para sobreviver, não basta ter um rosto — é preciso ter um disfarce.

Quer nadar junto com tubarões? Não sangre.




 Quer nadar junto com tubarões? Não sangre.


É uma frase curta, mas carregada de intensidade. À primeira vista, parece apenas um alerta pragmático: cuidado com o ambiente, cuidado com os predadores. Mas, para quem observa com olhos psicanalíticos, ela é muito mais profunda.


Os tubarões, nesse cenário, não são apenas animais. Eles são metáforas poderosas — figuras do Outro, do inconsciente social, daqueles medos que nos perseguem e das pressões que nos desafiam. Eles podem representar chefes implacáveis, colegas competitivos, pessoas que nos testam, ou até fragmentos internos, partes de nós mesmos que duvidam e julgam.


“Não sangue.” Eis aí a chave. Sangrar significa expor a própria vulnerabilidade. Mostramos feridas, carências, inseguranças. E a psicanálise nos ensina que, muitas vezes, essas feridas despertam reações externas que podem ser agressivas — ou que simplesmente refletem nosso próprio medo de sermos feridos. Lacan diria que o desejo exposto, o que deixamos visível, nos coloca à mercê do olhar do Outro. Freud lembraria que o superego interno, severo e exigente, já nos puniria por qualquer sinal de fraqueza.


Evitar sangrar é um mecanismo de defesa. É reprimir, conter, mascarar emoções e desejos. Funciona, sim, como proteção — um escudo. Mas há um risco: a contenção prolongada pode gerar ansiedade, culpa ou frustração, porque não lidamos com a dor ou com o medo de frente, apenas tentamos escondê-los.


Nadar com tubarões também é um teste de poder e sobrevivência social. É aprender a administrar a exposição, a escolher cuidadosamente o que mostrar. Mas é igualmente um convite à consciência: conhecer seus limites, reconhecer suas feridas e não se perder no esforço de escondê-las.


A psicanálise essencial nos lembra que não precisamos sangrar para aprender, nem nos tornar invisíveis para sobreviver. É possível navegar com segurança, equilibrando assertividade, vulnerabilidade e cuidado consigo mesmo. É nessa tensão, entre força e fragilidade, que encontramos não apenas sobrevivência, mas crescimento.


E assim seguimos, nadando com os tubarões, conscientes de nossas feridas, atentos aos predadores externos, mas sobretudo respeitando o que carregamos dentro de nós. Sangrar não é proibido; é escolher o momento certo, a forma certa, e transformar a vulnerabilidade em consciência.


Psicoterapeuta Abilio Machado


Aos poucos tudo muda

 Há um dia em que a casa fica estranhamente silenciosa, e não é porque a criança foi embora. Ela ainda está ali, sentada no chão, no sofá, n...